12 de jul de 2013

O garoto Paul e a lenda McCartney

A vida do beatle (não existe isso de ex-beatle...) se divide em duas: a real, da família, da ioga nas manhãs e dos passeios com os filhos e netos; e a mais “Real” ainda, a da consagração, a do Sir que é hoje o homem mais famoso do mundo.“Eu gosto da bajulação  Não levo muito a sério, mas claro que gosto. Tracei um plano, trabalhei para isso. Então eu curto”

Há mais do que apenas um olhar nostálgico no trabalho recente do músico inglês de sangue irlandês Paul McCartney. Lançado no ano passado, o disco Kisses on the Bottom traz um quê de jornada sentimental de um herói da classe trabalhadora. O álbum é um apanhado de standards que seu pai, um vendedor de algodão, e sua mãe, uma enfermeira, ouviam e cantavam na sala de estar de sua casa nos subúrbios operários da Liverpool dos anos 40 e 50. É um tributo do hoje Sir à família, às suas lembranças mais remotas, aquelas de seu pai, músico amador, tocando seu velho piano vertical, rodeado de amigos e parentes sentados pelo chão, numa casa onde, se faltavam bens materiais, sobrava cumplicidade. “Meu pai amava música. Meu gosto musical eu herdei dele”, diz Paul, relembrando a carreira que começou ali, na sala de estar do número 20 da Forthlin Road.

É, portanto, a James McCartney, pai do músico, que todos deveriam agradecer quando tiver início, neste mês, a turnê mundial Out There, no Mineirão, em Belo Horizonte, tour que passa ainda por Goiânia e Fortaleza. Quando estiver tocando Yesterday, Let It Be, Hey Jude e mais três dezenas de canções que remetem à sua infância, sua origem, seus parentes e tantos outros personagens que ajudaram a formar seu legado, Paul McCartney estará cumprindo uma rotina de entertainer e contador de histórias que ele aprendeu desde pequeno e desenvolveu como se fosse um artesanato. 

Aos 70 anos, ele próprio agora patriarca de uma grande família, Paul é pai de quatro filhos adultos e de uma menina de nove anos, além de avô de oito netos. Dono de um patrimônio de R$ 2 bilhões, mais que suficiente para manter gerações de sua prole com um padrão confortável de vida, para dizer o mínimo, ele conta também com um espólio de 50 anos de sucesso – os primeiros 50 anos, ao que tudo indica – e nenhum sinal de cansaço. Enquanto se dirigia para um estúdio em Los Angeles, onde finalizava seu novo disco, ouvia concertos dos Beatles, supervisionava o relançamento de um álbum ao vivo dos Wings e se preparava para a nova turnê, o mais bem-sucedido artista da música popular do mundo resumiu: “felicidade para mim é isso. Minha família e minha música.”
50 anos de mccartneymania
Tem sido uma jornada e tanto para quem ganhou seu primeiro prêmio aos dez anos de idade, em um concurso de redação da escola, quando colocou no papel uma história que seu pai lhe havia contado sobre a “adorável e jovem rainha Elizabeth II”. Paul McCartney, no fim das contas, nunca parou de narrar causos assim. Desde 11 de fevereiro de 1963, quando os Beatles passaram 12 horas dentro de um estúdio para gravar o que seria o LP Please Please Me, a sua carreira mantém cinco décadas de presença planetária e idolatria, em um mundo que ele ajudou a moldar, na música e nos costumes. Os Beatles mostraram que o rock podia ser divertido e transcendente. 

E Paul aprendeu a transformar em arte e ofício a facilidade que tinha de criar pequenas fábulas, lindas melodias e imensos sucessos – o próprio músico lembra de quando sentava com John Lennon e brincava: “vamos agora compor uma piscina!”. Meio século depois do Ed Sullivan Show, de fumar maconha com Bob Dylan, de descobrir o psicodelismo, de John & Yoko, de Linda McCartney, Wings e Heather Mills, o músico finalmente consegue olhar para trás sem remorsos e a ter paz com seu próprio legado, com medo nenhum de admitir: “Sabe… isso me espanta… Eu acho que essas músicas realmente resistem ao teste do tempo. Ouvi recentemente algumas gravações de concertos dos Beatles que estão sendo preparadas para um especial e, cara, isso me lembra a grande bandinha que a gente tinha”.

