28 de fev de 2010

Os últimos primeiros

Na sociedade contemporânea é considerado o mais inteligente, equivocadamente o mais sábio, quem sabe enfrentar desafios de forma a vencê-los com o menor desgaste e a obter para si poder, dinheiro e honras. Não interessa se já está cheio disso. O homem é um insaciável sumidouro de vaidades que se alimenta de admiração, mais frequentemente da inveja, que consegue provocar. A satisfação para muitos está no fato de os outros saberem que ele conseguiu o que os demais gostariam de conseguir. Dessa forma, a conquista passa a ter valor não em si mesma, mas na reação que provoca em volta e se reflete em quem a emana. É comum ouvir a expressão carregada de (vã) satisfação: "Ficaram de boca aberta" ou "com água na boca". Afinal, a realização não foi perseguida dentro do autor na forma de paz, cessação de inquietude, elevação espiritual, iluminação, êxtase e outros estados identificáveis com a felicidade interior; concentrou-se mesmo no tamanho da reação de sentidos desmedidos, alheios, muitas vezes de emanações cavernosas do humor. Segundo um tibetano, "A qualidade da sabedoria sempre foi e ainda será durante muito tempo negada a quem busca a riqueza com o propósito de usá-la para satisfazer vaidades e ganhos materiais". Os adoradores do ouro não conseguem compreender esse teorema tibetano e qualificam como sonhos de loucos os esforços de elevação que se realizam em silêncio e perfumadamente como o desabrochar de uma flor. Ao jovem, o pai ensina e a sociedade impõe, como procedimento exemplar, agir para tirar vantagem visando acumular riqueza exterior - pouco interessa se transgredindo a consciência. O ser humano que ingenuamente manifesta de público o desejo de perseguir apenas um enriquecimento espiritual levanta desconfianças, é barrado nos ambientes "tradicionais", é menosprezado, com frequência expulso como mau exemplo pela própria família quando não é considerado clinicamente maluco. Na sociedade não encontra espaço nem tranquilidade. Precisa ficar quieto, por vez subir a montanha ou se refugiar num claustro para não acabar marginalizado como mau exemplo ou preso no meio de desajustados. Os vencedores da atualidade acabam sendo os mais fortes e astutos como no reino animal. São aqueles que fazem do semelhante um alimento ou lenha para ser queimada na fogueira de vaidades abjetas. Para esses mitos modernos, depredar a natureza, canibalizar o próprio semelhante, rasgar a ética são regras de um jogo para conquistar um patrimônio material do qual forçosamente terão que se separar. Os outros, considerados malucos, voltados para a riqueza interior e para a sabedoria, dotes que não se separarão de suas almas, devem se contentar, como revelou o Mestre, em ser considerados os últimos para merecer, em outro reino, ser os primeiros. Vittorio Medioli

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