29 de jul de 2010

Simpli-cidade

Ao terminar uma aula, fui pega pela pergunta de um aluno: por que você faz isso? E para quê? Essa dúvida me fez emudecer. Não gosto de respostas prontas ou apressadas, fiquei temerosa pela pequenez que eu poderia transmitir com palavras ansiosas. Aquelas questões incitaram em mim muito mais silêncio que resposta. Pedi licença para no silêncio buscar algo digno de ser dito. Drummond disse “Convive com teus poemas antes de escrevê-los”. Convivendo com a dúvida, notei que ela é terreno fértil de possibilidades e que, então, fui conduzida a uma esfera muito peculiar de memórias. Lembrei-me das tardes quentes de minha infância simples, em que eu e meus amigos nos divertíamos muito brincando com a “nossa piscina” de água da chuva recolhida num balde azul em que só cabia uma criança e esperávamos por nossa vez rindo e nos deliciando com o prazer do colega. Recordei minha mãe preparando um bolo de fubá, artigo de luxo, para receber sua amiga para um café. A conversa começava sempre à tarde e terminava quase na hora do jantar.Tinham tempo! Coisa rara e cara hoje em dia! E as idas ao banco? Antes, sem internet nem caixas eletrônicos, conhecíamos os funcionários e os tratávamos com a dignidade e o respeito que mereciam. A mesma coisa com o padeiro, com o motorista do ônibus e com o carteiro. As nossas relações e nossa vida eram mais artesanais e mais elaboradas, como a receita do bolo feita em casa tem sabor mais agradável. Relações que eram cultivadas, regadas e alimentadas com respeito. Hoje é difícil saber o que tem acontecido com a humanidade. A era industrial e tecnológica parece ter nos transformado em máquinas. Na fila as pessoas ficam impacientes, o clima se torna hostil e não há gentileza nem troca. Aquele bom-dia sem olho no olho que não é bom nem para quem dá nem para quem ouve. Não ouvimos o outro. Não olhamos o outro. Andamos solitários, massificados e reduzidos a quase nada. Os sorrisos tornaram-se obrigações de cordialidade. Sorrisos de quem não quer sorrir. A doença da modernidade e que atinge milhões é a “crise da impaciência adquirida”. Pés inquietos, unhas roídas e dedos nervosos nos joguinhos de celular. Doença triste, silenciosa, mata sem que se perceba. E mata não somente o doente, mas também o alvo no momento da sua crise. A crise ocorre no trânsito, na fila do cinema, no aeroporto e é altamente contagiosa nos grandes centros. A epidemia se alastra por São Paulo. O órgão de defesa civil deveria interditar a cidade. Buda já dizia que paciência é uma das mais altas virtudes, uma dica velha que se faz urgente para essa epidemia queacomete a população mundial. Esquecemos que a experiência sagrada da vida se faz a cada instante, como diz genialmente Leonardo Boff: “A experiência do mistério não se dá apenas no êxtase, mas também, cotidianamente, na experiência de respeito diante da realidade e da vida. A mística não é o privilégio de alguns bem-aventurados, mas de uma dimensão da vida humana à qual todos têm acesso”. Como perceber o sagrado se estamos tão envolvidos com pequenas coisas do cotidiano que nos aprisionam? É na simplicidade que nos encontramos e podemos partilhar a plenitude do Universo. Talvez pratiquemos unicamente para sermos humanos no significado mais profundo que esta palavra pode ter. Talvez, para curar a complexidade e ser simples. Talvez, para esculpirna argila da vida obras de amor, de paz, de generosidade e de tolerância. Talvez, para que possamos olhar nos olhos. Talvez, para que o sorriso seja de franqueza. Talvez, para nos libertar do vago sentido. Talvez, para dar sabor mais agradável à vida, como bolo feito em casa. Ou quem sabe, para comungarmos o ideal de um mundo mais justo. Talvez, para que nossos encontros engrandeçam a nossa jornada. Juliana Araújo

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