6 de mai de 2012

Cézanne


Ramuz empreendeu uma breve e inhabitual viagem, ou peregrinação, para conhecer a cidade do pintor Cézanne, com quem tanto se identificava, e aprender algo do ambiente no qual o artista viveu. 

Entretanto, rapidamente se deu conta que não encontraria o que estava procurando, o próprio Cézanne. Com efeito:

Por que vir procurá-lo aqui, quando ele não estava mais, quando ele nem podia mais estar aqui? Era a pergunta que eu ficava repetindo. Precisava dele ainda vivo.

Só tive de sair da cidade; ela não é grande. [...]

Ainda não se conseguia enxergar nada, por causa dos muros, dominados apenas, a uma distância regular, pelo cume de um cipreste ou por copas de folhagens redondas; mas quando aquele que eu procurava se ergueu enfim diante de mim, ele se ergueu de todos os lugares ao redor, saltando contra minha face.

Esta ruína marcada obliquamente por uma fenda larga, coberta de um telhado de uma só aba; estas superposições de rochedos cinzentos em camadas e bancadas horizontais, entre as quais há como que andares gramados; as altas toras retorcidas e ruivas dos pinheiros que parecem se entrecruzar ao acaso com uma encosta ao fundo, e no entanto é uma lei rígida que decide sua orientação; a maneira pela qual este galho, de um verde surdo, parece ter sido esfregado de cima para baixo na própria tela do céu; estes agrupamentos, estas aproximações, o encaixe, o maciço, o essencial do conjunto, e acima disto tudo, o céu que é o valor mais escuro, mais até do que os verdes da sombra, quando a hora assustadora do meio-dia destaca, um após o outro, os volumes: para onde quer que eu me virasse, ali estava ele, não havia mais nada além dele...

O lugar onde ele se encontra é aqui, pensava eu (e em outros lugares, sem dúvida, já que ele está em todas as mentes), porém eu procurava situá-lo, exteriormente, se é que se pode dizer, procurando pelo alicerce: eis o alicerce, de bela rocha, assim como convinha. Era mesmo, lá longe, esta pirâmide de telhados com uma torre que a corava, parecida com um cajado fincado num monte de pedras; eram mesmo estas linhas inclinadas, estas linhas tortas, tão belas na sua inclinação, tão belas por serem tortas; era mesmo também esta solidão. Ali, a pedra e a arquitetura reinam sós: a presença humana não intervém. Eu me lembrava das suas paisagens pintadas: o homem não aparece nunca nelas, quero dizer, o homem tal como ali o encontramos, mesmo que raramente, por causa da aridez do solo, e não há nem lavoura, nem pasto. Em que me importa nele a hora, e a vida, digamos, social? O que impele tantos outros a "animar" a natureza é precisamente que neles ela não tem alma. 

De modo que eles reúnem mulheres em torno do chafariz, eles se agarram ao "tema"; a anedota sobrevém naturalmente por eles se situarem no acidental. Aqui, uma nudez quase geológica. Tem a árvore, tem a rocha, e só. E tem o muro também, mas muro ainda é solo, já que é inteiramente feito de rocha, o próprio solo, que de uma marretada posso desagregar, para erguer uma nova construção. Ali também, totalidade. E quando, enfim, o homem está à vista, qualquer transeunte que ele pare na estrada pedindo para que sirva de modelo, ele o considera assim como a paisagem, isoladamente, por ele mesmo. Retratos, figuras de bebedores, jogadores de baralho, mulheres de roupão em velhas poltronas, a paisagem está ali ausente; nenhum outro pano de fundo a não ser a cor cinza de uma parede ou os desenhos fora de moda de um papel de parede. A roupa, o jeito, o gesto, talvez sejam "exatos" e perfeitamente caracterizados, mas tanto faz para nós! Novamente, aqui, o volume, apenas o volume – e o sentimento, de tanta grandeza, tão atuante, tão nobre às vezes por ser contido, enquanto outros o vilipendiam e, por o conhecerem apenas superficialmente, o espalham superficialmente no arranjo e no "tema"; mas aqui ele é profundo e intimamente mesclado com a carne, com os nervos, com o sangue, ele próprio sendo substância, e é apenas pela forma que Cézanne pretende expressá-lo. [...]

Foram muitos os pintores que, com efeito, instalaram a sua tela aqui, neste pobre país de aquarelistas! Provença fácil, exterior, Provença de efeitos, Provença de manchas, com este "belo" sol cantado nas óperas: ah! a Provença dele, por contraste, esta Provença grave, austera, sombria com intensidade, surda, ficando por baixo, toda de harmonias foscas, estas vizinhanças das cores azuis e verdes que estão na base de tudo, e este cinza derramado por toda parte, que expressa a profundeza, e que expressa a poeira, porque a luz, afinal, é poeira, para quem enxerga além da superfície e do acidente. Uma natureza quase espanhola, com esta espécie de paixão contida, que murmura sem gesticular; uma terrível unidade católica da mente e do sentimento, uma terrível obrigação de conter tudo nessa unidade.

Como ele está presente, como ele está só, como todo o resto desmorona! Como tudo é ensaio, esboço, pequena mentira, como tudo é momentâneo perto dele!
Charles-Ferdinand Ramuz

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