28 de mar de 2010

O passado assombra o papa

Ao papa Bento XVI atribui-se o mérito de ter tomado providências para combater a pedofilia na Igreja Católica, tendo feito mais do que João Paulo II. O atual pontífice já pediu desculpas às vítimas de abusos sexuais cometidos por padres em sua visita aos Estados Unidos, em 2008, e sua orientação é que os membros da Igreja devem ouvir as denúncias das vítimas e transmiti-las ao Vaticano.
À direita, o padre pedófilo Lawrence Murphy (o primeiro à esquerda) em cerimônia com garotos surdos, em Wisconsin, em 1960. Ele enviou cartas arrependidas ao então cardeal Ratzinger
Há duas semanas, em uma carta aos católicos da Irlanda, o papa pediu desculpas pelo sofrimento de dezenas de milhares de pessoas que, segundo um extenso relatório, foram agredidas física ou sexualmente por membros da Igreja. Na quarta-feira passada, o Vaticano aceitou a renúncia do bispo irlandês John Magee, acusado de ter acobertado alguns desses casos. Pedir desculpas pelas monstruosidades cometidas por seus representantes no passado e evitar que mais crianças sejam vitimadas, contudo, não tem sido suficiente para aplacar a revolta de muitos fiéis diante dos indícios de que o próprio Joseph Ratzinger, antes de se tornar papa, em mais de uma ocasião foi condescendente com padres pedófilos. Duas revelações recentes reforçam essa suspeita. A primeira veio a público neste mês quando uma arquidiocese da região da Bavária, na Alemanha, suspendeu um padre que descumpriu a ordem de não trabalhar com crianças. O motivo da proibição: seu notório histórico de molestador. Em 1979, por exemplo, o padre Peter Hullerman embebedou um garoto de 11 anos e depois o obrigou a fazer sexo oral. Para abafar o escândalo, Hullerman foi transferido no ano seguinte para a arquidiocese de Munique, então comandada por ninguém menos que Joseph Ratzinger. Na semana passada, a imprensa da Alemanha e dos Estados Unidos confirmou a existência de um documento interno da arquidiocese que indica que Ratzinger não só aprovou a chegada do clérigo como foi informado de seu passado. Nos anos que se seguiram, Hullerman foi sucessivamente transferido de uma paróquia para outra e voltou a abusar de crianças, a última vez em 1998. A revelação que mais se aproxima da barra da batina do papa, no entanto, foi feita na semana passada pelo New York Times. Segundo documentos publicados pelo jornal americano, entre 1996 e 1998 a Congregação para a Doutrina da Fé - o órgão do Vaticano que, comandado por Ratzinger, era responsável, entre outras coisas, por apurar os desvios sexuais dos clérigos - recebeu o alerta de bispos dos Estados Unidos de que era necessário tomar alguma providência em relação aos crimes do padre Lawrence Murphy. Durante 24 anos, ele abusou de 200 meninos surdos no estado de Wisconsin. Um dos bispos enviou duas cartas a Ratzinger para tratar do caso, mas não obteve resposta. O próprio Murphy escreveu ao futuro papa demonstrando arrependimento e pedindo para não ser punido. Ratzinger também não respondeu às cartas do pedófilo. Pouco depois, contudo, seu assistente na congregação, o cardeal Tarcisio Bertone, mandou suspender o processo interno que a arquidiocese havia iniciado nos Estados Unidos. Murphy morreu em 1998, sem nunca ter deixado de exercer suas funções clericais. "Isso prova que, para o Vaticano, defender os próprios interesses é mais importante do que mitigar o sofrimento das vítimas", disse a VEJA o advogado americano Mike Finnegan, representante de cinco homens surdos que, na infância, sofreram abusos do padre Murphy. Foi Finnegan quem entregou os documentos sobre o caso à imprensa americana. A suspeita de que Ratzinger participou diretamente na proteção de padres pedófilos e, portanto, deixou de evitar que outras crianças sofressem, se confirmada, dificilmente levará à renúncia do papa, como já pediram alguns teólogos alemães. Os defensores de Bento XVI lembram que outros papas sobreviveram a escândalos maiores. No século XV, por exemplo, o papa Alexandre VI não só se meteu em conspirações políticas como teve inúmeras amantes e filhos. Mas os tempos são outros, e o Vaticano está sendo pressionado, inclusive pelo governo alemão, a ser ao menos mais transparente em relação aos crimes cometidos sob a batina, tanto atualmente como no passado. Afinal, muitos dos padres acusados de pedofilia há algumas décadas continuam na ativa. Entre 2001, quando o Vaticano adotou um novo protocolo para tratar internamente desses casos, e 2010, a Congregação para a Doutrina da Fé recebeu 3 000 denúncias de abusos sexuais contra padres. Apenas 10% deles foram punidos com a expulsão da Igreja e outros 10% saíram por iniciativa própria. Pode-se argumentar que o restante era inocente. O problema é que esses julgamentos são secretos e a Igreja não leva os suspeitos espontaneamente à Justiça comum. "Uma das razões pelas quais a Igreja insiste em não tornar esses casos públicos é financeira: o Vaticano é rico, mas não pode rasgar dinheiro, porque tem muitos compromissos a honrar mundo afora", disse Brian Daley, professor de história do cristianismo da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos. Só a Igreja americana já pagou mais de 2,5 bilhões de dólares em indenização a vítimas e em outros custos relacionados a escândalos sexuais. O fim do celibato como uma maneira de diminuir os desvios comportamentais dos religiosos é uma discussão proibida na hierarquia católica. O celibato tem raízes profundas na história do catolicismo, e o Vaticano simplesmente se recusa a considerar seu fim, mesmo como hipótese. Entende-se. Espera-se, porém, que a Igreja passe a tratar a pedofilia de padres não apenas como um pecado contra Deus, mas como um grave crime contra a humanidade. Diogo Schelp - Revista Veja

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