Discussões sobre qual o melhor baixista ou a melhor “grande bandinha” de todos os tempos obviamente nunca terão uma resposta definitiva (e ainda bem, porque a música pop não foi feita apenas de harmonias, mas também de anedotas e lendas que serviram para criar uma mitologia e dar uma narrativa para todo aquele barulho). Todavia, faça um exercício simples: imagine uma sala repleta de pessoas famosas, políticos, empresários – não importa sobrenome ou conta bancária. Se Paul estiver no recinto, possivelmente ele será sempre o mais celebrado do local. “Oh não, não é sempre, não”, disfarça ele, que poderia muito bem sobreviver apenas das vendas dos seus autógrafos, se assim quisesse – na internet há vários, de R$ 170 até R$ 9 mil. “Eu gosto dessa bajulação”, assume Paul. “Não levo muito a sério, mas claro que gosto”.

Segundo Paul, essa busca pelo reconhecimento, pela satisfação de fazer uma coisa que resista a algum desgaste e, por que não, pela idolatria, o move desde Liverpool até hoje – vale lembrar que, além de todo o cuidado com o espólio dos Beatles, os relançamentos de sua carreira solo, suas turnês e novas composições, Paul já escreveu trilhas para filmes e músicas para concertos e até balé, além de lançar livros de poemas, montar exposições com seus quadros e manter um projeto anônimo de música eletrônica. Também coleciona sucessos como nenhum outro artista – são 60 discos de ouro, 32 canções no primeiro lugar da Billboard e 100 milhões de álbuns e singles vendidos. 

Segundo uma lista compilada pelo diário britânico The Sunday Times, todos esses números fazem com que ele tenha a maior fortuna entre os músicos do Reino Unido, com 713 milhões de libras, cinco vezes mais do que Mick Jagger e Elton John, que dividem o sétimo lugar. Aos que lhe perguntam sobre aposentadoria, ele apenas desdenha. Revezando-se entre sua casa na Inglaterra e os Estados Unidos, Paul leva uma rotina de monge. Além de praticar ioga e seguir sua dieta vegetariana, costuma se exercitar pela manhã, curtir os netos e, nos períodos de gravação, se enfurnar nos estúdios à tarde. 

Nada aparentemente muito emocionante, convenhamos, mas nada surpreendente para quem afirmou, em 1970, que o tema de seu álbum de estreia solo era “lar, família, amor” – na época, durante a coletiva de imprensa, Paul disse que seu único plano era apenas envelhecer bem. Missão cumprida, segundo o próprio. “Acho que eu consegui, sabe? Posso dizer que estou bastante contente. Tenho meus filhos, meu trabalho”, explica.

Pode parecer uma explicação simplória, mas o fato é que Paul McCartney não apenas gosta do que faz. Ele só faz o que gosta. Há muito este beatle (não existe isso de ex-beatle…) conquistou uma independência que todos almejam, mas poucos alcançam. Ninguém o obriga a enfrentar de dez a 15 horas de voos semanais para acordar em um hotel diferente a cada dia, ficando longe da família. Ele se sujeita a isso porque realmente ama o que faz. Ama a energia e a excitação de dezenas, às vezes centenas, de milhares de pessoas gritando seu nome e cantando suas canções, na Rússia, na Inglaterra ou no Brasil. “Eu tracei um plano para ser famoso. Eu trabalhei para isso. Então eu curto”, conta. Quando lembrado de que existem aqueles que ao se tornarem famosos pedem para ser deixados em paz, ele ri. “É mentira, você sabe que é falso…”.

