16 de mai de 2009

O Vôo de Minerva

As noções de igualitarismo e de democracia que formam a base do pensamento moderno do chamado Ocidente se originam a partir da filosofia grega.
Fazendo um mergulho profundo nas origens da pólis e em seus fundamentos econômicos e sociais, o livro O Vôo de Minerva - A construção da política, do igualitarismo e da democracia no Ocidente antigo, que acaba de ser lançado, procura compreender o significado da política como fator de mediação e ordenação da vida social no mundo antigo. Do pensamento mítico pré-filosófico, passando pelos sofistas e focando em Sócrates e Platão, o autor Antonio Carlos Mazzeo, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de Marília, mostra, a partir dos dois filósofos, que a política, em sua origem, restringia-se ao plano abstrato, regulando apenas as relações formais, já que o plano concreto era marcado pela desigualdade. A obra contou com apoio da FAPESP na modalidade Auxílio a Pesquisa - Publicações. "Esse trabalho é uma introdução de um estudo sobre o pensamento burguês a partir do século 17. Tento entender a partir de que fundamentos a burguesia desenvolveu sua visão de mundo, principalmente as ideias de democracia e cidadania", disse o autor. O subtítulo do livro, segundo Mazzeo, sugere não apenas o termo-chave da investigação realizada, mas também a perspectiva crítica na qual ela está inserida, uma vez que a política, a democracia e o igualitarismo são encarados como construções. "Defendo a hipótese de que o 'Ocidente antigo' é resultado de um longo processo de mediterranização da cultura oriental, ou seja, da absorção da cultura oriental pelo Ocidente", afirmou. Mazzeo conta que a obra é uma versão adaptada de sua tese de livre-docência. Segundo ele, sem comprometimento da compreensão da obra, a parte introdutória pode ser deixada de lado pelo leitor não familiarizado com o discurso filosófico. "Eventualmente, o leitor que tem formação histórica vai encontrar um pouco de dificuldade na discussão filosófica. Claro que, se optar por ler a primeira parte, ele vai perceber os nexos teóricos com que desenvolvo os capítulos posteriores. Mas, se pular, não prejudica", disse. Ele ressalta que não é especialista em Grécia. "O mergulho no mundo antigo é vasto e, por isso, centrei a análise na política para poder entender como a burguesia faz essa visita aos gregos. Ela visita, não copia, mas essa visita é importante porque implica uma recriação", afirmou. O livro está dividido basicamente em duas partes. Na primeira, o autor analisa as bases históricas, entre outros temas, o desenvolvimento e a crise de hegemonia da pólis ateniense. E, na segunda parte, centra em Sócrates e Platão a discussão sobre a "política como objetivação da mediação filosófica". Segundo Mazzeo, embora a noção de igualitarismo tenha marcado mais fortemente o pensamento grego, ela permeia o pensamento antigo anterior à filosofia, presente inclusive no pensamento mítico pré-filosófico. Já a noção de democracia surge mais tarde, na Grécia clássica. "Foi importante perceber que essas duas noções já surgem como reguladoras da desigualdade. A teoria do igualitarismo, no mundo arcaico, e a teoria da democracia mais tarde, no mundo clássico grego, só aparecem em função de profundas lutas sociais travadas no seio da pólis", explicou. Entender por que a burguesia irá se referenciar nessas noções é importante, porque ela também enfrenta os mesmos problemas nas lutas sociais que ocorrerão a partir do século 16. Ou seja, foi preciso regular uma "desigualdade real" cujo igualitarismo ideal era baseado em elementos abstratos e genéricos. De acordo com o autor, em geral, costuma-se identificar o surgimento do igualitarismo com a democracia. Mas essa imbricação só ocorre depois. E nessa primeira fase, que vai do século 6 a.C. ao século 5 a.C., a ideia do igualitarismo é central, mas colocada no plano filosófico. "Chamo esse período de pólis igualitária porque a noção de igualitarismo se coloca no plano de uma igualdade formal a partir do século 6 a.C. Com o nascimento da pólis clássica, surge também a democracia", destacou. Elemento "corruptor" Para o professor, essa noção de igualitarismo no plano formal e de desigualdade no plano real inspirou o pensamento de Sócrates e Platão. Com a eclosão da democracia, "a forma de trabalho baseada na escravidão desmonta o velho igualitarismo que era fundamentado na economia camponesa em que a escravidão já existia, mas não tinha o peso decisivo", disse. É nesse contexto, de surgimento da escravidão, que nasce a democracia ateniense. Ou seja, morre a velha estrutura arcaica e, portanto, morre o "velho igualitarismo". "O que Sócrates e Platão fazem é defender a velha estrutura igualitária e acusar a democracia de ser o elemento 'corruptor' da pólis ateniense. O que a democracia faz? Destrói o igualitarismo, na visão deles. Eu volto a eles porque vão fazer o embate com os sofistas que passam a expressar os valores democráticos", explicou Mazzeo. Para os sofistas, o importante era conhecer filosofia, mas sem vínculos com o espírito da pólis. Ao contrário de Sócrates e Platão, que defendiam que esse espírito regulasse as relações sociais e individuais, os sofistas diziam que as relações sociais são reguladas por leis que os homens constroem. "Para Sócrates e Platão, a democracia gera a degeneração do pensamento. Eu culmino com esse debate entre Sócrates, Platão e os sofistas", disse. "O que fica claro é que a República de Platão é inviabilizada pela impossibilidade de se fazer a política ética. Uma das teses do livro é que a política tem um elemento ontonegativo, ela é meramente formal, regula relações formais. E que a democracia no mundo antigo, conectada com a política, à medida que ela se restringe ao plano formal, também é ontonegativa. Essa foi a preocupação de Platão em fazer essa denúncia", disse. Mazzeo conta que a pesquisa representou um ganho subjetivo e outro intelectual. Segundo ele, mergulhar no pensamento grego antigo equivale a encontrar a base do pensamento ocidental, da ideia do método, do pensamento, da crítica social da filosofia sistematizada, da ideia de educação e da ética. "No plano da análise sociopolítica, tive a convicção de que só é possível pensar a burguesia, que nasce a partir do século 16, se tivermos clareza das conexões, não só políticas, mas também civilizatórias, do Ocidente antigo com o Ocidente moderno", afirmou

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