29 de nov. de 2009

Leveza

Purifica o teu coração antes de permitires que o amor entre nele, pois até o mel mais doce azeda num recipiente sujo. Pitágoras
Dedicado aos amigos Dr Uirben e Dr Evandro

A felicidade

A felicidade consiste em ações perfeitamente conformes à virtude, e entendemos por virtude não a virtude relativa, mas a virtude absoluta. Entendemos por virtude relativa a que diz respeito às coisas necessárias e por virtude absoluta a que tem por finalidade a beleza e a honestidade.
Aristóteles
Picture by Pol Ledent

A Gaia Ciência

Um sábio perguntava a um louco qual era o caminho da felicidade.
O louco respondeu-lhe imediatamente, como alguém a quem se pergunta o caminho da cidade vizinha:
Admira-te a ti mesmo e vive na rua.
Alto lá, exclamou o sábio, pedes demais, basta já que nos admiremos!
E o louco respondeu logo:
Mas como admirar sem cessar se não nos desprezarmos constantemente? Friedrich Nietzsche
Picture by Magrit

A nova arma contra o aumento benigno da próstata


A nova arma contra o aumento benigno da próstata é uma cirurgia a laser que evapora o tecido a mais 


Aos 20 anos, o homem desconhece por completo a função da próstata. Aos 50, ele se torna um especialista no assunto." A ironia preferida dos urologistas sintetiza com exatidão a relação dos pacientes com a glândula produtora de PSA, a proteína responsável por diluir o sêmen durante a ejaculação. 


Do tamanho de uma noz, a próstata só chama atenção quando começa a incomodar. Durante o processo de envelhecimento, é natural que ela cresça. Para 80% dos homens com 50 anos ou mais (o equivalente a 14 milhões de brasileiros), ela se faz notar pela dificuldade de urinar, em menor ou maior grau. Localizada abaixo da bexiga, a glândula prostática se avoluma e comprime o canal da uretra - o que caracteriza a hiperplasia benigna da próstata. 


"Apesar de sintomas tão evidentes, metade dos pacientes os subestima", diz o urologista Gustavo Guimarães, do Hospital A.C. Camargo, em São Paulo. Com isso, um problema que seria facilmente controlável pode exigir intervenção cirúrgica - uma possibilidade de fazer tremer os senhores mais destemidos. 


 Uma técnica recém-chegada ao Brasil, no entanto, ajuda a amenizar esse pesadelo. Com o poder de emitir ondas a uma temperatura de 200 graus, o laser verde faz o excesso de tecido prostático evaporar. Como evita sangramentos, o novo procedimento resulta na recuperação mais rápida do paciente e, consequentemente, reduz o tempo de sua internação para um dia - contra os quatro exigidos pelo método convencional. 


Aplicado desde 2005 em alguns dos mais célebres hospitais americanos, como o MD Anderson, em Houston, e o Memorial Sloan-Kettering, em Nova York, o laser verde para o tratamento da hiperplasia benigna da próstata pouco lembra a cirurgia por endoscopia criada há cerca de trinta anos. A única semelhança entre as duas técnicas é um tubo finíssimo que chega à próstata por meio da uretra. 


Na operação tradicional, a cânula leva em sua ponta instrumentos para recortar e sugar as sobras de tecido prostático. No tratamento a laser, um tubinho de 1,8 milímetro de diâmetro libera o feixe de luz quente. "Esse é o procedimento cirúrgico menos agressivo já criado na medicina para tratar a hiperplasia", diz o urologista Miguel Srougi, do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo. A terceira opção é a cirurgia aberta, indicada principalmente para os casos mais graves, quando a próstata tem mais de 100 gramas (normalmente, ela pesa 20 gramas). As causas da hiperplasia benigna não são completamente conhecidas. 


A hipótese mais aceita relaciona o problema ao hormônio testosterona, que funciona como combustível para a multiplicação das células prostáticas. Um dos medicamentos usados para o controle da doença, a finasterida, reduz os níveis de testosterona na glândula. Outro remédio também indicado para os casos moderados é a doxazosina, que relaxa o canal da uretra e aumenta a contração da bexiga. 


O tratamento medicamentoso, porém, nem sempre consegue conter o crescimento da próstata. Antes de ser submetido à cirurgia a laser, o engenheiro Ronaldo Laguardia, de 66 anos, foi medicado por cinco anos. No início do ano, o quadro se agravou. Ele não conseguia completar a caminhada diária de uma hora na esteira sem ter de ir ao banheiro pelo menos três vezes. "Se soubesse da simplicidade da intervenção, não teria padecido tanto." Agora, Laguardia pode até esquecer qual é a função da próstata. 
Adriana Dias Lopes

28 de nov. de 2009

Sentar ao lado de um negro?

Uma mulher branca, de aproximadamente 50 anos, chegou ao seu lugar na classe econômica e viu que estava ao lado de um passageiro negro.
Visivelmente perturbada, chamou a comissária de bordo.
'Qual o problema, senhora?', pergunta uma comissária.
'Não está vendo?' - respondeu a senhora - 'vocês me colocaram ao lado de um negro. Não posso ficar aqui. Você precisa me dar outra cadeira'
'Por favor, acalme-se' - disse a aeromoça - 'infelizmente, todos os lugares estão ocupados. Porém, vou ver se ainda temos algum disponível'
A comissária se afasta e volta alguns minutos depois.
'Senhora, como eu disse, não há nenhum outro lugar livre na classe econômica. Falei com o comandante e ele confirmou que não temos mais nenhum lugar na classe econômica. Temos apenas um lugar na primeira classe'. E antes que a mulher fizesse algum comentário, a comissária continua: 'Veja, é incomum que a nossa companhia permita à um passageiro da classe econômica se assentar na primeira classe. Porém, tendo em vista as circunstâncias, o comandante pensa que seria escandaloso obrigar um passageiro a viajar ao lado de uma pessoa desagradável'.
E, dirigindo-se ao senhor negro, a comissária prosseguiu:
'Portanto senhor, caso queira, por favor, pegue a sua bagagem de mão, pois reservamos para o senhor um lugar na primeira classe...' E todos os passageiros próximos, que, estupefatos assistiam à cena, começaram a aplaudir, alguns de pé.
Picture by Oswaldo Goeldi
Enviado pela Fátima Marques

Não se termina nenhuma história de amor com um e-mail

Depois de um bom tempo dizendo que eu era a mulher da vida dele, um belo dia eu recebo um e-mail dizendo: 'olha, não dá mais'. 


Tá certo que a gente tava quase se matando e que o namoro já tinha acabado mesmo, mas não se termina nenhuma história de amor (e eu ainda o amava muito) com um e-mail, não é mesmo? 


 Liguei pra tentar conversar e terminar tudo decentemente e ele respondeu: mas agora eu to comendo um lanche com amigos'. Enfim, fiquei pra morrer algumas semanas até que decidi que precisava ser uma mulher melhor para ele. 


Quem sabe eu ficando mais bonita, mais equilibrada ou mais inteligente, ele não volta pra mim? Foi assim que me matriculei simultaneamente numa academia de ginástica, num centro budista e em um curso de cinema. Nos meses que se seguiram eu me tornei dos seres mais malhados, calmos, espiritualizados e cinéfilos do planeta. E sabe o que aconteceu? Nada, absolutamente nada, ele continuou não lembrando que eu existia. 


Aí achei que isso não podia ficar assim, de jeito nenhum, eu precisava ser ainda melhor pra ele, sim, ele tinha que voltar pra mim de qualquer jeito! Pra isso, larguei de vez a propaganda, que eu não suportava mais, e resolvi me empenhar na carreira de escritora, participei de vários livros, terminei meu próprio livro, ganhei novas colunas em revistas, quintupliquei o número de leitores do meu site e nada aconteceu. 


Mas eu sou taurina com ascendente em Áries, lua em gêmeos, filha única! Eu não desisto fácil assim de um amor, e então resolvi tinha que ser uma super ultra mulher para ele, só assim ele voltaria pra mim. Foi então que passei 35 dias na Europa, exclusivamente em minha companhia, conhecendo lugares geniais, controlando meu pânico em estar sozinha e longe de casa, me tornando mais culta e vivida. Voltei de viagem e tchân, tchân, tchân, tchân: nem sinal de vida. 


