30 de mar. de 2010

Instinto animal


Um casal está no zoológico e passa pela jaula do gorila macho. 


- Marcos - diz a mulher - sabia que os gorilas são os animais mais parecidos com o ser humano relativamente ao seu comportamento?

Olha só, vou mostrar um seio meu e aposto que vai se excitar como um homem. 


Mariza mostra o seio e o gorila começa a ficar excitado e a mover as barras da jaula. 


- Viu? - diz a mulher - os homens são iguaizinhos a eles, não conseguem controlar os seus instintos animais. 


E Marcos diz-lhe: 
- Agora mostra-lhe os dois, para ver o que acontece. 


A mulher levanta a blusa e mostra-lhe os dois seios e o gorila ainda fica mais excitado e desesperado por sair. 


Marcos diz: - Incrível, agora desce as calças e mostra a bunda, só para ver o que se acontece! 


A mulher baixa a calça, e o gorila, completamente excitado, arrebenta as barras da jaula, sai e agarra a mulher. 


- Marcos me ajuda! Socorroooooooooooo!!!! 


E Marcos fala: - Agora, explica pra ele: Que hoje não está com vontade... Que está com dor de cabeça... Que está cansada... Que está com dor de garganta... Que trabalhou demais... Que tão depressa nãooooo... Que te entenda como mulher... Que está deprimida... Que está menstruada... Que está enjoada... Que só quer que te abrace... Que está nervosa... Que tem que acordar muito cedo... Que hoje acordou muito cedo... Que andou muito hoje... Que está super carente e só quer carinho... Que está muito tensa e só quer massagens de relaxamento... Que está com vontade de ver TV... Que não quer perder a novela... Aí eu quero ver se ele te entende... Isso eu quero ver!!!

Deus existe - Albert Einstein

Vilão do Alzheimer pode ter efeito protetor sobre o cérebro

Durante anos, uma teoria bastante popular dizia que um dos principais vilões no mal de Alzheimer não passava de um produto inútil, de que o cérebro nunca se livrou adequadamente. O material, uma proteína chamada amiloide beta, ou A-beta, se acumula em duras placas que destroem sinais entre nervos. Quando isso acontece, as pessoas perdem a memória, sua personalidade se altera, e elas deixam de reconhecer amigos e familiares. Porém, agora pesquisadores de Harvard sugerem que a proteína possui uma função real e inesperada – ela pode ser parte das defesas comuns do cérebro contra bactérias e micróbios invasores. Outros pesquisadores do mal de Alzheimer dizem que as descobertas, relatadas na atual edição do jornal PLoS One, são intrigantes, embora não esteja claro se elas levarão a novas formas de prevenir ou tratar a doença. A nova hipótese foi iniciada tardiamente, numa noite de sexta-feira no verão de 2007, num laboratório da Faculdade de Medicina de Harvard. O principal pesquisador, Rudolph E. Tanzi, professor de neurologia que também dirige a unidade de genética e envelhecimento no Hospital Geral de Massachusetts, disse estar examinando uma lista de genes que pareciam ser associados ao mal de Alzheimer. Para sua surpresa, muitos se pareciam com genes associados ao chamado sistema imunológico inato, um grupo de proteínas que o corpo utiliza para combater infecções. O sistema é particularmente importante no cérebro, pois anticorpos não conseguem atravessar a barreira hematoencefálica, a membrana que protege o cérebro. Quando o cérebro é infectado, ele depende do sistema imunológico inato para protegê-lo. Naquela noite, após a usual hora da cerveja do fim da semana, Tanzi entrou na sala de um membro acadêmico mais novo, Robert D. Moir, e mencionou o que havia visto. Como Tanzi se lembra, Moir virou-se para ele e disse: “Certo, bem, veja isto”. Ele entregou uma planilha a Tanzi. Era uma comparação entre a A-beta e uma proteína bastante conhecida do sistema imunológico inato, a LL-37. As semelhanças eram excepcionais. Entre outras coisas, as duas proteínas possuiam estruturas similares. Assim como a A-beta, a LL-37 tende a se agrupar em pequenas bolas duras. Em roedores, a proteína que corresponde à LL-37 protege contra infecções no cérebro. Pessoas que produzem níveis baixos de LL-37 sofrem maiores riscos de infecções graves, e possuem níveis mais altos de placas ateroscleróticas, crescimentos arteriais que impedem o fluxo sanguíneo. Os cientistas mal podiam esperar para ver se a A-beta, como a LL-37, matava micróbios. Eles misturaram A-beta com micróbios que a LL-37 mata – listeria, estafilococos, pseudomonas. Ela matou 8 de 12. “Fizemos os experimentos exatamente como eles foram feitos durante anos”, disse Tanzi. “E a A-beta foi tão potente ou, em alguns casos, mais potente que a LL-37”. Em seguida, os pesquisadores expuseram o fungo Candida albicans, uma das principais causas da meningite, a tecidos das regiões cerebrais do hipocampo de pessoas que haviam morrido de Alzheimer, e de pessoas da mesma idade que não possuiam demência ao morrer. Amostras do cérebro de pacientes com Alzheimer eram 24% mais ativas em matar as bactérias. Mas, se as amostras fossem previamente tratadas com um anticorpo que bloqueava a A-beta, elas não matavam o fungo com mais eficácia que o tecido cerebral de pessoas sem demência. O sistema imunológico inato também é colocado em ação por danos cerebrais traumáticos e derrames, além da aterosclerose – que leva a uma redução no fluxo de sangue para o cérebro, apontou Tanzi. E o sistema é estimulado por inflamações. Sabe-se que pacientes com Alzheimer têm cérebros inflamados, mas não estava claro se o acúmulo de A-beta era causa ou efeito da inflamação. Talvez, explica Tanzi, os níveis de A-beta subam como resultado da reação do sistema imunológico inato à inflamação; pode ser uma forma de o cérebro reagir a uma infecção percebida. Mas isso significa que a doença de Alzheimer é causada por uma reação excessivamente enérgica a uma infecção? Essa é uma razão possível, junto a reações a ferimentos e inflamações, e os efeitos de genes que causam níveis de A-beta mais altos que o normal, afirmou Tanzi. Entretanto, alguns pesquisadores dizem que nem todas as partes da hipótese do sistema imunológico inato A-beta se encaixam. O Dr. Norman Relkin, diretor do programa de doenças da memória no hospital NewYork-Presbyterian/Weill Cornell, disse que embora a ideia fosse “inquestionavelmente fascinante”, as evidências para ela eram “um pouco frágeis”. Quanto à ligação com infecções, o Dr. Steven T. DeKosky, pesquisador de Alzheimer, vice-presidente e reitor da Faculdade de Medicina da Universidade da Virgínia, apontou que cientistas há muito buscam por evidências ligando infecções ao mal de Alzheimer – terminando geralmente de mãos vazias. Contudo, se Tanzi estiver certo sobre a A-beta fazer parte do sistema imunológico inato, isso levantaria questões sobre a busca por tratamentos para eliminar a proteína do cérebro. “Isso significa que você vai querer acertar a A-beta com um martelo”, disse Tanzi. “Isso nos diz que precisamos do equivalente a uma estatina para o cérebro, de forma a reduzir seu funcionamento sem desligá-la” (Tanzi é cofundador de duas empresas, Prana Biotechnology e Neurogenetic Pharmaceutical, que estão tentando enfraquecer a A-beta). Relkin disse que, mesmo se a A-beta não fizesse parte do sistema imunológico inato, não seria uma boa ideia removê-la completamente, junto às bolas duras de placas que ela forma no cérebro. No passado, segundo Relkin, cientistas supuseram “que a patologia era a placa”. Hoje, ele compara a remoção das placas a desenterrar balas no campo da Batalha de Gettysburg. Quanto mais balas numa região, mais intensa era a batalha. Mas “desenterrar balas não vai alterar o resultado da batalha”, explicou ele. “A maioria de nós não acredita que remover placas do cérebro seja a solução final”. Porém, outros cientistas não ligados à descoberta disseram estar impressionados com as novas informações. “Isso muda nossa maneira de pensar sobre o mal de Alzheimer”, afirmou o Dr. Eliezer Masliah, que chefia o laboratório de neuropatologia experimental da Universidade da Califórnia, em San Diego. “Não creio que jamais tenhamos pensado nessa possibilidade para a A-beta”. Masliah está intrigado com a ideia de que conglomerados de A-beta possam matar bactérias e neurônios pelo mesmo mecanismo. Ele apontou que Tanzi possui um histórico de surgir com ideias incomuns sobre o mal de Alzheimer que acabam se mostrando corretas. “Creio que ele esteja perto de algo importante”, concluiu Masliah Gina Kolata - The New York Times

28 de mar. de 2010

Quadrilha

João amava Teresa 
que amava Raimundo que amava Maria que amava
Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, 
Teresa para o convento, 
Raimundo morreu de desastre, 
Maria ficou para tia, 
Joaquim suicidou-se 
e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história 
Carlos Drummond de Andrade


Gabriel quer casar com Carol, que gosta do Bernardo, que gosta da Helena, que gosta do Gabriel. E todos eles têm 5 anos...


