3 de mar de 2010

Estrela solitária


Chegue mais perto da chacrete Rita Cadillac, a madrinha das penitenciárias

Dançarina, atriz, cantora, chacrete, madrinha de penitenciárias, estrela de chanchadas e pornôs, Rita Cadillac, 55, dona da traseira mais famosa do país, é estrela do documentário A Lady do Povo: "Quero ser enterrada de bruços para que o povo me reconheça" 


 Rita Cadillac não sabe dirigir. Na única vez ao volante de um automóvel, capotou-o numa curva do Alto da Boa Vista, Rio de Janeiro, quebrou o braço e quatro costelas e perdeu a confiança para guiar. Rita não sabe nem dirigir a própria vida: “Tudo sempre aconteceu por acaso. Não acredito em sorte; em destino, sim”, afirmou à Tpm, dentro de um vestido azul mais apertado que a justiça divina, ao mesmo tempo em que na TV rolava um Vale a Pena Ver de Novo. 


A culpa toda é da Verinha. Vai vendo que novelão. 1970: com 16 anos, a carioca Rita de Cássia Coutinho tirava um sarrinho no quarto do namorado, o salva-vidas Mário. Ele não via o momento de mergulhar naquele corpaço que estacionava todos os olhares de Ipanema. Era a hora. Quando se iniciavam os finalmentes, a porta do quarto abriu... era Verinha, irmã de Mário. Aí Rita travou: Mário teve que tentar dar partida de novo. Muitos infrutíferos amassos depois, o garotão foi nadar noutras freguesias. Pra pirracear o ex, Rita, pedida em casamento por um tal César, topou. Porém, mesmo depois da lua de mel, nada de consumar o enlace. Uma semana depois, César, que nunca foi jeitoso como Mário, embebedou Rita e, no que acordou, a musa de Ipanema viu perdida sua virgindade. 


César foi certeiro: a moça engravidou. Vai ter que rebolar Aos três meses de gestação, Rita já se arrependia de ter se unido a sujeito tão violento; logo que nasceu Carlos, o único filho, flagrou o marido derrapando numa amiga. Pediu a separação. Na mesma época veio o acidente no Alto da Boa Vista. Mal saiu do hospital, sua avó, que a criava, faleceu. Nossa heroína estava perdida. O negócio era dançar pra não dançar. Rita tinha estudado balé no Municipal do Rio, era o instante de aplicar o talento. Passou alguns anos dançando em shows no exterior. Só que, para a TV, “Rita de Cássia” não pegava. Foi então que um amigo da noite emplacou o apelido: Cadillac. Depois de tantos azares e solavancos, Rita de Cássia morria – e assim era batizada a máquina que aceleraria as fantasias de milhões. 


 A acidentada trajetória é contada em Rita Cadillac – A Lady do Povo, documentário de Toni Venturi nos cinemas dia 9 de abril. Mesmo ultrapassados os 55 anos, ela tem consciência de que a plebe quer mais é vê-la pelas costas. “Sou uma bunda que pensa”, define-se Rita, que como raras pinups brasileiras soube manobrar as distâncias entre ingenuidade e safadeza, erotismo e vulgaridade, teatro de revista e revista de sacanagem. Foi cantora, breve garota de programa, musa dos presidiários do Carandiru, única mulher a rebolar para 60 mil garimpeiros em corajosos shows em Serra Pelada, namorada de Gonzaguinha, Edson Celulari e Pelé. 


Na TV, foi assistente de Chacrinha e Bolinha; no cinema, femme fatale em Asa Branca, de Djalma Limongi Batista; prostituta em chanchadas como Aluga-se Moças; e coroa voraz em Sedução – pornô que lhe rendeu um imóvel e uma ponta de angústia: “Foi duro fazer, mas ninguém paga minhas contas”, assume, sempre com sorriso e olhos tristes, apesar do constante bom humor. Hoje, recém-separada, morando na Praia Grande (litoral sul paulista) com as poodles pretas Angel e Naomi, apresentando em média cinco shows por mês – de festas de empresas a rodeios –, Rita Cadillac pretende estudar teatro e viver até os 100 anos. Chegue mais perto dessa lady do povo. Tpm. O destino bateu de frente com você por toda a vida. 