Comecei um documentário com um grande amigo, aprendi a fazer strip, cortei meu cabelo 145 vezes, aumentei a terapia, li mais uns 30 livros, ajudei os pobres, rezei pra Santo Antonio umas 1.000 vezes, torrei no sol, fiz milhares de cursos de roteiro, astrologia e história, aprendi a nadar, me apaixonei por praia, comprei todas as roupas mais lindas de Paris. Como última cartada para ser a melhor mulher do planeta, eu resolvi ir morar sozinha. Aluguei um apartamento charmoso, decorei tudo brilhantemente, chamei amigos para a inauguração, servi bom vinho e comidinhas feitas, claro, por mim, que também finalmente aprendi a cozinhar. Resultado disso tudo: silêncio absoluto. 


O tempo passou, eu continuei acordando e indo dormir todos os dias querendo ser mais feliz para ele, mais bonita para ele, mais mulher para ele. Até que algo sensacional aconteceu... Um belo dia eu acordei tão bonita, tão feliz, tão realizada, tão mulher, que eu acabei me tornando mulher demais para ele. 
Ele quem mesmo??? 

Martha Medeiros


Picture by Georges Rouault

27 de nov. de 2009

Idéias para quem não tem nada pra fazer

Idéias para quem não tem nada pra fazer. Mas nada mesmo. 1º Mate umas moscas, mas com cuidado. 2º Deixe ao sol por 1 hora até secar. 3º Recolha as moscas, pegue lápis e papel e deixe a imaginação fluir.

Seguem alguns exemplos:

Chá diminui consequências físicas do stress

Quatro xícaras de chá preto durante cinco dias foram suficientes para reduzir os níveis de hormônio cortisol em pessoas estressadas. O estudo foi feito por pesquisadores da Universidade de Londres e publicado na revista Psychopharmacology. O que agora desfia os pesquisadores é descobrir quais são exatamente quais substâncias presentes no chá são responsáveis pelo efeito. “Embora não pareça reduzir o stress subjetivo, o chá preto diminui significativamente os níveis de hormônio do stress, protegendo o organismo do risco de patologias crônicas e particularmente de doenças cardíacas”, explica Andrew Steptoe, coordenador da pesquisa.

Tecnologia não isola as pessoas

Ao contrário da crença popular, a Internet e os celulares não estão isolando as pessoas, mas reforçando suas vidas sociais, de acordo com uma pesquisa americana. A pesquisa foi motivada por um estudo publicado por sociólogos dos Estados Unidos em 2006, segundo o qual a tecnologia estava reforçando uma tendência vista desde 1985, a de um maior isolamento social para os norte-americanos, com redução de redes sociais e da diversidade de seus contatos. Mas o estudo conduzido pelo Pew Internet and American Life Project, intitulado "Isolamento Social e a Nova Tecnologia", constatou que o uso da Internet e dos celulares pelas pessoas está na verdade associado a redes sociais maiores e mais diversificadas. "Quando examinamos a rede social completa de uma pessoa, o uso da Internet em geral, e de serviços de redes sociais como o Facebook, em particular, está associado a redes sociais mais diversificadas", afirmaram os pesquisadores em comunicado. "Nossas principais constatações contestam pesquisas anteriores e medos muito difundidos sobre o impacto social adverso da nova tecnologia", acrescentaram. A pesquisa telefônica conduzida com 2.512 adultos pela Princeton Survey Research International, em julho e agosto deste ano, constatou que, de 1985 para cá, as dimensões do isolamento social não se alteraram muito. O estudo constatou que 6% dos adultos não têm alguém com quem possam discutir assuntos importantes, mas esse número praticamente não mudou desde então. A pesquisa constatou, porém, que as "redes de discussão" das pessoas se reduziram em cerca de um terço nos últimos 25 anos, e se tornaram menos diversificadas, porque contêm menos pessoas de fora da família. Mas as pessoas que usam celulares e tomam parte de diversas atividades na Internet estão associadas a redes de discussão primárias maiores e mais diversificadas. As redes de discussão médias são 12% maiores entre os usuários de celulares, 9% maiores entre as pessoas que trocam fotos online e nove por cento maiores para aqueles que usam serviços de mensagens instantâneas. A diversidade é 25% maior para os usuários de celulares, 15% maior para os usuários básicos de Internet e ainda maior para os usuários frequentes da Internet, serviços de mensagens instantâneas e sites de fotografia. Thomson Reuters

25 de nov. de 2009

Só menstrua quem quer

Menstruar é uma questão de preferência pessoal, garante o respeitado ginecologista, professor emérito da University College, de Londres – instituição responsável por elaborar diretrizes em saúde reprodutiva e planejamento familiar – e consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS), John Guillebaud. Segundo o médico, especializado em Saúde Reprodutiva, o sangramento mensal não é necessário e sua interrupção tem se tornado o método mais eficaz contra a gravidez, já que é menos sujeito a falhas. Além disso, quando suspendem a menstruação, as mulheres têm menos dores de cabeça – algo que aflige até mesmo as que usam a pílula convencional, já que há uma semana de pausa –, livram-se de outros sintomas pré-menstruais e têm menos riscos de desenvolver endometriose (quando células do endométrio se espalham por outros locais da pelve, fora da cavidade uterina). Hoje, há diferentes métodos para interromper continuamente a menstruação. Algumas mulheres acabam emendando uma cartela de pílula na outra. Outras recorrem ao DIU, implantes subcutâneos ou injeção. A gerente de marketing Marta Amaral, de 46 anos, sofria com o alto fluxo da menstruação, mesmo não sentindo cólicas nem sintomas da tensão pré-menstrual (TPM). Só quando engravidou e teve de realizar uma bateria de exames é que descobriu que a cada ciclo ela perdia muito ferro. “A menstruação me deixava anêmica e meu ginecologista optou pela injeção contraceptiva”, conta ela, que faz uso do método há 12 anos. Com o passar dos anos, o risco de anemia foi afastado e, para a felicidade dela, o fluxo diminuiu, mesmo quando fez uma pausa no uso da medicação. Nova alternativa No segundo semestre deste ano, o laboratório Libbs lançou mais um contraceptivo contínuo: o Elani 28. Trata-se de um anticoncepcional oral com 28 comprimidos, sendo que a mulher não faz pausa entre as cartelas. A composição do medicamento diminui a produção hormonal pelos ovários, inibindo a ovulação e a proliferação endometrial. O medicamento chega ao mercado com custo médio ao consumidor de R$ 45,35. Sua utilização e a consequente suspensão da menstruação por meses ou até anos exigem acompanhamento médico. A vantagem, segundo o laboratório, é que esse contraceptivo é o único de uso contínuo com drospirenona. A substância é um progestagênio (que impede a ovulação) de quarta geração, que, além de evitar a gravidez com alta eficácia, proporciona alívio dos sintomas menstruais. O medicamento é de baixa dose hormonal (30 mcg de etinilestradiol), o que, segundo o professor Guillebaud, corresponde a um quinto da dose de estrogênio das primeiras pílulas anticoncepcionais. Mesmo com a promessa de tantos benefícios e melhor qualidade de vida, há muitas mulheres que ficam em dúvida quando o assunto é menstruar ou não. Afinal, passaram a vida escutando que a menstruação é algo que faz parte da natureza e, por isso, não deve ser interrompida. O ginecologista Guillebaud defende que não há razão para sangrar todo mês se a mulher não pretende engravidar a curto prazo. “Estudos já comprovaram que o uso do contraceptivo oral em regime contínuo pode beneficiar mulheres com sintomas menstruais, como cefaleia, cólica, sangramento excessivo causado por disfunção hormonal, doenças do útero como mioma e adenomiose, e anemia, por deficiência de ferro. Portanto, mais menstruação pode significar mais riscos para a saúde.”, enfatiza. As reações físicas para quem toma contraceptivos orais de uso contínuo são praticamente as mesmas das observadas nos convencionais (aqueles em que são feitas pausas). Podem ocorrer sangramentos irregulares do tipo spotting (mancha menstrual) ou sangramentos de escape. Em ambos os casos, o sangramento tende a diminuir ou desaparecer com a continuidade do tratamento. “O risco da ocorrência de um evento adverso é muito pequeno e não deve ser fator de preocupação para as mulheres, desde que o tratamento tenha sido indicado e orientado por um médico”, garante o especialista Guillebaud. Já as contraindicações do novo medicamento – que também não fogem muito daquelas observadas nas pílulas convencionais – são tabagismo, histórico de doenças tromboembólicas e diagnóstico de neoplasias, como o câncer de mama e do endométrio. Quanto à fertilidade da mulher, não existem evidências de que o uso de pílulas em regime contínuo possa prejudicá-la. O retorno das menstruações é rapidamente restabelecido após a interrupção desse tratamento.
Cristiana Vieira

24 de nov. de 2009

Por que você não resiste a uma boa fofoca

Por incrível que pareça a fofoca tem sido tema de estudos. Nos últimos anos, os pesquisadores voltaram sua atenção ao estudo da predileção por falar, em geral, com certa malícia, sobre pessoas que não estão presentes. Segundo estudiosos, a fofoca se presta a uma função social útil para criar vínculo entre os indivíduos.
Na pré-história, quando os seres humanos viviam em pequenos bandos, e o encontro com estranhos era ocorrência rara, a fofoca favoreceu a sobrevivência da nossa espécie, coibindo comportamentos que pudessem enfraquecer o grupo. Um de seus papéis era de identificar “enganadores flagrantes” (que não retribuem atos altruístas) e “enganadores sutis” (que oferecem muito menos do que recebem). Hoje se sabe que o nosso cérebro “prefere” deter-se em informações a respeito de pessoas que conhecemos.
Qualquer um com quem convivemos (ainda que não pessoalmente, mas vemos frequentemente na TV, por exemplo) se torna socialmente importante para nós. Para psicólogos evolutivos, esse funcionamento mental pode ajudar a entender a paixão moderna pelas celebridades.

