1 de mai de 2010

Um filósofo para nossos dias

Após mais de um século e meio de certa incompreensão e desapreço, os textos do pensador dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard (5/5/1813-11/11/1855) parecem ganhar lugar de destaque não só nas bibliotecas e livrarias da Dinamarca, mas no mundo inteiro. O interesse pelas obras desse polêmico autor não se circunscreve apenas à área dos pesquisadores ou críticos escandinavos, embora o alcance e a diversidade de seu pensamento também não facilitem a tarefa de analisar os múltiplos aspectos de sua escrita filosófica e literária. Aliás, muito do que já se escreveu sobre Kierkegaard é considerado, quase sempre, estudo apenas introdutório, mas que se impõe a investigações amplas tanto para o pesquisador da filosofia, da literatura e das mais variadas áreas do conhecimento. Atualmente, no Brasil, não é mais possível afirmar que Kierkegaard é pouco estudado, pouco conhecido, e que muitas publicações feitas ao seu respeito se restringem a análises de cunho filosófico, centradas em suas oposições a Hegel. Ao contrário, é justo reconhecer que a situação está bastante mudada, pois as obras desse escritor dinamarquês têm sido objeto de análise não somente nas escolas superiores brasileiras como também nas argentinas, motivando diversas pesquisas nas mais diversas áreas do conhecimento: filosofia, teologia, psicologia e literatura. O professor Alvaro L. M. Valls, por exemplo, acentua que “é impossível ser kierkegaardiano. Não obstante, já há bastante gente convencida de que vale a pena ler a sua obra. Pode-se dizer, com uma tirada de Ernani Reichmann, que já ‘temos kierkegaardianos de escola’”. Prova disso é o recente livro Kierkegaard no nosso tempo, resultado da Jornada Internacional de Estudos, ocorrida em novembro de 2009 em Buenos Aires (Argentina) e na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Brasil). Nos 25 estudos dos diversos pesquisadores, representantes de quatro países, encontra-se, sem dúvida, não somente o valor documental inestimável sobre a riqueza do pensamento de Kierkegaard, fornecendo um excelente panorama de discussões e teorias até há bem pouco tempo desconhecidas do público leitor, mas também o diálogo com autores tão representativos para o nosso tempo, tais como Heidegger, Jaspers, Gadamer, Lukács, Kracauer, Lévinas, Derrida, Hannah Arendt, Habermas, Tillich, Lacan, Clarice Lispector, Wolfgang Iser, Michel Henry e outros. Variedade de estilos Pode-se dizer, em primeiro lugar, que Kierkegaard no nosso tempo enfatiza a riqueza temática dos pesquisadores mais recentes, cujos textos ali recolhidos testemunham a variedade enorme de estilos literários e modos de encontro/confronto com o pensamento do escritor dinamarquês. Em segundo lugar, que esses pesquisadores, por meio de interesses acadêmicos tão específicos e, por vezes, até mesmo antagônicos, apresentam um Kierkegaard sem amarras, que não se deixa prender em uma determinada linha interpretativa. Os textos, cada qual à sua maneira, jogam luz e tornam mais inteligível o jogo escritural kierkegaardiano, com seus pseudônimos, o seu estilo, a sua postura e as suas brincadeiras. Além disso, Kierkegaard no nosso tempo aponta as atuais perspectivas de pesquisa, principalmente no Brasil, derrotando e enterrando as interpretações caricaturadas tão difundidas antes. Agora, em vez de uma leitura genético-biográfica rígida da obra do dinamarquês ou apenas uma reflexão ingênua do sistema de Hegel, Kierkegaard pode ser lido, no nosso tempo, como pensador que, por intermédio de seu jogo autoral e discursivo, suscita o leitor, de imediato, a pensar grandes temas da filosofia e das áreas correlatas, possibilitando, até mesmo, um redimensionamento do que já foi até agora escrito. Jacqueline Oliveira Leão

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