27 de jan. de 2008

Johnny Beira-Mar


Tem coisas que os jornais matutinos deveriam evitar, não por uma questão de propriedade jornalística mas por mero respeito à saúde dos leitores, que folheiam o diário logo ao acordar, durante o café da manhã. Caso explícito é um artigo da Folha desta quarta-feira, 23 de janeiro, de autoria do ex-traficante João Estrella.

O personagem inspirou o ótimo filme Meu Nome Não é Johnny, e parece estar agora sofrendo da estranha perversão que acomete aqueles dotados de fama repentina, de se achar inteligentes e acreditar que suas opiniões são relevantes sobre todo e qualquer assunto. Nosso Johnny repete a cantilena de que os criminosos de estrato social inferior são mais vítimas do que culpados:

“O jovem pobre e criminoso também não está preocupado com isso [a violência gerada pelo consumo de drogas] -e tem lá os seus motivos. Ele faz parte de uma parcela da população que, além de ser massacrada pela miséria, ainda é esculachada pela polícia, enganada por políticos e jogada na marginalidade mesmo quando não é bandida, pois marginal é aquele que não participa da comunidade, aquele que é excluído. Esses cidadãos, que são os mais combatidos e que não têm direito a cela especial, são mais vítimas do que culpados.”
O raciocínio é duplamente tortuoso – pobreza não redime ninguém dos seus atos, assim como não o condena, e se os pobres são inocentes a priori, os criminosos de classe média, como Estrella, são duplamente culpados e, no caso específico dele, deveria ter cumprido sua pena num presídio, não em manicômio. Mas, enfim, o pensamento é torto mas não é original.
Originais são as partes em que o articulista exime a sua atividade pregressa – o tráfico de entorpecentes – de culpabilidade, dizendo que os “drinks” são um problema maior. Na sua sintaxe particular: “Então... Temos o álcool, que, se não me engano, aparece em primeiro lugar na lista de destruição: homicídios, acidentes”.
Johnny arremata dizendo “quem dera nossos
maiores problemas fossem os ecstasys que a rapaziada toma nas festas e que estão na mídia o tempo todo”, no que eu concordo totalmente. Problema muito maior que o ecstasy é um ambiente intelectual em que as pessoas são culpadas e inocentadas de acordo com sua classe social e em que traficantes internacionais de drogas recebem uma pena ridícula de dois anos de confinamento e ainda se acham no direito de vir a público dizer a nós, que trabalhamos e suamos todos os dias dentro da lei, que somos, como sociedade, tão responsáveis pelo problema da violência do tráfico quanto aqueles que matam, roubam e violam para preservar sua lucratividade no tráfico de drogas.
Menas, Johnny. Menas.
Gustavo Ioschpe

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