22 de nov. de 2009

Desvendando a Mente Estética


Já é possível observar diretamente como reage o cérebro diante de uma obra de arte. O prazer estético estimula áreas cerebrais que geram emoções de euforia e bem-estar.  


O que acontece quando temos uma experiência artística e, em sentido mais geral, uma experiência estética? 


Nos últimos 30 anos, as neurociências levaram suas explorações até o limiar que divide as ciências da Natureza das ciências da cultura, esclarecendo a natureza biológica e psíquica da experiência estética, uma das mais controversas e fascinantes das experiências humanas. Na realidade, já nos séculos passados escritores e filósofos – de Platão a Goethe, de Kant a Winckelmann – haviam tentado penetrar a essência do senso estético, da beleza. Nenhum deles, no entanto, podia imaginar que um dia observaríamos in vivo as dinâmicas do cérebro diante de uma obra de arte. 


No entanto, o desenvolvimento dos novos métodos de brain imaging – que nos mostram a atividade do cérebro enquanto cumprimos uma ação, pensamos ou nos emocionamos – propicia avanços formidáveis no conhecimento da fisiologia cerebral. A ressonância magnética funcional, especialmente, nos permite estudar os padrões de ativação das diferentes áreas do cérebro, mostrando como toda estrutura cerebral é especializada em uma ou mais tarefas específi cas, como a elaboração dos estímulos sensoriais (visuais, táteis, auditivos etc.), o planejamento e a execução de processos motores ou a percepção de determinados estímulos emotivos. Evidências experimentais recentes esclarecem que, embora no plano das experiências estéticas – que implicam sentimentos, recordações, emoções e outras coisas mais – os seres humanos mostrem um forte caráter individual (porque ligados a componentes genéticas e culturais), diante de uma obra de arte eles compartilham as mesmas percepções elementares. 


Nesse sentido, perceber o mesmo objeto ou experimentar as mesmas emoções provocam a ativação das mesmas áreas cerebrais em todos os seres humanos. Essa disposição comum é fundamento da capacidade de comunicar até aquelas impressões e emoções profundas que não sabemos expressar com palavras.A pintura, a escultura, a poesia e a música permitem ao homem expressar em obras de elevadíssimo nível estético conceitos sutis, paixões, prazeres, tormentos e os mais íntimos movimentos da alma humana. Há cerca de uma década, um grupo de pesquisadores ingleses elaborou um programa de pesquisa – definido como neuroestética – com o objetivo de esclarecer os mecanismos biológicos da experiência estética. 


Em diversos estudos, Semir Zeki e seus colaboradores identificaram algumas áreas cerebrais envolvidas na fenomenologia do amor (romântico ou materno), mostrando que esse sentimento – seja lá qual for seu significado – estimula as áreas cerebrais que geram sensações de prazer e recompensa. Segundo os pesquisadores ingleses, essas evidências explicariam por que o amor, assim como a arte, nos deixa eufóricos, provocando-nos sensações de bem-estar. Nas situações em que esse sentimento está em jogo, os estudiosos perceberam que, enquanto algumas áreas cerebrais são ativadas, outras se desativam: entre estas últimas, figuram os lobos frontais, especificamente envolvidos nas operações de julgamento das pessoas. 


Esse dado, muito relevante, poderia esclarecer por qual motivo as pessoas são quase sempre escassamente objetivas em seus juízos sobre as pessoas amadas, e, particularmente, as mães quase sempre tendem a ser pouco críticas em relação aos próprios ilhos. Embora pesquisas desse tipo ainda não tenham sido realizadas no âmbito artístico, não é infundado supor que eventos do mundo exterior – por exemplo, dinâmicas socioculturais – podem provocar uma inibição reversível dos lobos frontais, tornando menos imparciais nossos juízos estéticos. 


Nesse sentido, se o papel inibidor dos fatores socioculturais nos lobos frontais fosse demonstrado, talvez pudesse ser explicado por que uma obra não particularmente sugestiva, ainda que inserida em um contexto que nos é conhecido (quando, por exemplo, o artista em questão é universalmente consagrado), pode ser reavaliada do ponto de vista estético.  Busca de Essências Uma das peculiaridades essenciais do cérebro é conhecer – entre fluxos de informações enormes e inconstantes – as regularidades e as invariâncias de objetos e situações. Para esse fim, o cérebro utiliza procedimentos que lhe possibilitam extrair as informações necessárias para o conhecimento das propriedades duráveis da realidade. Um exemplo pertinente a esse respeito é a visão da cor. 


A qualquer hora do dia um objeto permanece com a mesma cor. O que medeia esse mecanismo é um sistema de elaboração do cérebro geneticamente determinado, que age, por assim dizer, por graus, reconhecendo antes as cores e depois as formas. Há mais um processo de extremo interesse: o fenômeno da abstração, mediante o qual o cérebro enfatiza o “geral” em detrimento do “particular”, ao qual se segue a formação dos conceitos, daquele da linha reta até o mais complexo de beleza. Trata-se de conceitos que os artistas procuram transfundir constantemente em suas obras. 


Assim como sabe a neurofisiologia das cores e do movimento, quando o cérebro determina a cor de uma superfície, o faz de maneira abstrata, sem se “preocupar” com a forma precisa do objeto. Há, com efeito, células do córtex visual tão especializadas a ponto de reagir somente ao movimento em uma direção e não em outra. Em geral, como busca dos princípios e das regularidades da percepção da obra de arte, a neuroestética articulou-se em dois níveis fundamentais: 


a) a indagação da visão como processo ativo mediante o qual o cérebro, construindo e reconstruindo o mundo, adquire conhecimento do ambiente; 


b) a indagação da experiência artística como função da relação entre o sujeito que percebe e o mundo percebido. As pesquisas sobre as diferentes áreas do córtex visual contribuíram de maneira determinante não somente para a elaboração de um modelo da visão como processo ativo, mas também para a definição das sequências mediante as quais o cérebro – filtrando e elaborando os impulsos nervosos provenientes da retina – representa para si o mundo exterior, por meio de uma verdadeira reconstrução fundamentada na interpretação do fluxo de informações provenientes do ambiente. 


Precisamente o estudo das dinâmicas de seleção, classificação e registro dos estímulos provenientes do ambiente exterior – do qual se origina a representação da realidade – ofereceu a deixa para uma reconsideração da relação entre essa atividade de filtro múltipla (por ser desenvolvida de maneira aparentemente independente das áreas V1, V2 e V3, V4 e V5 do córtex visual) e a elaboração do dado que o artista realiza em seu caminho de busca pelo que é essencial. 


É preciso dizer que a seleção, eliminação, comparação e enfim identificação dos dados sensoriais – isto é, o processo mediante o qual o cérebro adquire conhecimento sobre o ambiente –mostram uma forte analogia com os processos que estão na base da representação artística. Esta, de algum modo, constitui uma verdadeira extensão das atividades ordinárias do córtex visual, que são as de representar as características constantes, duradouras, essenciais e estáveis de objetos, superfícies, rostos, situações e assim por diante: isto é, todas aquelas operações que nos permitem adquirir conhecimento. 


Em sua contínua experimentação e, portanto, na busca de uma linguagem expressiva própria, o artista retomaria, de maneira mais ou menos consciente, o trabalho de seleção mediante o qual o cérebro chega ao que há de essencial no dado sensorial. Nesse sentido, a arte se mostra como a busca de regularidades e invariâncias estruturais por meio de um processo de seleção e derivação de sentido de uma grande quantidade de dados perceptivos: uma espécie de extensão da atividade fundamental do cérebro visual, que afinal é a de adquirir conhecimento do mundo identificando suas propriedades específicas e estáveis.