Hoje consegue ver algum sentido nela? Rita Cadillac. Consigo, porque acredito que temos um caminho e não adianta querer sair dele. Por isso nunca planejei nada. Toda vez que tentei planejar deu errado, então resolvi deixar as coisas acontecerem. Você pode até querer pegar uns atalhos, mas vai voltar para a mesma estrada. E a minha estrada é a dança. Uma das lembranças que tenho de criança é minha avó cantando para eu dançar. Essa é sua imagem mais antiga da infância? É a única imagem, não consigo me ver antes disso. Não me sai da cabeça eu pequenininha dançando e a minha avó cantando: “Hi, Lili, Hi, Lo”. 


Só me lembro desse trecho. Não tem outras lembranças? Nunca tive família. Fui criada pela minha avó paterna, mas morei em colégio interno. Meu pai morreu de leucemia 13 dias depois que nasci, minha mãe me abandonou, sumiu no mundo. Fui conhecê-la tem cinco anos. Como foi, aos 50 anos, encontrar sua mãe? Minha irmã mais nova ligou [Rita tem duas irmãs por parte de mãe] e fui para o Rio para ter certeza de que era ela mesmo. Quis saber por que ela te abandonou? Não fiz questão. Só disse que perdoaria ela como ser humano, mas, como filha, jamais. A vida inteira fui criada como se ela não existisse, como é que do nada aparece uma mulher dizendo que é minha mãe e vou perdoar? Ainda mais sabendo que ela viu meu casamento, quando tive filho, que estava no aeroporto quando fui para Porto Rico. 


Sabia disso tudo e nunca falou comigo? Ela está muito doente, tem problema de memória... E a minha irmã insinuou falar de grana, e eu: “Tchau e bênção”. Se era essa a intenção não iam ter nada. Até porque também não tenho. Se era só você e sua avó, por que foi para o colégio interno? Minha avó era militante de esquerda. Veio fugida de Alagoas numa companhia de teatro, trabalhou como modista, foi um pouco de tudo. Nessa época ela estava agindo, então me deixava lá por causa da repressão. Fiquei dos 4, 5 anos até uns 9. Eu não tinha noção do que rolava, só depois de adulta entendi que ela escondia pessoas em casa. E olha que morávamos em frente a um quartel, no Rio. Ela foi presa muitas vezes. Chegou a ser torturada? Não sei dizer, porque ela sumia. Me largava no colégio interno e pronto. 


Depois saí, ela foi presa de novo e fui morar em Miguel Pereira [Estado do Rio de Janeiro] na casa de uma amiga dela. Passei uns dois, três anos lá. Você tem um histórico de abandono e também precisou ficar longe do seu filho para trabalhar. Fui embora para os Estados Unidos fazer show, junto com a Rogéria. Estava separada, minha avó já tinha falecido, não tinha ninguém, precisava trabalhar. Não sabia fazer nada e me vi com uma criança de 1 ano. Ia acabar no meio da rua. Então, entreguei ele para o pai. Acabou que ele disse para o meu filho que eu tinha falecido. Quando voltei, ele me proibiu de ver o Carlos. Você foi “criada” por sua avó e pela Rogéria? A Rogéria foi quem me ensinou a maquiar, a pintar o cabelo, a fazer trejeitos. 


Ela me ajudou a botar a Rita Cadillac para fora. Então foi um homem que criou a sua sensualidade. É, ela via que eu era uma menina que só queria saber do filho e tratou de me ensinar a fazer o lado sexy. Que importância a Rogéria tem na sua vida? Ela foi uma grande mãe pra mim na época, me mostrou a vida e sempre fez questão de me defender. Quanto tempo ficou longe do seu filho? Seis anos. Eu já tinha voltado dos Estados Unidos, estava trabalhando com o Chacrinha. O pai não deixava. Quando o via era, no máximo, na porta da casa dele. Como foi ficar sem vê-lo? Muito doloroso. 


Fiquei uns quatro anos sem falar com ele. Minha vida inteira foi dedicada ao meu filho. Mesmo depois que ele foi morar comigo, antes de o pai falecer [aos 40 anos, de cirrose], tudo meu era dele. Não podia nem arrumar namorado porque ele tinha ciúme, tinha febre, sangrava o nariz, não aceitava. Foi feliz com seu primeiro marido? Não. Porque na real casei para pirraçar um namorado meu, o Mário [primeiro namorado de Rita]. 


