13 de mai de 2014

Nando Reis: Fama, dinheiro, álcool, cocaína, sexo, mortes: dos venenos que há no mundo, ele provou todos

Fama, sucesso, dinheiro, álcool, cocaína, sexo, mortes: dos venenos que há no mundo, Nando Reis provou todos – e parece imunizado. 

Há mais de um ano sem se drogar e casado pela segunda vez com a mãe de seus quatro filhos, de quem ficou separado por quase uma década, o cantor e compositor onipresente no hit parade nacional falou à Trip sobre família, amor, música, loucura, duas tentativas de suicídio, a relação com os ex-colegas de Titãs e a sensação de experimentar a vida sob este novo ângulo: a lucidez
Deve ser para organizar a narrativa da própria vida que Nando Reis escreve. Suas canções são tão intensamente autobiográficas (num esforço de memória, ele só consegue se lembrar de uma que não tenha sido construída a partir de experiências muito pessoais) que toda conversa com ele parece uma reedição em prosa de hits que o grande público conhece bem, como “Relicário”, “All Star” e “Cegos do castelo”. Nando desenha sua história em público.
Também estão expostos nas canções todos os seus venenos. O ato da composição sempre foi para ele algo intimamente ligado ao álcool e à cocaína. A ponto de ter de parar de compor (e lançar um álbum só de covers, Bailão do ruivão, em 2010) para também tomar distância dos vícios. Nesta entrevista – concedida na casa ampla e cheia de discos e obras de arte em que mora, no Pacaembu, em São Paulo – ele equaciona essas relações tão perigosas com o amor pela vida e o medo da morte. Apesar de tudo o que já experimentou e do tão fundo que foi, não veste a fantasia puída de “roqueiro autodestrutivo”. Já morreu muitas vezes (e foram duas tentativas reais de suicídio), mas só foi até o ponto em que ainda era possível voltar atrás.
Esse personagem, no entanto, apareceu com frequência também no palco. Em muitos dos shows que fez na carreira, estava completamente chapado, expurgando em cena as angústias descritas nas letras. Esse tipo de experiência, ele diz, vem desde os tempos primordiais com os Titãs, banda que fundou em 1982 e com a qual rompeu 20 anos depois para seguir em carreira solo.
E foi no pós-Titãs que sua vida profissional tomou dimensões inimagináveis. Desde a segunda metade da década passada, Nando frequenta, ano a ano, a lista dos maiores arrecadadores de direitos autorais do Brasil. Segundo a tabela oficial do Ecad, o compositor é o oitavo no ranking dos titulares com maior rendimento em shows em 2013. Chico Buarque é o nono; Caetano Veloso, o 11º; Paula Fernandes, a 14ª; e Djavan, o 15º. Os números impressionam mais se levarmos em conta que Sei, seu álbum de inéditas mais recente, foi lançado um ano antes de maneira completamente independente, à parte de uma grande gravadora – as 15 faixas foram lançadas na internet, pelo preço que o comprador achasse justo pagar.
Por que letras tão herméticas ganharam o gosto popular? Não há uma explicação muito segura. Mas alguns fatos certamente ajudaram a construir esse caminho de consagração. Um deles, quando Nando ainda estava nos Titãs, foi a gravação de canções suas por Marisa Monte, então sua namorada, no álbum Mais (1991). “Diariamente”, incluída nesse trabalho, pode ser considerada um clássico do pop brasileiro. Depois veio Cássia Eller (1962 – 2002), cujos álbuns de maior repercussão foram produzidos por ele – Com você... Meu mundo ficaria completo (1999), Acústico MTV (2001) e o póstumo Dez de dezembro (2002). Dali, eclodiriam hits nacionais como “O segundo sol”, “Luz nos olhos”, “Relicário” e “All Star”.
Mas não foram somente as cantoras que serviram de combustível ao compositor popular que Nando se tornaria. Foram determinantes no percurso as inclusões de canções dele nos álbuns dos mineiros do Jota Quest e do Skank. Talvez o público nem se dê conta disso, mas hits absolutos dessas bandas, como “Do seu lado” (Jota) e “Resposta”, “É uma partida de futebol”, “Dois rios” e “Ainda gosto dela” (Skank) são de autoria de Nando Reis.