Mas existe uma simetria adicional a ser considerada: aquela entre a necessidade de o cérebro isolar e avaliar as qualidades permanentes, essenciais e constantes dos objetos do mundo e o esforço contínuo da pesquisa artística para apreender e investigar a própria essência da realidade. É nesse sentido que a arte acresce nosso conhecimento do mundo exterior, mostrando-se suscetível à exploração científica de alguns aspectos da interação entre a elaboração e o desfrutar da obra de arte e a atividade de algumas áreas do córtex visual. Alguns estudos se aventuram precisamente nessa direção, delineando uma espécie de abordagem intuitiva dos artistas a algumas esferas da visão. 


Isto é, o artista seria uma espécie de neurologista inconsciente que – por meio da própria pesquisa, antes introspectiva e depois formal – de maneira mais ou menos seletiva manipula as diferentes áreas do córtex visual. A carga comunicativa do produto artístico (e suas implicações intersubjetivas) se deveria à especial sensibilidade com que o artista individualmente instaura um diálogo mais ou menos consciente com as bases biológicas das próprias funções do fenômeno da visão, conseguindo assim produzir alguma coisa capaz de solicitar faculdades, estruturas e dinâmicas comuns a todos os outros cérebros. Mas isso ainda pouco ou nada nos diz quanto à própria essência da experiência estética. 


 Quando o Som Fica Colorido Todos aqueles que, por diversos motivos, tratam de neurociências, tiveram de responder, por vezes com certo constrangimento, a perguntas do tipo: mas se cada área do cérebro tem uma função específica, existe então uma área (ou mais) da criatividade? E, admitindo-se sua existência, seria talvez mais desenvolvida nas pessoas criativas? Na verdade, apesar das extraordinárias oportunidades proporcionadas por novos métodos não invasivos e de parâmetros múltiplos de estudo do cérebro (fMRI, PET, MEG etc.), ainda não temos condições de explicar a maior parte dos fenômenos cerebrais. Assim, a despeito dos enormes esforços, a identificação de uma neurobiologia da criatividade, dos estados mentais e das emoções ainda está longe de se dar. Entre os diversos fenômenos ainda envoltos em mistério, há um que está captando progressivamente o interesse dos pesquisadores e tem a ver com as questões essenciais que a neuroestética coloca: a sinestesia (do grego syn, “em conjunto”, e aisthánestai, “perceber”), fenômeno em que esferas sensoriais diferentes se mesclam em combinações que dão lugar a percepções e representações inéditas. Uma forma de sinestesia muito conhecida é aquela entre cores e sons: uma pessoa, ouvindo sons e notas específicas, percebe uma cor sobreposta às imagens que está observando, mesmo que aquela cor esteja fora de seu campo visual. 


Como o famoso caso de Mozart, que, junto com o som, “via” a cor das notas. É preciso dizer que, embora não tenhamos total consciência disso, todos nós experimentamos entrelaçamentos entre visão e audição, às vezes inextricáveis. A maior recorrência é a combinação entre sons e imagens, como no caso da percepção de sons coloridos ou vice-versa. Nos sinestésicos, por exemplo, a observação de um quadro chama à mente uma música, precisamente como ouvir uma sinfonia chama uma imagem ou uma cor. A sinestesia hoje estudada pelas neurociências é, essencialmente, a mesma que, no curso da história, incendiou a fantasia criadora de artistas, músicos, poetas e escritores como Rimbaud, Liszt, Nabokov e tantos outros. Na mente de Kandinski, por exemplo, as cores se transfiguram em um meio sonoro que “ecoa e vibra” na obra junto com as formas. 


O artista russo descobre o extraordinário poder expressivo das corres assistindo à representação do Lohengrin, de Wagner: “(...) parecia-me ter diante dos olhos – escreve – todas as minhas cores. Diante de mim formavam-se linhas desordenadas, quase absurdas. (...) O sol derrete Moscou inteira numa mancha que, como um trompete, impetuoso, faz a alma toda vibrar. Não, essa uniformidade vermelha não é a hora mais bonita! Esse é apenas o acorde final da sinfonia que doa a máxima vitalidade a cada cor, que faz com que toda a cidade ressoe como o fortíssimo de uma enorme orquestra”. 


Para Kandinski, a cor produz nos espíritos sensíveis efeitos psíquicos intersensoriais que vão além da vista: sabores azuis, sons amarelos, cores ásperas ou lisas. A relação íntima entre sons e cores que Kandinski percebeu por meio da música wagneriana se cruza com as especulações teosófico-musicais de outro artista russo seu contemporâneo, o músico Aleksander Skriabin, com o qual Kandinski compartilhava a crença na função mística da arte. Em seu Prometeu as artes se unificam, os sons e as cores se fundem. E mais: toda a sinfonia cromática de Prometeu se alimenta da correspondência entre sons e cores. Todo som remete a uma cor, toda modulação harmônica chama uma modulação cromática. A música é indissociável das cores. 


 Sinestesia não é Criatividade O cérebro se constitui de diversas áreas cerebrais separadas umas das outras, que permitem a percepção dos diferentes aspectos da cor, do movimento, dos vultos, dos sons e assim por diante. Do ponto de vista anatômico, entre a área V4 (que rege a visão das cores) e as áreas auditivas não há conexões diretas e, portanto, cores e sons percorrem caminhos perceptivos diferentes. Assim, se em condições normais a experiência cromática concerne à área V4 e a auditiva ao córtex cerebral auditivo, nos sinestésicos a audição de sons que determina atividade em V4 provoca percepções cromáticas também na ausência de estímulos específicos. 


Não sabemos ainda se no cérebro dos sinestésicos haveria peculiaridades anatômicas, estruturas neurais de contato entre áreas cerebrais distantes ou se, enfim, entre essas áreas faltaria uma inibição na comunicação neural. Sabemos, porém, que a sinestesia torna o conhecimento do mundo extraordinário e esteticamente sugestivo. Além disso, sua influência na criatividade de um artista – isto é, o efeito de sobreposição de objetos presentes no ambiente à percepção viva de cores, sons ou gostos – é formidável. Ver as cores de uma sinfonia ou sentir o gosto de uma forma intensificam o valor estético de uma obra. Mas, atenção! Embora ligados por uma origem comum, a sinestesia difere notadamente da criatividade. 


Com efeito, se a sinestesia gera uma experiência vinculada à percepção espontânea e explícita, a fantasia criativa tem por esfera eletiva a imaginação e, portanto, não tem a ver com sensorialidade. Em razão dessa natureza abstrata, as ideias criativas podem ser transmitidas através das gerações e compartilhadas por civilizações diferentes, constituindo um valor na evolução cultural. Diversamente, as percepções originais e insólitas dos sinestésicos parecem experiências extraordinárias de poucos indivíduos. Apesar disso, a busca de nexos entre criatividade e sinestesia – que afinal é a busca de uma correlação entre a estrutura física do cérebro e a criatividade – é de extremo interesse científico. 


A própria criatividade, se pensada como um efeito extremo da sinestesia, envolve relações específicas entre áreas do cérebro e conexões peculiares, que conferem ao indivíduo a capacidade de apreender novas relações entre esferas psíquicas diferentes e os objetos do mundo. Já se sabe que a amígdala atribui valores emocionais a estímulos em si neutros mediante processos associativos ditados pela experiência individual. As evidências empíricas sugerem que o sentido do belo deriva de uma ativação simultânea de áreas corticais incumbidas da análise física do estímulo (e, portanto, dependentes de parâmetros intrínsecos da obra, que podem variar de obra para obra) e da ínsula, estrutura encarregada da percepção e da organização das emoções. 


Outros valores da obra de arte são, ao contrário, elaborados pelo observador segundo critérios subjetivos em geral ligados à experiência e ao gosto individual. Esse segundo tipo de beleza, que se pode definir como subjetiva, envolve a atividade da amígdala, a área que codifica o aspecto emocional das experiências pessoais. Diferentemente do que se acreditou por muito tempo, a visão não depende da fi xação de uma imagem na retina, que em seguida é transmitida ao cérebro e por ele interpretada. No olho não há nenhuma imagem no sentido tradicional. A retina é apenas o filtro e o canal dos sinais em direção ao cérebro, que depois constrói o mundo visual. Em outras palavras, a visão é um processo ativo. Matisse compreendeu isso instintivamente quando, bem antes dos cientistas, escreveu: “Ver já é um processo criativo, que requer muito esforço”. 


