23 de ago de 2008

Cura pelo exótico

Procedimentos da medicina antiga se mantêm nos consultóriose hospitais – e muitos médicos não abrem mão deles
As manchas roxas e circulares que a nadadora chinesa Wang Qun exibiu nas costas durante a fase preparatória da Olimpíada de Pequim, no início do mês, atiçaram a curiosidade de muita gente. A explicação para os hematomas é que eles resultaram de sessões de terapia com ventosas, destinadas a combater dores musculares. Há séculos os chineses usam esse tipo de terapia.
Eles acreditam que ela traz equilíbrio ao organismo, prevenindo e tratando inflamações e outros males. A medicina tradicional chinesa, como se sabe, é repleta de poções e tratamentos cujo poder curativo pertence ao terreno da superstição. Seria apenas uma curiosidade não fosse o fato de muitos desses remédios exigirem o sacrifício de animais ameaçados de extinção.
A bile dos ursos – mantidos em cativeiros minúsculos por toda a vida – é usada para curar desde febre até problemas cardíacos. Um preparado de chifre de búfalo selvagem é considerado tiro e queda para a disfunção erétil. A terapia com ventosas não faz parte da medicina do faz-de-conta. O tratamento utiliza copos com a boca aquecida que, aplicados sobre a pele, formam um vácuo. Isso diminui o fluxo sanguíneo para a região, o que reduz a quantidade de substâncias inflamatórias no local e aplaca a dor.
Em pleno século XXI, com a bateria de antiinflamatórios e analgésicos que se tem à disposição, tratar dores musculares com ventosas é um anacronismo – mas não é o único no terreno da medicina. Muitos médicos e hospitais de primeira linha estão se utilizando de tratamentos primitivos para algumas doenças, em geral por avaliar que eles são tão eficazes quanto os medicamentos modernos e custam menos.
Nos Estados Unidos, há quatro anos o Food and Drug Administration (FDA), órgão que controla os remédios no país, aprovou o uso de sanguessugas e de larvas de certos tipos de mosca-varejeira em tratamentos hospitalares. As larvas são aplicadas diretamente em feridas difíceis de cicatrizar, como aquelas que surgem em diabéticos. Elas se alimentam dos tecidos infectados e secretam sobre a área substâncias com efeito antibiótico. O risco de contaminação é baixíssimo, já que os ovos das moscas são esterilizados antes de se tornar larvas. Difícil, às vezes, é convencer o paciente a se submeter ao tratamento.
Na Inglaterra, onde as larvas de mosca também são usadas em hospitais, um estudo recente mostrou que 25% dos possíveis candidatos ao tratamento o rejeitaram. "A reação mais comum dos pacientes é o nojo, mas alguns se entusiasmam quando percebem que o tratamento vai ajudá-los", disse a Veja a pesquisadora inglesa Emily Petherick, da Universidade de York, autora do estudo.
As sangrias com sanguessugas já eram prescritas na Grécia antiga por Hipócrates, o pai da medicina. Ele acreditava que o tratamento ajudava a limpar o organismo e a tratar inúmeros males. Por um bom tempo, esses parasitas foram parar na prateleira das bizarrices. Recentemente, voltaram aos ambulatórios porque suas propriedades benéficas foram cientificamente comprovadas. A sanguessuga é recomendável para alguns pacientes que passaram por cirurgias reconstrutoras de partes do corpo.
De quebra, o bicho ganhou glamour graças a celebridades como a atriz americana Demi Moore, que o usam como tratamento de beleza. Numa entrevista recente à TV, a estrela de Ghost garantiu que sua pele estava mais viçosa desde que se submetera a um tratamento com sanguessugas numa clínica austríaca.
No terreno da cirurgia, deu-se o resgate do pó de osso, descrito pela primeira vez no século XIX, para estancar sangramentos durante intervenções cranianas. O pó é obtido na mesa de operação, quando o crânio é serrado. Seu uso tornou-se obsoleto com o advento de coagulantes sintéticos. Agora, o pó de osso voltou às mesas de cirurgia – ele sai de graça, enquanto um frasco de coagulante custa, em média, 3 000 reais. "Nem todos os médicos estão prontos para utilizar os recursos de antigamente, mas eles são eficientes", disse a Veja o parasitologista israelense Kosta Y. Mumcuoglu, da Universidade Hebraica de Jerusalém, especialista em terapias que usam seres vivos no tratamento de doenças. Duro mesmo é driblar a repulsa a larvas e sanguessugas.
Paula Neiva - Revista Veja

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