6 de jan de 2015

Manga madura versus likes no Instagram


Em 2011, ganhei uma bolsa para passar três meses na Índia. Eu estava trabalhando no rascunho de um livro e precisava de tempo para me dedicar exclusivamente a isso. Fui parar na Fundação Sanskriti, um lugar incrível, em Nova Déli, onde funcionam três museus e dez estúdios de artistas.
Logo que cheguei, recebi um pendrive de acesso à internet e estava feliz da vida por ter conexão ilimitada. Até que apareci para o primeiro almoço coletivo e descobri que não pegava muito bem essa história de se conectar à internet. Afinal, pensavam meus companheiros de residência, estávamos na Índia e, ali, a pessoa deve querer se desligar do mundo.

Diante disso, tive uma pequena crise e me perguntei se estava contaminando uma oportunidade de experiência autêntica por falar no skype com minha família, compartilhar fotos no Instagram e descobrir notícias do mundo pelo mural do Facebook. Mas, ao postar a primeira foto da Índia e bater meu recorde de likes no Instagram, deixei de lado as dúvidas.

Dessa maneira, fiz as pazes com o pendrive e me libertei da pressão de meditar. E quando precisava descansar das personagens que tomavam forma nas páginas do livro, pegava o metrô lotado e ia para Nehru Place, um centro comercial famoso por suas lojas de tecnologia. Nehru Place e suas lojas de hardware, estandes de consertos de computador e milhares de pessoas barganhando nos preços era meu lugar favorito para passar as tardes imersa na Índia - uma Índia muito diferente do ideal ocidental, mas tão genuína quanto qualquer outra.

Eu me lembrei desta história porque recebi um e-mail criticando os jovens, que passam muito tempo diante de suas telas e não sabem que "a verdadeira felicidade é comer manga madura no pé". O e-mail me fez pensar nos meus amigos da Fundação Sanskriti e em como alguns deles acreditavam que a verdadeira felicidade estava em passar as tardes meditando. Eles estavam certos? Espero que sim e torço para que estivessem investindo tempo naquilo que lhes trazia felicidade. Mas sei que eles se enganavam ao pensar que a minha felicidade estava em me desconectar.

Como cresci em Minas e passei muitas férias em sítios, conheço bem a alegria de comer manga madura no pé. Só não tenho certeza de se aquelas tardes eram mais felizes do que as que passei com meus irmãos, jogando Sonic ou Super Mario Bros. Nas minhas memórias, a felicidade está onde ela aconteceu. E é quando junto manga no pé com Super Mario Bros que minha infância parece tão sensacional.

Barbara Soalheiro

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