Essa ideia de criatividade envolve a existência de conexões a um só tempo suplementares e atípicas, isto é, estruturas nervosas que servem de ponte entre percepções e atividades psíquicas (conscientes ou inconscientes) presentes exclusivamente em algumas pessoas mais criativas. A propensão à criatividade tem um valor formidável para artistas, cientistas, fi lósofos e, em geral, para todo indivíduo pensante. Não é necessário, porém, ser sinestésico para conquistar a inspiração e a emoção que impele a criar: bastaria aguçar a própria sensibilidade por meio do envolvimento dos sentidos em um original conjunto perceptivo. Por outro lado, hoje mais que ontem, a tecnologia permite ao artista pintar, esculpir ou escrever enquanto escuta música. 


Ele pode até acrescentar às obras de arte elementos que evocam experiências multissensoriais que lhes incrementam o valor emocional. Pesquisas recentes, como as de Cytowic, mostram como percepções próximas às sinestésicas exaltam o julgamento estético e a harmonização de perfumes, cores e sons, devolvendo às obras um amálgama sensorial de intenso prazer. A atuar tal síntese entre dimensões sensoriais diferentes estão, particularmente, indivíduos capazes de otimizar os elementos fi gurativos da gramática perceptiva humana. O sentido da experiência estética não deveria ser buscado, portanto, na simples estimulação (ou hiperestimulação) seletiva de determinadas áreas do córtex visual, mas nessa peculiar gramática utilizada pelos artistas na comunicação. 


 Rumo a uma Teoria Neural da Arte? A teoria neural da arte ainda dá seus primeiros passos. É plausível acreditar que, graças também aos novos métodos de brain imaging, aspectos que hoje escapam a nosso conhecimento poderão ser logo desvelados em seus níveis mais profundos. Não podemos desconsiderar, por outro lado, que o receio de muitos – isto é, a ideia de que interpretando os objetos artísticos em termos neurobiológicos possamos tirar deles seu valor (destituindo-os de sua capacidade de nos causar prazer) – pesa bastante nesse âmbito de pesquisa. É evidente, todavia, que não é o conhecimento dos mecanismos e das funções neurais – que ainda assim nos fazem apreciar as pinturas de Caravaggio, Turner ou Velásquez – que os torna menos maravilhosos. Bem mais profícuo é discutir se a arte teria ou não uma função. 


E, admitindo-se que a tenha, se ela consistiria na necessidade de adquirir mais conhecimento do mundo circunstante ou, até mesmo, de simular a realidade, transcendendo-a ou deformando-a. A essa altura, é preciso perguntar-se se não seria necessário reconsiderar em novos termos a relação entre neurociências, arte e filosofia. Não somente a história da arte, mas também estudos de iconologia, antropologia e psicologia demonstram que a função da representação não pode ser identificada somente com um instrumento adicional de nosso conhecimento do mundo dos objetos. 


 Se, como já foi dito, o homem é um animal produtor de símbolos, a simbolização é um processo voltado a expressar alguma coisa. A possibilidade de interpretação do símbolo, todavia, não diz respeito a uma realidade exterior e material, mas a uma realidade interna e imaterial. Eis que, portanto, estamos no interior de um paradoxo perfeito: o símbolo dá corpo e essência àquilo que corpo e essência não têm. Através do símbolo, de fato, expressamos aqueles conteúdos indistintos que afloram à consciência e depois tomam parte, em formas diferentes, da esfera racional. É a consciência que restitui às coisas um sentido além da objetualidade. Em lugar de tratar diretamente com as coisas, o homem faz experiência delas, as capta, as decifra somente no diálogo constante consigo mesmo. Ele não se move em um mundo de objetos univocamente dados, de impulsos imediatos, mas sim vive, sente e reflete mergulhado numa densa atmosfera de emoções e imagens, de sentimentos e fantasias, de expectativas e esperanças. O homem é um animal simbólico, e o símbolo, como diz Jung, é corpo vivo e alma (a mais antiga e eficaz metáfora do símbolo). 


Para além de sua notória origem, o termo símbolo – que remete etimologicamente aos movimentos de separação e reunião – carrega em si uma polaridade aparentemente derivável e uma polaridade etimologicamente inderivável. Em Freud, ele se encarrega de ocultar a verdade (unindo o conteúdo manifesto de um comportamento, de um pensamento, etc., a seu sentido latente), ao passo que em Jung designa a natureza obscura do Espírito (a sombra) em suas expressões polimorfas, mantendo constantemente viva a tensão dos contrários que está na base de nossa vida psíquica. 


Para além de si próprio, o símbolo remete a um sentido inefável, obscura mente apresentado, que nenhuma palavra expressa completamente. Além disso, o símbolo desempenha a função de substituição, que faz transitar na consciência, de forma dissimulada, os conteúdos que de outro modo não teriam acesso a ela. Não é um artifício conceitual, mas uma realidade que detém um poder real que – como se vê frequentemente em psicopatologia – em alguns casos até subverte a trama e a urdidura mentais (seria interessante, nesse sentido, um estudo entre arte e psicopatologia). 


A substituição implica também uma função mediadora que é uma verdadeira ponte entre os opostos, entre a realidade e o sonho, entre a natureza e a cultura, entre o inconsciente e a consciência. O símbolo constitui, portanto, um fator de equilíbrio que exerce uma eficácia prática no plano dos valores e dos sentimentos; o símbolo como força unificadora e fator de integração pessoal, mas também exposto a um grave risco de desdobramento da personalidade, da fragmentação do self, da falsificação do passado; o símbolo como cifra alegórica de um mistério, nunca desvelado de uma vez, mas sempre novamente a ser decifrado, como uma partitura musical, sempre com uma diferença entre sua linguagem metafórica e a coisa indicada, sempre como um além do pensamento. O símbolo é um conceito-esponja, um conceito-simbiose, com o perigo de que a repleta “irracionalidade” de seu discurso transforme o “regime noturno” em “regime diurno” e sua dupla sintaxe – precisamente como para os surrealistas – numa atividade que tudo permeia. 


 Se a indagação neuroestética não se detivesse na análise dos princípios e das regularidades da percepção e da fruição da obra; ou a esclarecer como e por que o artista se serve precisamente dos meios e da linguagem do cérebro visual, voltando-se, por assim dizer, no próprio ato expressivo, àquelas áreas altamente especializadas que evoluíram ao longo de um período milhões de anos mais longo do que aquele da linguagem; se a pesquisa neuroestética, ao contrário, se propusesse a apreender – mediante a linguagem do símbolo ou da tensão da metáfora – os elementos de compartilhamento de realidades psíquicas imateriais comuns a todos os homens; bem, então, talvez, pudéssemos colher e estabelecer não somente os códigos materiais compartilhados nas bases biológicas, mas poderíamos conhecer elementos e aspectos da realidade psíquica por uma nova perspectiva – a simbolização – que caracteriza tão profundamente o Homo sapiens. 


 Embora por mais de um século a psicologia e a psicanálise tenham indagado suas dinâmicas, o grandioso esforço de compreensão da simbolização parece agora desprovido de força vital. A neuroestética, em diálogo estreito com a neuropsicologia, se tornaria o instrumento privilegiado por estudos adicionais que poderiam entreabrir novos horizontes interpretativos para a investigação daqueles elementos do patrimônio simbólico comum que constituem o alfabeto das imagens por meio do qual nos relacionamos, conosco e entre nós, desde sempre.
Mauro Maldonato, Silvia Dell’Orco e Ilaria Anzoise

