31 de ago. de 2009

Nulidades que triunfam perpetuamente

De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto. Rui Barbosa

Amor de mãe


O amor de mãe por seu filho é diferente de qualquer outra coisa no mundo. 
Ele não obedece lei ou piedade, ele ousa todas as coisas e extermina sem remorso tudo o que ficar em seu caminho. 
Agatha Christie

Antidepressivos naturais


Tristeza, desânimo, depressão: quando as coisas começam a tornar-se sombrias ou fica mais difícil levar a vida, é preciso procurar ajuda. 


Normalmente, a melhor estratégia é combinar diferentes medidas -por exemplo, uso de remédios ou substâncias com princípios ativos, medidas de autocuidado (como alimentação adequada e prática de exercícios) e apoio psicoterápico. 


Em caso de depressão intensa, que, diferentemente da tristeza comum, é doença, o uso de medicamentos sintéticos pode ser indicado. Mas, para depressão leve ou moderada, há opções de antidepressivos naturais que podem ter efeito. Existem dez desses itens, que podem levantar o ânimo ou ajudar no tratamento da depressão. Oito deles têm algum grau de evidência -como critério, foram utilizadas meta-análises (revisões de vários estudos) da organização Cochrane, rede global dedicada à revisão de pesquisas na área de saúde. 


Dois são controversos e precisam de mais estudos sobre sua eficácia e segurança. Exercícios O exercício estimula a secreção de endorfinas, que causam sensação de bem-estar. "Além disso, melhora a circulação e a oxigenação do cérebro. E tem efeitos indiretos em sintomas ligados à depressão, como a qualidade do sono", diz Frederico Navas Demetrio, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. Em geral, acredita-se que os exercícios de maior intensidade sejam mais eficazes. 


Mas, na revisão de 25 estudos feita pela organização Cochrane, que confirmou que a atividade física melhora os sintomas de depressão, os pesquisadores afirmaram que não há evidência sobre qual tipo de exercício é mais eficaz. O que costuma funcionar melhor é praticar uma atividade física que dê prazer. 


5 HTP (hitroxi-triptofano) O triptofano é um aminoácido essencial, encontrado especialmente em alimentos proteicos, como carnes e laticínios. Não é produzido pelo corpo e precisa ser adquirido via alimentação. Esse aminoácido leva à produção de serotonina, neurotransmissor relacionado ao prazer e ao bem-estar. Por isso, a suplementação de 5 HTP pode ser usada em alguns casos de depressão e tristeza. "É mais indicado para quem tem a deficiência do nutriente, causada, por exemplo, por dietas vegetarianas pobres em proteínas. 


Uma alimentação equilibrada supre as necessidades de triptofano", diz Vânia Assaly, endocrinologista e nutróloga, membro da International Hormone Society. Para ela, o suplemento age especialmente na melhora do sono, na redução da voracidade noturna e em transtornos leves de humor. Os suplementos dietéticos de 5 HTP são produzidos principalmente a partir de uma planta africana, a Griffonia simplicifolia. Em uma meta-análise, pesquisadores da Cochrane encontraram evidências de que o 5 HTP é melhor do que placebo para aliviar sintomas da depressão. Notaram, porém, que a maioria dos estudos não atingiu todos os critérios de qualidade e que mais pesquisas devem ser feitas para verificar possíveis efeitos adversos. 


 Segundo Frederico Demetrio, do HC, os primeiros estudos com 5 HTP foram interrompidos porque seu uso provocou dores musculares, mas elas foram atribuídas a impurezas no produto utilizado. "Em tese, o 5 HTP de boa qualidade, purificado, pode funcionar." Porém, o 5 HTP pode interagir com antidepressivos sintéticos, levando à concentração excessiva de serotonina. É contraindicado, ainda, para pacientes com tumores malignos ou doenças cardiovasculares. Meditação Estudos mostram que a meditação produz mudanças no cérebro, como a redução ou o aumento da atividade de certas regiões. 


"A hipótese é que reduza hormônios como o cortisol, diminuindo a ansiedade, e promova liberação de endorfinas, ligadas à sensação de prazer", diz José Roberto Leite, coordenador da unidade de medicina comportamental da Unifesp. Em 15 pesquisas analisadas pela organização Cochrane, pessoas que meditaram apresentaram melhora da depressão em comparação com as que não fizeram nenhum tratamento. O estudo concluiu que a técnica tem potencial para ser o tratamento inicial do problema, especialmente para pessoas jovens, com o primeiro episódio de depressão ou com quadro considerado bem leve. Para Leite, os maiores cuidados devem ser tomados com pessoas com tendências autodestrutivas, como pensamentos suicidas. 


"São casos em que é preciso muito acompanhamento, e a meditação não pode ser o tratamento principal." Ele diz que, em geral, a meditação é uma técnica eficaz e de baixo custo para diminuir os sintomas e reduzir as reincidências do distúrbio. Para ter efeito, ele recomenda que seja praticada, no mínimo, quatro vezes por semana. "No início, a pessoa pode praticar por cinco a oito minutos. Em uma semana, ela já consegue meditar por dez minutos e vai aumentando gradativamente até chegar a 30 minutos, o que é suficiente para obter os efeitos", diz Leite. Fototerapia A exposição à fonte de luz artificial intensa é um tratamento comprovado para a depressão sazonal -que ocorre no inverno, quando o período de luz solar diminui. 


É frequente em países mais distantes do Equador, em que os dias se tornam muito curtos nos meses frios. No Brasil, é menos comum. Na fototerapia, uma lâmpada fluorescente de pelo menos 2,5 mil lux (unidade de medida de luz) é colocada perto dos olhos da pessoa, sem que essa precise olhar diretamente para a lâmpada. As sessões duram cerca de 30 minutos por dia. Segundo Rubens Pitliuk, neuropsiquiatra do hospital Albert Einstein, a fototerapia também pode ajudar em outros casos de depressão, se os sintomas pioram em dias cinzentos. 