Que o Gabriel leia este post daqui a alguns anos e se divirta.

Maçã para afastar a gripe

Tem até ditado dizendo que comer uma maçã por dia é a receita certa para manter-se longe das doenças e, portanto, do consultório médico. E não se trata de crendice. Estudos e mais estudos não param de confirmar isso. Agora, um trabalho da Universidade da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, mostra que a quercetina, substância que aparece aos montes no fruto, pode afastar a gripe. Os estudiosos americanos avaliaram a boa atuação em um grupo de ratos que foram separados dos demais e submetidos à atividade física. Depois, os cientistas botaram os animais em contato com o vírus causador da doença. Entre aqueles que receberam a substância houve maior proteção. "Por ter ação antioxidante, a quercetina preserva as células do sistema imune", avalia a nutricionista Andréa Esquivel de São Paulo.
Regina Célia Pereira

Dez Maneiras de Amar a Nós Mesmos

1 - Disciplinar os próprios impulsos. 2 - Trabalhar, cada dia, produzindo o melhor que pudermos. 3 - Atender aos bons conselhos que traçamos para os outros. 4 - Aceitar sem revolta a crítica e a reprovação. 5 - Esquecer as faltas alheias sem desculpar as nossas. 6 - Evitar as conversações inúteis. 7 - Receber o sofrimento o processo de nossa educação. 8 - Calar diante da ofensa, retribuindo o mal com o bem. 9 - Ajudar a todos, sem exigir qualquer pagamento de gratidão. 10 - Repetir as lições edificantes, tantas vezes quantas se fizerem necessárias, perseverando no aperfeiçoamento de nós mesmos sem desanimar e colocando-nos a serviço do Divino Mestre, hoje e sempre.
Chico Xavier - Ditado pelo Espírito André Luiz

O passado assombra o papa

Ao papa Bento XVI atribui-se o mérito de ter tomado providências para combater a pedofilia na Igreja Católica, tendo feito mais do que João Paulo II. O atual pontífice já pediu desculpas às vítimas de abusos sexuais cometidos por padres em sua visita aos Estados Unidos, em 2008, e sua orientação é que os membros da Igreja devem ouvir as denúncias das vítimas e transmiti-las ao Vaticano.
À direita, o padre pedófilo Lawrence Murphy (o primeiro à esquerda) em cerimônia com garotos surdos, em Wisconsin, em 1960. Ele enviou cartas arrependidas ao então cardeal Ratzinger
Há duas semanas, em uma carta aos católicos da Irlanda, o papa pediu desculpas pelo sofrimento de dezenas de milhares de pessoas que, segundo um extenso relatório, foram agredidas física ou sexualmente por membros da Igreja. Na quarta-feira passada, o Vaticano aceitou a renúncia do bispo irlandês John Magee, acusado de ter acobertado alguns desses casos. Pedir desculpas pelas monstruosidades cometidas por seus representantes no passado e evitar que mais crianças sejam vitimadas, contudo, não tem sido suficiente para aplacar a revolta de muitos fiéis diante dos indícios de que o próprio Joseph Ratzinger, antes de se tornar papa, em mais de uma ocasião foi condescendente com padres pedófilos. Duas revelações recentes reforçam essa suspeita. A primeira veio a público neste mês quando uma arquidiocese da região da Bavária, na Alemanha, suspendeu um padre que descumpriu a ordem de não trabalhar com crianças. O motivo da proibição: seu notório histórico de molestador. Em 1979, por exemplo, o padre Peter Hullerman embebedou um garoto de 11 anos e depois o obrigou a fazer sexo oral. Para abafar o escândalo, Hullerman foi transferido no ano seguinte para a arquidiocese de Munique, então comandada por ninguém menos que Joseph Ratzinger. Na semana passada, a imprensa da Alemanha e dos Estados Unidos confirmou a existência de um documento interno da arquidiocese que indica que Ratzinger não só aprovou a chegada do clérigo como foi informado de seu passado. Nos anos que se seguiram, Hullerman foi sucessivamente transferido de uma paróquia para outra e voltou a abusar de crianças, a última vez em 1998. A revelação que mais se aproxima da barra da batina do papa, no entanto, foi feita na semana passada pelo New York Times. Segundo documentos publicados pelo jornal americano, entre 1996 e 1998 a Congregação para a Doutrina da Fé - o órgão do Vaticano que, comandado por Ratzinger, era responsável, entre outras coisas, por apurar os desvios sexuais dos clérigos - recebeu o alerta de bispos dos Estados Unidos de que era necessário tomar alguma providência em relação aos crimes do padre Lawrence Murphy. Durante 24 anos, ele abusou de 200 meninos surdos no estado de Wisconsin. Um dos bispos enviou duas cartas a Ratzinger para tratar do caso, mas não obteve resposta. O próprio Murphy escreveu ao futuro papa demonstrando arrependimento e pedindo para não ser punido. Ratzinger também não respondeu às cartas do pedófilo. Pouco depois, contudo, seu assistente na congregação, o cardeal Tarcisio Bertone, mandou suspender o processo interno que a arquidiocese havia iniciado nos Estados Unidos. Murphy morreu em 1998, sem nunca ter deixado de exercer suas funções clericais. "Isso prova que, para o Vaticano, defender os próprios interesses é mais importante do que mitigar o sofrimento das vítimas", disse a VEJA o advogado americano Mike Finnegan, representante de cinco homens surdos que, na infância, sofreram abusos do padre Murphy. Foi Finnegan quem entregou os documentos sobre o caso à imprensa americana. A suspeita de que Ratzinger participou diretamente na proteção de padres pedófilos e, portanto, deixou de evitar que outras crianças sofressem, se confirmada, dificilmente levará à renúncia do papa, como já pediram alguns teólogos alemães. Os defensores de Bento XVI lembram que outros papas sobreviveram a escândalos maiores. No século XV, por exemplo, o papa Alexandre VI não só se meteu em conspirações políticas como teve inúmeras amantes e filhos. Mas os tempos são outros, e o Vaticano está sendo pressionado, inclusive pelo governo alemão, a ser ao menos mais transparente em relação aos crimes cometidos sob a batina, tanto atualmente como no passado. Afinal, muitos dos padres acusados de pedofilia há algumas décadas continuam na ativa. Entre 2001, quando o Vaticano adotou um novo protocolo para tratar internamente desses casos, e 2010, a Congregação para a Doutrina da Fé recebeu 3 000 denúncias de abusos sexuais contra padres. Apenas 10% deles foram punidos com a expulsão da Igreja e outros 10% saíram por iniciativa própria. Pode-se argumentar que o restante era inocente. O problema é que esses julgamentos são secretos e a Igreja não leva os suspeitos espontaneamente à Justiça comum. "Uma das razões pelas quais a Igreja insiste em não tornar esses casos públicos é financeira: o Vaticano é rico, mas não pode rasgar dinheiro, porque tem muitos compromissos a honrar mundo afora", disse Brian Daley, professor de história do cristianismo da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos. Só a Igreja americana já pagou mais de 2,5 bilhões de dólares em indenização a vítimas e em outros custos relacionados a escândalos sexuais. O fim do celibato como uma maneira de diminuir os desvios comportamentais dos religiosos é uma discussão proibida na hierarquia católica. O celibato tem raízes profundas na história do catolicismo, e o Vaticano simplesmente se recusa a considerar seu fim, mesmo como hipótese. Entende-se. Espera-se, porém, que a Igreja passe a tratar a pedofilia de padres não apenas como um pecado contra Deus, mas como um grave crime contra a humanidade. Diogo Schelp - Revista Veja

27 de mar. de 2010

Imã

Má causa

A defesa de uma má causa é sempre pior do que a própria causa
Baltazar Gracián
Picture by Nuno Viegas

A obra de Freud em versões dos sonhos


Se alguém nos pedir uma lista das pessoas que mais marcaram o século XX, é certo que dela constará Sigmund Freud: não apenas como inventor da psicoterapia, mas como autor de descobertas que contribuíram com impacto inestimável para moldar a imagem que o homem ocidental tem de si mesmo. 


