22 de nov de 2010

Nojenta?


Você acorda cedo em uma segunda-feira para ir trabalhar. Como sempre, coloca o despertador para tocar uma hora antes.

Assim, tem tempo de correr para o banheiro, escovar os dentes e bochechar com algum antisséptico bucal. Imagina se o seu namorado resolve te dar um beijo e você está com mau hálito! Também é bom fazer cocô antes que ele acorde.

E depois jogar um aromatizante no banheiro para que nada fique com cheiro – o seu cheiro. Tem coisa mais nojenta?

Na hora do banho, você aproveita para lavar a sua xoxota com um sabonete íntimo bem perfumado. Em seguida, desodorante corporal e um outro na axila que promete te “proteger” o dia inteiro. Antes de se vestir, você coloca um absorvente para uso diário na calcinha. A embalagem dizia que ele inibe os odores naturais. Melhor assim. Imagina se alguém do seu trabalho senta perto de você e percebe um cheiro estranho vindo “dali”.

Alguns dos seus rituais serão repetidos durante o dia. Na nécessaire, você carrega um pacote de lenços umedecidos para higiene íntima. E de noite, depois de trabalhar, você finalmente terá uma folga e poderá transar com o seu namorado. Mas só se a depilação estiver em dia. Assim que o sexo acaba, você corre para o banho. Abraçar o amor da sua vida cheia de suor? Nem pensar.

Odores naturais?
Talvez você tenha se identificado com pelo menos duas das atitudes da moça descrita acima. Se sim, saiba que foi pega por uma síndrome que atinge muitas garotas: o nojo de tudo que sai do próprio corpo. Uma espécie de “doença social” que faz com que passemos a achar que coisas naturais, como secreções, suor, menstruação e pelos são uns trecos nojentos. Mas como assim? Aquilo que sai do nosso corpo é mesmo tão desagradável?

Pelo jeito, muita gente acha que sim. Prova disso é que a indústria de cosméticos só cresce no Brasil. Ela é a terceira em tamanho no varejo mundial. Olhando nas prateleiras das farmácias dá para perceber. Só os sabonetes íntimos, aqueles fabricados especialmente para você lavar a sua xoxota, são encontrados em dez tipos. Dois anos atrás, eram três ou quatro. Hoje, tem com cheiro de morango, os indicados para o verão e por aí vai. Existe até, pasmem, sabonete íntimo “teen”. Há também uma grande variedade de protetores para a calcinha de uso diá­rio. Um segmento que cresce 15% por ano, de acordo com o Guia das Farmácias. Os da moda são os que prometem evitar “possíveis odores naturais”.

A publicitária Renata** aderiu à novidade. “Uso absorvente antiodor. Ainda mais no calor. Detesto quando vou à casa de alguém que tem cachorro e ele fica me seguindo por causa do ‘cheiro de cio’. Faço tudo para evitar ficar com cheiros, penso que alguém pode sentir.”

Este corpo não te pertence
Vale lembrar que quando éramos adolescentes tínhamos no máximo quatro tipos de absorventes para escolher. Hoje, nas drogarias, encontramos mais de 30. Os mais modernos avisam na capa que amenizam os possíveis odores da menstruação. E outros carregam no rótulo a promessa de manter o fluxo sem contato com o corpo. Ou seja, já que o sangue sai de você, que pelo menos fique bem longe. Assim como o suor, o hálito ou qualquer outro cheiro ou fluido que saia do seu corpo.

Estamos falando de um exagero que o filósofo Mario Sergio Cortella, da PUC-SP, considera uma doença social. “Cada dia percebemos um aumento do processo de desnaturalização do corpo. Achamos que podemos barrar a natureza. A mulher não pode ter pelos, cheiros, precisa tirar as marcas do tempo. Viramos pes­soas de plástico. Isso nada mais é que uma recusa à aceitação da vida”, explica Cortella. Se identificou?

O professor compara nosso corpo a um shopping center. Faz sentido. “Há 30 anos esse processo antinatureza começou nos shoppings, onde a luz é artifical, as plantas não crescem naturalmente. Nos shoppings não há relógios, para que o tempo não passe. A mesma coisa agora acontece com o corpo da mulher. Repare que os pelos precisam ser ‘podados’ constantemente”, lembra Cortella.

Sim, a depilação, principalmente a íntima, é vista como um sinal de “limpeza”. Em sites, livros e revistas que ensinam a “se preparar para uma noite de amor”, ela é vista como fator fundamental. No livro de autoajuda Por Que Ele não Ligou (ed. Sem Fronteiras), há uma lista de coisas que “excitam os homens dos pés à cabeça”. Entre elas “depilação já” e “bom hálito, balinha de hortelã!”. Já repararam o quão patéticos são os anúncios dos cremes depilatórios? Um deles diz: “Mostre que você cuida de si mesma se depilando”. Atenção: os publicitários vendem depilação como quem vende saúde. E a gente ainda compra a ideia...

“Os pelos têm uma função de proteção”, explica o ginecologista Adailton Salvatore Meira. Segundo ele, a natureza sabe o que faz. “Se você depilar toda a área genital algumas vezes, não vai ter problemas, mas se fizer isso sempre vai ficar sem defesa contra bactérias”, explica. O exagero no uso de sabonetes íntimos, segundo o médico, também pode ser um problema. “O ideal é que se use um sabonete de pH neutro. Quanto mais química tiver, pior, pois as substâncias podem ressecar a área e, a longo prazo, até fazer com que a região fique propícia a infecções.” O alerta é maior para os protetores de calcinha de uso diário. “A região vaginal precisa ‘respirar’, senão pode virar um celeiro para infecções.”

