15 de jun de 2009

Pequeno Buda cai no mundo

Quando o espanhol Osel Hita Torres tinha 4 anos, sua vida tomou um rumo inesperado para uma criança. Filho de pais que se converteram ao budismo tibetano na década de 70, quando essa religião se popularizou no Ocidente a bordo da geração paz e amor, ele foi apontado como a reencarnação de Thubten Yeshe, um dos lamas mais populares, morto fazia pouco. Os pais do menino receberam a notícia como um presente dos céus, e concordaram que ele fosse morar em um mosteiro em Dharamsala, no norte da Índia, a fim de seguir os ensinamentos do budismo tibetano. Nessa região localizam-se os domínios do Dalai Lama, o líder espiritual tibetano, e também a sede do governo do Tibete no exílio. Torres tornou-se um pequeno Buda, como são chamados os meninos escolhidos pelos monges para um dia ser investidos de lamas e ocupar os postos superiores da hierarquia religiosa. Quem assistiu ao filme O Pequeno Buda, de Bernardo Bertolucci, tem uma ideia açucarada de como vivem as crianças como ele. Ocorre que Torres, hoje com 24 anos, resolveu trilhar um caminho oposto ao da iluminação e se tornou uma tremenda dor de cabeça para os lamas e seus seguidores. Há seis anos ele se afastou da vida monástica e, nas últimas semanas, numa série de entrevistas à imprensa europeia, explicou os motivos de seu gesto. "Eles me arrancaram de minha família e me colocaram num ambiente medieval no qual sofri muito", disse ao jornal espanhol El Mundo. "Para mim, era como viver uma mentira", declarou à revista Babylon, também da Espanha. Quando morava no mosteiro, Torres quase não tinha contato com o mundo exterior. Acordava às 6 da manhã e se dedicava a decorar textos sacros durante todo o dia. Após deixar a vida monástica, adotou visual moderninho e perambulou pelo Canadá e pela Suíça. Por fim, rendeu-se aos encantos de Hollywood e ingressou numa faculdade de cinema. Recentemente, atuou como assistente de produção num documentário sobre Israel. Diz não ter nenhuma saudade dos tempos em que, no mosteiro, só cruzava nos corredores com monges paramentados e com o ator Richard Gere – notório propagandista do budismo na versão amenizada que faz sucesso entre as estrelas de Hollywood. Os monges da Fundação para a Preservação da Tradição Mahayana, entidade destinada a popularizar o budismo no Ocidente, com mais de uma centena de centros ao redor do mundo, não se dão por vencidos e acreditam que um dia Torres voltará a ser um tulku – um mestre reencarnado. Reza a tradição que a escolha de um pequeno Buda seja feita através das intuições de um monge. A regra para reconhecer a pessoa reencarnada é simples: os candidatos são submetidos a um teste para ver se lembram da vida anterior. Isso pressupõe que monges sejam dotados de uma visão mística fora do comum. No mundo real, contou Torres, o que ocorre são disputas renhidas entre os monges mais influentes para impor seus próprios tulkus. Esses jovens lamas herdam muita influência e grandes quantias em dinheiro. No passado, as rixas entre os monges para promover seus protegidos à condição de pequeno Buda resultavam em brigas sangrentas. Hoje, há dois brasileiros reconhecidos como tulkus, que atendem pelos nomes tibetanos de Lama Michel e Segyu Choepel. Ambos optaram pela vida monástica. Michel teve seu primeiro contato com um monge aos 6 anos. Depois disso, fazia pausas para meditar durante as brincadeiras com outras crianças. Aos 11 anos, demonstrou pela primeira vez interesse em morar num mosteiro. Dois anos mais tarde, foi reconhecido tulku durante uma viagem à Índia. Já Segyu passou pelo catolicismo. Cursou engenharia antes de estudar budismo tibetano nos Estados Unidos. Osel Hita Torres trilha hoje o caminho oposto.
Carolina Romanini

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