12 de mar de 2013

O corpo e os sonhos

Linda Vachon
O escritor argentino Jorge Luis Borges tem um conto sobre um homem que desejava ter um filho. O homem começou a sua criação sonhando este filho parte a parte, por um período de muitas noites. Ao terminar, ele rezou para que o deus do fogo conferisse vida ao filho sonhado. O conto termina quando o sonhador descobre que ele próprio, assim como a sua criação, é também uma criação de algum sonhador.

O conto de Borges nos proporciona insight sobre o papel do sonho no processo pelo qual o corpo forma imagens. Os sonhos formam imagens e lhes dão seqüência em uma narrativa. 


O processo de sonhar conecta o corpo que nós somos com o corpo que nós estamos nos tornando. Os sonhos são uma maneira de o corpo manter uma relação continuada entre, de um lado, o corpo herdado e seu cérebro profundo e, de outro, o corpo pessoal do córtex ou cérebro novo. Os sonhos são, então, parte da realidade da vida do corpo.

Os sonhos mostram aquilo que está se formando mas ainda não está totalmente realizado. Ao crescer e formar sua identidade somática, o corpo fala consigo mesmo em muitas linguagens. Uma delas é o sonho. O corpo enquanto processo está sempre formando imagens e sonhando a sua próxima forma e como encarná-la. Borges, o sonhador, representa a nós todos, sonhando os corpos que nós somos e os corpos que nós seremos.
O seu conto também nos fala de experiência interna, de como sonho e estado de vigília são os dois lados do processo de corpar. Sonhar e a nossa capacidade de acessar o sonhar demonstram a relação que nós temos com nós mesmos. Desta maneira aprendemos sobre a diferença e a semelhança entre o self noturno e o self diurno, aprendemos como o desejo e a imagem estão interconectados.


Há uma continuidade entre o processo do corpo e a imagem do sonho. O corpo inconsciente apela para o córtex em busca de imagens de si mesmo. O cérebro acordado apela para o seu próprio corpo para animar suas imagens. Em Borges, o sonhador ao desejar um companheiro escreve não somente sobre um filho literal, mas sobre um irmão/filho interno. O seu tema faz um paralelo com a história cristã da ressurreição - Deus envia seu filho - e também um paralelo com a história de Golem dos hebreus - o gerar de um ser à semelhança da criatura humana. O tema da auto-geração a partir de si mesmo é também parte da teoria da complexidade - o pensamento mais recente sobre a teoria da evolução.


Estas histórias têm um tema em comum: a relação entre o córtex volitivo da vigília e os centros reflexo e emocional do cérebro. O cérebro faz uma imagem do corpo e depois pede ao corpo que a anime. O conto de Borges aprofunda o tema da participação humana na elaboração das formas da nossa existência, da juventude à idade adulta, à maturidade, à velhice.


Podemos aprender com os sonhos porque podemos reorganizar significado e associação, bem como influenciar a nossa estrutura somático-emocional. Os sonhos possuem uma matriz emocional. Os personagens e objetos do sonho estão embutidos nesta matriz. Apesar de nós tentarmos decodificar as imagens e representações do sonho, nós não aprendemos a vivenciá-las como um ambiente interno ou a vê-las como expressões de um estado corporal. Sonhos são parte do mistério da sabedoria somática, parte do processo do soma tornar-se ciente de si mesmo, de ter uma subjetividade. À medida em que o corpo faz crescer sua própria subjetividade, o córtex forma imagens e expressões motoras que correspondam a esta subjetividade. Quando o corpo sonha, ele usa a habilidade cortical do soma de figurar ou futurizar, para influenciar a sua maneira de estar presente.


Dois aspectos do nosso processo corporal, o herdado e o socialmente vivenciado, organizam e formam um domínio subjetivo intermediário. Esta relação complexa gera uma forma viva em si, influenciando as formas externa e interna. A nossa vida corporal é o seu próprio sujeito; o vivenciar da própria experiência torna-a uma experiência pessoal. O nosso corpo é o sujeito do seu próprio viver, o corpo é a fonte e a referência do viver. O corpo enquanto processo tem uma relação essencial consigo mesmo. Sonhar é ser íntimo de si mesmo.