 E aí casou e perdeu a virgindade aos 17 anos. Foi. Casei virgem, de véu, grinalda. Eu só dei pra ele quando voltamos, uma semana depois da lua de mel. Ele me deu um pileque muito grande de vinho e não vi nada. No dia seguinte, a minha avó disse que quase arrombou a porta de tanto que eu gritava... Você ficou grávida nessa vez? De primeira. "Nós éramos safadas, no bom sentido, a gente só fazia os homens imaginarem. O Chacrinha tomava conta da gente como se fôssemos freiras" É por isso que você não gosta de beber? Deve ser. A minha avó bebia muito também, bebia 1 litro de whisky brincando. 


 Que idade tinha quando ela morreu? O Carlos não tinha completado 1 ano... 17 anos. Estava casada ainda. Fiquei muito mal, meu marido me internou, porque tentei matar até meu filho. Fiz um tratamento de nervos, fiquei dois meses internada, voltei pra casa e tinha altas depressões, chorava muito. Para mim tinha acabado o mundo, não tinha em quem me segurar. Pensou em suicídio? Olha, nem meu filho me fazia querer viver. Me veio à cabeça, mas sou muito covarde. E aí vocês se separaram. Meu marido foi preso [ele fazia rolos com cartão de crédito], me separei, saí do apartamento e fui para a casa de uma amiga da minha avó. Aí encontrei uma amiga de infância que morava numa espécie de pensionato. Só que não aceitava crianças, então dei meu filho para uma moça cuidar. Tinha que pagar a moça e o pensionato, e aí? Foi quando tive que fazer programa. 


 Por quanto tempo fez programa? Não chegou a um ano. Quando consegui sair daquilo, fui embora do país e apaguei esse período da minha vida, fiz uma lavagem cerebral. É como se uma outra pessoa tivesse vivido aquilo, foram tempos muito ruins, os mais difíceis da minha vida. Foi aí que virou a Rita Cadillac. Nesse sentido virei a Rita Cadillac, peguei a personalidade de uma outra pessoa. Quando conseguiu ter uma “perda de virgindade romântica”? Com um amigo que era da turma do Mário, o Tolinha. Ele conseguiu tirar esse trauma de mim. Depois que me separei não consegui me relacionar por anos. Para mim sexo era agressão. Ele conseguiu me mostrar que sexo poderia ser uma coisa tranquila. Aí me libertei, falei: “Agora estou pronta”. Mas você tem uma coisa de afastar os homens, de eles ficarem com medo? Tenho uma couraça que não deixa as pessoas chegarem muito. É uma proteção por tantas mágoas que tive... Isso intimida os homens. 


 Qual foi a cantada mais inusitada que ouviu? Acho que foi a do Wagner Montes. Imagina, ele já sem perna [sofreu um acidente de motocicleta em 1981 e precisou amputar a perna direita] ajoelhou no palco dizendo que queria me namorar. A gente namorou e hoje somos amigos. Quantas vezes amou na vida? Amei o Mário, mas não sei se foi amor ou outra coisa. Amar mesmo acho que amei uma vez, o Vicente Burger, diretor da Globo, que na época era do programa do Chacrinha. Era escondido? O Chacrinha não permitia. E depois dele? Fiquei milhões e milhões de anos sozinha. É verdade que ficou seis anos sem sexo? Muito mais. Mais? Tomando banho mesmo, sabe? Dá tesão, aí você toma banho [risos]. Não queria ter relacionamento, você começa a se desencantar disso, daquilo, meu filho não queria... 


Então deu um esfriamento geral. Você não procurava? Nunca fui esse fogaréu todo. Estou separada há um ano e pouco e não tive outros namorados. Não tenho essa necessidade de sexo, sexo, sexo. Adoro ficar paquerando. Tô na rua, vejo: “Ai, que lindo, gostoso, tchau, bênção”. Quando começa a ter que dar satisfação, ah, não. Chega. Por isso que seu último casamento terminou? (Rita se casou em 2007, com Luiz, 17 anos mais novo, e se separou em 2008.) É aquele negócio: a vida inteira sozinha. Nunca acordei ele pra dizer: “Olha, vou viajar, vou fazer isso, aquilo”. 