Uma revisão de 20 estudos concluiu que traz benefícios discretos, mas promissores, também para casos de depressão não sazonal, quando usada com outros tratamentos. É possível adquirir aparelhos de fototerapia para uso em casa, mas deve haver orientação médica. Também é importante usar aparelho que não emita raios ultravioleta. Suplementos de vitaminas B12 e B9 (ácido fólico) As vitaminas B12 e B9 são essenciais para a fabricação de diversos neurotransmissores e atuam como modulares dos sistemas neurológico e hormonal. 


Em pessoas deprimidas, pode ser observada uma diminuição dos níveis desses nutrientes presentes no sangue. A suplementação dessas vitaminas pode aliviar sintomas de depressão e potencializar efeitos de medicamentos antidepressivos. Costuma ser indicada para pacientes com sintomas de deficiência nutricional e alcoólatras (que normalmente apresentam deficiência de nutrientes e, em especial, falta de vitamina B 12). Uma análise de estudos realizada pela Cochrane, envolvendo um total de 151 pessoas, indicou que o uso de vitamina B9 (ácido fólico) em conjunto com outros tratamentos diminui o grau de depressão dos pacientes. 


No entanto, os estudos não mostram se o efeito ocorre tanto em pessoas com deficiência do nutriente quanto nas com níveis normais de vitamina B9. Em caso de desânimo ou tristeza não patológica sem causas aparentes, pode ser investigada a falta dessas vitaminas por meio de exame de sangue. Nessa circunstância, a suplementação pode ser suficiente. Nos casos de depressão, é necessário corrigir a deficiência, se constatada, mas a suplementação é considerada um adjuvante do tratamento, e não o foco principal. Em pacientes que não estão respondendo aos tratamentos, é recomendado checar os níveis dessas vitaminas encontrados no sangue e a suplementação pode auxiliar na obtenção de resultados. 


Aparentemente, não há efeitos adversos e interações medicamentosas com o uso de suplementos de vitaminas B9 e B12. O excesso desses nutrientes no organismo é eliminado naturalmente pela urina. Erva-de-são-joão O extrato da erva-de-são-joão (Hypericum perforatum L) é um dos chamados antidepressivos naturais mais estudados. Porém, seu mecanismo de ação ainda não está totalmente esclarecido. "Aparentemente, seus princípios ativos têm ação semelhante à dos [medicamentos sintéticos] inibidores da recaptação de serotonina", diz Frederico Demetrio, do HC de São Paulo. A serotonina é um neurotransmissor que modula o humor e provoca bem-estar. Baixos níveis da substância estão relacionados aos quadros de depressão. Os inibidores de recaptação aumentam a disponibilidade da serotonina no sistema nervoso central. 


Uma meta-análise feita pela organização Cochrane concluiu que o extrato de erva-de-são-joão tem efeito superior ao do placebo e similar ao dos medicamentos sintéticos no tratamento de depressão leve a moderada. Foram analisados 29 estudos, que incluíam, no total, 5.489 pacientes. Os autores ressaltam que, como há grande variedade de produtos à base de erva-de-são-joão no mercado, os resultados só são aplicáveis para as preparações testadas nos trabalhos incluídos na meta-análise. "É preciso usar extrato de qualidade com as concentrações adequadas dos princípios ativos da planta", diz Demetrio. 


Segundo o psiquiatra, o uso e a dosagem devem ser indicados e supervisionados por médicos, e os efeitos começam a ser percebidos após duas semanas, aproximadamente. O mais importante é saber que a erva-de-são-joão interage com outros medicamentos e não pode ser usada com alguns deles. "O uso associado a outros antidepressivos, por exemplo, pode levar à síndrome serotoninérgica [concentração excessiva de serotonina], que causa de mal-estar a alucinações", afirma Demetrio. O mesmo pode ocorrer com alguns remédios usados para emagrecimento. O extrato também diminui a absorção de remédios anticoagulantes e de algumas drogas quimioterápicas, prejudicando o tratamento. 


Entre os efeitos adversos, a erva-de-são-joão pode aumentar a fotossensibilidade -causando manchas e eczemas na pele com a exposição à luz- e causar secura na boca e constipação intestinal. Acupuntura A acupuntura busca reequilibrar a chamada "energia vital" por meio da estimulação de pontos específicos do corpo. A depressão, dentro dessa perspectiva, é entendida como um desequilíbrio no fluxo energético entre os órgãos. Restaurar esse fluxo e a saúde geral do indivíduo é uma estratégia para lidar com estados de desânimo. 


Martius Luz, do setor de medicina chinesa e acupuntura da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), diz que, além da restauração de energia, acredita-se que a acupuntura gere respostas no sistema nervoso central que estimulam a produção de serotonina. Embora não existam estudos suficientes para comprovar essa teoria, há pesquisas populacionais indicando que as pessoas propensas a usar técnicas de medicina complementar obtêm resultados no tratamento da depressão com acupuntura. Uma revisão de sete estudos envolvendo 517 pessoas avaliou que não há evidência de que os medicamentos sintéticos sejam melhores do que a acupuntura para diminuir os sintomas de depressão. Por outro lado, os pesquisadores dizem não ter dados para concluir sobre a eficácia da acupuntura por si só. 


Para Luz, a acupuntura pode ser usada isoladamente ou com outros tratamentos. O suporte emocional, como a psicoterapia, é importante para o sucesso do tratamento. Os efeitos começam a surgir após cerca de cinco aplicações, mas podem demorar mais, dependendo da saúde geral e do grau de depressão do paciente. "Para alguns, são necessárias 15 aplicações", afirma Luz. GH e melatonina são tratamentos controversos A utilização de hormônio do crescimento (GH) e de melatonina para quadros de depressão pode surtir algum efeito em casos específicos, mas não há evidências suficientes sobre os efeitos positivos e a segurança de uso dessas substâncias. "O hormônio do crescimento só deve ser utilizado em pessoas que têm deficiência comprovada da substância. Nesse caso, pode ter efeito benéfico nos sintomas da depressão, mas só deve ser usado com indicação e controle médico, porque há risco de vários efeitos indesejáveis", afirma a endocrinologista Vânia Assaly. 