As imagens do sonho são como fotos momentâneas de um continuum incessante, porém não-linear, de formas corporais, de expressões, de sentimentos e gestos. O cérebro profundo herdado continuamente tatua sua imagem no córtex cerebral receptivo e dinâmico. Assim como a pele, sua parente próxima, o cérebro também recebe e absorve padrões corporais. As pulsações corporais, o sonho sendo uma delas, aprofundam a relação do corpo consigo mesmo via osmose e influências volitivas. Desta maneira, as pulsações dão forma à identidade pessoal.


O sonho é a atividade somática falando sobre si mesma enquanto se prepara para o mundo da vigília. O corpo instintivo e as formas somáticas pessoal e social conversam umas com as outras. Algumas pessoas sonham com o homem ou a mulher selvagem apesar de viverem como cidadãos sociais adequados. Cada self exerce uma influência sobre o mesencéfalo, sobre o córtex, num diálogo interno. O corpo é um continuum responsivo excitável e contrátil, capaz de transformar a própria forma.Os sonhos, como o coração, estão continuamente mudando de forma, uma pulsação que varia de estável a menos estável, e a estável novamente. Estas pulsações celulares aprofundam a amplitude de metabolismo tissular e de expressão emocional. O sonho, o qual é organizado a partir da pulsação do corpo, ajuda a dar ao soma uma estrutura pessoal e um senso de presença.


O método de trabalho com o sonho consiste em conectá-lo mais completamente à sua própria fonte, o corpo. Nesta abordagem o foco se faz sobre a experiência somática, não sobre significado e interpretação. Os sonhos organizam a maneira como usamos nossos corpos para estarmos no mundo, e como habitamos o corpo em que vivemos. Usamos os sonhos para fazer crescer uma realidade somática e uma subjetividade complexa que abarca múltiplas realidades.


Ao trabalhar somaticamente com o sonho, peço às pessoas para contar seus sonhos de trás para frente e vice-versa, para que elas experimentem uma realidade não linear. Através de um ir e vir entre as diferentes formas somáticas de forma lenta e controlada, engajamos os padrões musculares do córtex e do tronco cerebral. Começamos a nos tornar íntimos da maneira pela qual vivenciamos o corpo herdado e as imagens do corpo no cérebro. Esta abordagem gera sentimentos e memórias associados ao crescimento do nosso corpo pessoal.


Trabalhando com o sonho, desacelerando suas seqüências e corporificando as personagens em posturas estáticas sucessivas - suas expressões corporais e gestos - vivificamos sentimentos e imaginação. Contar o sonho do começo para o fim e do fim para o começo intensifica as personagens e estabelece a relação entre os diferentes corpos. O aspecto relacional das nossas formas somáticas internas e externas confere um aspecto subjetivo à nossa vida corporal. O trabalho somático com o sonho traz o processo corpante para o mundo cotidiano do trabalho, do amor e das relações.


A prática deste trabalho tem cinco passos:

Passo 1

Recordar o sonho, em linguagem e em experiência corporal ou cerebral.

Passo 2
Intensificar somaticamente as personagens do sonho, tornando sua estrutura e suas expressões mais manifestas através de um processo neuro-muscular de intensificação e diferenciação.

Passo 3
Usar as funções cortical e volitiva para controlar o processo de desmontar a estrutura somática das personagens. Os Passos 2 e 3 proporcionam uma experiência fundamental para todo processo somático, o organizar e desorganizar das seqüências de comportamento.

Passo 4
O soma é desafiado a conter o que lhe foi tornado disponível pelo sonhar, o fluxo constante de sentimentos e forma que se reestruturam e começam a incubar uma subjetividade.

Passo 5
Nós nos re-corpamos, damos forma aos sentimentos, reencarnamos a nossa identidade somática e pessoal.

Sonhos conferem à existência do nosso soma uma subjetividade. O trabalho somático proporciona ao soma uma narrativa e um processo através dos quais este cresce seu próprio destino: nascer, fazer-se presente, morrer. O significado desta realização espelha a nossa concepção do que é imortal
Stanley Keleman

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