Hoje, aos 51 anos, José Fernando Gomes dos Reis, um são-paulino apaixonado que já foi colunista de futebol, parece interessado em reescrever sua história com outras tintas. E isso inclui a sobriedade. Ele conta que está “limpo” há um ano e três meses. Retomou o casamento (em casas separadas) com Vânia Reis, a mulher que conheceu ainda na adolescência e com quem tem quatro filhos – Theodoro, 28 anos, Sophia, 25, Sebastião, 19, e Zoe, 14. Ismael, seu quinto filho, tem 8 anos e mora no Rio Grande do Sul com a mãe, Nani (Nando tem também uma neta, Luzia, filha de Theodoro).
Toda essa família nós já conhecemos pelo rádio. Ou pelos discos. “Back in Vânia”, “Sophia/ Meu medo é te ver machucada/ Errei por ter te machucado/ Seu pai é um homem indomável/ Um provável homem doce”, “Tenho cinco filhos, fiz uma família/ Trouxe de Saturno um anel de leão/ Onde, hoje, moram minha mãe Cecília/ Cássia e Marcelo/ Dentro do meu coração”, “Meu mundo não teria razão/ Se não fosse a Zoe”, “O mundo é bão, Sebastião”.
Tudo parece biografia, mas é música. Mesmo que ele quisesse muito, não haveria nada que Nando Reis pudesse esconder.
que é veneno pra você? E que veneno mais o modificou na vida? Tem muitas definições do que é veneno. Você pode partir do que faz mal, mais do que o que te altera. Parto do princípio de que veneno deve ser isto: aquilo que não circula bem dentro do seu organismo e da sua cabeça. Acho que a coisa que mais me machucou foram as mortes. Há três mortes muito determinantes na minha vida. Primeiro a da minha mãe, que morreu de câncer. Eu tinha 26 anos, a Sophia [sua filha] tinha acabado de nascer e os Titãs tinham estourado, realizado o sonho de ver nossa música popularizada, fazendo turnê pelo Brasil. Fui bem atingido por isso. Eu estava distante, muito deslumbrado, e a morte dela se deu sem que eu tivesse me dado muito conta do próprio processo da doença. Isso deu uma quebra que eu associo, inevitavelmente, à relação com a cocaína, que é uma droga que eu usei muito e que se misturou muito com a minha vida.
Mas não era só você que usava cocaína na banda. Os Titãs usavam drogas, teve o episódio da prisão do Arnaldo [Antunes]… E até um certo tempo eu era amedrontado com isso. Eu era moralista, meio careta, achava que era uma coisa que não devia ser feita. Tinha fumado maconha, mas parei cedo, porque ela começou a despertar em mim uma paranoia. Eu não posso fumar. Engraçado… Recentemente eu tive um sonho em que eu tinha voltado a fumar e isso me fazia bem. Tem esse ranking das coisas que são mais poderosas e deletérias e te agridem mais, como se a maconha fosse inofensiva e a cocaína o demônio. Mas o impacto e a maneira como cada um usa é tão particular. Bem, mas voltando para a resposta original, daquilo que mais me machucou e me intoxicou, no sentido de deixar algo correndo nas minhas veias, raiva, foi a morte da minha mãe e, anos depois, a morte do Marcelo [Fromer] e da Cássia [Eller]. No ano de 2001, acho… sempre confundo.
Cássia foi em dezembro de 2001. O Marcelo… Foi uns seis meses antes. Isso foi um negócio que teve um impacto violento. Despertou muita raiva também e foi determinante pras minhas reações. A minha reação a essas duas mortes se deu no meu desentendimento com os Titãs, na cristalização da nossa separação, que era um processo. Mas, já que eu falei de drogas: eu me envolvi muito com isso. Usei muita cocaína e álcool. Estou há um ano e dois meses sem beber, porque eu também achei que estava dando muito problema. Essa percepção de quão tóxicos estavam se tornando esses dois elementos na minha vida, que sempre se misturaram com a minha relação de trabalho… Sempre bebi, desde pequeno. Há algo na minha família, essa coisa do glamour… Diferentemente do meu pai e do meu avô, que tomavam seu uísque e tal, eu bebia a trabalho, sabe?