De acordo com Frederico Demetrio, do Hospital das Clínicas de São Paulo, o déficit do hormônio de crescimento é difícil de ser medido, porque a secreção da substância varia muito durante o dia. "O hormônio do crescimento tem efeitos colaterais perigosos e é usado indevidamente, como anabolizante, por exemplo. De fato, ele causa hipertrofia muscular, e isso inclui o músculo cardíaco, o que pode levar a problemas no coração e ao infarto", diz ele. O GH também pode causar diabetes, tem interações perigosas com vários medicamentos, como os contra o câncer, e traz riscos renais. 


A melatonina é uma substância produzida naturalmente pelo corpo que regula o ciclo sono-vigília. "A sincronização do sono pode, teoricamente, ajudar no tratamento, já que problemas para dormir são sintomas importantes da depressão", afirma Demetrio. Os efeitos especificamente antidepressivos da melatonina também estão sendo estudados, e um medicamento para depressão que atua nos receptores de melatonina está em fase de pesquisa. Assaly lembra que a venda da melatonina é proibida no Brasil: a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) deu parecer desfavorável à análise de eficácia e segurança do produto. No entanto, em alguns países, como os EUA, a melatonina é um suplemento de venda livre.
Iara Biderman

30 de ago. de 2009

Circulo vicioso da democracia

Não estamos em condições de nos salvar a nós próprios, sobre isso não restam dúvidas. Falamos em democracia, mas ela é apenas a expressão política para um estado de espírito caracterizado pelo «Pode ser assim, mas também de outro modo». Vivemos na época do boletim de voto.
Até votamos todos os anos no nosso ideal sexual, a rainha da beleza, e o fato de termos transformado a ciência no nosso ideal intelectual não significa mais do que pôr na mão dos chamados fatos um boletim de voto, para que eles escolham por nós.
Este tempo é antifilosófico e covarde: não tem coragem para decidir o que tem ou não tem valor, e a democracia, reduzida à sua expressão mais simples, significa: Fazer aquilo que acontece! Diga-se de passagem que é um dos mais desonestos círculos viciosos que alguma vez existiu na história da nossa raça. Robert Musil

