26 de dez de 2009

Ponha um tigre em sua cama


O que as pessoas não fazem para chamar atenção. 


Richard & Mayumi Heene inventaram que haviam perdido o filho num balão; 


Tareq & Michaele Salahi entraram de penetras na Casa Branca; 


Susana Vieira mandou espalhar que espera encontrar um bebê na porta de casa antes do Natal (sério, está na capa da revista Quem).

Ainda sou mais Heróstrato, que, em busca de fama, ateou fogo ao templo de Ártemis, uma das sete maravilhas do mundo antigo, e não só concretizou seu desejo como emprestou seu nome ao complexo de que padecem os acima citados. 


Mas não o abaixo citado: Massimo Tartaglia. É o italiano que agrediu Silvio Berlusconi com uma estatueta, no domingo passado. Ele é de outra enfermaria, a mesma, aliás, daquele jornalista iraquiano que quase acertou uma sapatada no Bush, em dezembro de 2008. Nenhum dos dois sofre do complexo de Heróstrato, mas, provavelmente, do complexo de Ravachol, este, sim um anarquista terrorista; e até porque não foram movidos por motivo fútil, merecem a nossa compaixão. 


iger Woods não queria chamar atenção, muito pelo contrário, quando caía na esbórnia com moças de vida airada, escondido dos fãs e da mulher. Seu complexo, na avaliação de um jornalista americano, é o de Messias (por achar que pode tudo, que tudo lhe é permitido), embora o primeiro parâmetro que a todos ocorreu tenha sido mesmo o de Casanova. Detrás daquele mauricinho, daquele Dudu Nobre do taco, escondia-se um sátiro, um tigre permanentemente no cio.

O caso, ou melhor, o escândalo envolvendo Tiger Woods, a mulher e um vasto harém de mariposas midiáticas me impressionou um bocado. Não me interesso por golfe (quando ouço a palavra taco, a primeira imagem que me vem à cabeça é a iguaria mexicana) e só vi o campeão em movimento naqueles comerciais da Gillette, ao lado de Kaká, Thierry Henry e Roger Federer. 


Mas Woods transcende o golfe, como Pelé transcende o futebol, e a muvuca em que se meteu tem implicações que vão muito além do trivial sexualizado do submundo das celebridades. Seu götterdamerung foi um choque de repercussão mundial, um reality show conjugal e libertino de espantosa audiência. Nem se todas as mães solteiras do Rio depositassem um indesejado bebê na porta de sua casa Susana Vieira atrairia igual atenção da mídia. 


 Expoente, como Obama, da afirmação negra (e pouco importa que ele se identifique como "calibasian", mistura de afrodescendente com branco, índio e asiático), Woods venceu num esporte que era tão exclusivamente branco quanto o polo e nele se revelou o mais aplicado, perseverante, competente e bem-sucedido dos atletas. Seu triunfo foi um exemplo cabal de que a meritocracia não é uma quimera. Primeiro esportista a bater, em faturamento publicitário, a barreira do U$ 1 bilhão, Woods é uma máquina de fazer dinheiro. 


Ou era até a madrugada de 27 de novembro, quando bateu com seu utilitário Cadillac num hidrante e numa árvore, perto de onde mora, nas cercanias de Orlando, na Flórida. Se tivesse contado toda a verdade à polícia e aos repórteres - que sua mulher, Ellin, num acesso de ciúmes, o agredira com um taco de golfe, forçando-o a fugir de casa às carreiras e às tontas, que o vidro do carro não fora por ela estilhaçado para tentar retirá-lo do carro acidentado e sim para acertar-lhe a cabeça - e se confessado arrependido das chifradas na mulher, os alcoviteiros da imprensa não teriam um monturo para ciscar. 


Woods fez tudo errado. Envolveu-se com autênticas chaves de cadeia, duas delas, pelo menos, atrizes de cinema pornô e eventualmente boquirrotas e chantagistas, mas, ao contrário do Ronaldo, nenhum travesti; revelou-se, ao longo da crise, pouco perspicaz, além de fraco, descontrolado, exibicionista e mentiroso; desiludiu a mulher, os fãs e, o pior de tudo, os seus patrocinadores. Porque cometeu algo bem mais grave do que fumar maconha, por exemplo, como fez Michael Phelps, seus contratos milionários com numerosos produtos começaram a ser revistos e cancelados. A Gillette saiu na frente, sábado passado. 


No domingo, foi a vez da multinacional de consultoria de gestão Accenture, a perda maior (só em 2008 ela investiu US$ 50 milhões em publicidade, 83% desse montante em anúncios com o golfista, seu garoto-propaganda havia seis anos). A Nike prometeu estudar a situação com mais vagar, mas até quando? Não agiram essas marcas com base em restrições de ordem moral, apenas por razões econômicas; puro business, como bem observou James Surowiecki, na New Yorker desta semana. O capital não sabe o que é santimônia. 


Todas as mensagens explícitas e subliminares veiculadas pelos anúncios estrelados por Woods dependiam da imagem pública do atleta, visto como um modelo de disciplina, autocontrole, obstinação, retitude e perceptividade, o homem alfa, o pai de família perfeito. Ao conflitar com essa imagem, o garoto-propaganda perdeu todas as suas bolas de gude, virou chacota de programas humorísticos, que se fartaram de gozar os slogans e bordões dos comerciais e outdoors protagonizados pelo golfista e fazer brincadeiras com o nome dele (coisas do tipo "pegaram o tigre pelo rabo") e os vocábulos golfísticos mais expostos ao double entendre, como taco, bola e buraco. 


O escândalo Woods, um vendaval no golfe, no universo corporativo, no mundo da propaganda e nas redes de televisão (caiu pela metade a audiência das transmissões dos torneios de que Woods não participou, no ano passado, porque convalescia de uma cirurgia no joelho), estendeu seus danos a outras celebridades esportivas, ameaçando-lhes o futuro como modelos publicitários. "Eles são imprevisíveis", queixou-se o consultor de uma agência com várias contas de material esportivo e refrigerantes, "e quase sempre irresponsáveis e incontroláveis." Ninguém ousa prever o futuro de Woods. Que até pode ser cor-de-rosa, com novos contratos publicitários. Ele daria um garoto-propaganda perfeito para o Viagra. Ponha um tigre em sua cama. 
Sérgio Augusto

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