trabalho era meio uma razão pra fazer isso. Era. E eu sempre fui tímido, o álcool era útil para essa desinibição, que tem a ver com as loucuras, inseguranças e tudo o mais. E um efeito muito prazeroso. A questão das drogas tem a ver com isto: elas sempre me deram prazer. A lícita e a ilícita: o álcool, que é permitido, e a cocaína, que não é. Elas sempre se misturaram na minha relação com o trabalho. A decisão de cortar tem a ver com a idade, com o corpo, com o uso abusivo que eu sempre fiz... e a percepção de que não está funcionando tão bem. Embora fiquem registrados na minha memória os picos de prazer. E, no meu caso, a produção... porque eu sempre fui muito produtivo com cocaína. Sempre usei muito pra compor e tudo o mais. Mas uma hora começou a atrapalhar, fiz shows ruins. Ano passado, percebi que estava tudo ruim e que eu nunca tinha experimentado essa perspectiva que estou tendo agora. Não que eu nunca tivesse feito tentativas. Já fui ao AA, carrego a fichinha do AA na carteira desde que fui pela primeira vez.
Você é alcoólatra? Sou um pouco reticente com essa questão da nomenclatura de alcoólatra, não alcoólatra. A própria literatura é. Resolvi experimentar a abstinência do álcool e me dei conta de que eu vivia uma abstinência de muitas outras coisas que eu não tinha percebido. A abstinência da relação afetiva. A abstinência do próprio prazer físico, das atividades, da lucidez. Estou abstinente de álcool, e de cocaína consequentemente, mas ganhei outras coisas. Estou muito satisfeito com isso. Quando você pergunta se eu sou alcoólatra, acho que essa não é a definição. Bem, pode ser que sim... Mas não faz muita diferença pra mim. Pretendo experimentar voltar a beber. Tenho uma atração por estados alterados. Fico reticente de declarar isso publicamente... não quero a vigilância de ninguém, a não ser a minha. Mas, enfim, estou de férias!

"Estou feliz por não me intoxicar mais, embora não saiba o quanto isso é definitivo"

É uma espécie de ano sabático. É, um enorme sabático dessa relação com tudo. Espero que tudo que venha a acontecer se reorganize em outros moldes. Os moldes em que estava já foram suficientemente vividos. Repetir aquelas situações, principalmente de insatisfação, é muito doído. Mas nunca fui adepto de reverter o estágio de cocaína tomando remédio. “Vou tomar um Rivotril pra dormir, um Lexotan pra interromper.” Eu vivia tudo, achava que era importante… loucuras. Tenho 51 anos. Estou bem feliz por não me intoxicar mais, embora não saiba o quanto isso é definitivo.
Você falou de compor com cocaína. Como está a história da composição hoje? Está bem. Compor ou não compor sempre foi uma das coisas que mais me angustiam na vida. A ideia de não fazer uma música, de não gostar da música, sempre esteve presente. E continua. Tem coisas… Este ano eu concluí um trabalho com o Samuel [Rosa]. O Skank deve lançar um disco agora, eu fiz nove músicas. Acho que entraram cinco ou seis no disco. Trabalhei bem. Sóbrio. Fiz músicas interessantes, boas. Mas é difícil, muitas vezes eu tenho vontade de cheirar pra compor. A lembrança do quanto deu certo não se apaga da memória.
Nunca teve aquela história de fazer uma coisa loucão e na hora em que acorda ver que não era tão bom quanto você achava? Mais ou menos. Tenho uma autocrítica ferrenha, às vezes paralisante, e o álcool, a cocaína ou qualquer outra substância que atenue esse impacto sempre foram bons. O disparador, o começo. A coisa chata de fazer muito drogado é que às vezes você não se lembra de como foi e parece que foi uma coisa meio mágica. Mas eu sou um trabalhador. Tenho um lado obsessivo de gostar, de quando eu pego o violão, me debruço sobre uma música, escrevo muito.
Você falou dos shows que estavam ficando ruins. Mas também fez ótimos shows quando estava bem maluco, não? Nesse período de total sobriedade, fiz grandes shows. De mergulhar naquilo que se está fazendo sem deixar outro pensamento te dispersar. A coisa que mais fode um show é você estar cantando e ter um pensamento paralelo. A sobriedade é muito melhor pra cantar e eu, que nunca fui um grande cantor, com recursos técnicos, tinha uma ideia de que só se ficasse doido eu teria interesse pelas coisas. Isso é falso. Durante muito tempo também eu estava tão doido que eu queria acabar o show pra ir pro hotel cheirar. O show às vezes era um martírio. Um show bom pra mim é quando eu me comunico não só com a plateia, mas também com a banda, e quando eu não deixo que a minha armadura se feche nos meus pensamentos e me ponha num lugar onde não estou.