21 de nov. de 2009

A morte lenta do cigarro

No Rio de Janeiro, a lei que proíbe o consumo de cigarro em bares e restaurantes entrou em vigor na quarta-feira passada, deixando o rastro típico de sua chegada: fiscalização rígida, reclamações e uma liminar que desobrigou 2.000 estabelecimentos de cumprir a lei. Há quase quatro meses, lei semelhante baniu o cigarro dos bares e restaurantes de São Paulo, produzindo polêmica parecida e levando o governo federal a reclamar junto ao Supremo Tribunal Federal. No próximo fim de semana, o cigarro estará proibido nos bares e restaurantes do Paraná, e não será surpresa se causar confusão. Na quinta-feira passada, a proibição já passou a valer para Curitiba, onde meia dúzia de equipes de fiscalização estava escalada para zelar pelo cumprimento da lei. Em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, uma lei antifumo, menos rigorosa, deve entrar em vigor em breve. Em Brasília, já faz tempo que não se pode acender um cigarro dentro dos bares e restaurantes. Houve confusão, protesto, reclamações, mas a lei pegou. A constatação dos tempos atuais é inequívoca: a moda contra o cigarro, que agora se espalha pelo Brasil, pegou. Pegou nas democracias do Ocidente e, em certos casos, até mesmo em países mais pobres. Em alguns, as restrições são ousadas (Irlanda, 2004: o cigarro é banido até do símbolo nacional, os pubs). Em outros, são proibições ainda tímidas (República Checa, 2006: começou o veto ao cigarro nas escolas). Há países onde a lei funciona perfeitamente bem (Suécia, 2005: o cigarro sumiu dos locais públicos). Há outros em que é ignorada (Paquistão, 2003: fuma-se até dentro dos órgãos públicos). Apesar das diferenças de ritmo e intensidade, o banimento do cigarro parece inexorável no Ocidente. O melhor exemplo talvez seja a França, a Paris dos cafés, dos maços de Gauloises decorados com o elmo alado dos gauleses outrora invencíveis. Em 1991, entrou em vigor uma lei que bania o cigarro dos locais públicos e exigia que os restaurantes criassem áreas para não fumantes. Foi francesamente ignorada. No ano passado, uma nova lei, mais rígida que a anterior, pegou. O cigarro é a droga mais popular do século XX. Teve a mais espetacular trajetória de um produto no surgimento da sociedade de massas. No apogeu, era símbolo das mais instintivas ambições humanas: a riqueza, o poder, a beleza. No ocaso, virou câncer, dor e morte. É possível que não esteja longe o dia em que o tabaco será presença rara na paisagem urbana, restrito a calçadas e espaços ao ar livre. Ou nem isso. Em São Francisco, em respeito às crianças, o cigarro foi banido de parques, praças e praias. Em Nova York, que há seis anos embarcou de cabeça no veto ao tabaco, já se proíbe cigarro até dentro de casa. São cada vez mais numerosos os empreendimentos imobiliários cujos donos só alugam apartamentos a locatários que se comprometem a não fumar em casa. Em dezembro, uma administradora predial, a Kenbar Management, alugará 300 unidades em Manhattan, com uma novidade: além de proibir locatários de fumar nas varandas e nos terraços, vetará o cigarro até nas calçadas que circundam o edifício. A mola propulsora das proibições é uma só: os males causados ao fumante passivo, que é exposto involuntariamente à fumaça de terceiros. "Não há nenhuma dúvida de que estar exposto ao cigarro alheio mata. O debate sobre isso, do ponto de vista científico, acabou", diz o epidemiologista Thomas Frieden, festejado pelo sucesso com que implantou a lei antifumo em Nova York (veja o quadro abaixo). A suspeita é antiga. Ainda em 1928, cientistas alemães divulgaram a hipótese de que o câncer de pulmão em mulheres não fumantes poderia ser causado pelo cigarro dos maridos – intuição genial numa época em que pouco se sabia sobre os males causados pelo cigarro nos próprios fumantes. Nos anos 30, pela primeira vez usou-se o termo Passiv-rauchen (fumo passivo, em alemão). Daí em diante, as evidências foram se avolumando, mas só ganharam um impulso a partir da década de 70. Os primeiros estudos abrangentes surgiram no Japão e na Grécia – e não por acaso. Eram países com alta incidência de fumantes entre homens e baixíssima entre mulheres. Assim, tornaram-se um laboratório vivo para estudos do fumo passivo. Em Atenas, o epidemiologista Dimitrios Trichopoulos, examinando casos entre 1978 e 1980, descobriu que mulheres de fumantes tinham mais câncer de pulmão. O epidemiologista japonês Takeshi Hirayama, depois de acompanhar 250 000 adultos por anos a fio, identificou que o risco de mulheres de fumantes terem câncer de pulmão aumentava de 40% (quando o marido fumava até catorze cigarros por dia) a 90% (um maço ou mais). O estudo de Hirayama foi duramente atacado pela indústria do tabaco, mas trabalhos posteriores provaram que o japonês tinha razão. Nos Estados Unidos, o governo divulgou as primeiras suspeitas de que o fumante passivo podia ser prejudicado no início dos anos 70. Mais tarde, na divulgação de um relatório em 1986, o governo americano trocou a suspeita pela certeza. Há três anos, um novo estudo atualizou as conclusões de 1986. O documento afirma que a exposição à fumaça do cigarro causa "doença e morte prematura em crianças e adultos que não fumam", diz que, apesar da crescente proibição do cigarro em lugares públicos, cerca de 60% dos americanos não fumantes ainda apresentam "evidências biológicas" de exposição à fumaça e alinha as seguintes conclusões: As crianças expostas ao cigarro correm mais risco de morrer repentinamente, ter infecções respiratórias, problemas no ouvido, asma mais severa e crescimento lento dos pulmões. Os adultos expostos ao cigarro podem sofrer efeitos adversos imediatos no sistema cardiovascular e têm mais probabilidade de desenvolver doença cardíaca e câncer de pulmão. Há um mês, o Institute of Medicine, que reúne as principais academias de ciências americanas, divulgou estudo que mostra que a exposição ao cigarro aumenta o risco de doença cardiovascular de 25% a 30%. Calcula-se que, anualmente, 46 000 americanos morram do coração e 3 000 em decorrência de câncer de pulmão por inalar fumaça de terceiros. E o que vem a ser isso? O instituto de combate ao câncer diz que o fumante passivo pode absorver mais de 4 000 substâncias químicas, das quais 250 são nocivas à saúde, e que, entre estas, cinquenta podem causar câncer. A lista assusta: inclui benzeno (que se encontra na gasolina), cádmio (metal usado em baterias) e cloreto de vinila (empregado nos plásticos, como PVC). Diante disso, é natural que alguém já comece a sentir dores no peito, mas não há motivo para alarme: as substâncias aparecem em quantidades ínfimas. Fazem mal, mas é preciso que a exposição à fumaça seja prolongada, sistemática. Qual a quantidade-limite? Isso é que ninguém sabe. Mas a melhor ciência hoje diz que "não existe nível seguro de exposição ao cigarro". No Brasil, estima-se que pouco mais de 16% da população seja fumante. É um dos mais baixos índices do mundo, o que faz do país um lugar próprio para popularizar as leis contra o fumo. Desde 1996, uma lei federal proíbe o cigarro em recintos públicos fechados, mas autoriza a criação de áreas reservadas a fumantes e não fumantes em restaurantes. Daí a confusão jurídica: uma lei federal permite fumar nos restaurantes, mas as leis estaduais que estão entrando em vigor, como as do Rio e de São Paulo, dizem o contrário. Nessa disputa, pode ser que o governo federal esteja juridicamente certo ao reclamar da inconstitucionalidade das leis estaduais no STF, mas os estados estão do lado da razão científica – os frequentadores de bares e restaurantes, sobretudo os que trabalham nesses lugares, estão sendo involuntariamente expostos a um mal comprovado. E são milhões. Essa constatação, que passou a ser feita com solidez na década de 80, mudou radicalmente a forma como o cigarro era visto no mundo. Até nos cafés do Egito, onde se fuma narguilé, há tentativas de barrar o tabaco. Antes da comprovação dos males provocados ao fumante passivo, o cigarro, mesmo causando dano à saúde do fumante, era considerado uma opção individual, uma questão de escolha pessoal. Com a certeza de que faz mal aos não fumantes, passou a ser uma agressão inadmissível a vítimas inocentes e involuntárias. Na forma moderna, o cigarro surgiu no fim do século XIX e, até o início do século seguinte, sua difusão foi acidentada. Nos EUA, país que promoveu o triunfo e a tragédia do cigarro, o tabaco não era bem-visto até a I Guerra Mundial, ainda que seu consumo viesse aumentando ano após ano. O cigarro fazia mal à saúde, já se suspeitava, e deteriorava os hábitos de uma sociedade ainda herdeira dos códigos morais vitorianos. O fumo se espalhava, mas era tido como coisa de degenerados e delinquentes. Até que veio a I Guerra, e tudo mudou. A campanha contra males físicos e morais do cigarro ficou frívola diante das atrocidades do front – e os soldados, afinal, precisavam de algo para distrair e relaxar. Poucas coisas ajudaram mais a elevar o cigarro a um patamar de respeito do que a declaração do general John Pershing (1860-1948), líder da força expedicionária americana na Europa: "Se me perguntarem do que precisamos para vencer a guerra, eu direi: munição e tabaco". Pronto. Mandar cigarro aos rapazes no front virou gesto de patriotismo. Compartilhar um cigarro na trincheira, símbolo de camaradagem. Com o fim da guerra, virtualmente uma geração inteira de americanos voltou para casa viciada em algo que pouca gente conhecia – nicotina. Nos anos 20 e 30, o consumo explodiu. "Ao migrar da periferia para o centro da sociedade, o cigarro produziu inovações críticas na produção tecnológica, na propaganda, no design e no comportamento social", afirma Allan Brandt, autor de um excelente livro sobre o assunto, The Cigarette Century (O Século do Cigarro). As feministas erguiam o cigarro como uma declaração de autonomia. Um dos mentores da popularização foi Edward Bernays, sobrinho de Sigmund Freud nascido na Áustria e criado nos EUA. Era uma fera na arte da "motivação de massa". Associou o cigarro à moda, à alta-costura parisiense, à própria psicanálise – "sublimação do erotismo oral" – e ajudou a inseri-lo nas telas do cinema, onde ficava magistral entre os dedos de Humphrey Bogart ou os lábios de Rita Hayworth. Há coisas impressionantes sobre o cigarro. No cinema, servia para sublinhar qualquer emoção: autoconfiança, ansiedade, expectativa, surpresa. Na vida real, era um fenômeno cultural que rompia a barreira entre os sexos. Representava, a um só tempo, símbolo de masculinidade (quando nas mãos do homem) ou de sensualidade (nas mãos da mulher). Incrivelmente, valia para tudo e para todos. Hoje, com uma lentidão exasperante para quem está morrendo de câncer, mas com uma rapidez impressionante no tempo histórico, o cigarro chegou ao fundo do poço nas democracias ocidentais. Mas à redução do consumo nos países ricos correspondeu um aumento, primeiro, nos países do antigo bloco soviético e, depois, no leste da Ásia. No início deste mês, as grandes indústrias fizeram até uma cúpula em Bangcoc, na Tailândia, onde jovens apareceram para protestar. É para o mercado asiático que, embalada pela abertura das fronteiras econômicas com a globalização, a indústria tabagista está migrando em busca dos lucros que perde nas sociedades mais abastadas. Hoje, cerca de 60% dos fumantes estão nessas duas regiões do planeta. A potência emergente do momento, a China, está repetindo a trajetória dos EUA de meio século atrás. De 1965 a 1990, o consumo de cigarros mais do que duplicou na China, onde o mercado ainda é predominantemente masculino. Mantida a tendência atual, em que de 80 000 a 100 000 pessoas começam a fumar todos os dias, o cigarro matará 1 bilhão de pessoas no decorrer do século XXI, ou dez vezes mais do que no século passado. O Brasil, pelo menos, começou a fazer a sua parte para evitar tamanha tragédia. André Petry