Mas você acaba tendo que fazer. Não posso me sentir presa, vigiada. E a gente só se via de fim de semana, então degringolou. Você quer se apaixonar? Por que não? Acho que a gente tem que estar aberta para uma paixão. Mas, cada um na sua casa. Esse negócio de acordar e lavar a cueca não dá certo. Você consegue ficar sem sexo seis anos, mas ao mesmo tempo passa uma imagem de ser um vulcão. Não... até brinco dizendo que vou comer o Zé Mayer. Falo abertamente. [A empresária de Rita interrompe e conta: “Antigamente era o Luxemburgo”.] O Vanderlei Luxemburgo? Até eu saber daquela história da manicure. Aí, brochei. Você tinha tesão pelo Vanderlei? Tinha. Ah, não gosto de homem bonito. Mas o Zé Mayer é um cara bonito. Ele tem aquela cara de homem, mas não é bonito. Você namorou o Pelé, não? Foi em Porto Rico, ele estava jogando pelo Cosmos lá. Namoramos por uma semana. Ele é uma pessoa maravilhosa. Quem mais namorou? Sou mulher de poucos homens. Tive relacionamento com Wagner Montes, com Gonzaguinha, um affair com Edson Celulari... Quando se deu conta de que era um símbolo sexual? Acho que sempre soube que era gostosa. Foi lá pelos 14, 15 anos. 


 Por que o brasileiro gosta tanto de bunda? Também queria saber. E não é o brasileiro, é o latino. Aí inventaram que brasileiro gosta de seio. Ele pode até achar bonitinho um peitinho durinho, mas o negócio dele é virar e olhar para a bunda. Como você aprendeu a explorar esse lance de mostrar a bunda? Eu não me achava bonita, tinha meninas muito mais bonitas no programa. Mas, como todo mundo dizia que minha bunda era bonita, ia fazer o quê? Explorá-la. Você acha que ajudou as mulheres a se relacionarem melhor com suas bundas? Se ajudei sem saber, maravilha, podem dar que é bom [risos]. Que conselho daria para as mulheres que têm problemas com isso? É um preconceito idiota. Dá que é melhor, é gostoso! Só não me bata. Não gosto. Um tapinha dói sim. Falando em tapinha, os filmes pornôs não foram uma experiência boa para você? Não, não gostei do negócio. Sou muito romântica pra isso. Não senti nada. Eu bebo no máximo duas taças de vinho. Mas, cada vez que ia fazer um filme, tomava, sozinha, três, quatro garrafas de prosecco. 


Foi praticamente um coma alcoólico. Filme pornô não te dá tesão? Nenhum. Até fazer a cena pra mim era uma brincadeira. Mas, quando caiu a ficha do que estava fazendo, aí foi um estupro. Principalmente a primeira, que foi no Dia das Mães. Acabou comigo. Quase entrei numa depressão. Você viveu, na vida real, cenas semelhantes a estupros? Vivi. E essas vivências baixaram muito meu fogaréu. A primeira vez com meu marido e quando precisei fazer programa foram coisas que me machucaram muito. E se você for ver tem mais, né? Com o Mário, que ia acontecer e não aconteceu. Quando estou com a pessoa de que gosto, maravilha, tenho tesão. Se é uma coisa mais explícita, não. Fez por dinheiro? Fiz. Quem viu os filmes pode dizer que não sou um fogaréu. Eu não quis ver. Quanto dinheiro? Pude pagar a minha casa e a do meu filho. 


Está dando pra viver. "Nunca fui esse fogaréu todo. Estou separada há um ano e não tive outros namorados. Não tenho essa necessidade de sexo, sexo, sexo" Sempre viveu apertada de grana? Graças a Deus, nunca fui rica, sempre tive que batalhar e continuo batalhando. Mas já passei aperto, já comi muito ovo com picadinho, arroz com sardinha, pão com mortadela... Você nunca cobrou para se apresentar no Carandiru. O que sentia dançando para aquele bando de homens? Sentia um prazer de levar uma alegria, nunca levei para o lado sexual. Eles tinham uma ilusão, nos shows eles disputavam as calcinhas. Então fazia aquela coisa sensual para que a pessoa que pegasse tivesse um poder lá dentro, sabe? Mas era bom se sentir desejada? É claro! O dia em que eu passar por uma obra e o pedreiro não falar que sou gostosa não saio mais de casa. 


