23 de fev de 2011

Ter orgasmos é uma obrigação?

Suas amigas dizem chegar láhhh múltiplas vezes. Já você, por mais que se concentre, não consegue ter orgasmo em todas as transas. Normal, certo? Não para um número cada vez maior de mulheres. Entenda por que a cama da vizinha é sempre mais quente. Quer dizer, pelo menos na sua cabeça. Quando Paula, advogada de 25 anos, almoça com as amigas, ouve histórias sobre orgasmos múltiplos e sexo de três horas seguidas. À noite, ao encontrar o namorado, decide que não sairá do quarto até sentir as paredes tremerem. O problema é que o clímax não acontece dessa vez... Não que a moça sempre tenha dificuldade para alcançá-lo, mas, pensando bem, ele não ocorre em tooodas as transas. Será que existe algo de errado com ela? Não, não há.
O que impediu Paula de, literalmente, relaxar e gozar foi a pressão que colocou em si mesma. Parece bobagem, mas esse medo de falhar é mais comum do que se imagina. O estudo Vida Sexual do Brasileiro, realizado pelo Hospital das Clínicas de São Paulo, mostrou que quase 51% das mulheres apresentam algum tipo de impedimento sexual — e os dois mais citados foram dificuldade de excitação e de ter um orgasmo. “Percebo que cada vez mais mulheres me procuram preocupadas por não conseguirem chegar ao clímax. Elas acham que têm algum problema anatômico quando, na verdade, apenas internalizaram uma pressão social”, diz a ginecologista Flávia Fairbanks, de São Paulo.
Trocando em miúdos, estamos sofrendo com a tal ansiedade de desempenho (sim, a mesma que pode causar ejaculação precoce nos homens). Funciona assim: a pessoa estabelece uma meta (por exemplo: atingir o ápice do prazer em até dez minutos) e, quando não consegue cumpri-la na primeira vez, acha que nunca mais será capaz, mesmo que prove todas as táticas do Kama Sutra.
E esses objetivos impostos estão cada vez mais difíceis de ser alcançados. Por exemplo: em filmes eróticos, é comum ver atrizes chegando ao orgasmo por meio da penetração. Logo, as mulheres começam a se cobrar o mesmo prazer na vida real, quando todo mundo sabe que a grande maioria precisa de estimulação clitoriana. E, aí sim, por causa dessas cobranças, pode-se desenvolver uma disfunção — que, vamos deixar claro: tem origem psicológica, não física. A melhor atriz da cama Segundo o terapeuta sexual Flávio Gikovate, o que parece um desejo de agradar é, na verdade, uma manifestação da vaidade. Ser altamente orgástica está relacionado à ideia de ser boa de cama. E, convenhamos, ninguém quer ficar para trás nesse quesito. Para ele, a preocupação excessiva com a performance é causada pela alta exposição do tema. “Hoje, fala-se muito sobre sexo, mas isso não quer dizer que a questão esteja bem resolvida. Muito pelo contrário: o padrão de excelência passou a ser ditado pelos filmes pornôs — que é uma forma válida de estimulação, desde que não se transforme em parâmetro do que é normal ou prazeroso.” Escravas da performance Há 60 anos, muita gente nem sabia que existia orgasmo feminino. Com a revolução sexual, a mulher conquistou esse prazer antes reservado aos homens — mas também assumiu certas preocupações que eram só deles. Hoje, espera-se que elas tenham mais de um orgasmo e cheguem lá cada vez mais rápido, independentemente das habilidades do parceiro. E, se o orgasmo não vem, simular é a solução: de acordo com uma pesquisa divulgada pelo Instituto Datafolha no início do ano, mais de 50% das brasileiras admitiram já ter fingido orgasmos. Vendo estrelas (que não estão lá) Como não existe um orgasmômetro capaz de medir quanto prazer é normal sentir, nem perca seu tempo comparando o seu com o das amigas. E quem garante que elas estão falando a verdade? “Como ninguém quer ficar fora do padrão, a tendência é exagerar mesmo”, diz Flávia. Na média, apenas 39% das mulheres afirmam atingir o ponto máximo de excitação durante todas as relações, de acordo com a pesquisa Datafolha. A princípio, todas nós somos capazes de ter um orgasmo.
Mas isso não quer dizer que ele tenha que ser vaginal, múltiplo, ocorrer todas as vezes... Embora existam algumas respostas físicas mais comuns — o batimento cardíaco dobra, o útero e os músculos vaginais sofrem espasmos, a pupila dilata —, a sensação e a intensidade são diferentes para cada mulher e em cada situação. “Ser sexualmente livre significa poder falhar sem constrangimentos e saber que a intensidade do seu prazer não é medida pela altura dos gemidos”, explica Gikovate. Portanto, da próxima vez que tirar a roupa, resista à mania de se comparar aos outros e lembre-se de que, na verdade, seu único parâmetro deve ser você mesma. Letícia Mori

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