Como suas ideias alcançaram tamanha divulgação? Além da originalidade e do poder libertador que encerram, graças à maneira como foram expressas. Freud era excelente escritor, capaz de se servir de uma vasta gama de procedimentos literários. Dedicou-se com afinco, também, ao "movimento psicanalítico", ou seja, à formação de discípulos – em que o estudo de seus escritos é essencial, já que constitui a base da prática clínica. 


Nas primeiras décadas do século XX, o fato de esses textos estarem em alemão não era obstáculo. A maioria dos analistas vinha da Europa Central, e o alemão era então uma das principais línguas científicas do mundo. Naturalmente, o interesse crescente pela nova disciplina suscitou traduções para o inglês, o francês e o espanhol. Mas várias delas foram supervisionadas pelo próprio Freud, que era fluente nessas línguas. Apesar de algumas imprecisões conceituais e variações de terminologia, essas versões atingiram seu objetivo: oferecer uma visão geral da psicanálise e difundi-la na Europa e nas Américas. Uma coisa, porém, é contornar um punhado de incorreções. 


Outra, muito diferente, é ter de se ver com um texto eivado de equívocos – como a primeira Edição Standard Brasileira da Imago, durante muito tempo a única tradução disponível no país. Voltar à fonte e oferecer um Freud o mais fiel possível ao original é o que se propõem duas novas traduções, cujos primeiros volumes chegam agora às livrarias – pela Companhia das Letras, a cargo de Paulo César de Souza, e pela L&PM, por Renato Zwick. Somando-se o trabalho em progresso, já faz alguns anos, de revisão da Standard, sob a direção de Luiz Alberto Hanns, o leitor brasileiro passa assim a dispor de três versões respeitáveis da obra de Freud. As dificuldades que vitimaram o texto de Freud no Brasil tiveram origem no tumulto do século passado. 


O nazismo obrigou muitos analistas judeus a deixar a Europa Central; e o término da II Guerra, que coincidiu com a morte de Freud, fez o centro de gravidade do mundo analítico se deslocar para a Inglaterra e os Estados Unidos e, em menor medida, para a França e a Argentina. Tornou-se, então, urgente estabelecer uma versão dos escritos freudianos que servisse de referência para a comunidade analítica internacional. Essa foi a tarefa do inglês James Strachey, e resultou nos 24 volumes da Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, um monumento científico e literário cujo papel na preservação e difusão do pensamento do mestre dificilmente pode ser exagerado. A partir dela, Freud foi traduzido para o português; e, nas páginas da Edição Standard Brasileira, muitos brasileiros estudaram a psicanálise. Ocorre que essa tradução foi realizada com critérios pouco científicos. Há inúmeros erros no emprego do vocabulário técnico e na própria compreensão do inglês. Seus responsáveis tinham boa vontade, mas não talento literário. 


Produziram um texto pesado e deselegante, antípoda ao estilo de Freud. Na década de 80, esses problemas começaram a ser percebidos, e a Editora Imago buscou remediá-los, emendando as passagens mais problemáticas. Logo, porém, tornou-se patente que o melhor era substituir o texto por uma tradução correta a partir do original, e o analista e professor de alemão Luiz Alberto Hanns foi convidado para coordenar o empreendimento. Desde 2006, sua equipe já publicou três volumes, e no momento prepara um quarto. Nos anos 90, o germanista Paulo César de Souza, que, com a analista paulistana Marilene Carone, fora dos primeiros a levantar objeções à Standard Brasileira, traduziu alguns textos que circularam intramuros, em publicações da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Isso porque só em 2009 a obra de Freud cairia em domínio público: até então, os direitos autorais pertenciam à Imago. 


Como esse obstáculo deixou de existir, a Companhia das Letras e a L&PM podem, agora, lançar suas versões. São projetos diferentes, que, no ver deste autor, se complementam. A edição da L&PM, em formato de bolso, visa a apresentar Freud a um público mais amplo. É bem cuidada, trazendo prefácios específicos para cada volume e um útil "ensaio bibliográfico" assinado pelos psicanalistas Paulo Endo e Edson Sousa. Já a revisão da Standard e a edição da Companhia têm escopo diverso. Seu alvo é primariamente a comunidade profissional, e tanto Luiz Alberto Hanns quanto Paulo César de Souza dedicaram muito tempo e reflexão à tarefa específica de traduzir Freud. 


Há décadas, estudam-se em nosso país os textos freudianos. Foi se decantando um vocabulário técnico, que varia segundo as escolas psicanalíticas e cujo emprego denota opções teóricas e clínicas dentro da psicanálise contemporânea. Ambos os tradutores têm consciência desses fatos, e não pretendem substituir o recurso ao original, indispensável a partir de certo patamar de estudo. Suas escolhas são explicitadas em textos programáticos – as de Hanns na Introdução ao Volume 1 da nova edição da Imago, que cobre escritos dos anos 1911-1915, e as de Souza na sua tese de doutorado, As Palavras de Freud, que a Companhia das Letras publica simultaneamente aos três tomos que abrem sua coleção (o 10, o 12 e o 14, contendo textos que vão de 1911 a 1920). As decisões opostas quanto à melhor versão de alguns conceitos importantes, como Trieb e Verdrängung – "pulsão" e "recalque" para Hanns, "instinto" e "repressão" para Souza –, suscitarão discussões, e não é difícil prever que virão a ter lugar de destaque nos colóquios e publicações dos psicanalistas.


Mas os tradutores não pretendem impor suas opções: o louvável é que ambos as justificam com razões de peso, levando em conta os sentidos dos termos na língua alemã, o uso que Freud faz deles (nem sempre uniforme, diga-se), as diferenças semânticas entre os vocábulos germânicos e portugueses, a fluência das frases em que comparecem e outros aspectos necessários a uma tradução exata e elegante. A principal diferença é que Souza trabalha sozinho, tendo como foco "a fidelidade ao original, sem interpretações ou interferências de comentaristas ou teóricos posteriores da psicanálise". Já Hanns dá grande importância ao estudo passado e presente de Freud. Isso o leva a ponderar as implicações de substituir termos de uso corrente e insistir em mudança apenas quando as expressões consagradas podem deturpar o pensamento de Freud (por exemplo, traduz Versagung por "impedimento", já que "frustração", para o falante do português, sugere decepção, que tem pouca ou nenhuma relevância na concepção freudiana desse fato psíquico). 


 Outra decorrência dessas diferenças aparece nas notas explicativas: as de Souza são pouco numerosas, até porque em sua tese ele examina com vagar os problemas em pauta (seu livro, aliás, se tornará indispensável para quem quiser estudar Freud a fundo). Já a edição de Hanns traz um imponente aparelho crítico: os comentários de Strachey, abundantes notas do editor e uma novidade excelente – pequenos parágrafos de analistas brasileiros sobre alguns termos ou passagens, mostrando como eles foram compreendidos pelas diversas orientações pós-freudianas. Fundamental, porém, é o que as três edições vertidas diretamente do alemão têm em comum: o fato de oferecerem ao público brasileiro algo precioso, e de que ele estava privado – o deleite de ler, em português, o que Freud realmente escreveu. 
Renato Mezan

26 de mar. de 2010

Dra Rauni Kilde - ex-Ministra da Saúde da Finlândia revela algo assustador

Inveja discreta

Neuroses permitidas

A objeção, o desvio, a desconfiança alegre, a vontade de troçar são sinais de saúde: tudo o que é absoluto pertence à patologia.
Friedrich Nietzsche

O medo de confiar


A ingenuidade e a credibilidade excessiva fazem tão mal quanto a desconfiança total. A primeira coisa para confiar em alguém é observar os fatos da realidade e não ficar pensando o que é ou deveria ser baseado em seus medos. 


Mas tão importante também é olhar o histórico afetivo das pessoas, uma pessoa sem afeto não tem ética alguma. A pessoa sem afeto é capaz de qualquer coisa para satisfazer seu desejo imediato, passando em cima de qualquer preceito ou valor. 


Quem confia sem analisar antes tende a perder muito, mas quem não confia em ninguém também não constrói laços afetivos nem companheirismo. E perde muito mais. Se não nos arriscarmos a perder um pouco na vida, se tivermos a ilusão de passar pela vida sem sofrermos, sem nos enganarmos, vai ser uma vida pobre, de tristeza e de muita solidão. 


É necessário que todos nós trabalhemos nossas desconfianças, mas, muito mais que isso, devemos trabalhar antes tudo o medo de nós mesmos. Acredito que o ser humano é o único ser vivo do planeta que tem capacidade de se destruir e que vai muito além de se matar, pois quando ele mata em si mesmo a capacidade de amar ele não morre sozinho, mas leva com ele todos os que o amam junto com suas esperanças. 
Antônio Roberto

Ciúmes do passado

Não há casal no mundo que não discuta o ciúme, que não vivencie o ciúme. 


