27 de fev de 2010

Há cura para os viciados em sexo?

É possível. Sendo sexo, nesse caso, não aquele que traz prazer físico e satisfação emocional, mas o que foge ao controle e provoca atitudes autodestrutivas Um acidente, uma mulher enfurecida e mais de dez amantes reveladas, tudo em menos tempo do que um torneio de golfe leva para começar e acabar, e o prodigioso campeão Tiger Woods, reputação jogada na lama, tomou o caminho mais natural nesses casos, pelo menos nos Estados Unidos: internou-se numa clínica de reabilitação de viciados em sexo. Saiu, reencontrou a mulher, a sueca Elin Nordegren, e protagonizou um patético pedido de desculpas ao mundo inteirinho. "É difícil admitir, mas preciso de ajuda.
Durante 45 dias, do fim de dezembro ao começo de fevereiro, fiquei internado e recebi orientação sobre meus problemas. Ainda tenho um longo caminho a percorrer", declarou, antes de voltar para a clínica. É mais fácil saber como ele dava suas muitas escapadas do que ter detalhes do tratamento. Mas, à medida que essas clínicas vão ampliando sua clientela – existem hoje uns dez estabelecimentos que oferecem programas de rehab para sexo compulsivo nos Estados Unidos –, mais se conhece sobre os métodos de tratamento. Como saber se sexo faz mal é uma resposta que só pode ser dada por quem está prejudicando a própria vida a ponto de procurar ajuda terapêutica. Os métodos, em geral, consistem em meditação, terapia individual, de grupo e familiar (Elin tem participado de algumas sessões) e adesão a programas passo a passo. O mea-culpa de Woods foi justamente um desses passos. É tudo muito parecido com o sistema popularizado pelos Alcoólicos Anônimos. Especialistas calculam que de 2% a 3% da população mundial sofra de algum tipo de comportamento compulsivo em relação ao sexo, sendo 90% homens. No Brasil, onde não existem clínicas como as dos Estados Unidos, o Projeto Sexualidade (ProSex) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo é dos poucos a tratar de transtornos da sexualidade, entre eles a compulsão sexual – diagnóstico de pouco mais de 1% dos pacientes.
"O período crítico do tratamento dura em média um ano, com atendimento por psiquiatra, acompanhamento psicoterápico e reeducação sexual", explica a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do projeto. Outro serviço, gratuito e de frequência voluntária, é o Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (Dasa), que atua desde 1993 como a versão brasileira de uma adaptação dos Alcoólicos Anônimos criada há mais de trinta anos nos Estados Unidos. "Rico", pseudônimo usado pelo presidente da Dasa no Brasil, explica que as sessões são em grupo, para fortalecer o espírito de ajuda mútua, com programa de doze passos e discussão de experiências entre os participantes. No prospecto distribuído pela Pine Grove Behavioral Health & Addiction Services, a clínica no Mississippi onde Woods se internou (com cerca esticada por painéis de plástico preto para aumentar a privacidade), o programa Gentle Path, ou Caminho Suave, é específico para "ajudar homens e mulheres a se livrar de relações e comportamentos sexuais compulsivos". Quem se interna acorda às 6h30, vai para o quarto às 22h30 e tem um colega mais experiente em regime de acompanhamento permanente. Celular e laptop são proibidos, telefonemas e visitas controlados.
Namoros entre pacientes estão fora de cogitação e os quartos podem passar por revista a qualquer momento. Exigem-se sapato o tempo todo (chinelo, só dentro do quarto), camisa com manga e pijama para dormir. Televisão, só no centro comunitário e em horários e canais preestabelecidos. O programa completo custa quase 40 000 dólares. Durante o tratamento, o paciente tem de remexer em traumas passados, admitir que se permite pornografia, masturbação e outros atos sexuais, todos excessivamente ("Podemos não mudar o comportamento, mas estragamos o prazer", garante o especialista americano Rob Weiss), e descobrir estratégias para evitar recaídas – ou, como dizem, permanecer sóbrio. "A questão não é praticar a abstinência pelo resto da vida, mas aprender a reencontrar a felicidade no sexo", explica Benoit Denizet-Lewis, ex-compulsivo e autor de um livro sobre viciados em sexo. Antes de Woods, outros famosos internaram-se pelo mesmo motivo. O ator Michael Douglas passou temporada numa clínica no Arizona em 1990, quando ainda era casado com Diandra, e até hoje jura que foi por excesso de bebida. O casamento com a atriz Catherine Zeta-Jones parece ter resolvido o problema, não pelos motivos que todo mundo está pensando, mas pelo acordo pré-nupcial prevendo, em caso de divórcio, multa de 3 milhões de dólares para cada infidelidade dele que ela documentar.
Em 2008, depois de negar durante anos que tivesse problemas nesse departamento, o ator David Duchovny, da extinta série Arquivo X e da atual Californication, internou-se para tratar de sua compulsão e assim salvar o casamento com a atriz Téa Leoni. Já o abusadíssimo comediante inglês Russell Brand, hoje caidinho pela cantora Katy Perry, transformou os vícios em piada: publicou um livro contando suas passagens por rehabs tanto de drogas quanto de sexo. "Muita gente acha que é uma desculpa inventada para ajudar estrelas de Hollywood a não assumir a responsabilidade por seus excessos priápicos. Mas eu acredito nelas", disse sobre as clínicas para viciados em sexo. "Certo dia, tive de fazer uma lista das minhas vítimas, com os nomes de todas as mulheres que havia prejudicado com meu vício sexual. Eu me senti como Saddam Hussein tendo de escolher vítimas entre os curdos."
Revista Veja

Um comentário:

seu gordo disse...

Eu sei que o assunto e serio! Mais eu fico pensando como de ser o ambiente nessas clinicas de vê ser tenso saber que todos só pensam naquilo.

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