9 de out de 2008

A Colônia Penal nossa de cada dia

Comemora-se este ano o centenário da primeira publicação de contos de Franz Kafka na revista de língua alemã Hyperion, de Praga, que começou a dar visibilidade a um escritor cuja obra se mantém atual até os dias de hoje.

Apesar de ter vivido antes da 2ª Guerra Mundial, Kafka antecipa formas literárias muito modernas, indiciadoras de uma temática contemporânea - a alienação do sujeito - por meio de um recurso formal particular: ele abandona o uso do narrador onisciente e onipresente, característico da ficção do século 19, que sabia mais que sua personagem, e passa a utilizar um narrador que sabe tanto quanto a personagem, isto é, nada.

Movidos pelos mesmos pontos de cegueira, eles - narrador e personagem - desconhecem o rumo da narrativa e também suas motivações. A que processo está submetido Josef K. em O Processo? Qual é sua culpa? Por que Gregor Samsa amanhece certo dia transformado em inseto, em A Metamorfose? Por que o mensageiro não leva a mensagem a seu destino, em Uma Mensagem Imperial? Por que quem sai não chega a nenhum lugar, em A Próxima Aldeia?

A sensação de estar perdido, de que um elo foi subtraído e não há mais corrente, tem sempre como contrapartida uma linguagem absolutamente precisa. Nela, os conectivos assertivos funcionam como estacas na frase, estabelecendo ligações lógicas, enquanto as orações coordenadas superdimensionam um mundo raso, onde tudo se equivale. A sucessão de orações coordenadas, postas lado a lado, independentes, isoladas, carrega um sentido, porém a justaposição cria contradições, incompatibilidades que as tornam mutuamente excludentes.

E a pergunta do leitor é: qual o lugar central da estrutura de interpretação? A parataxe implica falta de perspectiva, criando um vácuo no entendimento. Há aí a contradição entre dois sistemas; um que aponta para a sem-razão; outro, para uma suposta racionalidade. Um aponta para um mundo fantasmagórico, o outro para uma circunspecta meticulosidade. A tensão não se resolve e incomoda o leitor, que acaba experimentando por dentro o mesmo que a personagem e o narrador: a alienação num mundo altamente administrado, que detém o poder sob forma de arbítrio.

Em poucas palavras, e simplificando uma questão complexa, a obra de Kafka não ampara o leitor; ao contrário, lança-o numa experiência que é do outro, mas que passa a ser dele.

É também de alienação e de arbítrio que trata a novela Na Colônia Penal, texto escrito em 1914, quando a 1ª Guerra Mundial é deflagrada, e publicado em 1919. Considero oportuno tratar dela nesta homenagem, pois ela nos leva ao coração da fantasia kafkiana.

O contraste entre os dois sistemas acima mencionados, porém um pouco deslocados, é de grande impacto nessa novela, cuja ação se dá numa colônia penal, envolvendo quatro personagens: o explorador estrangeiro, o oficial, um soldado ajudante e o condenado à morte. Há uma hierarquia na inserção dos personagens.

O uso do francês entre o explorador e o oficial exclui o condenado e o soldado, que não entendem o idioma. Por outro lado, o porte do uniforme pelo oficial investe-o, simbolicamente, do papel de representante da pátria, conferindo-lhe destaque em relação aos demais.

Mas, que pátria? Onde se situa essa ilha na qual se dá a ação? De que colônia penal se trata? Nenhuma territorialidade se define na novela. Também o ângulo dos olhares explicita uma inserção topográfica das personagens, travando-se um jogo de inclusão/exclusão. O explorador "levanta a vista" para olhar o aparelho que lhe está sendo apresentado. E depois "ergueu-se devagar, andou até lá e se inclinou sobre o rastelo".