Não quer dizer que Paul menospreze sua privacidade. Ao contrário. Ele, junto com os outros beatles, viu nascer o fenômeno da megacelebridade. Antes, só Elvis Presley havia sido atropelado por esse trem. E, diferentemente de alguns de seus colegas geniais da época – como Syd Barrett, do Pink Floyd, e Brian Wilson, líder dos Beach Boys – que sucumbiram ao peso do sucesso, da pressão da indústria musical, das drogas ou da busca pela perfeição pop, Paul aprendeu a impor limites em prol de sua sanidade. “Se eu estou num restaurante, comendo, eu peço privacidade. 

Se alguém tenta tirar uma foto, eu falo ‘por favor, não’. Então digo, ‘escuta, eu te cumprimento, a gente conversa, mas eu estou tentando levar minha vida aqui’”, explica. É o necessário, segundo ele, para manter os pés no chão, como contou na sua biografia Many Years from Now, escrita por Barry Miles: “Sempre tive essa diferença entre ‘ele’ e ‘eu’. Ele está no palco e é famoso. E eu sou apenas um garoto de Liverpool. Esse pequeno ser dentro de mim ainda se sente como o menino que andava pelas ruas fazendo bicos, recolhendo vidros de geleia, construindo represinhas nos riachos. Sinto-me o mesmo cara – e, claro, sou ele mesmo. Todos os troços que aconteceram depois não chegaram a afetar aquele garoto tanto assim. O que eles afetaram foi a figura lendária que eu talvez estivesse encarnando. De vez em quando, paro e penso: ‘Puta que pariu! Sou Paul McCartney! Que viagem’. O nome já soa como uma lenda. Nem sempre dá para compartimentar as coisas com tanta facilidade – o eu pessoa e o eu beatle –, mas tenho mostrado certo jeito para isso.”

Assim, em turnê ou no lançamento de um álbum novo, o músico fica feliz por existir esse mito – afinal, como ele mesmo diz, não deve ser fácil entreter 100 mil pessoas em algum lugar desconhecido do mundo sendo apenas um cara comum. Paul, de certa forma, aprendeu a usar a lenda, em vez de vivê-la – quando John Lennon dizia de tempos em tempos “quero largar tudo”, Paul respondia que não dava para acordar de manhã e deixar de ser astro; no máximo dos máximos, virariam “astros aposentados”. Mas ao mesmo tempo, para manter a sanidade em casa e nas férias, com os filhos e netos, ele tenta manter a mesma atmosfera acolhedora que tinha na infância. Paul sempre conta que, anos atrás, quando estava cavalgando na Escócia com a filha mais nova, ela parou de repente e perguntou: “Pai, você é Paul McCartney, não é mesmo?” Rindo, apenas respondeu: “Sou sim querida, mas na verdade eu sou o papai.”

Dinheiro, perdas e dores

A preocupação em separar suas personas se aplica também à mídia. Paul sabe que é preciso divulgar cada disco ou turnê, mas se dá o luxo de limitar as entrevistas, tanto no número quanto no tempo dispendido. Ainda assim, uma vez no personagem, o músico comporta-se como um velho conhecido, um vizinho de voz familiar. “Oi, aqui é o Paul! Perdi o sinal do celular ontem, estou te ligando de novo para a gente conversar”, diz ao repórter. “Estou ouvindo várias das minhas novas músicas sob o céu ensolarado de Los Angeles… está sendo muito bom.” Além de suas canções, indagamos o que mais passava pelas caixas de som. “Ouço do velho ao novo, Bob Dylan, Neil Young, Fred Astaire, Chet Baker, Mumford & Sons, Rihanna, Beyoncé.” Ele, então, dá uma dica do tipo ‘se você entende o que quero dizer’: “Se estou em um humor diferente, eu ouço reggae…”.

Essas novas referências podem estar no seu próximo trabalho, que deve ser lançado no segundo semestre. “Estamos contentes, acho que é uma energia forte e muito boa”, diz ele, que ainda mostra por que sempre foi considerado o relações públicas dos Beatles. “Mande meu amor ao belo povo do Brasil. Eu estou ansioso para vê-los”. Eles também, Paul. Nos últimos três anos, o músico se apresentou em São Paulo e Porto Alegre (2010), Rio (2011) e Recife e Florianópolis (2012). Shows completamente lotados. “O Paul é mais feliz quando está em cima do palco”, diz o empresário Luiz Oscar Niemeyer, responsável por todas as turnês no Brasil. “É o que ele sabe fazer de melhor, se dedicar tanto para criar esses momentos tão emocionantes.”