República plena, não. Democrática, menos ainda

O centenário da República foi uma efeméride importante. Naquele ano de 1989, o Brasil realizou suas primeiras eleições presidenciais em quase 40 anos. A Constituição tinha sido aprovada um ano antes - a mais democrática de nossas quatro Constituições republicanas, isto se excluirmos as outorgadas em 1937 e 1969, que não podem ser consideradas nem Constituições nem republicanas, não passando de atos de força. O ano também marcava o bicentenário da Inconfidência Mineira, nossa mais lembrada rebelião contra o poder colonial, e da Revolução Francesa, que efetuou na história do mundo o corte cirúrgico, repentino, datado, maior da História (outras mudanças, inclusive a descoberta da América, só ao longo dos anos foram revelando sua radicalidade). Duas décadas depois de seu centenário, o que dizer hoje da República, agora já aos 120 anos de idade? A rigor, os primeiros cem anos da República foram fortemente deficitários em valor... republicano. Tivemos 40 anos de governos fraudulentos e oligárquicos, a que se seguiram 15 anos de ditadura ou quase. Nosso único período democrático ocorreu entre 1945 e 1964. Nesse último ano, porém, começou nova e longeva ditadura. Em outras palavras, nos primeiros cem anos da República tivemos liberdades democráticas no percurso que vai da queda de Vargas ao golpe militar, e desde o fim da ditadura castrense. Somando, dá 23 anos em 100. Já os últimos 20 anos foram, todos, de liberdade política. Em outras palavras, passamos de um porcentual temporal de 20% para outro de 100% de democracia. O avanço é impressionante. Se continuarmos assim, o segundo século de república vai esmagar, em qualidade, o primeiro. Resta muito, é verdade, em termos de ética. Não se sabe se aumentou a corrupção ou se perdemos a ingenuidade e aumentou nossa percepção da corrupção, mas a sociedade passou a considerá-la inaceitável (o que acho um avanço), porque contraria frontalmente o espírito republicano, que defende a res publica contra a apropriação privada do que a todos pertence. Contudo, a indiferença das lideranças no Congresso e em especial no Senado à opinião pública, a censura imposta ao Estado por um magistrado, fatos reiterados essa semana, são casos que fazem muitos se decepcionarem com a política e os políticos e, não fosse a falta de ambiente para um golpe militar, não sei se o regime civil se sustentaria facilmente. Usei democracia e república, aqui, como sinônimos, embora a rigor não o sejam . Democracia é o poder do povo, e supõe que tenham poder os polloi, os muitos, em suma, os pobres. Quase toda democracia tem, por definição, preocupação social, porque os pobres são a maioria e, assim, escolhem quem governa. O populismo pode ser um excesso, um exagero, uma forma específica, mas toda democracia tem de mostrar um empenho em melhorar a condição dos mais pobres. Já a república é um regime que se define, a rigor, não pelo modo de eleição do governante, mas por sua preocupação com a coisa pública, com o bem comum. A democracia é quente, entusiasma (e irrita), enquanto a república é fria, racional, jurídica. Aliás, por isso tudo, uma monarquia pode ser mais republicana do que um regime no qual um general se proclame presidente, sem eleições e às vezes com um mandato vitalício. A grande pergunta, então, que se torna ainda mais pertinente depois da queda do comunismo (isso porque ele parecia ter vindo para ficar; parecia ter trazido ganhos, ainda que a alto custo; e foi-se embora como uma página que a História apaga, como um erro, como algo que se quer esquecer), é: a Proclamação da República em 1889 foi um ganho para o Brasil? ou uma perda? A pergunta é ainda mais pertinente porque, a rigor, Pedro II poderia ser dito mais empenhado na res publica do que muitos de nossos presidentes. Mas está claro que é difícil responder. Na dimensão do tempo, o que acontece não pode ser comparado com o que poderia ter acontecido. Ao se tomar um caminho, inibe-se o outro - inibe-se até mesmo saber o que seria o outro. Mas é fato que o imperador respeitou mais a liberdade de expressão do que os presidentes da República Velha, e que no Parlamento do Império - em que pese suas eleições serem manipuladas - não se chegou ao nível de fraude que envergonha as primeiras décadas republicanas. Se coroada imperatriz, d. Isabel I certamente teria mantido a tradição que seu pai iniciara, de afastar-se dos partidos. Seria plausível abolir o poder moderador, tornar eleito o Senado, em síntese, ampliar de dentro as liberdades políticas. Uma evolução à inglesa seria possível - porque em 1889 fazia apenas meio século que a rainha Vitória subira ao trono e transformara a desmoralizada e agonizante monarquia britânica numa instituição respeitada, exemplar, e ela o conseguira justamente ao se afastar das disputas políticas, que ficaram com os eleitos do povo. Terá nossa República sido, então, um retrocesso, como afirmou desde o início Eduardo Prado? Se afirmá-lo é impossível, porque esse caminho foi inibido historicamente, é porém duvidoso negá-lo, quando comparamos as últimas décadas do Império e as primeiras do novo regime. Mas isso, precisamente porque o ideal republicano foi o que menos existiu no governo fatiado entre as oligarquias. A autonomia das províncias, reivindicada contra o centralismo imperial, reduziu-se a uma federação de déspotas locais. Não houve mais uma figura respeitada - que, talvez por feliz acaso, coincidiu com um imperador ilustrado - capaz de atenuar a temperatura dos conflitos. Nossa história, aliás, quase toda escrita já na recentralização do poder que recomeça em 1930, costuma omitir as guerras civis internas aos Estados, que devastaram o Rio Grande do Sul e o Nordeste. No entanto, vivemos agora o primeiro período consistentemente republicano de nossa história. Sob a vigência da Constituição de 1946, apelos a golpes e rebeliões militares foram frequentes. O presidente Vargas foi levado ao suicídio. Juscelino, cuja gestão foi mais democrática e tolerante que todas as anteriores, enfrentou uma sucessão de movimentos armados. Quando renunciou Jânio Quadros, o quarto presidente eleito de nossa história (porque não considero eleitos os da República Velha, em que prevalecia a desonestidade eleitoral), seu vice, Goulart, só tomou posse depois de ser devidamente mutilado em seus poderes pela emenda parlamentarista. Teve paz apenas nosso primeiro presidente eleito, Dutra, talvez por ser oficial general. Já na fase ininterruptamente constitucional que vivemos desde 1985, que começou com a Nova República, o presidente Collor só foi destituído após o devido processo legal. As liberdades de expressão, de organização e de voto, apesar de enfrentarem dificuldades nos primeiros anos pós-ditatoriais, se consolidaram. Pela primeira vez em nossa história, o povo elegeu um presidente de esquerda e ele governa sem problemas que sejam enormes. O protagonismo popular aumenta. Até o que foi pouco ético - a aprovação de uma emenda constitucional instituindo a reeleição para beneficiar quem foi eleito sob regras que a proibiam - acabou tendo um resultado benéfico, com 16 anos seguidos de estabilidade sob partidos opostos. Regimes políticos são formatados aos poucos. Quando uma Constituição é redigida, ainda não se sabe em que vai dar. Se George Washington e Thomas Jefferson não se tivessem contentado com dois mandatos presidenciais, a história dos Estados Unidos seria diferente. Se FHC ou Lula não tivessem podido se reeleger, não teríamos tido presidentes capazes de construir consensos - um diferente do outro, mas não diferente demais - que estruturaram a política brasileira. Talvez, agora, entremos na era dos gerentes. Talvez o próximo presidente não tenha esse fôlego de líder. Mas foi bom esse período, até porque, curiosamente, perfis pessoais tão diferentes - o intelectual e o metalúrgico - granjearam ambos um respeito mundial pelo presidente do Brasil. Quinze anos atrás, sugeri que estaríamos vivendo algo parecido à 3ª República Francesa. A primeira (1793) foi turbulenta e morreu logo depois do Terror. A segunda (1848) durou meros três anos. A terceira (1875), alternando o centro-direita e o centro-esquerda, consolidou a instrução universal, a valorização dos salários dos trabalhadores, o respeito às instituições. Hoje a Presidência se alterna no Brasil entre dois partidos, um que tende à esquerda e outro à direita, mas ambos gravitando rumo ao centro. Isso evita a polarização excessiva, pelo menos em âmbito federal, fortalece o diálogo político, permite consensos eventuais, mesmo que não sejam explícitos. É verdade que nossa educação continua uma lástima e os avanços nessa direção - a definição de instrumentos de avaliação que permitem medir o que falta e o que pode ser feito, a convergência entre PSDB e PT sobre a necessidade e mesmo os meios de melhorar a educação - não apagam o fato de que ainda não se vê luz no fim do túnel. E é certo que nossa Previdência Social e a renda dos mais pobres continuam insuficientes para cobrir as despesas básicas. Ou seja, nosso balanço institucional e político é bem melhor que o nosso saldo social. Estamos melhor em república do que em democracia, se entendermos, como disse acima, que na democracia o conteúdo social é de sua essência. Aí, sim, falta muito. Renato Janine Ribeiro

29 de ago. de 2009

Gabriel

É só de ninar e desejar que a luz do nosso amor Matéria prima dessa canção fique a brilhar E é pra você e pra todo mundo que quer trazer assim a paz no coração Meu pequeno amor E de você me lembrar Toda vez que a vida mandar olhar pro céu Estrela da manhã Meu pequeno grande amor que é você Gabriel Pra poder ser livre como a gente quis Beto Guedes

Tutuzinho, parabéns pelos seus 4 anos. Você é nota 11.

