5 de mar de 2009

Até que a festa nos separe

A festa de divórcio arrebanha cada vez mais pioneiros brasileiros, atraídos pelo modo inusitado de selar uma separação Celebrar o fim do casamento pode até soar bizarro, mas a festa de divórcio, tão popular no lado de lá do Equador, arrebanha cada vez mais pioneiros brasileiros, atraídos pelo modo inusitado de sela uma separação Ariana reuniu as amigas pra jogar maldições no boneco vudu do ex-marido. Grant organizou um tiro ao alvo com a foto da ex-mulher. Depois de três meses chorando o divórcio, Luísa foi surpreendida com um show de striptease. E, na despedida de casado de Augusto, o convite vinha rasgado e o nome da noiva, borrado.
Ariana, Grant, Luísa e Augusto compõem um pequeno grupo que vem ganhando um número cada vez maior de adeptos. Recém-separados, dão um tempo na fossa pra curtir sua festa do divórcio. Nos últimos três anos, as festas de descasamento têm sido um recurso polêmico e às vezes divertido para lidar com as dificuldades de uma separação. Mas o jeito inusitado de comunicar amigos e familiares sobre o retorno recente à solteirice tem provocado certo estranhamento. Nem sempre os convites para uma festa de divórcio são recebidos com entusiasmo pelos convidados. Quem organiza esse tipo de celebração vivencia o pioneirismo de uma tendência que começou timidamente, mas com força suficiente pra se firmar como um costume típico do mundo contemporâneo. Despedida de casado Pouco comum no Brasil, onde se contam nos dedos quem já aderiu à moda, as festas de divórcio são bastante populares na Europa e, principalmente, nos Estados Unidos. Autora do livro Divorce party planner – How to throw a divorce or breakup party (Manual da festa do divórcio – Como realizar uma festa de divórcio ou separação), Christine Gallagher defende esse tipo de celebração como um rito necessário pra enfrentar o difícil período pós-divórcio com a cabeça erguida. “O ritual é essencial ao ser humano. As pessoas podem se sentir estigmatizadas quando se divorciam. E a festa é um jeito de mostrar que elas continuam amadas e apreciadas, que os amigos ainda estão com elas nessa grande mudança em suas vidas”, acredita. Lançado nos EUA, o livro é a cereja do bolo de um gigantesco mercado especializado, que oferece de pratinhos de papelão com a inscrição “single again” (“solteiro novamente”) a papel higiênico com o nome do ex, passando por minicaixões para alianças – de madeira, forrado de veludo e com gravação personalizada em placa de metal. Quando a modelo americana Shana Moakler posou para a imprensa de celebridade ao lado do seu bolo de divórcio, em novembro de 2006, a coelhinha da Playboy não imaginava, mas estava se tornando um ícone ao assumir publicamente suas intenções de festejar a separação do baterista Travis Barker, com quem teve dois filhos.
“Não estou sendo revolucionária nem nada parecido. Simplesmente fiz isso pra fechar o ciclo, festejar a solteirice e começar um novo capítulo na minha vida”, declarou na época. A imagem de sua festa em Las Vegas pipocou em sites e blogs do mundo todo. E, se não lançou a moda, ao menos a oficializou. Menos famoso, mas não menos ousado, o canadense Grant Hardman expôs as fotos de sua festa de divórcio no Flickr, espécie de catálogo virtual em que os internautas podem postar suas fotografias. Grant aproveitou pra lavar a alma. Além do tiro ao alvo com a cara da ex-mulher, o festim incluiu até uma cerimônia de queima das fotos do casamento. “Foi a melhor festa que eu já fiz. Me diverti à beça e ainda ganhei um monte de presentes dos amigos”, conta ele. Enquanto Grant jogava suas lembranças na lareira, a igualmente canadense Ariana Walstra ganhou uma festa da amiga Heide Fournier: “A Ariana estava muito triste, deslocada, então resolvi fazer uma surpresa. Além do vudu do ex, fizemos um caixão de papelão e enchemos de sapos de pelúcia, que a gente beijava pra ver se viravam príncipes”. Bem-divorciados Aqui no Brasil, a imaginação é o limite, pois não há comércio especializado. Mas, como a criatividade parece ser um dom legitimamente brasileiro, a produtora de eventos Simone Ferreira, há 22 anos no ramo, não se intimidou nas duas vezes em que foi contratada pra organizar um evento do tipo: “Adorei a ideia, parece uma festa da libertação, né?”. Conversando com os clientes, Simone propôs usarem carolinas no lugar de bem-casados, “pois na carolina o doce de leite fica solitário lá dentro, enquanto no bem-casado o mesmo recheio une as duas metades do doce”.
Já Mara Borges, terceira geração na família de doceiras profissionais, recebeu uma nova encomenda da mesma cliente para quem havia preparado as lembrancinhas do casamento, quatro anos antes: “Ela estava fazendo uma festa pra comunicar sua separação e pediu que eu preparasse algumas dúzias de ‘bem-divorciados’, versão enlutada dos tradicionais bem-casados, envoltos em papel e fita pretos”, conta. Tradicionalmente visto como motivo de tristeza, e até de vergonha, hoje o divórcio começa a ser encarado também como símbolo de liberdade e prazer. Na contramão do preconceito, a advogada paulistana Samantha Andreotti, 33 anos, enfrentou críticas e julgamentos pra celebrar, junto com o ex-marido, o divórcio do casal. Ao distribuir os convites para sua festa de descasada, a frase que mais ouviu foi: “Samantha, você é tão moderna!”. Depois de seis anos entre namoro e casamento, ela e André resolveram celebrar o fim da união com uma reunião para os amigos e familiares. “Nosso amor foi bom enquanto durou, e a separação foi tranquila, tanto que somos amigos até hoje. Por isso decidimos comemorar em grande estilo”, comenta. A celebração aconteceu em 2005, e a maioria dos convidados não compareceu: “Só foram os amigos mais chegados. Fui mal interpretada, recebi críticas terríveis. Mas, convenhamos, encarar o divórcio como um tabu é coisa do passado. Por que não comemorar o fim saudável de uma união e, juntos, desejar sucesso para o futuro dos dois?”. No fim da noite, já relaxados e contagiados pela atmosfera festiva, os amigos do ex-casal entraram no clima e, aos risos, começaram a reclamar de volta os presentes que haviam dado de casamento. Já a empresária carioca Luísa Nascimento, 31 anos, resolveu festejar o divórcio numa sex shop, no fim do ano passado, depois de passar um bom tempo deprimida: “Cansei de ficar triste e decidi reunir os amigos, que são minha grande família. Mas não era a celebração de um fracasso, e sim de uma vida inteira pela frente, desta vez sozinha”. Cada vez mais frequente, a verdade é que o divórcio tem se tornado evento tão comum quanto o próprio casamento. “Já que a separação é normal hoje em dia, acho natural fazer uma festa pra marcar esse momento, assim como se faz festa de casamento, de batizado...”, palpita Augusto, o consultor de informática paulista de 38 anos que resolveu fazer uma festa pra comemorar a concretização de seu divórcio, no fim de 2007: “Foram cinco anos de disputas judiciais, uma confusão que chegou a envolver até a polícia, e, quando tudo terminou, eu queria mais era tirar a zica. Afinal, esposa pode ser só uma vez, mas ex-mulher é pra sempre!”. Marília Kodic - Trip

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