Zonas úmidas
A autoassepsia feminina começa a ser enxergada por pessoas mundo afora como um sinal de que os padrões de beleza estão deixando as mulheres cada vez mais distantes do que realmente são. Uma das moças a detectar tal fenômeno – e a causar burburinho em todo o mundo – é a escritora inglesa Charlotte Roche, autora de Zonas Úmidas (ed. Objetiva). Em seu romance de estreia, ela conta a história de uma menina de 18 anos que acaba em um hospital após tentar raspar seus pelos do ânus – “já que todas as áreas por onde ela faz sexo precisam estar sem pelos, e ela também usa o ânus para fazer sexo”. A personagem adora seus odores naturais. Usa, inclusive, suas secreções vaginais como perfume.


Um exagero, mas que transformou o livro em um best-seller mundial que já vendeu mais de 1 milhão de exemplares. E Charlotte foi considerada uma espécie de neofeminista por tratar o assunto com tamanha liberdade. Jornais como o New York Times, acabaram com sua obra. “Tudo isso é feito para supostamente parecer corajoso e perturbador, mas Zonas Úmidas é simples e deliberadamente agressivo”, estampou o diário americano. Charlotte dá de ombros e assume que quis mostrar que “as mulheres foram parar em uma zona exagerada de limpeza, onde tudo o que fazem parece pecaminoso”.

Mas por que temos tanta rejeição às nossas “zonas úmidas”? O psicanalista Christian Dunker, da USP, arrisca uns palpites. Para ele, o corpo se tornou tão importante por ser algo que imaginamos controlar, moldar e produzir como imagem de nós mesmos. “O cheiro, nesse sentido, é um traço essencial de que há algo que não controlamos em nosso próprio corpo. Podemos usar xampus, cremes e perfumes, mas essas táticas se degradam no tempo, são corrompidas por nosso suor, pelos odores do ambientes, pela presença do cheiro do outro.” Ou seja, por mais que você se entupa com todos os produtos existentes no mercado, não adianta, algo vai fugir do seu controle. Coisa que a publicitária Renata acabou descobrindo depois de anos de paranoia.

“Quando casei, acordava, bochechava com um antisséptico e voltava pra cama. Tinha medo que meu marido percebesse meu cheiro. Com o tempo relaxei, mas ainda dou só um beijo rápido de manhã”, diz. Vale lembrar que tanta “limpeza” e “proteção”, palavras agregadas aos produtos, nem sempre são amigas da saúde. Segundo o dentista Marcelo Cortella, os “líquidos para bochechar” devem ser usados com moderação. “Alguns branqueadores possuem produtos químicos que podem desgastar os dentes.” O mais importante: eles não substituem a escovação e o fio dental. Você pode bochechar o dia todo para se livrar de cheiros, mas os seus dentes, ou seja, a sua saúde, não vão ser beneficiados por isso.

A maioria dos produtos anticheiro é dirigida para mulheres. Vocês já viram sabonetes íntimos para homens? Ou já ouviu um homem dizer que não vai fazer sexo porque não está depilado? Provavelmente não. “Os pelos e as secreções masculinas funcionam como uma espécie de demarcação territorial”, lembra o psicanalista Christian Dunker. “O homem muito limpo, ou que não permite se sujar, nos sugere alguém que tem dificuldades em se misturar com os outros ou de suportar os diferentes estilos de prazer. Já uma mulher percebida como suja ou ‘insuficientemente limpa’ é associada a alguém que coloca seu desejo ativamente, que tem vontade de se misturar, de se sexualizar ou simplesmente que não se importa com a opinião – e logo com o desejo – dos outros.”

Sinal dos tempos
Essa mania de limpeza excessiva, vale lembrar, é recente. A historiadora Mary del Priori, autora de História das Mulheres no Brasil (ed. Contexto), conta que o termo “cc” surgiu na década de 40 e significa exatamente cheiro de corpo. “Havia um apreço ao cheiro natural da mulher. Napoleão Bonaparte, em suas cartas para a amante Maria Josefina, pedia que ela não se lavasse”, lembra. A assepsia, segundo ela, começou a virar mania a partir dos anos 70. “Foi nessa época que a Barbie se espalhou pelo mundo. E com ela a imagem de uma mulher sem pelos, sem manchas, literalmente de plástico.” De acordo com a estudiosa, a partir daí, a fêmea passou a ser desodorizada. “Isso faz com que algumas mulheres tenham nojo de fazer coisas tipicamente femininas, como cozinhar (e ficar com as mãos cheirando comida) ou amamentar (porque o leite tem cheiro).” Sim. Esse é o exagero máximo a que todo esse nojo de seu próprio corpo pode chegar.

Nem todas entram nessas, é claro. “Uma mulher obcecada por depilação e que não quer ter cheiro simplesmente deixa de ser mulher”, pensa a atriz carioca Maria Manoella. Aos 31 anos, bonita e saudável, ela passou a refletir sobre essas questões depois de ler Zonas Úmidas. Assim como outras garotas que a reportagem da Tpm ouviu para esta matéria, Manoella ficou intrigada com uma questão levantada por Mary del Priori: “Será que os homens não sentem falta de cheirar uma mulher assim como Napoleão?”. Bem, nós preferimos primeiro ficar em paz com nossos cheiros e afins para, depois, pensar nos Napoleões...
Bruna Bopp e Luíza Karam

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