O crepúsculo dos sábios

O conceito de universidade moderna e a natureza do conhecimento que ela produziu até os anos 1960 tinham por objetivo formar o cientista. Este representava o "mestre da verdade" porque capaz de compreender seu ofício na complexidade dos saberes e da história. Sua autoridade procedia de sua palavra pública, pela qual se fazia responsável. O cientista era o intelectual, e para ele a pesquisa não correspondia a uma profissão, mas a uma vocação. O conhecimento mantinha sua autonomia com respeito às determinações imediatamente materiais e do mercado. Sua temporalidade - a da reflexão - compreendia-se no longo prazo, garantidora da transmissão de tradições e de suas invenções. A universidade pós-moderna, por sua vez, converte pesquisa em produção, constrangendo-se à pressa e à produtividade quantificada do conhecimento, adaptando-se à obsolescência permanente das revoluções técnicas, promovidas pelas inovações industriais segundo a lógica do lucro. A temporalidade do mercado confisca o tempo da reflexão, selando o fim do papel filosófico e existencial da cultura. Para a universidade moderna não cabia a pergunta "para que serve a cultura", mas sim "de que ela pode liberar". A universidade moderna elevava a sociedade aos valores considerados universais no concerto das nações que procuravam uma linguagem comum ao patrimônio cultural de toda a humanidade, devolvendo-o à sociedade com seus maiores cientistas e seus melhores técnicos. Essa foi a tradição de Goethe que havia formulado a ideia da Weltliteratur, da literatura universal como cosmopolitismo do espírito. A universidade pós-moderna é a da indiferenciação entre pesquisa e produção. O intelectual cultivado foi destituído - em todos os domínios do conhecimento - pelo especialista e seu conhecimento particularizado, cujo contato com a tradição cultural é episódico ou inexistente. Seu discurso não diz mais o "universal" e se limita a formulações técnicas, perdendo-se o sentido do conhecimento e seus fins últimos, com a passagem da questão teórica "o que posso saber" para a pragmática "como posso conhecer". Para Gunther Anders, o emblema da conversão do intelectual em pesquisador, da razão crítica em desresponsablização ética e racionalidade técnica, foi Fermi na Itália e Oppenheimer nos EUA, cujas pesquisas sobre a bomba atômica foram tratadas por eles em termos estritamente técnicos. A universidade pós-moderna não lida mais com as "grandes narrativas" nem busca a fundamentação do conhecimento e seus primeiros princípios. Como o mercado, se pauta pela mudança incessante de métodos e pesquisas. Nada aprofunda, produzindo uma cultura da incuriosidade, imune ao maravilhamento. Em sua pulsão antigenealógica, acredita que tudo o que nela se desenvolve deve a si mesma, não reconhecendo nenhuma dívida simbólica com as gerações passadas. Essa circunstância, por sua vez, pode ser compreendida no âmbito da massificação da cultura e da universidade. Com a ditadura dos anos 1960 no Brasil, a universidade pública moderna - concebida de início para formar as elites governantes, a partir do ideário de universidade cultural, científica e com suas áreas técnicas - começa sua desmontagem, o que e resulta em sua massificação. Sob a pressão de massas historicamente excluídas dos bens científicos e culturais, bem como do sucesso profissional aferido pelo enriquecimento nas profissões liberais, a universidade pós-moderna acolhe populações sem o repertório requerido anteriormente para a vida acadêmica. Face ao ideário moderno baseado no mérito de cada um e não mais no sistema nobiliárquico do nascimento, e sua incompatibilidade com a desigualdade real de oportunidades para a ascensão social, a universidade pós-moderna questiona, contrapondo-os, mérito e igualdade, reconhecendo no primeiro a manutenção do regime de privilégios e distinções do passado. Assim, a universidade atual adapta-se à fragilidade do ensino fundamental e médio, passando a compensar as deficiências dessa formação. Para isso, a graduação retoma o ensino médio, a pós-graduação a graduação, o doutorado o mestrado, cuja continuidade é o pós-doutorado, tudo culminando na ideia da "formação continuada" e de avaliações permanentes. Ao mesmo tempo, a ideia de pesquisa moderna anterior transforma-se em fetiche pós-moderno, tanto que a iniciação científica se faz para estudantes em preparação para a vida universitária adulta, mas constrangidos a publicações precoces. O paradoxo é grande, uma vez que, maiores as carências nos anos de formação do estudante - como a precariedade no acesso à bibliografia em idiomas estrangeiros e dificuldades de expressão oral e escrita na língua nacional -, mais estreitos são os prazos para a conclusão de mestrados e doutorados. Prazos e métodos, por sua vez, migram das disciplinas científicas para todos os campos do conhecimento, sob o impacto do prestígio da formalização do pensamento, como é possível reconhecer, em particular no estruturalismo e, mais recentemente, no linguistic turn, sua legitimidade garantida pelo rigor científico de suas formulações. Acrescente-se o abandono da ideia de rigor na escrita e o fim do estilo, com o advento do gênero paper e a multiplicação de congressos no mundo globalizado. Massificada a cultura, proliferaram, com a ditadura militar, a privatização do ensino e seu barateamento, as universidades particulares - salvo as exceções de praxe - prometendo ascensão social e acesso ao "ensino superior" e decepcionando suas promessas. A universidade moderna que a antecedeu garantia o exercício da formação especializada e se encontrava na base dos cursos técnicos com formação humanista para todos os que não se encaminhavam para a pesquisa, devendo atender à profissionalização, mas também à felicidade do conhecimento. A emergência da universidade pós-moderna diz respeito ao abandono dos critérios consagrados até então a fim de democratizá-la. Mas a democratização pós-moderna é massificação. A sociedade democrática comportava diversas representações das coisas: os partidos representavam as diferentes opiniões, os sindicatos os trabalhadores, a Confederação das Indústrias os empresários. Na sociedade pós-moderna, o consenso é produzido pela mídia e suas pesquisas de opinião, através da eficiência persuasiva da televisão, que primeiramente cria a opinião pública e depois pesquisa o que ela própria criou. Razão pela qual massificação significa perda da qualidade do conhecimento produzido e transmitido, adaptado às exigências de massas educadas pela televisão, com dificuldade de atenção e treinadas para a dispersão, mimadas por uma educação que se conforma a seu último ethos. A cultura pós-moderna é a da "desvalorização de todos os valores". Sua noção de igualdade é abstrata, homóloga à do mercado onde tudo se equivale. Em meio à revolução liberal pós-moderna, a universidade presta serviços e se adapta à sociedade de mercado e ao estudante, convertido em cliente e consumidor, como o atesta a ideologia do controle dos docentes por seus alunos. Em seu ensaio Filosofia e Mestres, Adorno diz, temendo incorrer em sentimentalismo, que o conhecimento exige amor. Sua universidade, a de Frankfurt, era moderna, humanista, como era humanista o professor de uma fita italiana dos anos 1970. No filme, estudantes impedem o franzino docente de literatura românica com seus compêndios eruditos de entrar na sala de aula onde discutem questões do curso. Sentado em um banco, o mestre escuta o vozerio e ruídos de cadeiras sendo arrastadas. Por fim é chamado e, quando entra, os estudantes em suas carteiras estão em círculo, e o professor senta-se entre eles. Discutem então o que o professor deveria ensinar-lhes. Como não chegam a nenhum consenso e o dia se faz crepuscular, decidem finalmente deixar que o professor se manifeste. Ao que o professor, retomando seu lugar junto à lousa e diante de todos, anuncia: "Estou aqui para ensinar a vocês a beleza de um verso de Petrarca". Metáfora rigorosa para a educação, da escola maternal à universidade, o conhecimento, como escreveu Freud, é uma das tarefas mais nobres da humanidade no longo processo de sua humanização. Olgária Matos