Uns levam o assunto com tranqüilidade, sentem ciúmes civilizados, que não tumultuam a relação. E outros são atormentados por esta praga, não podem olhar para os lados que o parceiro já fica de antena ligada. 


Uma chateação cotidiana. 


Isso é cuidar do relacionamento? 


Isso é prova de amor? 
De certo modo, sim, é um zelo, um carinho – desde que as proporções sejam razoáveis. Você não quer perder seu amor para outra pessoa, então fica de olho. Não dá pra dizer que é uma insanidade, você está apenas reafirmando a posse do que julga ser seu. 


A sensatez vai pras cucuias quando o ciúme não está mais relacionado ao presente, e sim ao passado de quem você ama, um passado que não foi compartilhado, um passado que você não conhece, um passado onde você não existia, onde você não foi traído, portanto. Mas uma garota não quer saber de sensatez quando sente uma dor profunda ao ver, por exemplo, fotos do namorado cinco anos atrás, feliz da vida ao lado de amigos e amigas que ela não conhece. 


Ela sente ciúme dos discos que foram comprados antes da relação começar, sente ciúmes dos presentes que foram recebidos antes, sente ciúmes de roupas que foram compradas sem a opinião dela, sente ciúmes das alegrias que foram vividas bem longe da sua presença. Como você pode acreditar quando ele diz que não consegue se imaginar sendo feliz sem você, se cinco anos atrás ele estava passando férias em Trancoso com um sorriso de orelha a orelha? Algumas pessoas não colocam os pés em lugares onde seu amor foi feliz na companhia de outros. Se ele foi feliz em Trancoso, que Trancoso arda em chamas! Já não é ciúmes o nome disso. Já nem mesmo é amor. 
Martha Medeiros

25 de mar. de 2010

Dinamica da vida

As crianças e os loucos imaginam que vinte anos ou vinte moedas não acabam nunca.
Benjamin Franklin

Constance McMillen

Um juiz do Estado americano do Mississippi determinou, na terça-feira, que a escola que recusou o pedido da aluna lésbica Constance McMillen de levar a namorada ao baile de formatura violou os direitos dela, previstos pela Primeira Emenda da Constituição americana. O tribunal, no entanto, decidiu não obrigar a escola Itawamba Agricultural a realizar a festa, cancelada depois que McMillen, de 18 anos, se recusou a atender as condições impostas a ela para levar sua parceira, como por exemplo a proibição da troca de carícias e de que ela fosse vestida de terno, como queria. "Nossos registros mostram que Constance assumiu publicamente sua homossexualidade desde a 8ª série, e que ela pretendia passar uma mensagem ao vestir um terno e expressar sua identidade ao comparecer ao baile com uma parceira do mesmo sexo", diz o texto do veredicto do juiz Glen Davidson. Ele também sugeriu que os advogados de McMillen façam adaptações ao caso para tentar conseguir uma indenização para ela, alegando que "a violação de seus direitos constitucionais levantou uma ameaça substancial de um dano irreparável". O grupo de defesa de direitos humanos American Civil Liberties Union, que apoiou McMillen no processo, considerou a sentença uma vitória. Repercussão nacional O caso foi parar na Justiça depois que a escola cancelou o baile de formatura, marcado para 2 de abril. Em uma audiência na segunda-feira, McMillen disse que passou a ser discriminada no colégio depois disso. Pais dos demais alunos organizaram uma festa particular e não a convidaram. O juiz Davidson alegou que por causa desse evento preferiu não obrigar a escola a realizar o baile de formatura. O caso de McMillen ganhou repercussão nacional. No Facebook, uma comunidade favorável a ela contava com mais de 384 mil membros antes do julgamento. A jovem também foi entrevistada no popular talk show da apresentadora lésbica Ellen DeGeneres, e recebeu uma bolsa de estudos no valor de US$ 30 mil de uma empresa de mídia digital. BBC

24 de mar. de 2010

Bebidas e drogas ao volante

Uma das maiores empresas de marketing do mundo, resolveu passar uma mensagem para todos, através de um vídeo criado pela TAC (Transport Accident Commission) e que teve um efeito drastico na inglaterra. Depois desta mensagem, 40% da população da inglaterra, deixam de usar drogas e se alcoolizar pelo menos nas datas comemorativas, não temos este tipo de iniciativa aqui no Brasil. Espero que todos assistam, mesmo que não se alcoolize ou usem algum tipo de drogas, e que reflitam e passem para os seus contatos.

Consumo moderado de álcool beneficia pessoas com problemas cardíacos

O consumo moderado de álcool, como vinho ou cerveja, é benéfico para quem sofre de ataques cardíacos e outros problemas vasculares, segundo um estudo publicado nesta segunda-feira, 22, pela revista Journal of the American College of Cardiology. O consumo moderado é definido pelos cientistas da universidade de Campobasso (Itália) como um ou dois copos de cerveja ou vinho ao dia. Até agora, a maioria das pesquisas havia estabelecido que um copo de vinho ou de cerveja junto às refeições constituía um consumo positivo para pessoas saudáveis. No entanto, se desconhecia se essa conclusão também era válida para aqueles que tivessem sofrido um ataque do coração, um derrame cerebral ou algum outro transtorno isquêmico vascular. O estudo, que analisou 16.351 casos, desvendou a incógnita e revelou que isso também se aplica a esses pacientes. Segundo Simona Costanzo, epidemiologista que dirigiu a pesquisa, foi observado que o consumo moderado não tem apenas efeitos benéficos para as pessoas com problemas cardíacos. "Eles também têm menos chances de sofrer de outros problemas similares e sua taxa de mortalidade foi inferior às daqueles que não consumiam nenhum tipo de bebida alcoólica", acrescentou. Redução de 20% dos riscos De acordo com Costanzo, o efeito desse consumo moderado em pacientes cardíacos é similar ao observado em pessoas saudáveis. "A redução do risco fica em torno de 20%", o que significa que com o consumo de álcool é possível evitar um em cada cinco casos de problemas cardiovasculares. Para os cientistas, a chave está no consumo moderado, o que deve ser somado um estilo de vida e uma dieta saudáveis. Segundo Augusto di Castelnuovo, chefe do Departamento de Estatísticas dos Laboratórios de Pesquisa da universidade de Campobasso, o consumo de álcool também deve ser regular. "Um consumo moderado durante uma semana pode ser positivo. A mesma quantidade dessa semana, concentrada em um par de dias, é definitivamente nociva", afirmou. Os cientistas também advertem que as conclusões da pesquisa não significam um convite a consumir bebidas alcoólicas. "Os abstêmios, saudáveis ou doentes, não teriam que começar a beber com o objetivo de ter uma saúde melhor", assinalou Giovanni de Gaetano, diretor dos laboratórios. EFE

Receio por sofrimento faz pais atenderem desejos dos filhos de forma imediata

A nossa época, chamada hipermoderna, caracteriza-se pela busca do prazer imediato. Frustração é tolerada com dificuldade, foge-se de qualquer sofrimento físico ou mental, dor é inadmissível. Mesmo tensão e estresse são considerados sempre nocivos. Até a ética precisa ser indolor. Desde o berço, busca-se poupar o ser humano. O choro do bebê é logo identificado por sua mãe como sofrimento, que imediatamente o atende. Ela se esquece que o choro é a fala do bebê, que não necessariamente está com dor ou privação. Ele pode estar pedindo atenção e pode, também, esperar um pouquinho para ser atendido. Apenas no útero, o bebê é atendido a priori. Ao nascer, ele vive necessidades e precisa que um outro ser da mesma espécie cuide dele. Ele tem que manifestar essa necessidade para ser satisfeito e precisa esperar que quem cuida dele o entenda e o atenda. Essa comunicação é vital para seu desenvolvimento. Se as crianças precisam ser atendidas em suas necessidades básicas de proteção, nutrição e afeto, não precisam ser atendidas em todos os seus desejos e, muito menos, imediatamente. Limites, interdições, “nãos” devem ser dados para que as crianças aprendam a viver no mundo das outras pessoas e aprendam a levar em consideração também as necessidades e os desejos alheios. Os filhos, muitas vezes, têm que lidar com frustrações, tolerar esperas, entreter tensões, pois só assim conseguem descobrir meios alternativos e viáveis para tentar satisfazer seus desejos. Esse é um aprendizado inestimável que propicia o desenvolvimento da capacidade de elaboração mental, o aumento da flexibilidade adaptativa e o fortalecimento do eu. Atualmente existem muitas crianças que não aprenderam a aguentar esperas, não aceitam os “nãos” e suas birras são assustadoras. Os pais, com medo de frustrarem seus filhos, com medo de fazê-los sofrer, só dizem “sim" ou pior, transformam o “não” em “sim” frente ao enfrentamento agressivo dos filhos. Reforçam, com isso, o direito compulsivo ao prazer imediato e incondicional. A grande importância do espaço da falta Não é criado o espaço da falta, pois a satisfação do desejo não é adiada, uma vez que a espera é identificada com sofrimento. Os objetos de desejo, assim conseguidos dessa forma tão rápida, tornam-se rapidamente também descartáveis. Está se correndo o risco de se criar uma geração que não tolera o espaço da falta, pois não foi ensinada a esperar nada. Sabe-se que é no espaço da falta que nasce o desejo verdadeiro por objetos e por pessoas. O desejo alimentado por um objeto, carrega de valor esse próprio objeto e é o desejo pela outra pessoa, que conduz ao amor por ela e à possibilidade de trocas afetivas. Pode ser que esteja sendo criada uma geração de seres humanos egoístas, que são apenas receptores no mundo, que creem ser seu direito o atendimento imediato no que querem e, se possível, até mesmo serem adivinhados nos seus desejos. Oxalá, quanto a isso, eu esteja equivocada. Ceres Araujo