Você é um dos dez maiores arrecadadores do Ecad… Será que ainda estou na lista?
Está. E faz tempo. Não é maluco que o Brasil, em certo ponto tão careta, reacionário, absorva tão bem sua personalidade outsider? Eu nunca fui mesmo sóbrio, convencional. Usar ou não usar drogas, beber ou não beber nunca foi o que me fez ser careta ou louco. Dizem que as músicas que eu faço são o que eu sou… É engraçado, às vezes eu acho que eu tenho um “não lugar” na história da música brasileira. Grande parte do meu repertório, que me coloca nessa lista, é muito popular. Mas parece que aos olhos da produção cultural brasileira isso me descredibiliza, como se eu fosse um artista pop de segunda linha. Não sou o cult, tenho 51 anos, tenho uma carreira de 30 e tantos anos, já fiz músicas de sucesso com os Titãs, muitas músicas minhas fizeram sucesso na rádio. Mas não sou premiado em nada. Nas edições do prêmio do José Maurício Machline [Prêmio da Música Brasileira], que deve comemorar 25 anos, nunca fui indicado. Ano passado acho que fui indicado a melhor capa... Vai tomar no cu! É ridículo.
Você se ressente desse não reconhecimento? Não estou reclamando… Estou fazendo uma observação do lugar estranho em que estou. É como se eu fosse visto, pelo fato de eu ser popular e fazer muitos shows, é como se isso não tivesse um primor de trabalho ou poético ou melódico ou de composição que merecesse qualquer tipo de olhar. Acho estranho, esquisito. Gosto de ser um dos dez mais, mas isso é somatória. Provavelmente tem uma participação grande das pessoas que gravaram as músicas que eu fiz com o Samuel, muitas delas foram hits estrondosos de rádio.
Seu trabalho é muito autobiográfico. Seu último disco é quase completamente dedicado à volta do seu casamento com a Vânia. Queria que você falasse dessa relação. Esse casamento é seu antídoto? Bicho, a monotonia pode ser um puta veneno. E um casamento… Eu acho que nunca me separei da Vânia, mesmo estando afastado dela. Não só por conta dos quatro filhos, mas pelo tempo, pela amizade, pela admiração, pela afinidade de pensamento e pelo cuidado durante a separação, que durou quase oito anos nesse último período. Tive até um filho, o Ismael, com a Nani, que não é fruto de um casamento. Nossas vidas poderiam de fato ter se estruturado para outros casamentos e relações, mas isso não aconteceu. Eu voltei pra ela muito feliz, embora a gente tenha duas casas.
Há quanto tempo vocês estão juntos? Conheço a Vânia desde que eu tinha 15 anos. Atravessei tantas coisas, criei tantas coisas… Ela me dá tranquilidade. É a pessoa que sempre consulto para fazer as coisas e com quem eu, atualmente, estou nessa nova organização que a minha sobriedade trouxe. Não me lembro de ter passado um dia sem ter falado com ela ao telefone, mesmo separado, ou ter deixado de pensar nela, sabe? Fui pra um lugar lindo e pensei na Vânia. Queria comentar as coisas com ela, mesmo estando namorando, envolvido com outra pessoa… E ela identicamente. Fico feliz de estar ao lado de uma pessoa que eu sempre trouxe dentro de mim. É um sentido maior.
Muda muita coisa na relação, depois de tanto tempo? Mudou bastante. Os quatro filhos que tenho com a Vânia cresceram… E é engraçado, ando pensando nisso. No fato de ter tido primeiro o Theodoro e a Sophia, que hoje têm 28 e 26 anos, e depois, num outro momento, o Sebastião, que tem 19, e a Zoé, de 14. Acho que eu tive a crise dos 40 aos 50. Não no sentido de uma mudança externa, na percepção de “ah, estou perdendo cabelo”, mas pensando na finitude das coisas. Fiquei um pouco de saco cheio na minha ideia de sempre estar postergando a felicidade ou criando planos. As músicas que eu escrevo falam muito mais de um ideal. Muito mais daquilo que persigo do que do que vivo. Isso me aborrece um pouco.
