15 de mar de 2009

Equilibrar trabalho e vida é possível


Trabalhar mais não significa renunciar à vida. Essa conciliação é possível. Tudo depende de se saber equilibrar a vida profissional com a pessoal. Mais do que possível, esse equilíbrio é necessário. Ao se fazer o planejamento de uma empresa, a primeira coisa que se projeta é quando será atingido o ponto de equilíbrio. 

Mas por que não se fala em ponto de equilíbrio do ser humano? Nesses tempos de crise, em que a cobrança por resultados aumenta ainda mais, trabalhar virou um vício. Em muitas organizações, passou a ser uma crença, um valor, como se ficar à disposição da empresa mais horas fosse garantia de se manter empregado. Na vida, tudo depende de equilíbrio. 

Nada - seja trabalho, prazer, amor - deve ser colocado como fim, como único e mais forte objetivo. Tudo isso são meios para se alcançar a qualidade de vida desejada. A própria crise que o mundo enfrenta hoje foi gerada por um desequilíbrio provocado por uma quantidade enorme de pessoas que transformou a riqueza e o dinheiro em um fim, sem se importar com as conseqüências. Durante minha longa carreira de consultor, tive inúmeros exemplos de profissionais que focaram o trabalho como meta principal e, apesar do sucesso na carreira, tiveram problemas na vida pessoal. Uns não viram os filhos crescer, outros não deram a atenção devida aos cônjuges, outros tantos se afastaram dos amigos e parentes, sem falar naqueles que não cuidaram da própria saúde, acreditando que o vigor dos primeiros anos iria se conservar durante toda a carreira. 

A partir dos anos 1990, com o avanço da tecnologia e o advento do telefone celular e principalmente da Internet, que facilitou a comunicação de longa distância, implantou-se uma nova cultura no mundo corporativo: a dos resultados. Com ela, expressões como "comprometimento", "renda variável" e outros passaram a ter novos significados que podem ser resumidos em um único conceito: quanto mais se trabalha, mais se ganha. Mas "trabalhar mais" não deve significar trabalhar mais horas, mas sim trabalhar melhor durante as horas destinadas ao trabalho. Não é um problema de quantidade, mas de qualidade. Comprometimento é trabalhar com paixão, com emoção, com mais intensidade, mas as pessoas perderam a noção do equilíbrio e estão fazendo escolhas equivocadas. Pode-se vestir a camisa da empresa trabalhando oito horas por dia e trazendo resultados. De que adianta ser um abnegado que trabalha 14 horas, abdica da vida pessoal, mas não traz resultados? Esse sim tem grandes possibilidades de, apesar de todo o esforço, ficar fora do mercado. Usando uma metáfora futebolística, tem time que chuta 50 bolas ao gol e não marca. Tem time que chuta três e faz dois. 

A preocupação das empresas tem de ser com performance (alta ou baixa) e não são as horas trabalhadas que determinam isso. Performance é determinada por talento, inteligência, aptidão para o negócio, inovação, visão estratégica. E essa avaliação não é só numérica: o time é inovador? Traz idéias novas? Resolve os problemas? Para o presidente da empresa e o conselho, o que importa é ter um time de alta performance, que traz resultados, e não as horas trabalhadas. Volto a dizer, porque isso é muito importante: comprometimento é trabalhar com paixão, com emoção, com mais intensidade no período destinado à atividade profissional, mas as pessoas perderam a noção do equilíbrio e estão fazendo escolhas equivocadas. E como atingir esse equilíbrio tão necessário? Com disciplina - para não se deixar levar pelo exagero patológico em qualquer um dos lados dessa balança - e com o entendimento de que a vida tem muitos caminhos e que posso estar trilhando apenas um ou dois. Se eu recebo 300 e-mails por dia, será que preciso responder a todos no mesmo dia? Não posso deixar alguns para amanhã? Se eu esqueço o celular em casa, preciso voltar para buscar? 

As pessoas não conseguem trabalhar em "Frequência Modulada". Esse entendimento só se atinge com a maturidade, com a evolução espiritual, depois de ter apanhado muito na vida, ter visto que fez escolhas erradas lá atrás, ter enxergado, refletido, meditado que uma série de caminhos que percorreu não foram os melhores. Só depois disso seremos capazes de fazer um movimento para mudar, para melhorar, para equilibrar as coisas. 
Ruy Philip

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