20 de nov. de 2009

Hipocrisia


A “desipocritização” das organizações será uma das mais árduas tarefas que os grandes gestores do futuro terão pela frente. Quero abordar um assunto pouco discutido no meio acadêmico ou empresarial, mas que pode comprometer o ambiente, o desenvolvimento e o futuro de uma empresa: a hipocrisia. 

O dicionário Houaiss define a hipocrisia como: 

1. característica do que é hipócrita, falsidade, dissimulação. 
2. ato ou efeito de fingir, de dissimular os verdadeiros sentimentos, intenções; fingimento, falsidade. 
3. caráter daquilo que carece de sinceridade. 

 Em poucas palavras, poderíamos dizer que a hipocrisia é a manifestação fingida de bons sentimentos. No contexto do comportamento humano, parece-nos que a hipocrisia – nos dias atuais – é uma característica comportamental observada em alguns ou vários momentos nos contextos que fazem parte da vida do ser humano. Jacques Anatole France, poeta e romancista francês, dizia que “não há castos: somente doentes, hipócritas, maníacos e loucos”. É lógico que tal afirmação é radical demais para um observador mais sensato, porém acreditamos que poucos discordarão de Napoleão Bonaparte quando disse que “quem sabe adular também é capaz de caluniar”. Tenho a impressão de que, atualmente, a hipocrisia está tão impregnada nas relações humanas que em muitos momentos ela é – mesmo quando percebida – consentida e bem recebida pelas pessoas, especialmente as inseguras e com baixa auto-estima ou carência afetiva. 

Quem nunca fez um elogio a alguém apenas para ser gentil ou enaltecer uma qualidade inexistente como forma de incentivo? Ou, ainda, quem nunca foi bajulado escancaradamente? A realidade é que a hipocrisia está aí e, portanto, também está presente no mundo dos negócios e das organizações. Quantos comerciais veiculados diariamente nos vários meios da comunicação são absolutamente verdadeiros na intenção, na mensagem ou nas imagens? Será que não é possível uma empresa patrocinar um atleta, equipe ou clube e, ao invés de dizer que faz isso em prol do desenvolvimento do esporte e da juventude em nosso país, afirmar que só espera um retorno em aumento das vendas, de clientes, da produção e do lucro? Caro leitor, você acharia isso normal e compraria o produto dessa empresa? 

 Outro campo onde a hipocrisia é muito marcante é o da responsabilidade social. Nos últimos vinte anos, tornou-se cada vez maior o número de empresas que sentiram a necessidade de passar uma imagem corporativa socialmente responsável e o fizeram através da propaganda, a forma mais fácil de construir e oferecer ao mercado uma imagem saudável e positiva. Porém, o lucro – e só ele – parece continuar a ser o único propósito de muitas empresas! Inúmeros projetos e programas são inquestionavelmente excelentes em suas concepções e fundamentalmente importantes para a sociedade, contudo, é preciso criar uma nova essência de valor para tratar a responsabilidade social sem hipocrisia. 

 Nas empresas Vamos agora abordar a questão da hipocrisia dentro das empresas. Todo profissional com alguma experiência sabe que pessoas desleais e individualistas existem em quase todas as organizações. Sabe também que puxões de tapete, promoções absurdas, protecionismos incompreensíveis e desrespeitos pessoais ou profissionais não são ocorrências tão raras. Se tudo isso acontece em tantas empresas, é também fácil supor que a hipocrisia, por estar tão impregnada no comportamento humano, seja uma realidade comumente observada dentro das organizações. 

Seguramente, você já passou por alguma situação característica de um comportamento hipócrita. Dentre os inúmeros exemplos que podem ser mencionados, eis alguns: 

• Empregados que ficam após o expediente a fim de mostrar comprometimento e responsabilidade para seus superiores; 
• Funcionários que chegam na empresa e só cumprimentam os superiores; 
• Subordinados que só almoçam com os chefes e evitam os colegas; 
• Aqueles que só elogiam o chefe, mesmo após uma decisão equivocada ou precipitada; 
• Aqueles que agradecem, mesmo não concordando, pela explicação do porquê a promoção foi concedida a outro funcionário e não para si; 
• Aqueles que se desculpam junto ao superior após receber uma “bronca” que não mereciam; 
• Aqueles que elogiam um colega quando ele está presente e, quando o mesmo se retira, criticam-no abertamente; 
• Aqueles que dizem sentir-se privilegiados por fazer parte de uma equipe da qual discordam totalmente. 

 A realidade é que a hipocrisia está sempre presente e é difícil dimensionar com que frequência ela se torna um mal efetivo para as organizações. Um mal necessário? Neste ponto, levanta-se a seguinte questão: é possível criar um ambiente interno absolutamente isento de hipocrisia? É muito difícil, senão quase impossível. Primeiramente, em razão da natureza humana, que, em tantas circunstâncias, engana-se ao aceitar a hipocrisia como uma atitude sincera, educada ou motivacional. Em segundo lugar, porque no mundo corporativo, apesar do esgotamento dos atuais modelos de gestão, ainda não se conseguiu desenvolver um novo modelo em que prevaleça – nas palavras, nos gestos e nas ações – a sinceridade absoluta, o respeito em todos os graus e a franqueza custe o que custar. Imagine um ambiente em que, por pior que fosse a crise, a direção chamasse todos os funcionários e anunciasse, com total franqueza, o corte de alguns deles para viabilizar a manutenção da operação com a lucratividade mínima imposta pelos acionistas. 

O que aconteceria com o moral e comportamento dos funcionários que ficassem? Como seriam escolhidos os demitidos? Como fazer um corte sem protecionismos ou preferências pessoais? Qual seria a posição do sindicato diante dessa situação? Suponha agora um funcionário atender uma reclamação em razão da qualidade e concordar com o cliente que, apesar da certificação ISO 9000, o produto adquirido é o que de melhor a empresa consegue fazer, que o produto do concorrente é superior, mas que espera que, como cliente, ele entenda a situação e continue comprando em razão da franqueza demonstrada. 

Ponha-se no lugar desse cliente. O que você faria ou diria? Certamente, ainda estamos distantes de um ambiente corporativo isento de hipocrisia. Mas não custa sonhar – e desejar – que um dia isso será possível se, desde já, for iniciada uma mudança de conduta de nossas lideranças, com práticas diárias onde prevaleça a franqueza (em tudo que for possível) e o incentivo ao aprendizado sobre o que é hipocrisia e seus malefícios para as pessoas e para a organização. 

 A “desipocritização” (embora a palavra não exista) de nossas organizações será uma das mais árduas tarefas que os grandes gestores do futuro terão pela frente. Por ora, talvez tenhamos que concordar com Rafael Russon quando ele afirma que “a hipocrisia no ambiente de trabalho começa na entrevista de emprego e só termina com aquele e-mail de despedida ao sair”. É uma triste realidade, infelizmente! 
Carlos Alberto Zaffani

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