Por quê? Eu não quero viver tanto de planos, essa ideia de ficar completamente apaixonado, criando coisas. Quando eu me separei da Vânia, fiquei anos... Namorei a Anna Butler em três períodos diferentes, namorei a Nani, a mãe do Ismael, depois namorei a Adriana. Eu tava sempre imaginando que ia formar uma nova família, casar de novo. E, sempre que essas relações se desenvolviam, uma hora tinha um impedimento meu de que elas se concretizassem. E uma certa desconfiança também, não da legitimidade do afeto que eu tinha por essas mulheres. Uma desconfiança do projeto no qual estava me lançando com elas, então vinham as interrupções.

"Eu penso muito agora: quero viver! O próximo passo é parar de trabalhar tanto"

coisa destrutiva das drogas também não interferia? Não é porque usei drogas que tenho uma relação destrutiva. Eu sou um ser vital, construí um monte de coisas, não é justo comigo que eu não usufrua dessas coisas. Minha volta com a Vânia, ainda mais depois dessa tarefa de criar os filhos, tem isso. Eu penso muito agora: quero viver! Meu próximo passo é parar de trabalhar tanto. Minha vida custa muito caro, minha estrutura é cara, o que me aborrece. Tenho medo de criar uma relação predatória com meu próprio trabalho. Não tenho mais saco para deslocamentos, por exemplo.
você ainda viaja muito. Nesta semana tenho que viajar. Cinco shows em cinco estados diferentes. Tenho a sensação de que vivo muito uma coisa e deixo de viver outras. Quero ser mais equilibrado. Então, meu casamento com a Vânia, uso ele quase como um símbolo. Um símbolo de um casamento com a vida, e não só com o trabalho.
Você tem discos pra todas as namoradas. Seu trabalho, por ser autobiográfico, tem relação com o que acontece na sua vida amorosa? Tem. Meu trabalho tem esse lado vital, que eu falo e defendo. É um traço muito antigo meu. A música que eu mais gosto do disco Sei é a “Pré-sal”. Porque ela descreve muitas coisas relacionadas com a minha infância. O título foi dado pela minha irmã. Um dia reuni meus irmãos aqui e mostrei as músicas que eu ia gravar. Minha irmã olhou e falou: “Acho que essa música deveria chamar ‘Pré-sal’, porque ela é tão profunda, é anterior à consciência”.
Como é essa relação com seus irmãos? Tem dois episódios muito determinantes na história da minha família. Eu sou o quarto filho de cinco. Carlito é o mais velho... meu pai e minha mãe se casaram muito jovens, ela tinha 19 anos. Com 21, já tinha três filhos. O Zeco, o terceiro, teve meningite e ficou surdo. Cinco anos depois eu nasci, ruivo. Não há nenhum ruivo na história da família, eu sou um acidente genético. E três anos depois de mim nasceu a Lulu, Maria Luiza. Ela teve meningite também, que degenerou para uma encefalite e deu uma paralisia cerebral. Ela foi superafetada por essa paralisia. O Zeco, apesar de surdo, sempre estudou em escola normal. Minha mãe sempre foi defensora da inserção, da inclusão. Que ele não ficasse restrito ao gueto dos surdos e mudos, da linguagem de sinais. O caso da Lulu era mais grave, então ela ia a uma escola especializada, para pessoas com problemas neurológicos e motores graves. 
Conviver com isso foi marcante na sua vida? Ela tinha surtos de agressividade, uma coisa terrível. Então era um pouco constrangedor pra mim, meus amigos iam lá pra casa e se assustavam com aquilo. Nossa vida familiar foi muito marcada por esses episódios. Somos paulistanos de classe média alta... mas eu sempre fui estranho. Pela ruivice, pela minha família, pela minha história. Essa estranheza, nem facilitadora, nem dificultadora, foi a minha marca particular. Minhas músicas autobiográficas sempre estão em primeira pessoa porque são de fato a minha história. Cada um de nós precisa se haver com aquilo que é. E essa é talvez a força política da minha música, a defesa do indivíduo. Não no individualismo contra o coletivo, pelo contrário: pra você se incluir coletivamente de uma forma saudável, você precisa ser satisfeito com o que é.