22 de mar. de 2010

Santo Daime

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Alucinação assassina

Tomar o chá alucinógeno da seita Santo Daime quando se tem um transtorno psíquico, afirmam especialistas, é o mesmo que jogar gasolina sobre um incêndio. Tudo indica que foi o caso de Cadu, o assassino do cartunista Glauco e de seu filho Raoni No universo das tragédias, há as do tipo previsível e as que fulminam suas vítimas com a imprevisibilidade de um raio. O assassinato do cartunista Glauco Vilas Boas, de 53 anos, e de seu filho Raoni Ornellas Vilas Boas, de 25 anos, cometido por Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, certamente não pertence à primeira categoria. Cadu, como é conhecido o criminoso confesso, nasceu em uma família de classe média alta de São Paulo e estudou nas melhores escolas da capital paulista. Morava em bairro nobre, frequentava os bares da moda, ia a baladas de black music e, segundo a família, nunca havia demonstrado comportamento violento. Os avós, com quem ele morava, sabiam que o neto usava maconha ("Como fazem hoje em dia 90% dos jovens", disse Carlos Nunes Filho, o avô) e, embora lamentassem o fato de ele ter começado três faculdades sem terminar nenhuma (direito, artes visuais e gastronomia), não viam nisso mais do que uma indecisão em relação ao seu futuro profissional. Glauco e o filho Raoni tampouco tinham perfil ou comportamento que poderia ser classificado como "de risco" – nada que contribuísse para fazer deles vítimas potenciais de um assassinato. Nenhum dos dois tinha inimigos e ambos mantinham como ideário de vida a assistência ao próximo: drogados em busca de recuperação, no caso de Glauco, e comunidades indígenas isoladas, no caso de Raoni. Ainda assim, não se pode dizer que a tragédia ocorrida em Osasco no último dia 12 não deu pistas de que vinha se aproximando. Nos últimos três anos, Cadu, de 24 anos, vinha exibindo claros sinais de que estava sofrendo de distúrbios psíquicos. Esse período, segundo seu pai, Carlos Grecchi, coincide com o tempo que o filho começou a frequentar o Céu de Maria, igreja fundada por Glauco e pertencente à seita Santo Daime, que mistura elementos do cristianismo, espiritismo e umbanda e prega o consumo de um chá com efeitos alucinógenos como forma de "atingir o autoconhecimento e a consciência cósmica". O comportamento de Cadu, diz Grecchi, começou a se transformar quando ele passou a fazer uso da dimetiltriptamina (DMT), o princípio ativo presente na beberagem consumida por adeptos da seita. Por diversas vezes, tanto Grecchi como os avós de Cadu ouviram o jovem dizer que era a reencarnação de Jesus Cristo. Também por diversas vezes os parentes flagraram o jovem rezando, numa ocasião debaixo de chuva forte, para plantas que ele dizia serem reencarnações de entidades religiosas. Às tentativas de levá-lo a um psiquiatra ou a uma clínica de internação, Cadu reagia com determinação e pavor. Dizia que não queria ficar como sua mãe, portadora de esquizofrenia. A esquizofrenia faz com que suas vítimas sejam acometidas por delírios e alucinações, em surtos que duram, no mínimo, um mês. Vozes e seres imaginários solapam a percepção da realidade. Falsas ideias de perseguição e possessão tornam a vida um pesadelo contínuo. A esses surtos se intercalam períodos de uma apatia profunda, marcados por lentidão de raciocínio e desordem de pensamento. O risco de desenvolver essa psicose sobe de 1% para 13% no caso de pessoas cujo pai ou mãe sofre do transtorno. Na família de Cadu, além da mãe, também uma tia-avó foi diagnosticada com esquizofrenia. Seu pai diz estar convencido de que o filho herdou a doença (veja entrevista abaixo). E começa aqui a parte em que a tragédia do Céu de Maria atravessa o campo do imponderável para adentrar o espaço aterrador das desgraças que talvez pudessem ter sido evitadas. Grande parte dos portadores de esquizofrenia consegue levar uma vida razoavelmente normal desde que sob tratamento – que, além de medicação, inclui manter distância de certas substâncias. Como chás alucinógenos, por exemplo. A DMT aumenta a concentração no cérebro de três neurotransmissores: a serotonina, a noradrenalina e a dopamina. Como os portadores de esquizofrenia têm um aumento na atividade da dopamina, a sobrecarga dessa substância pode fazer com que eles percam a noção de realidade e tenham alucinações – estado que pode continuar mesmo depois que o efeito da droga termina. Em outras palavras, permitir que portadores de psicoses como a esquizofrenia bebam o chá da seita Santo Daime equivale a jogar gasolina sobre uma casa em chamas. Tudo indica que foi exatamente o que os seguidores da seita fizeram durante os três anos em que Cadu frequentou o local. Ninguém duvida de que a igreja fundada por Glauco reúna homens e mulheres de boa vontade, ótimas intenções e um propósito louvável: o de ajudar a livrar os jovens das drogas, coisa que o próprio Glauco havia conseguido fazer consigo mesmo, segundo afirmava, graças ao Santo Daime. Se, no entanto, o que diz Grecchi, o pai de Cadu, não estiver distorcido pela dor e pelas circunstâncias, Glauco foi, sim, solicitado a não mais ministrar o alucinógeno a Cadu ainda em 2007. Por descuido ou desconhecimento acerca do estado de saúde do rapaz, ele não atendeu ao pedido. Em depoimento à polícia, Cadu afirmou que bebeu o chá todas as vezes em que foi ao Céu de Maria. A DMT é proibida em quase todo o mundo. Ao lado do LSD e da mescalina, ela aparece na lista de drogas controladas na Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas da Organização das Nações Unidas. Essa lista é seguida por 183 países, o Brasil incluído. A convenção, entretanto, não proibiu plantas ricas na substância, como a erva-rainha ou chacrona, que dá origem à beberagem do Daime. Isso permite a interpretação de que apenas a substância é proibida e a planta, que tem pequena concentração dela, não. No Brasil, em 1992, graças a uma campanha liderada por "ayahuasqueiros", o Conselho Federal de Entorpecentes liberou o consumo do chá daimista "para fins religiosos". Foi o primeiro de uma sucessão de erros que culminou com a consagração do chá como "bebida sagrada", título concedido à substância alucinógena pelo estado brasileiro em janeiro passado. O advogado criminalista Fernando Fragoso considera a interpretação casuística. "Uma droga não deixa de ser droga se for consumida no meio de um ritual. A substância é lícita ou não é", diz. A Associação Brasileira de Psiquiatria também já se manifestou contra a liberação do chá, sob o argumento de que não existem estudos suficientes para descrever em profundidade a ação no cérebro da DMT presente na beberagem. De acordo com a família de Cadu, a última vez que ele ingeriu o chá foi por ocasião do Ano-Novo. Nesse período, conforme afirmou à polícia, Cadu já estava traficando maconha com o propósito de juntar dinheiro e comprar, por 1 900 reais, a arma com que matou suas vítimas. O propósito seria obrigar o cartunista e líder religioso a dizer a sua família que seu irmão mais novo, Carlos Augusto, seria a reencarnação de Jesus Cristo. A mãe de Cadu, Valéria Sundfeld Nunes, mora sozinha no bairro do Pacaembu, na zona oeste de São Paulo, mas é assistida de perto pelos pais, que a visitam duas vezes por dia. Ela trabalha em uma ótica, mas está há três meses afastada, segundo o patrão, por problemas de saúde. O avô de Cadu conta que ela reagiu à notícia da prisão do filho com apatia: "Parecia que haviam dito que ele tinha ido ao supermercado". Cadu foi preso na noite de domingo em Foz do Iguaçu (PR), depois de tentar atravessar a fronteira para o Paraguai, na Ponte da Amizade. Num Fiesta preto que havia roubado em São Paulo, disparou cerca de quinze tiros pelo para-brisa do carro em movimento contra os policiais federais que quiseram impedi-lo. Feriu um deles no braço e só parou do lado paraguaio da ponte ao ver que sua passagem estava trancada por outra barreira montada pelo país vizinho. Nesse momento, sem que ninguém lhe perguntasse, saiu do carro com os olhos esbugalhados, bradando: "Sou o Cadu. Fui eu que matei o Glauco". Apesar da confissão, o crime ainda guarda pontos obscuros. O primeiro diz respeito ao papel de Felipe Iasi, o amigo que teria sido coagido a levar Cadu ao Céu de Maria na noite do assassinato. Por meio do rastreador instalado no carro do rapaz pela companhia de seguros, a polícia reconstituiu o trajeto que Iasi percorreu depois de deixar a casa de Glauco. A análise inicial mostrou que o itinerário de Iasi coincide, ao menos nos primeiros 8 quilômetros, com aquele percorrido por Cadu e revelado por meio do sinal do seu celular. Isso indicaria a possibilidade de Iasi ter dado cobertura ao amigo na fuga. Há ainda a possibilidade de Cadu ter omitido outra informação: em depoimento, ele diz que roubou o Fiesta no domingo de manhã e seguiu viagem. O rastreamento do veículo indica, porém, que, às 13 horas do domingo, o carro encontrava-se no Parque do Ibirapuera. A polícia vai investigar o que Cadu pode ter ido fazer lá. Por fim, há que esclarecer por que motivos o advogado e amigo da família de Glauco, Ricardo Handro, mentiu a respeito das circunstâncias em que se deu o crime. Ele chegou a dar detalhes à imprensa do que teria sido uma tentativa de sequestro seguida de homicídio. Sua versão só mudou quando se tornou insustentável diante dos fatos revelados pela polícia – entre eles o de que o assassino era conhecido das vítimas e frequentador da igreja Céu de Maria. Ele se defende dizendo que não havia falado com a mulher de Glauco quando divulgou sua falsa versão. A polícia considera o argumento pouco plausível. As origens da seita Santo Daime estão ligadas à descoberta, pelos seringueiros do Acre, da ayahuasca, como os índios que viviam na Floresta Amazônica no século XIX chamavam o chá. Um dos primeiros a consumir a bebida, o seringueiro Raimundo Irineu Serra teria tido uma visão de Nossa Senhora, na qual ela ordenava que ele passasse a chamar o chá de santo-daime (a palavra viria da exortação "dai-me luz") e criasse uma doutrina em torno dele. O ritual criado por Irineu e replicado em todo o país se desenrola da seguinte forma: o interessado em provar da ayahuasca passa por uma breve entrevista para que os "fardados", os daimistas graduados, questionem suas motivações. Apenas em algumas igrejas se pergunta ao interessado se ele tem problemas psíquicos. Uma vez aceito, o calouro daimista pode participar do culto. Os participantes se sentam formando um círculo, os homens separados das mulheres. Cantam hinos de letra singela e repetitiva, que misturam referências cristãs e espíritas. Depois de algumas músicas, chega o momento do primeiro chá. As pessoas se organizam em fila e tomam meio copo do alucinógeno. Em geral, isso se repete quatro vezes. O culto pode durar até doze horas. Só recebem autorização para uma saída rápida do salão os que precisam vomitar, ocorrência que costuma afetar os daimistas de primeira viagem. Hoje, a seita tem mais de 100 igrejas em todo o país. Só a Céu de Maria tem 11 000 adeptos que tomam regularmente a DMT. Na semana passada, uma entidade da Bahia chamada Associação Brasileira de Estudos Sociais do Uso de Psicoativos entrou com uma petição no Supremo Tribunal Federal pedindo a liberação da maconha "para uso terapêutico e religioso". Caso a petição seja aceita, são grandes as chances de outras drogas entrarem para o rol de "sagradas". Tolerância em excesso, combinada com negligência na mesma medida e uma boa dose de vulnerabilidade, física ou emocional das partes envolvidas: eis uma boa receita para construir uma tragédia.
Kalleo Coura e Renata Betti - Revista Veja

