3 de mar de 2013

Do sexo à glória

Graham Dean

Na mocidade, a vida se apresenta como um vasto e infinito horizonte; não se enxerga nem se imagina o fim. O fim nunca haverá de chegar! Ainda tem muitas décadas à frente para se gastar.Já quando se passa dos 60, com pouca reserva pela frente, percebe-se que o passado transcorreu estupidamente depressa. A vida derreteu rapidamente como uma barra de gelo ao sol escaldante do meio-dia.
Nas peripécias juvenis da vida, a sensação de tempo tinha um valor oposto àquele do idoso, parecia que os dias eram eternidades, os meses, verdadeiras imensidões, e os anos, infinitos. O jovem se faz de mais velho, o velho tende a se fazer de mais jovem. Um deseja que o tempo corra, o outro, que o tempo pare.
Nessa estranha situação, o jovem adianta o relógio, e o idoso tenta atrasá-lo, inventa mil truques para não declarar a idade, para rejeitar a realidade marcada por cabelos brancos, por rugas, por perda de mobilidade.
Nota-se, depois de se passar por muitas estações, que as paixões juvenis conseguem reter o escorrer do tempo, e que, ao contrário, as agruras senis o aceleram. Chega-se ao momento em que a água que parecia parada no reservatório do tempo passa a se acelerar, precipita-se pelo ralo cada vez mais impiedoso.
A alteração dessas percepções acontece quando os instintos primordiais se acalmam, quando o dever de perpetuar a espécie se apazigua. Curioso: passando-se pelo momento do acasalamento, certas espécies de animais falecem, suas existências deixam de ter sentido. Já para o homem, substância mais aperfeiçoada, as oportunidades continuam, mas os dias intermináveis da juventude, cheios de compromisso, de coisas para fazer, de eventos para presenciar, deixam lugar a um lento tergiversar sem muito afã. Qualidade mais que quantidade, detalhes mais que enormidades. 
Na primeira parte da existência, o homem é movido pelo desejo da mulher, por ela faz loucuras. Na maturidade, persegue, com obstinação, o poder ou o dinheiro, que são a mesma coisa, e por eles vende a alma. Já no entardecer da vida, quando as perspectivas de sobrevivência no planeta se encurtam e se aproximam do nada, surge o desejo de glória – última fantástica ilusão – para se perpetuar ao menos na lembrança dos remanescentes. Apela-se à “sobrevivência virtual” num mundo que continuará a escaldar outros indivíduos. 
Na glória de seus feitos, sobrevivem Moisés, Alexandre, Júlio César, Augusto, Napoleão, Einstein. Porém, enquanto o sexo é para todos, e o poder/dinheiro, para alguns, a glória é atingida por poucos. Glória que esplende nas pirâmides do faraó, no esplendor dos templos de Michelangelo, nos sorrisos pintados por Leonardo, na inocente beleza dos anjos de Rafael, nos versos apaixonados de Dante, nas harmonias de Beethoven. 
Para Artur Schopenhauer, “A glória é o sol que ilumina os mortos... é o poente de uma vida que se converte na aurora da imortalidade”. Mais estupenda é a percepção de Shakespeare quando olha o “abismo” que segue ao término: “Senhores, bom dia, apagai as tochas (do mundo)...”. A glória surge assim em seu esplendor. 
Pois é isso que a vida reserva. Sexo na juventude, poder na maturidade e glória na velhice. Três são as idades. Três, as motivações. Três, os pecados principais: luxúria, que evolui para amor, avidez, que se transforma em generosidade, orgulho, que evolui para desapego. 
Os raros fulgurados pela compreensão desaparecem na autossuficiência de seu enlevo, não podem explicar o “estado de ser” que conquistaram individualmente, como a vida é dada ao sair do ventre da mãe. 
A dor acelera a evolução, é banhada de sangue, passa pela cruz e conduz a Deus.
Os budistas acreditam que, apagando-se os desejos, entregando-se ao que há de divino dentro do homem, chega-se ao nirvana, morada imaterial dos deuses. 
Já o Eclesiastes afirma que “O dia da morte é melhor do que o dia do nascimento”, por considerar que o fim do corpo esgota o ciclo dos desejos, razão direta do sofrimento. Iniciar-se-ia, assim, um descanso sem sexo, que é transitório, sem poder, que é desgastante, e sem glória, que só a Deus pertence.
Vittorio Medioli

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