27 de dez de 2011

Dois neurônios

Uma troca de ideias entre o neurocientista Miguel Nicolelis e o psicanalista Contardo Calligaris marcou a abertura das comemorações dos 25 anos da revista Trip e dos cinco anos do Prêmio Trip Transformadores. 

A partir do tema “Evolução: como estaremos em 25 anos”, os dois conversaram por cerca de duas horas no último dia 24 de outubro, em São Paulo, na presença de mais de 200 convidados – que também puderam participar do batepapo, fazendo perguntas e comentários. A ideia era debater o futuro próximo do homem a partir de duas visões distintas, com duas mentes reconhecidamente brilhantes em seus respectivos campos.

Um dos homenageados do Trip Transformadores deste ano, Miguel Nicolelis está à frente, seja na Universidade de Duke (EUA) ou no Instituto de Neurociências de Natal (RN), de algumas das pesquisas mais avançadas do mundo relacionadas à nossa capacidade cerebral – incluindo interfaces entre homem e máquina que poderão reabilitar pacientes com paralisias. Já o psicanalista e escritor italiano Contardo Calligaris, colunista da Folha de S.Paulo, firmou-se como referência nacional na espinhosa tarefa de interpretar as emoções e as relações humanas.

A fluência da interação entre os dois foi estimulada pelo mediador Ricardo Guimarães, presidente da Thymus Branding, colunista da Trip e uma das vozes mais significativas que orbitam no universo desta revista há mais de uma década. Como você verá a seguir na edição dos principais momentos da conversa, rolou uma química entre o neurocientista e o psicólogo, entre o homem do cérebro e o da consciência.

O cérebro funciona em rede
[Nicolelis] Mesmo pilares da nossa organização política e social estão sendo questionados. 

E aí vem uma provocação: estão sendo questionados na direção de modelos organizacionais que lembram como o cérebro da gente funciona. 

Por exemplo, esse movimento sem hierarquia de ocupar Wall Street, lá não tem um líder que comanda o comportamento. Você tem um processamento distribuído, em que a representação dos indivíduos não se dá mais por intermediários, é quase representação direta.

Isso lembra muito o modo como funciona um circuito neural, em que não há um neurônio chefe, que determina o comportamento dos outros. Tudo é uma propriedade emergente, tudo emerge de um grupo. A grande maioria dos fenômenos naturais, inclusive os que emergem do nosso cérebro, é propriedade emergente, que surge da interação, é imprevisível. Depende de interações não lineares de muitos elementos.

É isso que está acontecendo mundo afora. Quando você vai a Madri e pergunta aos jovens por que eles estão na praça e quem é o líder deles, eles respondem: “Não temos líder, aliás nem sabemos bem por que estamos aqui, mas não queremos o que está aí, só não sabemos o que pôr no lugar”. Esse questionamento está acontecendo em todo o mundo e é algo imprevisível, não sabemos o que vai emergir disso.

Cultura imediatista
[Calligaris] “Não acho que vivamos numa época imediatista. Não acho os jovens especialmente imediatistas. Faz parte daquelas críticas frequentes ao mundo atual. No que diz respeito ao hedonismo, hoje somos uma civilização muito oposta aos prazeres, longe do que eram culturas hedonistas. Com o imediatismo ocorre algo parecido. Parece necessário lembrar aos pais que a gente vive no presente, e lembrar inclusive a nós mesmos. Estamos inseridos numa tradição cristã na qual a vida é uma prova. A recompensa virá se você merecer, mas só no fim dos tempos.

Somos uma cultura constantemente preocupada com quais serão as consequências futuras dos nossos atos. Então eu não identifico o imediatismo como um problema, pelo menos nos jovens que eu vejo. Mesmo os jovens que fumam, bebem, se drogam, acho eles extremamente prudentes, e acho ótimo que seja assim.