20 de mar. de 2010

Problemas no relacionamento levam ao aumento do estresse diário

Pense na última briga que você teve com alguém próximo. Como você se sentiu depois? Como se comportou? O conflito com uma pessoa querida leva, muitas vezes, a um sentimento ruim e a um consequente comportamento errôneo, como bater a porta de forma violenta ou sair com os amigos pra beber uma cerveja e “afogar as mágoas”. Mas como isso afeta as pessoas realmente? Um estudo publicado no periódico Biological Psychiatry sugere que a parte lateral do córtex pré-frontal – uma estrutura do cérebro ligada, entre outras coisas, às respostas afetivas – pode ajudar as pessoas a controlarem suas reações emocionais intensas que ocorrem quando uma pessoa interpreta de forma equivocada a expressão facial do parceiro. Brigas podem se refletir em comportamentos impulsivos Christine Hooker e outros pesquisadores observaram adultos saudáveis com relacionamentos estáveis. No estudo, esses indivíduos eram convidados a observarem fotos do rosto de seus parceiros interpretando expressões faciais amigáveis, negativas e neutras. Paralelo a isso, os participantes preenchiam um diário descrevendo quando havia brigas com o parceiro, quando os humores estavam abalados, quando havia sentimentos de mágoa ou mesmo abuso de uso de drogas lícitas ou ilícitas. O que os pesquisadores descobriram, após compararem os dados, é que era possível prever o nível de autorregulação – normalmente menos acurado – após um conflito cotidiano. A capacidade de autorregulação possibilita que as pessoas adotem padrões pessoais para lidar com problemas, além de monitorarem e regularem seus próprios atos por meio de reações conscientes. Isso era feito a partir das respostas dadas pelos participantes ao interpretar as fotografias de expressões faciais. Por exemplo, após uma briga, ao serem apresentados às fotografias no dia seguinte, os participantes classificavam mais negativamente as fotos. Isso indicaria que a parte lateral do córtex pré-frontal poderia estar desregulada e isso também se refletia em respostas mais intensificadas do impulso (como abuso de álcool ou mesmo comportamentos menos sociáveis de forma geral). O resultado disso tudo pode ser uma menor eficácia da comunicação interpessoal do casal, levando a mais brigas e mesmo violência física dentro do relacionamento. Relacionamento é porto seguro para o estresse diário Aprender a lidar com os estados emocionais negativos que podem surgir em alguma época de um relacionamento afetivo é importante, dizem os pesquisadores, pois isso se reflete no modo como as pessoas acabam lidando com o mundo ao seu redor. Os relacionamentos costumam, normalmente, servir de porto seguro para os estresses do dia a dia. Quando há uma briga, esses relacionamentos acabam potencializando situações estressantes já presentes. A consequência disso pode ser, a partir das conclusões da pesquisa, uma maior impulsividade que pode se refletir na violência doméstica, na bebida ou mesmo em comportamentos alimentares exagerados. O estudo demonstra como é importante traçar estratégias cognitivas e comportamentais que possam ajudar a lidar com esse tipo de problema. “Os resultados indicam que certos indivíduos podem estar mais vulneráveis a problemas de comportamento após situações estressantes na vida emocional”, observam os pesquisadores. Biological Psychiatry

O que os homens querem da mulher?


O Dia Internacional da Mulher passou longe da minha coluna quinzenal. Assim, vou levar a sério o galanteio dos que dizem "todo dia é dia de vocês" e continuar uma velha conversa que sempre retorna, por volta do 8 de março: afinal, o que querem as mulheres? 


Sucessivas gerações de homens retomaram a pergunta, desde que Freud confessou sua perplexidade à amiga Marie Bonaparte no começo do século passado. Se a descoberta freudiana ainda valer e o inconsciente continuar recalcado, o desejo, no sentido radical da palavra, é enigmático para homens e mulheres. 


Não há distinção de gênero frente à opacidade das representações estranhamente familiares que nos habitam e motivam lapsos, deslizes, sintomas, fantasias. Já no plano das vontades mais pedestres, do destino que damos a essa insatisfação permanente a que se chama vida - talvez aí se possa especular se os homens seriam menos enigmáticos que as mulheres. Por uma questão de método, vale considerar o ponto de vista dos que, como Freud, se confessam incapazes de satisfazer esses seres ambíguos que somos nós, do sexo feminino. 