Mudanças

Deveríamos ter sempre diante dos olhos o efeito do tempo e a mutabilidade das coisas, por conseguinte, em tudo o que acontece no momento presente, imaginar de imediato o contrário, portanto, evocar vivamente a infelicidade na felicidade, a inimizade na amizade, o clima ruim no bom, o ódio no amor, a traição e o arrependimento na confiança e na franqueza e vice-versa.
Isso seria uma fonte inesgotável de verdadeira prudência para o mundo, na medida em que permaneceríamos sempre precavidos e não seríamos enganados tão facilmente. Na maioria das vezes, teríamos apenas antecipado a ação do tempo. Talvez para nenhum tipo de conhecimento a experiência seja tão imprescindível quanto na avaliação justa da inconstância e mudança das coisas. Ora, como cada estado, pelo tempo da sua duração, existe necessariamente e, portanto, com pleno direito, cada ano, cada mês, cada dia parecem querer conservar o direito de existir por toda a eternidade. Mas nada conserva esse direito, e só a mudança é permanente. Prudente é quem não é enganado pela estabilidade aparente das coisas e, ainda, antevê a direção que a mudança tomará. Por outro lado, o que via de regra faz os homens tomarem o estado provisório das coisas ou a direção do seu curso como permamente é o fato de terem os efeitos diante dos olhos, sem todavia entender as suas causas. Mas são estas que trazem o germe das mudanças futuras, enquanto os efeitos, únicos existentes para os olhos, nada contêm de parecido.
Os homens apegam-se aos efeitos e pressupõem que as causas desconhecidas, que foram capazes de produzi-los, também estão na condição de mantê-los. Nesse caso, quando erram, têm a vantagem de fazê-lo sempre em uníssono. Sendo assim, a calamidade que, em decorrência desse erro, acaba por atingi-los, é sempre universal, enquanto a cabeça pensante, caso erre, ainda permanece sozinha. Diga-se de passagem que temos aqui uma confirmação do meu princípio de que o erro nasce sempre de uma conclusão da consequência para o fundamento. Arthur Schopenhauer
Picture Shawn McNulty

Gripe suína supera gripe sazonal

O vírus H1N1, causador da gripe suína, que causou cerca de 2.200 mortes em 177 países, tornou-se o vírus da gripe dominante no mundo, superando o da gripe sazonal (comum), anunciou nesta sexta-feira a OMS (Organização Mundial de Saúde). Nos diferentes lugares nos quais se propagou ficou "comprovado que o vírus pandêmico H1N1 se instalou rapidamente e se converteu na cepa de gripe dominante em grande parte do mundo", explicou a OMS em um comunicado. Até agora, a organização considerava "provável" um domínio do H1N1 a partir do próximo inverno no hemisfério Norte. Segundo os dados publicados pela OMS nesta sexta-feira, a considerada desde o 11 de junho como a primeira pandemia do século 21, causou a morte de "pelo menos 2.185 pessoas" e 209.438 enfermos em mais de 177 países. A OMS destaca a capacidade de propagação do vírus que terá uma segunda onda atingindo o Hemisfério Norte, com a chegada de uma estação mais fria. Entre as boas notícias, nota que as redes de laboratórios que acompanham o vírus não constataram mutação para uma "forma mais virulenta ou mortal". Além disso, assinala que "uma enorme maioria dos doentes vêm sendo contaminada por uma forma mais benigna da doença". A OMS previne que em relação à rapidez de propagação, um "grande número de pessoas em todos os países são suscetíveis de contrair" esta gripe, o que poderá ter consequências mais significativas que as observadas durante a primeira onda da doença, na primavera (Hemisfério Norte). Um dos problemas antecipados pela organização é uma sobrecarga nos serviços de saúde, devido a casos graves. Entre estes últimos, uma proporção importante diz respeito a jovens e a pessoas com boa saúde, o que difere da gripe sazonal. A OMS destacou que em algumas cidades do Hemisfério Sul, 15% das pessoas hospitalizadas tiveram necessidade de receber cuidados intensivos. Salvar a vida das pessoas gravemente atingidas "dependerá da grande qualidade dos serviços de cuidados intensivos" que serão confrontados a permanências mais longas e caras, explica a organização. Lembra que as que apresentam mais risco são as com imunidade baixa. As mulheres grávidas estão no topo da lista, o mesmo acontecendo com os que apresentem riscos cardiovasculares, asma, diabete ou que sejam obesas. Atualmente, a pandemia parece diminuir na maioria dos países do hemisfério Sul (Chile, Argentina, Nova Zelândia e Austrália), o que não é o caso em nações situadas em regiões tropicais (Ásia e América Central), onde a propagação permanece em "nível elevado". No hemisfério Norte, a propagação da gripe H1N1 "permanece globalmente fraca" com exceção do Japão. Segundo o relatório, o oseltamivir, princípio ativo do antiviral Tamiflu, continua sendo eficiente contra o vírus, com exceções apenas em casos esporádicos. Sintomas A gripe suína é uma doença respiratória causada pelo vírus influenza A, chamado de H1N1. Ele é transmitido de pessoa para pessoa e tem sintomas semelhantes aos da gripe comum, com febre superior a 38ºC, tosse, dor de cabeça intensa, dores musculares e nas articulações, irritação dos olhos e fluxo nasal. Para diagnosticar a infecção, uma amostra respiratória precisa ser coletada nos quatro ou cinco primeiros dias da doença, quando a pessoa infectada espalha vírus, e examinadas em laboratório. Os antigripais Tamiflu e Relenza, já utilizados contra a gripe aviária, são eficazes contra o vírus H1N1, segundo testes laboratoriais, e deram resultado prático, de acordo com o CDC (Centros de Controle de Doenças dos Estados Unidos). France Press

28 de ago. de 2009

Convite do lançamento do livro Mar de Dentro

Convite do lançamento do livro Mar de Dentro da Médica e Poetisa Fátima Souza, que tem ilustrações de Pedro Dias.