O garoto Paul e o mito McCartney acabam se encontrando justamente nesses momentos de catarse dos shows, quando ele relembra seu pai nas linhas melódicas de Yesterday, de sua mãe em Let it Be, de John Lennon em Here Today, de George Harrison em Something e de Linda McCartney em My Love ou em Maybe I’m Amazed. Afinal, essa é a sua história – e por isso que sua trajetória continua sendo tão fascinante, tanto para um velho fã que sabe de cor o setlist quanto para crianças que acabaram de aprender os “na-na-na-na-nas” do refrão de Hey Jude. Nesse acerto de contas, Paul não esquece suas almas gêmeas. “Minhas maiores tristezas são todas as pessoas que eu perdi, minha mãe, meu pai, minha esposa Linda e, claro, John e George. E o fim dos Beatles. Mas eu não acho que foi erro meu. Não são arrependimentos, mas são as minhas dores”, diz. “Mas se fiz algo no passado, foi o melhor que eu pude fazer na época.”

Paul, no entanto, logo volta a se lembrar da família. “Vejo meus filhos e meu trabalho como minhas maiores realizações”, diz. Essa recorrência ao tema não é um discurso vazio. Paul fala com propriedade. O músico viveu o drama de perder a mãe, Mary, aos 14 anos – um fardo que, mais tarde, ele dividiria com Lennon, cuja mãe morreu quando este tinha 17 anos. Tragédias que, ao menos, serviriam para estreitar a amizade entre os dois jovens. A diferença entre John e Paul é que este pôde contar com a presença afetuosa e a influência de seu pai. “Ele foi um homem muito bom. Ele me deu os valores certos para a vida, como tolerância. Embora não tivesse educação formal, pois deixou a escola com 14 anos, meu pai era muito bom com palavras, muito inteligente”.

Por isso, quando estiver tocando suas músicas no Mineirão, no Serra Dourada e no Castelão, Paul estará uma vez mais rememorando essas alegrias e tristezas, prestando sua homenagem aos que partiram e aos que estão a seu lado. Àqueles que ama, enfim – é daí que, segundo ele, vem sua energia e motivação. “Eu amo o que eu faço. Esse é o segredo”, diz, firme e seco, com a força de testamento de uma carreira que começou aos pés de James McCartney. E como uma lembrança do verso derradeiro de Abbey Road, o último disco dos Beatles, quando compartilhou um pouco do que aprendeu lá no sobrado de tijolos aparentes no número 20 da Forthlin Road: “no fim, o amor que você recebe é igual ao amor que você dá.”

8 canções para entender McCartney
I Saw Her Standing There
“1, 2, 3, 4…” E assim, na primeira música de Please Please Me, Paul dá início à carreira fonográfica dos Beatles

I’ll Follow The Sun
Uma das músicas preferidas do produtor George Martin. Composta em 1960, foi gravada apenas em 1964 para não atrapalhar a imagem roqueira da banda
Yesterday
Aos 22 anos, o primeiro voo solo e a música mais regravada da história
Eleanor Rigby
Rito de passagem de Paul para o mundo adulto, é um comentário sobre a Inglaterra no pós-guerra

Penny Lane
Paul em sua faceta contador de histórias, lembrando sua infância

Maybe I’m Amazed
Do disco McCartney, um belo prefácio de sua carreira solo. Segundo Paul, essa é a música pela qual ele espera ser lembrado no futuro

Band on the Run
O hit monstro de 1974 que colocou Paul de volta a seu devido lugar nas paradas

Here Today
Seu acerto de contas com John Lennon: “Eu continuo lembrando como foi antes. E não estou mais segurando as lágrimas. Eu te amo.”

Rodrigo Brancatelli
Revista Alfa

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