Os homens, talvez para se esquivar da intromissão feminina, declaram ser pessoas fáceis de contentar. Além de sexo, dedicação e carinho (mas sem exagero!) das amadas, querem respeito profissional e, claro, ganhar bem. O que mais? 90% de minha amostragem particular responde: ler o jornal inteiro no domingo, jogar conversa fora com os amigos de bar de vez em quando e ver futebol na TV sem ser ???interrompidos. Essa opção, há quem troque por uma soneca no sofá. Parece que com esse pacote de pequenas alegrias, tudo estaria bem. Mas, atenção: as mulheres, convidadas gentilmente a não aporrinhá-los durante suas atividades favoritas, devem estar a postos quando eles solicitarem. O casamento para o homem, disse uma vez Mario Prata, significa botar uma mulher dentro de casa. E depois, sair pra rua. Só que ela precisa estar lá quando o cara voltar, de preferência sem questionar por que ele saiu em vez de se contentar com tudo o que ela tem a oferecer. Melhor fazer essa pergunta ao ex-marido da Amélia, aquela dedicada que ele abandonou em troca da outra, cheia de exigências. 


 Mas perguntemos também, como meu colega de coluna, Marcelo Paiva, por que tantas mulheres hoje (nem todas! só as de 40 pra cima) não querem mais se casar? Essa pergunta é simétrica àquela formulada pelo historiador da revolução francesa, Jules Michelet, aos homens que no fim do século 19 preferiam as aventuras do celibato à responsabilidade do casamento. Michelet lamentava o destino das moças pobres e remediadas que, fora da instituição do matrimônio, ficavam desprotegidas, vulneráveis, sem perspectiva de futuro. A recusa mudou de lugar? Por que as mulheres de hoje, cumprida a etapa inicial da criação dos filhos, preferem não entrar num segundo ou terceiro casamento? Hipótese: porque não precisam mais dele. Não do homem, nem do amor: do casamento. Nem todas as que desistem de casar de novo são, como pensa Marcelo, desiludidas com o amor. 


As mulheres que já se casaram algumas vezes podem ter desistido do casamento porque esse existe, até hoje, para tornar confortável a vida - dos homens. Separados, eles procuram imediatamente uma esposa que substitua a primeira, enquanto elas parecem não ter pressa nenhuma de voltar ao estado civil anterior. Isso não quer dizer que tenham desistido de amar. Pode ser que estejam à procura de outras coisas, além das que o casamento proporciona. Aliás: é nessa hora, quando uma mulher não se contenta mais com o que seu homem lhe oferece, que ele a acusa de não saber o que quer. Muitas coisas os homens podem nos dar. Amor, prazer, carinho, apoio. Aquele olhar de desejo que embeleza a mulher. E filhos, quase todas queremos os filhos. O que mais? Profissão e independência econômica ficam fora do pacote do amor. Poder, também: mas o verbo é mais instigante que o substantivo. As mulheres querem poder muitas coisas. Depois que os filhos crescem e antes que lhes tragam netos pra cuidar, o que querem as mulheres? É simples: tudo o que não puderam viver até então. 


Está certo: tudo, tudo não pode ser. Vá lá, quase tudo. Com vocês ou sem vocês, meus caros; quase tudo. Caberia até perguntar: por que os homens (não todos! só os de 40 pra cima) querem tão pouco? Basta olhar à sua volta. Uma fila de cinema: 60% de mulheres, 40% de homens (os jovens talvez sejam exceção). Um concerto? 70% pra nós. Exposição de arte, idem. Metrô pra qualquer lugar, fora de horários de pico: mulheres, mulheres. Carnaval, festa-baile: olha lá elas dançando, com ou sem parceria masculina. Viagens, ecoturismo, passeatas - a lista é longa. Por isso mesmo a mulher pode hoje dar a seu parceiro o que nenhuma geração anterior ao século 20 podia dar. Aquilo que o poeta francês Benjamin Pérec chamou de amor sublime: o amor da carne, mais o da sublimação. As três últimas gerações de mulheres, não limitadas ao espaço doméstico, são capazes de conversar sobre quase tudo com seus companheiros. Compartilhar ideias, projetos, ambições, bobagens, piadas, boemia, lutas. A vida pode ser bem boa desse jeito, e o amor, uma conversa sem-fim. 


 O filósofo romeno Cioran afirmou que as mulheres são as novas-ricas do mundo da cultura. Talvez por isso falemos demais. Em compensação, os maridos não são mais os nossos únicos interlocutores.
Maria Rita Kehl

17 de mar. de 2010

Acordar

Não se ache horrível pela manhã: acorde ao meio dia!

Se vai tentar, siga em frente

Se vai tentar siga em frente. Senão, nem começe! Isso pode significar perder namoradas esposas, família, trabalho...e talvez a cabeça. Pode significar ficar sem comer por dias, Pode significar congelar em um parque, Pode significar cadeia, Pode significar caçoadas, desolação... A desolação é o presente O resto é uma prova de sua paciência, do quanto realmente quis fazer E farei, apesar do menosprezo E será melhor que qualquer coisa que possa imaginar. Se vai tentar, Vá em frente. Não há outro sentimento como este Ficará sozinho com os Deuses E as noites serão quentes Levará a vida com um sorriso perfeito É a única coisa que vale a pena. Charles Bukowski

Quando a natureza mata


Menina do interior, tive a natureza como presença enorme em torno da casa e por toda a pequena cidade: paisagem, abrigo, fascinação, surpresa, escola de permanência e também de transitoriedade. 


Mantive um laço estreito com esse universo, e quando posso durmo de janelas e cortinas abertas, para sentir a respiração do mundo. 


Porém, cedo também aprendi que a mãe natureza pode ser cruel. Granizo perfurando folhas e arrasando a horta, geada castigando flores, raios matando gente. De longe, ouvia falar em terremoto, quando o vasto mundo ainda era distante. 


Agora que o mundo ficou minúsculo, porque o Haiti arrasado, o Chile destruído e a Europa nevada estão ao alcance do meu dedo no computador ou no controle da televisão, a velha mãe se manifesta em estertores que podem ser apenas normais (o clima da Terra sempre mudou, às vezes radicalmente, antes de virmos povoar este planeta), mas também podem ser rosnados de protesto, "ei, o que estão fazendo comigo essas pequenas cracas que se instalaram sobre minha pele?". Mas a natureza não mata apenas com enchentes, deslizamentos, terremotos e tsunamis. 


Mata pela mão dos humanos, o que pode parecer um fato em escala menor, mas é bem mais preocupante. Homens, mulheres e meninos-bomba quase diariamente se explodem levando consigo dezenas de vidas inocentes: pais de família, mães ou crianças, mulheres fazendo a feira, jovens indo para a escola. Bandidos incendeiam um ônibus com passageiros dentro: dois morrem logo, outros vários curtem em hospitais o grave sofrimento dos queimados. Não tinham nada a ver com a bandidagem, estavam apenas indo para o trabalho, ou vindo dele. Assaltantes explodem bancos em cidades do interior antes tranquilas. 


Criminosos sequestram casais ou famílias inteiras e os submetem aos maiores vexames e terror. Como está virando costume, a gente agradece por escapar com vida. Duas mães deixam num barraco imundo cinco crianças, algumas com menos de 6 anos. Sem comida, sem força, sem presença, sem a menor higiene. O policial que as encontra leva duas menorzinhas para casa, onde sua mulher lhes dá banho e comida. As crianças, de tão fracas, mal conseguem se alimentar. O homem chora: tem três filhos pequenos, e há algum tempo perdeu uma filhinha. A maldade humana agride até esse homem que com ela deve ter frequente contato. 


A natureza, da qual fazemos parte, mata com muito mais crueldade através de nós do que através do clima ou de movimentos da terra, e de maneira bem mais assustadora: pois nós pensamos enquanto prejudicamos o nosso semelhante. Temos a intenção de atormentar, torturar, matar, mesmo que em vários casos seja uma consciência em delírio – estamos tão drogados que achamos graça de tudo. 


Mas somos responsáveis por nos termos drogado. De modo que, como me dizia um amigo, o ser humano não tem jeito, não. Ou: esse é o nosso jeito, a nossa parte na natureza. De um lado, os cuidadores, que vão de pais e mães até médicos e enfermeiras; do outro lado, os destruidores, que são os bandidos, mas também (que tristeza) eventualmente pais e parentes. E contra eles, tanto ou mais do que contra a natureza não humana, somos impotentes. O que faz a criança diante do abandono materno? Em relação ao pai, tio ou irmão estuprador? O que fazem passageiros de um ônibus, pacíficos e cansados, diante do terror imposto por bandidos? Nada. 