Meu bumbum parece grande nessa roupa?

Um varejista de jeans australiano instalou câmeras em seus provadores para ajudar as mulheres a responder a constante dúvida: meu bumbum parece grande nessa roupa? A Jeanswest, uma das maiores redes varejistas de jeans e de roupas informais do país e que também possui lojas fora da região, disse que a "câmera do bumbum" foi feita para dar às clientes uma visão de como ficam vestindo a calça. "É importante que o jeans vista e se sinta muito bem e a câmera do bumbum é o momento do resultado final nos provadores", disse Stephen Younane, presidente da Jeanswest, em um comunicado. Em vez de ficar se torcendo para provar e conseguir ver no espelho como fica, as clientes da Jeanswest dão as costas para uma câmera de vídeo, instalada em uma área comum do provador, que transmite uma visão ao vivo para uma tela.

Em guerra pela liberdade

Atraídos pela promessa de receberem alforria, escravos africanos e crioulos engrossaram as fileiras do exército rebelde durante a Guerra dos Farrapos, movimento republicano contrário ao governo imperial que ocorreu entre 1835 e 1845 no Sul do país. 

Mas a liberdade concedida a alguns deles não foi duradoura, segundo estudo realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A pesquisa, apresentada no Seminário Internacional o Século 19 e as Novas Fronteiras da Escravidão e da Liberdade, realizado na semana passada no Rio de Janeiro, aponta a fragilidade da alforria dada a alguns escravos que se alistaram para lutar na Guerra dos Farrapos. Mas esse ainda é um ponto controverso entre os historiadores. Segundo a historiadora Daniela Carvalho, autora do estudo, conseguir a tão sonhada liberdade não tornava esses homens necessariamente livres para sempre: negros e crioulos forros podiam retornar ao domínio de seu senhor. 

“Há indícios de que muitos destes soldados não obtiveram a prometida liberdade, tendo sido remetidos a instituições do Império na corte e, possivelmente, re-escravizados”, conta. Além da estabilidade da liberdade concedida aos escravos durante a Guerra dos Farrapos, a pesquisadora analisou as expectativas e escolhas desses homens na época. “A trajetória deles parece ser mais um dos caminhos possíveis para entendermos a dinâmica e os projetos em busca de liberdade no Brasil escravista”, diz Carvalho. Quatro breves biografias 

Para a pesquisa, a historiadora investigou a vida de quatro cativos no período entre 1830 e 1850 – cinco anos antes e cinco anos depois da Revolução Farroupilha. O recuo foi necessário para acompanhar o processo de recrutamento desses homens. O número de biografias analisadas pode aumentar à medida que o estudo avance. Segundo estimativas do exército imperial, os escravos chegavam a compor cerca de um terço do exército farrapo. Apesar de a pesquisa estar ainda em fase inicial, Carvalho já observou que as expectativas dos escravos estavam relacionadas ao discurso político dos rebeldes sulistas, que lutavam em prol de ideais como liberalismo, autonomia e estabelecimento de uma federação na então província de São Pedro do Rio Grande do Sul.

Por isso, a historiadora quer saber como a elite lidou, ao fim do conflito, com esses escravos que tinham experimentado certa liberdade, tiveram contato com ideias revolucionárias e estavam conscientes da importância da sua participação nos esforços de guerra. Carvalho pretende ainda analisar outras questões surgidas durante o levantamento de dados, como a forma com que os escravos se aproveitaram do contexto da guerra a fim de alcançar a alforria. O Seminário Internacional o Século 19 e as Novas Fronteiras da Escravidão e da Liberdade foi realizado entre os dias 10 e 14 de agosto na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e na Universidade Severino Sombra. 
Raquel Oliveira

Os dalits nossos de cada dia

A palavra indiana dalit significa quebrado, esmagado, oprimido. Para os indianos pertencentes às castas, os dalits representam a poeira nos pés de Deus. São os párias, os proscritos, cuja vida é regida por um sistema de apartheid. Até o esbarrar em suas sombras pode poluir o corpo e a alma dos homens de casta. Os dalits não podem orar nos templos, e nas escolas não lhes é dado o direito de entrar em sala de aula; se entram, só podem se sentar nas últimas fileiras. A voz deles quase nunca é ouvida. Por isso os dalits são quase sempre analfabetos e a taxa de mortalidade infantil entre eles chega a 10%. São os últimos no ranking social e sequer são considerados como parte do sistema. Esta realidade mostrada na novela "Caminho das Índias", da TV Globo é um claro exemplo de discriminação. Talvez nos espante o tratamento dado aos dalits, mas nos esquecemos de olhar os dalits do nosso cotidiano. Esquecemos que, muitas vezes, também somos acometidos de uma cegueira preconceituosa causada pela nossa prepotência. O psicólogo Fernando B. Costa é autor de uma tese de mestrado muito reveladora sobre a invisibilidade social. Ele vestiu um uniforme de gari e por oito anos varreu um campus universitário, para observar o tratamento dispensado aos profissionais que exerciam trabalho braçal mal remunerado naquele local. Essas pessoas pareciam invisíveis, eram os nossos dalits,aqueles que varriam as ruas, recolhiam os tocos de cigarro, as fezes dos cachorros, enfim, faziam o trabalho considerado sujo e não apropriado para quem tem acesso à informação, faz faculdade, conquista um emprego e tem chance de ascender na escala social. Os invisíveis jamais recebiam um bom-dia, um sorriso, um olhar, uma conversa amistosa… O autor da tese concluiu que, naquele ambiente, as funções sociais eram mais valorizadas do que os indivíduos. Quem tratamos como dalits no nosso dia a dia? Comece a prestar atenção nas ruas e perceba a reação de algumas pessoas se um mendigo se aproxima ou se uma criança pede um lanche. A maioria finge que não vê, muda de calçada, alguns até soltam palavras de ódio contra quem ousa lhes dirigir a palavra. Nas empresas acontece o mesmo. Vamos repensar como estão as nossas relações interpessoais? Como exercemos o poder? Como pedimos aos boys para fazer suas tarefas? Cobramos sem ensinar? Como tratamos a moça do café, a que limpa os banheiros, o funcionário novato que não conhece as regras da empresa? Nós não transformamos em dalits somente os que exercem as funções mais humildes, mas também nossos pares. Quem escolhemos para ser nosso saco de pancadas, a quem estendemos o dedo acusador só por crueldade? Ninguém é permanentemente generoso. Nós também somos sádicos e perversos, bichos raivosos prontos para atacar, principalmente quem não pode, por mero instinto de sobrevivência, se defender… Para refletir: será que é possível fazer uma autoanálise consciente para ter mais respeito, empatia, compaixão? Não se engane: cada um de nós também é um dalit para alguém, quando: a) Um novo profissional exerce o mesmo cargo que o seu e entra na empresa ganhando o dobro do seu salário; b) O Diretor não o convida para o fim de semana na casa de praia, mas convida todo o resto do seu grupo; c) Aquele trainee trata você com arrogância e nem quer saber o que você pode lhe ensinar; d) Na reunião, o cliente só olha para os outros sócios e não presta atenção no que você diz; e) Você se sente um estranho no ninho em um determinado ambiente; f) Em uma roda social, você percebe que alguém faz uma ironia ou ignora a sua presença; g) Você é discriminado pela sua cor, posição social ou postura política. Ninguém quer ser invisível nem quer ser ignorado. A indiferença é para muitos uma espécie de morte moral. A sobrevivência saudável também precisa de atenção, elogios, reconhecimento e respeito. Lena Almeida e Eunice Mendes - consultoras sênior do Instituto MVC