“Muitos pais se esquecem de que os adolescentes estão vivendo agora, não podemos considerá-los só como promessas de um futuro”

O que dizer aos jovens?
[Calligaris] “Fui por muito tempo terapeuta de adolescentes, então lidei muito com adolescentes e pais de adolescentes, mais ou menos desesperados. Nós adultos não paramos de pensar na adolescência como um longo tempo de formação, de pensar no futuro etc. Isso é ótimo, mas chegou um ponto em que muitos pais se esquecem de que os adolescentes estão vivendo agora, não podemos considerá-los só como promessas de um futuro.

É pesado, mas pergunto aos pais de adolescentes obcecados com isso de preparar os filhos para o futuro: “Deus não queira, mas, se o seu filho morresse hoje, você poderia dizer que fez o necessário para que a vida dele até aqui tenha valido a pena, independentemente da promessa com a qual você o sobrecarregava?” Essa questão deve estar conosco o tempo inteiro.
[Nicolelis] “O que eu diria para eles é muito simples: “Seja feliz, acredite no seu taco, namore muito. E seja palmeirense”, porque a vida não pode ser só prazeres, né? A dor também nos conduz. [risos]

Homem X Computador
[Nicolelis] O amor, a paixão, para nós cientistas é um fenômeno não computável. Ou seja, não existe forma de você reduzir minha paixão por uma pessoa num algoritmo de computador e graduar a valência, intensidade ou mesmo descrever computacionalmente o que isso é. Estamos à procura de explicações biológicas de como o cérebro funciona, mas temos uma barreira que até agora ninguém conseguiu nem teoricamente cruzar. A maior gama de fenômenos humanos, as emoções, são fenômenos não computáveis. O que é ótimo, porque alguma coisa tem que ser segredo, não?

Um computador pode reproduzir uma minoria dos fenômenos naturais e mesmo dos processos industriais. Tem esse movimento da singularidade, que virou religião nos Estados Unidos, que diz que, em algumas décadas, seremos superados pelas máquinas. Mas ninguém diz como essa máquina pintaria o teto da Capela Sistina ou comporia uma sinfonia como Mozart ou faria um gol como Ademir da Guia.

Os caras que vendem isso estão vendendo uma ideologia de que o ser humano é substituível. Muita gente desmerecendo o que temos de mais precioso, a natureza humana, que é não computável, não reproduzível e única. Cada um de nós tem uma existência única no universo. Então, em vez de valorizar o que temos de mais precioso, estamos sucumbindo à propaganda de que somos substituíveis.”

Amor nos tempos modernos
[Calligaris] “Os últimos 20 anos produziram mudanças comportamentais extraordinárias. A internet mudou o comportamento amoroso sexual das pessoas de uma maneira absolutamente impressionante. 

Para alguém que começou a clinicar nos anos 70, é impressionante o progresso. Naquela época, se alguém tinha uma fantasia sexual minimamente torta, achavam que era um monstro, a única pessoa no mundo daquele jeito. 

Hoje a mesma pessoa com uma fantasia sexual muito mais complexa e torta sabe que mundo afora há grupos de centenas de pessoas que sentem como ele, e ele pode se comunicar etc. Provavelmente há muitos mais pedófilos que conseguem se conter graças à possibilidade de se expressar online do que havia antes. Isso sem contar a possibilidade do encontro que a internet produziu. O número de pessoas de 60 ou 70 anos que conseguem encontrar um parceiro ou parceira é incrível, não existia antes dos anos 2000.”

O sentido da vida
[Calligaris] “A ideia de que vida seja um valor absoluto é um conceito, uma ideologia completamente recente, higienista, provavelmente do século 19. Só hoje que você pergunta para as pessoas o que é mais importante e elas respondem ‘saúde’. Um homem do século 17 diria ‘honra’. Se perguntasse a ele se morreria pela honra, a resposta seria afirmativa. Considerar que viver vale a pena a qualquer preço é uma ideia moderna, contemporânea, nem sei quanto tempo ela vai durar.”

