10 de jun de 2012

Traição, ciúme e morte


Apenas o rótulo de crime passional não é suficiente para explicar o assassinato e esquartejamento do executivo Marcos Matsunaga por sua mulher, Elize

Não havia sangue nas paredes, quarto desarrumado, nem arma jogada no chão. Nada lembrava um crime passional comum em que a pessoa, tomada por ciúme, atira contra o parceiro num rompante. O que chocou a todos no assassinato do executivo da Yoki Marcos Kitano Matsunaga, 42 anos, foi a crueldade metódica da autora do homicídio, a bacharel em direito Elize Ramos Matsunaga, 38, sua mulher. Após atirar na cabeça do marido durante uma briga no sábado 19 de maio – ao questioná-lo sobre traições –, ela teve a frieza necessária para, passadas dez horas da morte, limpar os resquícios de sangue, desmembrar cuidadosamente o corpo, colocar as partes em malas e despejá-las em uma estrada a mais de 40 km do local do assassinato. Como enquadrar o esquartejamento, um ato meticuloso, em um crime passional, no qual a emoção está no comando?

“O gesto tem um significado mais profundo que vai além da questão prática de se ocultar o cadáver”, diz o psiquatra forense Miguel Chalub, professor das universidades Federal (UFRJ) e Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). “O autor do crime pensa: aquele corpo que não quis ser meu não será de mais ninguém. O assassino sente a necessidade de degredar o corpo da vítima.” Elize confessou o homicídio na semana passada depois de ser confrontada com evidências de autoria do crime. Imagens do circuito interno do prédio onde morava com Matsunaga e a filha de I ano mostravam que o executivo não havia deixado seu apartamento desde a noite do sábado. Elize, por sua vez, aparece saindo de casa no domingo pela manhã com três malas e voltando à noite sem elas. A polícia rastreou ainda seu celular e há registros de que o aparelho esteve na região onde o corpo foi desovado.

Elize contou à polícia que atirou no marido, na cobertura de 500 m2 onde viviam com uma pistola 380 que o executivo, colecionador de armas, havia lhe dado de presente. Ela disse ter sido agredida com uma tapa durante a discussão em que confrontou Matsunaga com evidências sobre o adultério providenciadas por um detetive particular. Para esquartejá-lo, usou os conhecimentos adquiridos em um curso de enfermagem e na atuação em uma clínica cirúrgica. Uma babá cuidava da filha de 1 ano em um dos cômodos da casa enquanto, por quatro horas, ela desmembrava o corpo com uma faca com lâmina de 30 cm. “Ela viveu dois tempos distintos. Primeiro cometeu o crime por motivação passional, depois se viu diante de um problema – o de ocultar o cadáver. E para isso teve tempo suficiente a fim de planejar esse segundo ato”, analisa o psiquiatra forense Talvane Marin de Moraes. Após o desaparecimento do marido, Elize ainda tentou levar uma vida normal. Cinco dias depois, comprou bolsas Louis Vuitton com o cartão da vítima no Shopping Iguatemi. No período entre o desaparecimento de Matsunaga e a constatação da sua morte, o irmão do executivo recebeu uma mensagem do e-mail dele dizendo estar bem. Ainda não se sabe se foi enviada por Elize.

O casal estava junto havia dois anos. Casaram-se na Igreja Anglicana em São Paulo, onde também batizaram a filha, e costumavam comparecer aos cultos dominicais. Também iam ao sítio da família em Ibiúna, no interior. Pai de outra menina do primeiro casamento, Matsunaga fazia o tipo discreto e poucas pessoas sabiam que ele era neto do fundador de uma das maiores empresas alimentícias do Brasil, envolvida em fusão de quase R$ 2 bilhões com a gigante americana General Mills. “Eles frequentavam uma capela da Vila Brazilândia, uma comunidade carente, onde ajudavam a nossa creche e era comum levarem presentes para as crianças”, afirma o reverendo Aldo Quintão, líder da Catedral Anglicana. A família de Elize, que é do Paraná, está muito abalada. O advogado contratado pelos parentes, Auro de Almeida Garcia, afirmou que não havia notícias de desentendimentos entre o casal e que a família pretende pedir a guarda do bebê. 

Os Matsunaga estão estarrecidos. “Todos ficaram chocados com as circunstâncias do crime e com o fato de ser Elize a autora, já que ela tinha uma boa relação com a família”, afirma o advogado Luiz Flávio Borges D’Urso. À polícia, a acusada não falou em arrependimento, apesar de ter chorado em alguns momentos. “Ela não demonstrou nenhum tipo de indignação ou emoção no momento da prisão”, disse o delegado Jorge Carrasco, diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil paulista. A prisão dela foi prorrogada por mais 15 dias, tempo em que a polícia investigará se tudo o que Elize narrou está de acordo com as provas periciais e se alguma outra pessoa a ajudou, principalmente no momento de se livrar do corpo de Matsunaga.

Natália Martino e Flávio Costa

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