30 de mai de 2012

Nestor Vera


Trinta e sete anos depois, está prestes a ser elucidado um dos misteriosos casos de desaparecimento de militantes de esquerda durante a ditadura militar, o único, entre os 163 anotados pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos, ocorrido em Minas Gerais. 

Trata-se de Nestor Vera, dirigente do PCB clandestino, que em 1º de abril de 1975, aos 60 anos, foi sequestrado em frente a uma drogaria na Avenida Olegário Maciel, em Belo Horizonte, quando dava “assistência”, depois de se encontrar com dois militantes do Partidão – Paulo Elisiário e Sebastião Neris. 

O episódio foi presenciado pelo dono de uma banca de revistas, também integrante do PCB, e denunciado por Luís Carlos Prestes.

Nunca mais se teve notícia de Vera até a publicação do livro Memórias de uma Guerra Suja, relatos do recém convertido ao evangelho Cláudio Guerra, ex-delegado do Dops. 

Guerra confessou como deu o tiro de misericórdia num agonizante Vera e, na sequência, descreveu onde ele foi enterrado a 50 quilômetros da capital, num cemitério clandestino, até então desconhecido. A Polícia Federal já esteve no local com Guerra, que há duas semanas, sofreu um atentado.

A gravidade das revelações despertou entidades de direitos humanos e pesquisadores do tema, como o jornalista e presidente da Fundação Perseu Abramo, Nilmário Miranda. Hoje eles reivindicarão do Ministério da Justiça e da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, além da proteção a Cláudio Guerra – que corre o risco de ser eliminado numa espécie de queima de arquivo –, vários pedidos de providência, entre eles, a busca dos restos mortais de Nestor Vera, com a identificação do cemitério clandestino em Belo Horizonte, citado no livro.

Parentes de Vera, residentes no Mato Grosso do Sul, desejam que os fragmentos dos corpos, quando encontrados, sejam trasladados para Presidente Epitácio, em São Paulo, onde estão enterrados os pais do militante. Até o relato de Cláudio Guerra, eles acreditavam que Nestor Vera pudesse ter sido enterrado no cemitério de Perus, em São Paulo, muito utilizado pela ditadura.

Tiro de misericórdia 

Na cova rasa onde, segundo Guerra, Nestor Vera foi enterrado há, outros dois corpos– provavelmente de presos comuns. A suspeita é de que tenha sido um ponto de desova usado pelos esquadrões que atuavam na clandestinidade do aparelho repressivo do estado. No livro, o ex-delegado dá detalhes da eliminação dos corpos. “Matei um, mas ajudei a enterrar outros dois. Estamos falando de Nestor Vera, em abril de 1975. Ele é um dos três que eliminamos numa mata, próximo a BH, na estrada para Itabira. Os três foram enterrados no mesmo lugar, em covas diferentes, uma ao lado da outra, um num dia e dois em outro. Além de Veras, desconheço os nomes dos demais. Lembro-me deste porque dei o tiro de misericórdia, afinal, ele havia sido torturado e estava moribundo, relata”. 

Guerra também indica os nomes dos que o teriam ajudado naquela operação. “Quem participou realmente da execução, quem estava comigo, foram Joãozinho Metropol e Saraiva, detetives investigadores”, contou, em referência, respectivamente, a um policial mineiro membro da Scuderie Le Coq, responsável pelo desaparecimento de presos políticos e atentados à bomba e ao policial Saraiva, cujo nome completo era Haydn Prates Saraiva. 

Muitos são os horrores relatados pelo ex-delegado do Dops que participou de execuções em vários lugares no Brasil durante a ditadura, convocado pelo ex-coronel do Exército Freddie Perdigão. Em seu currículo, estão a Chacina da Lapa e outras reveladas em depoimento dado aos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros, autores do livro. Igualmente chocante é a história da incineração de 11 desaparecidos no forno da Usina Cambahyba, em Campos (RJ), cujo proprietário era um anti-comunista radical, Heli Ribeiro, amigo pessoal de Guerra. 

O caso específico do sequestro, tortura e execução de Nestor Vera, se dá dentro do contexto da transição dos governos Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, em que, nas hostes militares havia embates entre grupos quanto a condução do golpe e a possibilidade de uma reabertura política gradual. Na clandestinidade, esquadrões do aparelho repressor atuaram eliminando “os comunistas” naqueles anos de 74 e 75. “Eles se infiltravam no Partidão, identificavam os dirigentes e partiam para o extermínio”, conta Nilmário Miranda. 

No balanço mórbido da repressão que se seguiu ao golpe de 1964, foram registrados em 2007, pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos, instalada no âmbito da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência, 475 pessoas, entre os quais 163 desaparecidos. Entre 1961 e 1988 houve, em Minas, 15 mortos pela repressão em Minas, entre as quais, oito mortos políticos. Veras foi o único dado como desaparecido. Grande parte dos jovens mineiros que se envolveram na resistência ao regime militar foram presos e mortos em outros estados.
Bertha Maakaroun

Um comentário:

Mauro Vera disse...

E até hoje estamos em busca de uma resposta definitiva.

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