6 de out de 2009

Eles (ainda) não estão entre nós

Em setembro de 1959, foi publicada uma hipótese até então encarada apenas sob a capa confortável da ficção científica: a busca pela vida em outros planetas que não a Terra. Esse artigo científico pioneiro sugeria que, na falta de teorias consistentes que afirmassem o contrário, a vida extraterrestre é, sim, algo provável. Seus autores ainda iam além: para entrar em contato com tais seres, a captação de sinais de rádio do espaço seria a forma mais promissora.
Hoje, cinquenta anos depois do artigo escrito pelo físico italiano Giuseppe Cocconi (1914-2008) e o físico norte-americano Philip Morisson (1915-2005) – intitulado “Buscando comunicações interestelares” –, a pesquisa científica acerca da procura por vidas extraterrestres se sofisticou. Surgiram programas como o Seti (Search for Extra-Terrestrial Intelligence), nos Estados Unidos, dedicado exclusivamente ao desenvolvimento de pesquisas e atividades da astrobiologia. Engana-se, contudo, quem acha que desse artigo só vingou a hipótese básica. A forma sugerida pelos físicos para a busca de vida extraterrestre ainda é considerada uma das mais viáveis e baratas. “Surpreendentemente, até mesmo 50 anos depois do artigo, muitos experimentos do Seti ainda apostam nessa simples sugestão: apontar antenas para sistemas estelares e captar sinais de frequência próxima a 1420 Mhz”, comenta Seth Shostak, astrônomo sênior do Seti.
Além de as hipóteses sugeridas há cinco décadas continuarem basicamente as mesmas, os resultados, infelizmente, também não mudaram muito. “Ainda não encontramos qualquer evidência conclusiva de vida fora da Terra”, declara Shostak. “No entanto, há um número tão grande de planetas na nossa galáxia que é difícil imaginar que nós somos os únicos seres vivos do universo”, completa. A bióloga Claudia Lage, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do grupo de pesquisa AstroBio Brazil, concorda que não devemos estar sozinhos. E acrescenta: “Muitas descobertas inesperadas e imprevisíveis podem ser feitas durante esse tipo de investigação.”
Estados Unidos e Brasil As iniciativas para que esse cenário um tanto solitário finalmente mude são várias. O Seti começou a usar 42 antenas no norte da Califórnia (EUA) para examinar os campos de estrelas nas regiões mais centrais da galáxia; e a Universidade Harvard (também nos EUA) tem um telescópio de espelhos para procurar sinais de lasers de outros planetas. “Também há a missão Kepler, da Nasa, que vai nos dizer se outros planetas parecidos com a Terra são comuns ou raros, descoberta que vai ser extraordinária não importa qual seja o resultado”, arremata Shostak. Os Estados Unidos investem uma quantidade considerável de dinheiro em programas como o Seti. Mas o Brasil, por sua vez, não está no marco zero da pesquisa astrobiológica, embora ainda galgue seus primeiros passos nessa área. Lage afirma que recentemente começaram a surgir trabalhos de mestrado e doutorado sobre o tema e núcleos de pesquisa como o Laboratório de Astrobiologia (ExoLab), que será instalado no Observatório da USP em Valinhos (SP). “Os prognósticos são promissores”, diz. “O governo brasileiro, por intermédio das suas agências de fomento, tem reconhecido a importância dessas pesquisas, principalmente no que se refere ao potencial de aplicação tecnológica.” ET... Minha casa Mesmo que ainda não tenha sido captado nenhum sinal de vida alienígena, a curiosidade sobre possíveis extraterrestres permanece. Seriam os ETs de fato como pintam as histórias mais clichês – corpos humanoides, verdes, com antenas e extremamente inteligentes – ou é provável que sejam criaturas mais primitivas? “Não há dúvida de que vidas inteligentes fora da Terra vão diferir nos níveis de desenvolvimento”, explica Shostak. “Mas nós não receberemos sinais de mundos onde a vida é menos tecnicamente avançada do que a nossa. Então, se o Seti captar um sinal, as chances de ele ser de espécies muito mais sofisticadas são altas.”
Já Lage tem uma visão diferente sobre o assunto. Para ela, se já é sabido que seres menos complexos são mais adaptáveis a alterações ambientais, “é muito mais provável que encontremos formas mais simples de vida, como os microrganismos”. Dessa forma, a vida extraterrestre seria descoberta não por meio de sinais de rádio, mas por sondas, satélites ou outros tipos de imagens dos planetas. Com uma coisa, entretanto, os pesquisadores parecem concordar. O fato de ainda não ter sido encontrado ou detectado qualquer vestígio de vida extraterrestre não significa que ela não exista. “Há, sim, a possibilidade de detectarmos vida extraterrestre nos próximos 20 ou 10 anos”, sugere Lage. Isabela Fraga

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