Essas indicações dão ao leitor as coordenadas da posição da personagem e da medida do aparelho de morte: ele ocupa um espaço estendido acima dos homens e abaixo deles. Os olhares dos quatro se cruzarão, assim, de cima para baixo e vice-versa, vertical e horizontalmente, numa multiplicidade de planos e de perspectivas cara ao cubismo. O condenado, cego para o que está em vias de ocorrer, e também o soldado que o acompanha, empreendem tentativas de ver o que está sendo apresentado pelo oficial ao estrangeiro. Mas são excluídos desse plano, pois não alcançam a ouvir a conversa. E mesmo que ouvissem, não a entenderiam . Uma vez decidida a culpa, a sentença é escrita na superfície do corpo do condenado, que não a conhece, desconhecendo também que foi e por que foi condenado. Como não consegue ler a inscrição, ela é apreendida na carne, depois da sexta hora do martírio que dura doze horas. O oficial relata também a mudança da situação da ilha onde se situa a colônia agora decadente, elogiando o antigo comandante, responsável pela lei e por seu cumprimento, punindo as transgressões com a máquina de tortura por ele inventada. Depois de uma tentativa frustrada de aliciar o explorador para colaborar com a destituição do atual comandante, o oficial muda radicalmente as disposições dos papéis em cena. Libera o condenado e passa, ele próprio, a ocupar a cama do aparelho de tortura, oferecendo seu corpo para sobre ele se inscrever a lei - "Seja justo". A máquina deteriorada, no entanto, em lugar de inscrever sobre, dilacera o corpo do oficial, que, antes das doze horas prescritas, morre. As três personagens restantes dirigem-se a uma confeitaria do povoado onde, debaixo de algumas mesas, está enterrado o antigo comandante. O explorador lê a lápide e segue para o porto onde um navio o afastará definitivamente da ilha. O soldado e o ex-condenado pretendem partir com ele, mas são impedidos. Embora concorde com Anatol Rosenfeld quando sugere a conveniência de ler as histórias kafkianas de início mais ao pé da letra, como visões de nossa realidade fundamental, sem recorrer a interpretações rebuscadas, já que, em nosso mundo, é comum que o homem seja punido sem saber por quê, não posso deixar de me perguntar quais as diferentes possibilidades interpretativas que essa novela apresenta. Certamente, pode-se ver, na máquina de tortura, um símbolo da tecnologia e da burocracia modernas, os aparatos de poder de um Império já industrializado e próspero, cujos efeitos Kafka tão bem conheceu na sua condição de assessor jurídico de uma companhia de seguros. E os comandantes da novela não equivaleriam à figura do Kaiser austríaco e à de seus governadores que exerceram o poder arbitrariamente em território tcheco, prescrevendo aos cidadãos da Boêmia uma lei estrangeira, que passava por cima dos costumes e das idiossincrasias nacionais? Ou toda a cena de tortura não poderia ser vista como uma premonição do Holocausto judeu que não tardaria a se desencadear (matando inclusive grande parte da família de Franz Kafka) e cujas bases estavam mais que assentadas na grande tradição européia do anti-semitismo? Todas essas leituras são viáveis e não se excluem. "Muito engenhoso - disse evasivamente o explorador. - Mas não consigo decifrar nada." O explorador é um estrangeiro, que está fora das relações de poder e da prática penal a que assiste. Também Kafka sente-se "fora", no exílio, na cidade de Praga que conheceu e que pertencia ao Império Austro-húngaro. Sob a pressão dos Habsburgos, foi se consumando uma progressiva "germanização" dos judeus com a qual o autor entrará em contato em fase adiantada. A destruição das muralhas que continham o gueto de sua cidade natal assinala o princípio da fecunda articulação do alemão com o judeu, que haveria de colaborar com o desenvolvimento industrial e econômico da Europa Central até a 2ª Guerra Mundial. A perspectiva de Kafka é a do explorador estrangeiro que chega, presencia as cenas de suplício, a luta pelo poder, o arbítrio da lei, a derrocada de um sistema e parte de navio não se sabe para onde. Sua neutralidade é mantida a duras penas: não se pronuncia contra a barbárie da penalidade, mas também não pactua com os homens que ridicularizam o antigo comandante, na confeitaria onde está enterrado. Estando dentro da ilha, seu lugar é também fora dela. Não se identifica com nada nem com ninguém, entra em contato com as instâncias de poder, cria com elas uma certa cumplicidade (pelo uso do idioma francês, por exemplo), mas foge horrorizado com os efeitos que esse mesmo poder desorbitado desencadeia. Foge para onde? O explorador é, na novela, um homem em trânsito. Dele, para chegar ao judeu errante, é um passo. Mas essa me parece uma fórmula fácil para se aplicar a Kafka. Embora se saiba que o autor carregasse a sensação de exilado e buscasse, como outros judeus, uma nação com cujos ideais pudesse se identificar e se saiba, ainda, sua intenção várias vezes manifestada de ir para a Palestina e talvez ficar ali para sempre, tudo isso era impossível para o homem complexo que foi. O único território em que Kafka pôde assentar sua errância foi o da escritura. Não é por acaso que ela é passível de múltiplas interpretações e que o leitor carrega a sensação de um texto de certo modo inalcançável de forma absoluta. Reconhecer, entretanto, na literatura o lugar de sua identidade - sua pátria - não resolve o descentramento do autor, porque a língua desse território é o alemão - uma língua estrangeira para ele. E aí se reinstala o exílio. Dessa vez sem saída.
Berta Waldman

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