27 de ago. de 2009

Belchior - "Divina Comédia Humana"

Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol Quando você entrou em mim como um Sol no quintal Aí um analista amigo meu disse que desse jeito Não vou ser feliz direito Porque o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual Aí um analista amigo meu disse que desse jeito Não vou viver satisfeito Porque o amor é uma coisa mais profunda que um transa sensual Deixando a profundidade de lado Eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia Fazendo tudo de novo e dizendo sim à paixão morando na filosofia Eu quero gozar no seu céu, pode ser no seu inferno Viver a divina comédia humana onde nada é eterno Ora direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso Eu vos direi no entanto: Enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não Eu canto

Belchior

Bullying

Acena é clássica em filmes americanos: os grandalhões da equipe de futebol infernizam a vida do protagonista da trama, em geral um garoto tímido e franzino, incapaz de se impor diante da brutalidade dos colegas. O garoto indefeso é perseguido, ridicularizado, humilhado e, nas cenas mais dramáticas, até surrado, enquanto seus algozes saem impunes. No decorrer da película, o personagem principal, com auxílio de seus amigos nerds, rebela-se contra a tirania dos agressores e passa de vítima a herói. Na vida real, no entanto, as histórias em que há esse tipo de violência nem sempre acabam com o mesmo final feliz e hollywoodiano. O fenômeno conhecido como bullying tem consequências preocupantes para a saúde física e principalmente emocional de seus atores — tanto faz se são os agressores, as vítimas ou as testemunhas. E o que é pior: a intimidação, o medo e a vergonha sedimentam um pacto velado de silêncio entre os jovens. É comum que pais e educadores só se deem conta do que está acontecendo quando a situação chega a extremos. Diante de quadro tão crítico, a pergunta é uma só: o que fazer? “Em primeiro lugar, manter a calma”, aconselha o pediatra Aramis Antônio Lopes Neto, do Departamento de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria. Entender o fenômeno é um excelente começo. Sem tradução direta para o português, o termo é utilizado para designar violências físicas e psicológicas praticadas de forma recorrente por um indivíduo ou um grupo deles contra um mesmo colega, que acaba se tornando uma espécie de bode expiatório. Mais frequente na escola, nada impede que aconteça no condomínio, no bairro, na família e no trabalho — adultos também podem sofrer com esse tormento. A maneira de agredir varia muito: verbal, física, moral, material e até sexual. As crianças apelidam, batem, amedrontam, discriminam. De uns tempos para cá, e-mails, blogs, fotos e SMSs incrementaram o arsenal da garotada — criando a variante batizada de ciberbullying. O motivo que justifica o ato violento, em geral, é apenas um pretexto, qualquer coisa que diferencie a vítima: estatura, peso, pele, cabelo, sotaque, religião, notas, roupas, classe social ou outra característica que sirva ao preconceito. “O bullying faz muito mal à saúde”, enfatiza o pediatra Lopes Neto. “Para que se desenvolva adequadamente, uma criança depende do bem-estar físico, psíquico e social. O ambiente violento abala esse equilíbrio e impede que os jovens cresçam de modo saudável”, resume. Entre as consequências, podem aparecer fobias, depressão e, nos casos mais graves, estresse pós-traumático. Vale repetir que todos os que vivenciam essa história podem ser afetados. Se o quadro de perseguição está em um estágio inicial, e afetar sobretudo crianças pequenas, pais e orientadores têm plenas condições de contornar a situação sozinhos. “Quanto antes as agressões forem identificadas, mais fácil será neutralizá-las”, garante a pedagoga Cléo Fante, presidente do Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar (Cemeobe), que fica em Brasília. A família e a escola devem trabalhar juntas, buscando uma abordagem indireta, de refl exão e conciliação, e nunca de confrontação e repreensão. “As ferramentas mais eficazes para ensinar regras de convivência saudável aos filhos são o afeto incondicional, o diálogo e as atividades educativas, como jogos esportivos, aulas de arte e ações solidárias”, orienta Cléo. “Já nos casos sérios, em geral com adolescentes, a ajuda de um médico ou terapeuta será necessária”, diz ela. “E talvez os envolvidos tenham até mesmo de ser transferidos de escola.” O psicólogo José Augusto Pedra, consultor do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe-DF), diz que os pais também precisam estar atentos às próprias atitudes dentro de casa. Gestos, tons de voz, toques e expressões faciais marcam a moçada muito mais do que discursos, especialmente até os 7 anos de idade. Lógico: pais que vivem ausentes ou estressados por causa do trabalho e que costumam usar gritos, tapas e murros para exercer sua autoridade vão transmitir esse modelo de relacionamento aos filhos, mesmo sem perceber. “As crianças incorporam comportamentos e acabam reproduzindo-os quando estão em um ambiente sem hierarquia, seja como vítimas, seja como agressoras”, enfatiza Pedra. Ficar atento a isso tudo é crucial para qualquer roteiro terminar bem. Giuliano Agmont