Qual mulher não quer se sentir desejada? Por mais que a gente fale: “Por que essa cantada tão escrachada?”, lá no ego: “Legal, ainda tô gostosa”. Frequentou o presídio por quantos anos? Entrei no Carandiru em 1985. Um diretor me chamou para participar de um show de fim de ano. Fui, os internos gostaram, mandaram me convidar de novo. Virei madrinha deles. Disseram: “É só você vir aqui, conversar, trazer um pouco de alegria”. E quando você foi ao garimpo, em Serra Pelada, no Pará, ali sim tinha risco, porque no presídio era tudo controlado. A primeira vez, em 1985, 86, teve um risco. Na época eram 60 mil homens. Eu era a única mulher dentro da selva. Tinha uns 50 policiais federais... e 60 mil garimpeiros. Se um fala assim: “Come!”, morriam uns 10 mil, mas iam sobrar 50. Ficou com medo? Não, a única coisa que aconteceu é que pensei que no primeiro show não estava agradando, levei tanta pedrada... mas era pepita. Guardou as pepitas? Não podia trazer. Você podia trazer como joia, lá mesmo teriam que transformar em joia. A última dei pra minha neta que nasceu, a Larissa. 


 Onde você dormia lá? Dormíamos em acampamentos improvisados, mas tinha até banheiro. Eu gosto de uma coisa mais rústica. Você parece não ser muito apegada... Às coisas materiais não, isso passa. Hoje você tem, amanhã não. Esse negócio de comprar grife, adoro ir no Brás, na 25 de Março. Não sou apegada a nada. Toda vez que me apego acabo perdendo aquela coisa. É um instinto de preservação? É. Minha vida tem cada história... o Chacrinha morreu em 30 de junho de 1988, o Bolinha, na madrugada do dia 30 de junho para o 1º de julho de 98, o meu pai também, em 30 de junho. Os três eram um porto seguro para mim. Quem foi seu pai? Ele é uma pessoa que idolatro. Foi advogado, militar, foi pra Segunda Guerra, foi ferido lá... e fez o garçom do filme O Ébrio [de Gilda de Abreu, 1946]. E o Bolinha, como era? Um paizão, muito gente fina. Eu que vesti ele para o enterro. 


Ele tinha síndrome de comprar, milhares de camisas, geladeiras, fazia sorteio nas festas, distribuía presentes. Nesse ponto Chacrinha era pão-duro, não dava nem um pirulito, nem feliz Natal se bobeasse. O Chacrinha era durão? Duro era pouco. Vendo as cenas dos programas, dá para perceber que as chacretes tinham sensualidade. Já hoje, as dançarinas do Faustão... Não tem a identidade. O Chacrinha fazia questão de marcar a identidade da pessoa. Por exemplo, a Fátima todo mundo sabia que era a sambista gostosa. A Sarita era bonequinha... Nós éramos safadas, no bom sentido, porque a gente só fazia os homens imaginarem aquilo. O Chacrinha tomava conta da gente como se fôssemos freiras. Ele não deixava os homens chegarem perto? Não, ele mandava tirar o telefone dos quartos de hotel, o primeiro quarto era sempre o dele e até o fim do corredor eram os nossos. Ele ficava de porta aberta. Fomos para Porto Alegre e meu filho na época morava lá com o pai. Falei: “Pedi para meu ex-marido trazer meu filho aqui”. E ele: “Tudo bem, mas você vai recebê-lo no saguão do hotel, ninguém vai subir no seu quarto porque amanhã ninguém vai dizer que é o pai do seu filho”. 


O Chacrinha nunca deu em cima de vocês? De mim, nunca. Ele era moralista? Nesse sentido, com a gente, era muito, muito chato. E todo mundo achando que as chacretes eram aquela coisa... Pois é, você até poderia fazer escondido, mas se ele soubesse era suspensa ou mandada embora. Era uma época de preconceito, mulher que trabalhava na TV era puta. Homem era veado ou cafetão. Hoje sua filha nasce e você fala: “Vai rebolar!”. E fora do personagem, era muito diferente? Muito, ele tinha problemas de depressão, teve câncer de pulmão, vivia com um balão de oxigênio. Rezava, carregava santinhos no bolso, tinha dor de cabeça, preocupações se o artista vinha, se não vinha, se a chacrete isso e aquilo. 


Ele sabia tudo. Pensando hoje nas popozudas do funk, você vê alguma relação entre elas e as chacretes? Ah, tem, né? Só que de uma outra forma, óbvio. O tempo passa, foi para o lado da boquinha da garrafa. Somos as vovós disso tudo. Depois veio melancia, abacaxi, mamão, só falta alface, repolho, sei lá o quê. Você é avó aos 55 anos. Já está louca pela neta? Tô... e tenho uma outra neta que não é neta, que é a história da Bianca. Que história? Meu filho um belo dia apareceu e disse: “Vou ser pai”. Achei que era brincadeira, mas faltavam 15 dias pra nascer. Quando a menina tinha 6 anos, ele e a mãe dela brigaram e fizeram exame de DNA. Comprovaram que não era filha dele. Mas pra mim ela é minha neta. O que o Carlos faz? Trabalha com autopeças. E é conhecido como Carlos Cadillac. 


