29 de fev de 2012

Persona e Sombra, na Psicologia Junguiana

"No processo terapêutico, temos que conhecer a persona para ajudar a pessoa a encontrar seu eu verdadeiro"

Persona é uma de origem palavra latina, nome de uma máscara usada pelos atores na antiguidade.

Jung usou este termo para mostrar a maneira como uma pessoa adapta-se ao mundo; é sua máscara, sua maneira de ser socialmente. Essa máscara é necessária para nos adaptarmos à vida e sobrevivermos em sociedade.

A criança já na infância, tenta se comportar para receber aprovação de suas atitudes. Enquanto cresce, pais e professores na escola vão transmitindo seus valores. Assim aos poucos se desenvolve essa “persona”, que estará presente na profissão e nos papéis da vida. Mas com isso podemos nos esquecer de nosso “ego”, nosso verdadeiro eu. Quando alguém se identifica somente com a persona e esquece-se do ego, tende a ficar frio e vazio.

O espelho

No conto “O espelho”, Machado de Assis, descreve um personagem identificado com a 'persona’. Trata-se de um alferes (antigo posto militar) que orgulhava-se de sua farda. Quando saia de férias, ia para a fazenda e trocava a farda por um pijama. Aos poucos notava que sua imagem no espelho estava desaparecendo, e acabava sumindo. Ele ficou desesperado e vestiu a farda novamente, e ao se olhar no espelho, lá estava sua imagem novamente.

"- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e...não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior."

"Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo, olhando, meditando..."

Isso acontece quando se confunde a individualidade com um papel social. A pessoa se identifica somente com a persona e esquece-se de seu verdadeiro eu. Ao incorporar essa máscara a pessoa se sente forte e poderosa, mas não se humaniza, é rígida.

Enfim, essa máscara é apenas um papel que pode ser o de professor, médico, filho, artista... Por isso Machado de Assis - nosso escritor maior - era psicólogo sem saber.

No processo terapêutico, temos que conhecer a persona para ajudar a pessoa a encontrar seu eu verdadeiro.

Mas não ter “persona” é tão negativo quanto tê-la em excesso. Ela é necessária para nos relacionarmos com uma certa civilidade. Ninguém fala tudo o que sente, há um limite, um respeito com o próximo, mas que não nos faça esquecer quem somos verdadeiramente.

O Espelho - Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II



"Buscamos e projetamos no outro aquilo que é oculto em nós no nível inconsciente. Ou seja, a nossa sombra"

No texto acima, citei o conto de Machado de Assis O Espelho para explicar o conceito de persona (máscara) utilizado por Jung.

Outra figura que Jung utilizou para descrever a personalidade é a sombra.

A sombra é o que foi reprimido para formarmos um ego ideal. Ela é inconsciente, e como tudo que é inconsciente, é projetado no outro.

Ela representa nosso inconsciente pessoal. Aparece em sonhos e fantasias. Por exemplo, uma mulher muito passiva e dependente sempre se relaciona com homens violentos. Sua “sombra” deve ser violenta, deve esconder ou ocultar essa característica que ela projeta nos parceiros. Para ela, é ele quem é violento e não ela. Quem sempre culpa “o outro” por seus problemas não conhece a própria sombra.

Uma das funções da terapia é ajudar o paciente a ter contato com sua sombra, seu lado reprimido inconsciente, que não é só negativo. Pode também ser muito positivo e estar reprimido, desconhecido. Por exemplo, uma pessoa apagada pode conter um grande artista em sua sombra.

Em alguns casos é fácil perceber, a pessoa muito generosa, pode esconder um terrível egoísta, a mãe amorosa pode esconder uma bruxa cruel...

Durante a terapia, através dos sonhos, das fantasias podemos identificar aspectos da “sombra e da “persona”, e ajudar a trazê-los para o nível consciente
Leniza Castello Branco

2 comentários:

nathália j Santana disse...

Adorei o texto.

Marcela Ferreira disse...

Obrigada, amei a explicação, ajudou muito! Parabéns pelo blog !

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