19 de mar de 2011

Reconhecido pelo cão


Quando Ulisses chega enfim à sua casa, ele chega travestido, por Atenas, sob a forma de um velho mendigo. Na soleira da porta de casa estava seu cão, Argo.

No momento de sua partida, Argo era um filhote. Agora, velho e pulguento, ele não tem força sequer para ficar em pé. No entanto, quando Ulisses aparece, Argo não tem dúvida. Ele o reconhece e levanta, correndo trôpego em direção ao dono. Ulisses abraça seu cão cheio de pulgas e enfraquecido.

O cão morre em seus braços, como quem estivesse apenas à espera de um reencontro. O cão reconheceu Ulisses, mas sua mulher não. Mesmo tendo recoberto sua forma, isso depois da batalha com os pretendentes que haviam se apossado de sua casa, Penélope não está segura de ter a seu lado Ulisses, o marido pelo qual ela tanto esperou.

Na verdade, Penélope precisa de uma prova, ela precisa testar a memória daquele que diz ser seu marido. É por meio da memória que se dará o reconhecimento, a partilha entre o certo e o incerto. Ulisses terá de mostrar que sabe do que, afinal, sua cama é feita. Ele terá de recitar, mais uma vez, as promessas de enraizamento que haviam constituído o leito que ele partilhara com sua mulher. O reconhecimento é, assim, uma recognição que se apoia na capacidade de síntese da memória. Mas, para o cão, Ulisses não precisou mostrar nada. Para além das aparências, o cão aparece na Odisseia como o único capaz de reconhecer algo como o “ser bruto” de Ulisses.

Eis um detalhe que não deveria nos deixar indiferentes. Pois ele nos coloca uma questão: haveria algo em nós que só é reconhecido através dos olhos de um animal? Se nem o amor da mulher que sempre esperou tinha certeza, se apenas o cão tinha certeza, então poderíamos nos perguntar de onde vem a certeza do cão. Pois talvez ele encontrasse sua certeza no resto de animalidade que existe em nós, ou seja, naquilo que para um grego é inumano, naquilo que não porta a imagem do homem. Um “aquém” da individualidade Não deixa de ser irônico pensar que, ao voltar para casa depois de um tempo incontável de exílio, é essa qualidade inumana que primeiro indica o retorno ao “meu lugar”. É isso que só é reconhecido entre os animais, ou seja, entre os que estão, de certa forma, aquém do homem, que funda um pertencimento singular.

Aqui a singularidade está vinculada à capacidade que tenho de saber deixar visível o que não é exatamente humano, o que não é atributo da humanitas. É interessante lembrar tal ponto porque estamos tão presos à procura de reconhecimento por outros sujeitos, precisamos tanto do assentimento fornecido por outros sujeitos que esquecemos como, muitas vezes, o que nos reconforta, o que nos diz realmente que estamos em casa é ser reconhecido por um animal, ser reconhecido por algo que, afinal, não é uma consciência de si. Os animais percebem os animais que ainda somos, eles nos lembram de um “aquém” da individualidade a respeito da qual nunca conseguimos nos afastar totalmente. Talvez seja por isso que os seres humanos nunca conseguiram ficar totalmente longe dos outros animais.

Mesmo no zoológico, mesmo domesticados, os outros animais lembram-lhe algo que ficou para trás, mas cuja importância é aterradora. Pois Ulisses certamente se sentiria o pior dos homens se nem sequer o cão soubesse quem ele era. Seria uma desterritorialização insuportável não ser reconhecido sequer pelo cão. Talvez não seja por outra razão que Freud, doente e aquebrantado ao final de sua vida, compreendeu que seu tempo acabara quando até seu cão dele se afastou, graças ao cheiro repulsivo que vinha de seu maxilar. Foi quando o cão lhe virou as costas que a última coisa que ainda lhe fazia suportar a vida desabou. Depois dessa recusa, ele não era mais ninguém. Ele sabia que não tinha mais lugar algum. Foi a partir desse momento que Freud morreu.
Vladimir Safatle

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