 Seu filho achou que havia perdido a mãe. Como ele resolveu isso? Sinto que ele resolveu tudo sozinho, sempre falei das coisas abertamente com ele. Fui muito mais amiga do que mãe. Acho que errei, deveria ter sido mais mãe. Hoje vocês se dão bem, houve períodos de desentendimento? Nem diria desentendimento, mas na fase adolescente ele bebia muito, ia mal no colégio, a gente brigava, mas qual mãe e filho não brigam? Eu dizia: “Vou te mandar de volta para a casa do seu pai!”. Aí ele entrava na linha. Para um filho saber que sua mãe está nua em uma foto e ter que segurar a onda de o amigo dizer: “Olha sua mãe pelada”... Tive grandes problemas, ele foi expulso de vários colégios. Alguma vez ele foi contra um trabalho seu? Nunca. Ele nunca assistiu a um show meu, nem meus maridos. Nunca gostei de misturar pessoal com profissional. Já sofreu discriminação por ser independente? Sempre. Uma vez aluguei um apartamento e as mulheres não deixavam os maridos entrarem no elevador se eu estivesse lá. Não sou nada daquele símbolo que criei. Tanto que é raro você me ver numa festa. Eu gosto de sair com as cachorras, vou à praia, fico em casa vendo TV até dormir, não consigo dormir no escuro. Não dorme no escuro? Não. Tenho medo. Medo de... Ver alguma coisa sobrenatural. Já viu? Nunca. Se vir, eu caio. 


Tenho pavor do escuro. Deve ser algum trauma de infância. E olha que adoro a noite, não gosto do dia. Você já procurou análise? Eu não! Para deixar o analista louco? Sei que não vou aceitar o que ele vai falar. Quem você procura quando precisa de ajuda? Ninguém. Sou muito fechada. Gosto de resolver meus problemas sozinha. É claro que tenho traumas, que o sonho da minha vida era ter um pai, uma família, que o fato de eu só me relacionar com homens mais velhos vem para suprir a ausência da figura paterna... Já sei de todas essas coisas. Como está sendo envelhecer? Natural. Vou fazer 56 numa boa. Acho que a gente tem que saber criar as rugas. Mas, se eu acordar amanhã e quiser dar uma esticadinha, vou dar. A única coisa que fiz foi colocar silicone. Por quê? Acordei um dia e disse: “Mas que ovo estalado, hein, Rita?”. Quer botar um decote e não aparece nada. Mas você tem que saber quando passou a sua fase. Não dá para chegar num show e disputar com uma menina de 18 anos com tudo lá em cima. A idade de ficar velho mudou muito? Mudou, a velhice não é mais aos 60. Sei que não sou mais uma cocotinha, sou uma coroa. 


E quero chegar aos 100. O que vai fazer nos próximos 45 anos? Só Deus sabe. A única coisa que sei é que vou ter que botar bunda porque a lei da gravidade não sustenta. Como mantém o corpo? Lavo, passo, cozinho e arrumo casa... Não malha? Não tenho paciência. Sou muito inquieta. Às vezes caminho. Cuida da alimentação? Não. Se tiver que comer uma feijoada de madrugada, eu como. Não tenho cuidados com a saúde. Eu fumo, só não bebo nem uso droga. Quando você olha tudo o que viveu, o que sente? Orgulho. De uma menina que foi criada sem pai nem mãe, que superou tudo sozinha sem depender de nada e se tornou uma pessoa íntegra, batalhadora, de caráter. Pensa na morte? Não. Mas, se for morrer, deixa eu morrer dormindo, ou então caindo num palco, alegre. Não quero ficar doente, não quero depender de ninguém... 


Você poderia ter morrido no acidente que sofreu no Alto da Boa Vista. Como foi? Quebrei quatro costelas, as duas pernas, o braço direito, tive um corte na cabeça. Não tinha carta ainda. O carro capotou, foi parar na outra pista. Estávamos eu, o pai do meu filho e mais um casal. Os três não sofreram porra nenhuma. Nessa época você ainda não era a Rita Cadillac? Não, a Rita Cadillac não sabe dirigir. Mal e mal sabe dirigir a vida dela...
Revista TPM

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