Migalhas humanas soterradas por maldade e frieza, como num terremoto ou tsunami somos soterrados pela lama, pelos destroços, pelas águas. Resta filosofar um pouco: de que vale a vida, quanto vale a minha, e como a usamos, se é que pensamos nisso? Pensar pode ser meio chato, e ainda por cima traz alguma inquietação. A natureza poderosa, encantadora e cruel também somos nós: que a gente não fique do lado dos animais assassinos, como a orca, que depois de matar três pessoas continua, como foi anunciado, "fazendo parte do time", no parque americano. Antes de usar um adesivo "salve as baleias", eu quero um adesivo "salve as pessoas, que são parte da natureza". 
Lya Luft
Picture by Angel Estevez

16 de mar. de 2010

Diário

Quando eu morrer, ninguém descobrirá entre os meus papéis uma observação que contenha a chave da minha vida (o que é um consolo para mim).
Ninguém descobrirá palavras que expliquem tudo e que muitas vezes fazem o que o mundo consideraria uma ninharia parecer um evento de tremenda importância para mim ou algo que eu considere extremamente importante uma vez despido de seu verniz protetor. Kierkegaard

14 de mar. de 2010

Chico Xavier - O filme (trailer)

Ligia


Ao andar pela primeira vez no calçadão de Copacabana, fiquei quase estático diante das belezas naturais e animais que só o Rio de Janeiro possui. 


Ali compreendi que a inspiração para Vinícius e Jobim esculpirem musicalmente a “Garota de Ipanema” jamais poderia ter sido noutro lugar deste vasto mundo, pois o andar cheio de graça daquelas meninas que vêm e que passam, só mesmo na cidade maravilhosa. 


Todavia, a memória sentimental da música “Lígia”, de Tom Jobim, me impediu de ficar paralisado naquele calçadão, pois imediatamente comecei a cantarolar os versos “andar pela praia até o Leblon”, e parece que o dia ficou mais límpido com essa singela homenagem àquele que já foi chamado de maestro soberano por outro não menos soberano, o Chico Buarque; daí porque andar até o Leblon era questão de honra naquele dia cheio de luz. 


E assim foi. Cantei a melodia “Lígia” que tanto embalara minhas jovens tardes de domingo a domingo ao som de Chico Buarque. Sim, porque a primeira referência dessa mais que bela cantiga era a versão gravada pelo Chico no então elepê “Chico Canta”. Desde essa época encantei-me por essa musa chamada Lígia, afinal ela inspirou o Tom Jobim a dedilhar no piano uma de suas mais belas melodias, carregada de um frêmito desejo. 


Um dos aspectos mais inteligentes contidos na letra dessa cantiga é a negação do amor, pois de início se pensa que ele realmente está negando a paixão pela tal Lígia (“eu nunca sonhei com você”), mas logo se descobre que é uma negação infantil, de um frustrado que não consegue exprimir sua louca volúpia pelos olhos morenos que “metem mais medo que um raio de sol”. E a mentira se espalha nas afirmações nada coerentes. Afinal, como entender alguém que não goste de chuva e nem goste de sol? E que muito menos não vai a Ipanema? 


Eis aí a tragédia do tímido apaixonado. Ainda assim, a música “Lígia” continua negando a paixão. “E quando eu lhe telefonei, desliguei, foi engano, seu nome eu não sei”. Claro, ninguém sabe o nome da musa, afinal ele só repete “Lígia” por seis vezes ao longo da canção... O mais incrível, porém, ainda estar por vir. Quando ele diz que nunca quis ter a Lígia ao seu lado, num fim de semana, com um chope gelado em Copacabana, aí é demais. E não querer andar pela praia até o Leblon, então! 


Bem, quando eu estive nesse cenário desenhado pela pródiga natureza, passei a entender melhor a força da música. Como se não bastasse a formidável construção dos versos musicados, descobri mais tarde que há outras duas versões da letra, escritas pelo próprio Jobim, mas que não se sabe ao certo do porquê de três mudanças na letra da música. Como a versão cantada pelo Chico Buarque foi a primeira que ouvi, chamo-a de primeira versão. E é a partir dela que assinalo as mudanças nas demais versões, gravadas tanto pelo próprio Tom Jobim, como por João Gilberto. 


A segunda versão é a dedilhada pelo mestre João Gilberto – aquele que praticamente inventou a bossa nova, com a batida revolucionária de seu violão, resquício das lembranças ribeirinhas de sua meninice, onde observava o andar rebolado das lavadeiras em Juazeiro da Bahia – e o que se percebe nessa versão é uma letra mais direta, menos lírica, porque não há o intenso jogo de negação/afirmação da letra da versão primeira. Se bem que nessa nova faceta da música há uma tirada sensacional, quando Tom Jobim diz que jamais deveria se casar com a Lígia, pois fatalmente iria sofrer tanta dor pra no fim perder a musa. Um receio que só quem de fato a conheceu deve entender esse medo tão fatalista. 


Há uma terceira versão, registrada em show de voz e piano com o maestro Jobim, realizado nas Minas Gerais, no ano de 1981, onde os olhos da musa já não são morenos, e sim castanhos. Nessa versão, ao invés de cantar “e quando você me envolver / nos seus braços serenos / eu vou me render”, ele diz que a Lígia tem modos estranhos de se aproximar (“você se aproxima de mim / com esses modos estranhos / eu digo que sim”). 


Infelizmente nunca saberemos a que modos o Antonio Brasileiro quis de fato se referir; mas dá para imaginar. É um exercício interessante ouvir as três versões (Chico Canta, 1974, Philips; João Gilberto in Tokyo, 2003, Universal; e Antonio Carlos Jobim em Minas ao vivo, 2004, Biscoito Fino), porque assim se tem uma vaga idéia de como essa musa chamada Lígia não só inspirou uma belíssima música, como também foi capaz de render três versões sobre a mesma melodia. A mulher certamente era um furacão.  


Quando eu estiver novamente caminhando pela praia de Copacabana, até o Leblon, será irresistível andar lentamente, a tempo de poder cantar todas as versões de “Lígia”, pois é mais que necessário relembrar canções como essa, de um gênio chamado Tom Jobim. Até porque essa música, além de ter o fascínio das boas cantigas, carrega em suas entranhas um inconfundível cheiro de maresia Mantovanni Colares




A Lígia do Tom 
"Eu nunca quis tê-la ao meu lado num fim de semana/um chope gelado em Copacabana". A música de Tom Jobim foi escrita em 68 para uma paquera de botequim. Lygia Marina Pires de Moraes, a musa da história, tem 54 anos e conheceu o compositor aos 21, no antigo bar Veloso (que hoje se chama Garota de Ipanema). 

"Estava tomando cerveja com uma amiga e vi o Tom na mesa ao lado. Logo ele avançou, dizendo que eu tinha mãos de pianista, imagine!". Copo vai, copo vem e Tom se lembrou que, na mesma noite, tinha que dar uma entrevista para Clarice Lispector. Lygia só foi descobrir a música anos depois, quando já estava casada com o escritor Fernando Sabino. 

Um dia, Sabino atendeu um telefonema de Tom, que ligou para procurar Lygia. "Meu ex-marido morreu de ciúmes e Tom gravou a música para dar de troco para ele, que desligou o telefone e não me deu o recado." Não é por acaso que a canção diz: "E quando eu te telefonei/ desliguei/ foi engano". Mas o engano mesmo foi outro. "Ele errou a grafia do meu nome", diz Lygia, com y, que fique claro.


Eu nunca sonhei com você 
Nunca fui ao cinema 
Não gosto de samba não vou a Ipanema 
Não gosto de chuva nem gosto de sol 
E quando eu lhe telefonei, desliguei foi engano 
O seu nome não sei 
Esquecí no piano as bobagens de amor 
Que eu iria dizer, não ... L
ígia Lígia 
 Eu nunca quis tê-la ao meu lado 
Num fim de semana 
Um chopp gelado em Copacabana 
Andar pela praia até o Leblon 
 E quando eu me apaixonei 
Não passou de ilusão, o seu nome rasguei 
Fiz um samba canção das mentiras de amor 
Que aprendí com você 
É ... Lígia Lígia 
*Você se aproxima de mim 
Com esses modos estranhos e eu digo que sim 
Mas teus olhos castanhos 
Me metem mais medo que um dia de sol 
É... Lígia Lígia 
**E quando você me envolver 
Nos seus braços serenos eu vou me render 
Mas seus olhos morenos 
Me metem mais medo que um raio de sol 
É... Lígia Lígia 
Tom Jobim - Chico Buarque

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