[Nicolelis] “Tem duas coisas universais na nossa espécie: a música e a necessidade de ter uma história de como tudo começou. Os pigmeus acreditam que veio uma corda do céu e foram descendo pigmeus pela corda. Essa é a história da criação para eles. Cada um acredita numa mitologia. A música é o segundo fator que é inerente, aparentemente, a qualquer grupo de humanos, mesmo tendo vivido isolado em ilhas. Eu gosto de fantasiar que essas duas coisas de alguma forma estão relacionadas, que existe correlação na necessidade de contar uma história e de expressar suas emoções, sua vida, em tons musicais.”
“Mandamos as correntes dos neurônios para um alto-falante e surgiu uma sinfonia que ninguém jamais ouviu”

Sinfonia do cérebro
[Nicolelis] “A música teve um sentido muito importante na minha carreira. A primeira grande descoberta de que eu participei, a primeira vez que a gente registrou a atividade de cem células cerebrais ao mesmo tempo, não dava pra ver, não tinha computador para isso, mas a gente ouviu. Mandamos as correntes elétricas dos neurônios de um macaco para um alto-falante e ligamos. De repente surgiu uma sinfonia que ninguém jamais tinha ouvido. Foi o momento mais singular da minha carreira científica virar aquele botão e ouvir um cérebro, que estava na minha frente, acordado, olhando pra mim e tocando. Esse cérebro era de uma primata, minha grande Aurora, com quem eu passei mais tempo do que com meus três filhos.

Ela ia mover a mão, olhando para um objeto, mas a sinfonia do cérebro de ela me disse para onde ela ia mover a mão e a que velocidade, antes de ela começar o movimento, olhando pra mim. Ouvi o cérebro dela antes de ela realizar o movimento. Naquele milissegundo eu sabia para onde ela ia mover a mão. Foi o grande insight da minha carreira. E todo mundo em volta também viu e percebeu. E, apesar de ser um som que nenhum de nós conhecia, todo mundo sabia o que significava.”

O caos da evolução
[Nicolelis] “Imagine a vida da nossa espécie ou de qualquer um de nós como uma fita cassete. Se você rebobinasse essa fita até o começo da evolução da nossa espécie e soltasse a fita de novo, certamente nada do que aconteceu ia acontecer de novo. A chance de o processo evolutivo produzir a mesma sequência de eventos que nos traria nesta noite aqui é zero. Cada um de nós é uma epopeia, um romance único, um épico que jamais se repetirá.”

Libertação do cérebro
[Nicolelis] “Estamos testemunhando o começo da libertação do nosso cérebro dos limites físicos do nosso corpo. Nossa ação mental certamente não vai ser limitada pelo limite físico. O limite do nosso senso de ser não vai ser mais a última camada de epitélio. Num laboratório de experimentação de neurociência, eu posso te dar a sensação de que você está caminhando num ambiente em outro corpo, real ou virtual. E você em 5 min vai ter a sensação de que aquele corpo é o seu, não o seu real. Essa é uma ilusão visual-tátil que foi descoberta recentemente, uma ilusão que pode ser simulada muito facilmente e que demonstra quão frágil, dinâmica e fluida é essa associação com nosso corpo, apesar de termos tanta segurança de assumir que esse corpo é o nosso eu.”

Download de memória humana
[Nicolelis] “A natureza é muito pródiga em achar soluções ótimas para problemas. Mas ela tem um raro momento de desperdício. Quando cada um de nós expira, vai com a gente a narrativa desse épico único que foi nossa vida. Não há como, nem escrevendo uma autobiografia, deixar um relato fidedigno do que foi essa experiência única, emoções únicas, a vivência única. Essas percepções não são relatadas no fim da nossa vida.

Um dos meus grandes sonhos de futuro, mas num distante futuro, é que, ao término das nossas vidas, pudéssemos deixar como legado um registro eletroencefalográfico da nossa experiência, para que gerações futuras ou espécies que sigam a nossa pudessem colocar isso no iPod deles e entender precisamente o que foi a experiência humana, ouvindo a experiência de uma vida ou de muitas vidas humanas relatadas sem os filtros de linguagem, os filtros naturais que cada um de nós impõe para contar os aspectos da sua vida. Seria um enorme legado para o universo da nossa espécie. É capaz de acontecer, é tecnologicamente possível de conceber que daqui a alguns milhares de anos isso seja possível.”