Em uma banda de oito, era preciso se colocar... Eu nunca fui bom, eu sempre perdi lá dentro. Tanto que eu tive que fazer muitas coisas fora. O Marcelo [Fromer], ele que me alertou: “Bicho, você faz um monte de coisa. Por que você não compõe?”. A quantidade de músicas que eu apresentava pro Titãs e era gravada era pouca. Eu era um autor minoritário dentro do grupo, não era bom na competição lá dentro. Acho que fui engolido muitas vezes e desenvolvi vinganças. Tem um lado estranho da minha personalidade, da minha relação com os Titãs. E é paradoxal: sou um sujeito que se arrisca muito. Mas meus riscos são meio calculados. Já quase me fodi nessas de saber até onde posso ir.
Por exemplo? Já tentei me matar. Saca? Evidentemente era a infelicidade da vida que eu levava, somada a uma raiva, somada a um foda-se... E, claro, muita droga.
Tentou se matar como? Exagerando na droga? Não, não. Eu tenho uma resistência física absurda. Nunca tive ressaca, sou daqueles caras que cheiravam, cheiravam, e depois iam fazer coisas. Nunca faltei em um show, nunca perdi hora, raramente perdi um voo. É uma característica minha. Tentei me matar foi porque eu estava bebendo muito, minha vida estava desorganizada. Eu tava separado da Vânia e ela falou: “Do jeito que você tá, não vai pegar as crianças”. Isso foi o fim. Tomei duas caixas de Lexotan. Tive uma intoxicação e fui socorrido. Também já cheguei a ficar na beira de um prédio, olhando pra baixo. Já fui salvo, sobrevivi. Nunca bati o carro... Tudo isso pra dizer que, embora eu tenha me arriscado muito, eu sabia que eu ia voltar. Sempre voltei. 

"Impossível retornar aos Titãs, mas eu queria muito retornar a amizade, a convivência"

Como é estar exposto assim, diante dos filhos? Tem uma música sobre a Sophia... Essa música é muito explícita sobre essa relação difícil. A Sophia sempre reagiu negativamente, apontando “eu não gosto que você fique muito doido”. Se afastou de mim, nunca se esquivou desse assunto. Nenhum filho gosta de ver pai bêbado, ausente. É deprimente. Ela sempre falou: “Acho uma merda você beber, cheirar”. E a música, eu escrevi muito louco, aliás. Há mensagens subliminares sobre esse assunto em várias outras músicas minhas. “Cegos no castelo” é uma. Todo mundo acha que eu estou falando sobre os Titãs. Mas é muito da minha cegueira, meu isolamento. Castelo é um lugar onde metaforicamente eu me encastelava. Falava de mim e da minha relação com a cocaína.
Está tudo certo entre você e os Titãs hoje? Tá, supercerto. Adoro todos eles, adoro a nossa história, os discos que a gente fez. Era muito apaixonada a minha relação com eles, durante muitos anos. Uma separação é sempre desagradável e claro que vieram à tona coisas que não precisavam ter vindo, a dor de cada um dos lados, a raiva de cada um pela incompreensão. A minha saída tinha a ver com me sentir incompreendido, ver o meu espaço cerceado, naquele momento parecia isso. Depois eu vi que eu tava querendo mais espaço e uma necessidade absoluta de controle, de não ter que dividir tanto. Você só pode estar numa banda se você deseja aquilo, a coisa democrática. Tava ficando chato, eu era sempre a voz dissonante. Mas não há mágoa.
Vocês se veem? Estive com Paulo [Miklos] há dois meses, a morte da Raquel [mulher dele] me tocou profundamente, me fez sentir saudades deles todos. Impossível retornar aos Titãs, mas eu queria muito retornar a amizade, a convivência. Com o Paulo, por exemplo, a gente passou uma noite aqui em casa, 5, 6 horas conversando, bebendo cerveja sem álcool, que eu adoro. É muita afinidade, sabe? Há muitas coisas que eu vivi com eles, da forma de pensar, da maneira de ouvir música, de comentar. Tenho vontade de ligar, sabe? Não tô falando só de nostalgia, tô falando de linguagem. Eu admiro muito a forma, a inteligência de todos eles. O Paulo Miklos é um sujeito brilhante. É um dos caras mais engraçados que eu já vi. No Natal, fomos almoçar eu e ele na casa do Arnaldo, eu adoro. Relações como essa podem se manter mesmo sem contato, que elas estão intactas. Tenho certeza, com todos eles. Com Paulo, Charles, Arnaldo, Brito, Branco, Belotto. Lamentavelmente não posso encontrar o Marcelo.
