22 de fev de 2011

O prazer da vida

O prazer é uma canção de liberdade, Mas não é a própria liberdade. É o despontar dos teus desejos, Mas não o seu fruto. É um abismo a clamar pelo céu, Mas não é nem o abismo nem o céu. É a ave enjaulada a voar em liberdade, 

Mas não é o espaço que ela percorre. Na verdade, o prazer é uma canção de liberdade. Gostava que a cantasses com todo o teu coração, Mas não quero que percas o coração ao cantá-la. Alguns jovens buscam o prazer como se fosse tudo na vida, E, por isso, são julgados e repreendidos. 

Eu não os julgo nem os repreendo. Prefiro dizer-lhes que partam em busca. Não ouviste falar do homem que estava a cavar a terra Á procura de raízes e encontrou um tesouro? Alguns anciãos recordam os seus prazeres com remorsos, Como se fossem erros cometidos durante a embriaguez. Deviam recordar os seus prazeres com gratidão, Como quem recorda as colheitas de Verão. Os que não buscam nem recordam temem o prazer, Pois pensam que lhes irá prejudicar o espírito. O teu corpo conhece a sua herança E as suas necessidades, e não se deixará enganar. 

E o teu corpo é a harpa da tua alma; Pertence-te e cabe-te a ti criar Uma doce música ou sons confusos. E agora perguntas, no teu coração: "Como poderei distinguir o que é bom do que é mau no prazer?" Vai para os campos e jardins e verás Que a abelha tem prazer em tirar o mel da flor, Mas também se deleita a flor Ao dar o seu mel à abelha. Para a abelha, a flor é uma fonte de vida, E, para a flor, a abelha é a mensageira do amor. E tanto para a abelha como para a flor, Dar e receber prazer é tanto uma necessidade Como um êxtase. 
Portanto, no prazer, sê como a abelha e a flor. 
Kahlil Gibran

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