O que é a felicidade
[Calligaris] “Eu não me interesso pela felicidade. Fiz essa opção muito tempo atrás. Se eu quisesse ser feliz, teria tomado as providências necessárias e estaria injetando heroína duas vezes ao dia, de manhã e à noite. Minha vida se encurtaria, mas isso não teria grande importância para mim. Eu seria propriamente feliz. Por ter trabalhado com heroinômanos que usam heroína injetável, garanto que eles são felizes. Digo isso de maneira um pouco irônica porque a indústria farmacêutica se apoderou desse conceito. Está vendendo falsas pílulas da felicidade, enquanto a única que funciona é a heroína, que ela não vende. Ainda [risos].

O que me interessa sim, muito, é ter uma vida interessante. Uma vida interessante inclui viver plenamente um monte de momentos infelizes. Nos anos 90 eu estava nos Estados Unidos, atendia lá. Foi quando saiu o primeiro grande livro sobre o Prozac. E você recebia pedidos bizarros! Tipo: ‘Meu pai foi diagnosticado com câncer. Ele tem dois anos para viver. Não estaria na hora de eu começar a tomar Prozac? Porque eu não quero ter esse negócio de luto quando ele morrer’.

“Se ser feliz é renunciar à variedade das experiências altas e baixas, então não quero ser feliz”

Eu acho que não. Quando o pai da gente morre, a gente tem que sofrer, isso significa viver plenamente e de maneira interessante. Eu não quero renunciar a essa experiência, até porque só vou tê-la uma vez. Se ser feliz é renunciar à variedade das experiências altas e baixas, que incluem sofrimentos, quando se perde um ente querido, alguém me deixa ou meu filho está doente, então não quero ser feliz.

A incapacidade dos adultos de tolerarem que um menino de 5, 6 ou 7 anos possa ser triste é um negócio assombroso e que produziu e produz um uso abusivo de medicação psiquiátrica contra a criança. Pensar “meu filho tem que ser feliz e portanto quando está triste eu o levo ao psiquiatra e forço o psiquiatra a lhe dar um remédio para o qual nem estava previsto o uso pediátrico, nem foi usado e experimentado para o uso pediátrico, sem ter ideia dos efeitos que vai ter”, eu acho isso um horror.”

[Nicolelis] “A felicidade pra mim é criar uma razão pela qual você quer acordar de manhã, sair da cama, enfrentar todo o rol de absurdos que temos que enfrentar para sobreviver, para continuar fazendo o que a gente faz.

A primeira missão do nosso sistema educacional deveria ser libertar a felicidade interior de nossas crianças. Possibilitar que essas crianças se sintam capacitadas e livres pra exercer sua imaginação, seu poder criativo e seu poder transformador da sociedade, ou seja, ‘eu sim posso mudar o mundo’. Isso devia ser a primeira pauta, meta, de qualquer sistema educacional. Não fazer prova, vestibular, avaliar, medir quantas vezes eu consigo reproduzir os bytes que meu professor colocou para mim, e na prova eu vomito tudo que ele falou de volta como sendo verdade.

A felicidade é a libertação do intelecto individual e coletivo em buscar a crença de que nessa passagem curta por esse mundo nós somos sim capazes de tomar o destino das nossas vidas nas nossas mãos e transformar o mundo. Para mim é essa definição de felicidade.”

O futuro será melhor
[Calligaris] “O mundo de hoje é muito melhor do que o mundo de 25 anos atrás. De muitos pontos de vista, quase todos. Então, talvez a gente possa contar com o fato de que o mundo daqui a 25 anos será melhor do que o mundo de hoje.”

[Nicolelis] “Apesar de todos os nossos preconceitos, vícios e pequenos desvios tropicais, acredito que o mundo vai ser melhor. E um mundo melhor curiosamente tem uma grande chance de emergir daqui [do Brasil], um lugar que, há 25 anos, a gente não acreditava que ia ser a grande esperança da humanidade. Eu literalmente acredito que abaixo do equador existe muita coisa que vai mudar o mundo nos próximos 25 anos.”

Rodrigo Vergara e Tatiana Achcar- Revista Trip

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...