Você tem medo de morrer? Ando pensando muito na morte, sim. Acho que principalmente… Meu pai tá com 83 anos e a sua saúde sofreu um ligeiro revés. Então olhar pra ele e pra mim, os filhos crescendo… Tenho pensado nisso, sim. Não tem coisas que eu nunca fiz e preciso fazer antes de morrer, sabe? O que incomoda são sinais de mudança no próprio corpo. Eu treino, faço musculação, academia, mas claro que é diferente hoje. Essa percepção do tempo passando e de que não há como reverter, isso aflige, incomoda. Incomoda, não: assusta. A mudança de hábitos, de parar de beber, de ver que cheirar não dá mais, tá relacionada com isso também. De percepções de que passou um tempo. Mas tenho um pouco de raiva de ter que parar. Eu gostava daquela infinita energia e alegria que as drogas e o álcool me traziam, mesmo que ilusória.
tem a coisa da vaidade? Sim, tenho questões que sempre me acompanharam e que agora exijam talvez mais... Antigamente eu cheirava e ia treinar, sabe? Na academia. O que é bastante estúpido de certa maneira. É uma coisa impensável hoje. Se eu cheirar tenho que ficar dois dias de molho, é um horror. Acho detestável trocar, nesse cálculo racional, bem objetivo e realista, dois dias que eu perderia por uma noite de farra, sabe? Não quero perder as coisas boas em nome de algo que eu já fiz bastante.
Pra parar de beber e cheirar você tem que botar um negócio no lugar, pra segurar a onda? Vou ser bem honesto: eu não bebo porque eu tô tomando um negócio chamado antietanol.
Pra que serve? É um remédio que você toma e para de produzir uma enzima que metaboliza o álcool. Então, se você ingerir álcool, é tão tóxico que você vai parar no hospital. Eu sei que a minha força de vontade não seria suficiente pra eu parar de beber, então eu decidi experimentar esse negócio. Se eu pus coisas no lugar? Acho que comecei a fumar mais cigarro, mas quero controlar. Um dos meus pânicos com a idade é sofrer doença. Não sou um cara que vive bem com dor e com doença. Preciso estar apto, não só porque tenho muita coisa pra fazer, mas porque gosto dessa aptidão, entendeu?
Você começou a tomar esse remédio só pra parar de beber? Fui lá no Rodrigo Bressane, meu psiquiatra, e ele me passou esse remédio. Que se eu beber eu passo mal. Fiquei muito intrigado e pensei: “Pô, não quero ser castigado”. Mas queria parar de beber, experimentar esse outro barato. E é bom. Porque tem uma certa contabilidade pra uma pessoa pra beber como eu bebia, que usou drogas como eu usei e que já tem 51 anos. Percebi uma queda de qualidade em alguns aspectos, nas relações afetivas e tudo o mais. Já não sei por que eu tô falando isso...
Você estava falando do barato de não ter barato. Ah, sim. Teve um resgate com a minha essência, vamos dizer assim. Continuo sendo a mesma pessoa, não tive nenhuma depressão, não fiquei mal-humorado, não fiquei chato, não tive síndromes. Nenhuma. Pelo contrário, fiquei eufórico, comecei a achar graça em um monte de coisas. Resgatei um monte de coisas que estavam de lado. Minha casa voltou a ficar cheia, minhas relações ficaram boas. Por outro lado, a vida normal é um saco, velho. Não é assim essa maravilha... Mas não é nem com drogas, nem sem drogas. Então vamos combinar que é uma escolha. Tô muito satisfeito com essa escolha. Eu tava sofrendo muito com a vida que eu levava.
Você falou das novas músicas que fez com o Samuel Rosa. Você vê diferenças nessas canções, feitas nessa fase de sobriedade? Não... acho que aquilo que dá qualidade ou uma marca às minhas músicas é a forma como eu penso, ou mesmo como eu lapido o trabalho. A droga sempre foi uma ótima despertadora de apetite, mas, a partir do momento em que estou envolvido, tanto faz o processo mental. Nunca fui bobo de achar que uma coisa estaria boa apenas porque eu estava doido. Ou porque tô careta. É muito mais na hora de “tá bom, vamos abrir o violão e pegar essa coisa”. É pra esquentar. Pra responder mais objetivamente: não há diferença de qualidade, de característica. Minha forma de pensar é minha, careta ou louco. Não muda.
Marcus Preto Revista TRIP

 Chora não, Gugu. A gente some mas volta 

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