20 de jan de 2013

Jovens no furdúncio litorâneo brasileiro


Acabo de voltar de uma curta temporada em praia do litoral brasileiro. Tido como tranquilo e bem frequentado, o lugar é um "furdúncio", como dizia uma amiga carioca. Jovens de todas as classes sociais, é bom frisar, se incumbem de promover ali a maior poluição sonora do planeta.


Em flagrante desrespeito às leis e aos avisos de proibição, os moleques inundam ruas e areias de "funks" que se misturam num ruído ensurdecedor. É dessa forma que o brasileiro aprende, desde cedo, a não distinguir o público do privado, a invadir espaços e a atormentar o próximo.

Nada a ver com as bandas de Carnaval cariocas, embaladas à percussão, instrumentos de sopro, cantoria e deboche, em datas pré-estabelecidas. Algo a ver com os refrões infantis do axé cotidiano e com a monótona e zangada verborragia do "rap" norte-americano. Com a diferença de que as letras são impublicáveis. Nada de duplo sentido: a grosseria é de fazer corar frequentador do mais sórdido dos puteiros. 

Não me parece tratar-se de alegria, mas de afirmação de uma identidade inexistente, de um ritmo "jovem" que, deliberadamente, amplia o fosso entre as gerações.

Na praia, a diversidade social brasileira reduz-se a uma maioria de marombeiros mais, ou menos, tatuados, obesos mais, ou menos, mórbidos com a bunda de fora, ambulantes e meia dúzia de vovós e vovôs atordoados. Apenas um traço comum: ninguém que folheie um livro, que fique calado ou fale baixo. E dá-lhe "funk".

Muitos são jovens universitários que confessam jamais ter lido um livro. Não precisam. Acreditam-se sábios via internet, Twiter, Facebook ou um mero celular. 

Ouvi de pirralhos que sua impaciência em ajudar um adulto ao computador ou a usar os controles remotos de TV deve-se ao fato de que os adultos nunca aprendem, e eles se cansam de repetir instruções. E acrescentam: não há regras, tudo muda. Se o provedor do serviço decide mudar, à distância, algumas configurações, você que se vire para descobrir uma nova forma de utilizar os controles.

Acreditam-se autores do mundo novo, jamais usuários dos benefícios urdidos por gerações passadas. Acreditam-se o marco zero da civilização. Nada contra os jovens, mas tinha razão Bibi Ferreira quando disse a uma plateia predominantemente jovem: sei que minha velhice é definitiva, mas saibam que sua juventude é passageira. 

Dizem que a população brasileira está envelhecendo. Como assim? Apesar da alta mortalidade juvenil e das cadeias repletas, só vejo gente jovem nas ruas. 

Onde se esconderam esses velhos? Já sei. Estão vendo novelas, jogando paciência, fazendo palavras cruzadas receosos de sair às ruas e serem atropelados ou assaltados numa saidinha de banco. 

Estamos todos n’água. Ou bem somos jovens, prontos para morrer de balas perdidas ou achadas, ou bem somos velhos curtindo o Alzheimer na fila do pronto-atendimento.
Flávio Saliba Cunha 

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