Casamento contemporâneo

Casamento: a lógica do um e um são três Costumo dizer que todo fascínio e toda dificuldade de ser casal, reside no fato de o casal encerrar, ao mesmo tempo, na sua dinâmica, duas individualidades e uma conjugalidade, ou seja, de o casal conter dois sujeitos, dois desejos, duas inserções no mundo, duas percepções do mundo, duas histórias de vida, dois projetos de vida, duas identidades individuais que, na relação amorosa, convivem com uma conjugalidade, um desejo conjunto, uma história de vida conjugal, um projeto de vida de casal, uma identidade conjugal. Como ser dois sendo um? Como ser um sendo dois? Na lógica do casamento contemporâneo, um e um são três, na expressão de Philippe Caillé (1991). Para Caillé, cada casal cria seu modelo único de ser casal, que ele chama de "absoluto do casal", que define a existência conjugal e determina seus limites. A sua definição de casal, contém portanto os dois parceiros e seu "modelo único", seu absoluto. Isto a que Caillé chama de "absoluto do casal" é o que denomino de "identidade conjugal", e que na literatura sobre casamento e terapia de casal é designado, de um modo geral, como conjugalidade. Casamento: um ato dramático Berger e Kellner (1970), ao discutirem a relevância institucional do casamento, ressaltam que, desde Durkheim, é um lugar-comum da sociologia familiar que o casamento serve como proteção contra a anomia do indivíduo. Sendo um instrumento de construção nômica, o casamento tem como função social criar para o indivíduo uma determinada ordem, para que ele possa experimentar a vida com um certo sentido. Para estes autores, a realidade do mundo é sustentada através do diálogo com pessoas significativas e o casamento ocupa um lugar privilegiado entre as relações significativas validadas pelos adultos na nossa sociedade. Berger e Kellner (1970) descrevem, então, o casamento como um ato dramático, no qual dois estranhos, portadores de um passado individual diferente, se encontram e se redefinem. O drama do ato é internamente antecipado e socialmente legitimado muito antes de ele acontecer na biografia dos indivíduos. A reconstrução do mundo no casamento ocorre principalmente através do discurso. Na conversação conjugal, a realidade subjetiva do mundo é sustentada pelos parceiros, que confirmam e reconfirmam a realidade objetiva internalizada por eles. O casal constrói assim, não somente a realidade presente, mas reconstrói a realidade passada, fabricando uma memória comum que integra os dois passados individuais. Casamento: as dimensões de aliança e de sexualidade Aliança e sexualidade constituem, sem dúvida, duas das mais importantes dimensões da vida conjugal. Para Levi-Strauss (1968), aliança é uma das formas de intervenção do grupo sobre bens considerados escassos e essenciais para sua sobrevivência. Assim, é sempre um sistema de troca que encontramos na origem das regras do casamento, mesmo daqueles cuja aparente singularidade poderia justificar interpretações especiais. Levi-Strauss ressalta que a proibição do incesto não é tanto uma regra que proíba casar com a mãe, a irmã ou com a filha, mas sobretudo uma regra que obriga a ceder a outros a mãe, a irmã e a filha. Isto só é feito na esperança de que em outro lugar, outra pessoa esteja realizando o mesmo "dom". Esta é a base da reciprocidade, que canaliza para a coesão, forças que poderiam estar naturalmente destinadas à competição e à desagregação. Assim, a família em Levi-Strauss é pensada como agente da lei da cultura: organizando-se a partir da interdição, garante a produção da sociedade humana. A literatura sobre história da sexualidade aponta para um fenômeno muito importante e prevalente até o século XVIII no mundo ocidental, que é a diferença entre o amor no casamento e o amor fora do casamento. Flandrin (1981) ressalta que o amor esteve presente na literatura ocidental pelo menos desde o século XII, mas este amor, salvo raras exceções, não é nunca um amor conjugal. O casamento tem por função - não somente entre os reis e os príncipes, mas em todos os níveis da sociedade - ligar duas famílias, e permitir que elas se perpetuem, muito mais do que satisfazer o amor de duas pessoas. O amor-paixão é essencialmente extra-conjugal. Mas a partir do século XVIII, este quadro se modifica e as duas formas de amor, tradicionalmente opostas, são aproximadas. Um novo ideal de casamento vai-se constituindo aos poucos no Ocidente, em que se impõe aos cônjuges que se amem ou que pareçam se amar, e que tenham expectativas a respeito do amor. O erotismo extraconjugal entra no casamento e o amor-paixão é visto como modelo. Hoje ninguém duvida da dignidade do amor conjugal. A sociedade contemporânea não aceita mais que alguém possa se casar sem desejo e sem amor. A relevância do casamento para os indivíduos na sociedade contemporânea é discutida historicamente por Foucault (1977) que estuda a articulação do papel da aliança e do papel da sexualidade e suas implicações institucionais. Foucault formula o conceito de "dispositivos" para explicar como a aliança e a sexualidade se articulam em aparelhos e instituições. Para ele, que estuda sobretudo a constituição do modelo burguês de casamento, a produção da sexualidade está ligada a dispositivos de poder. Num primeiro momento, a sexualidade fez parte de uma técnica de poder centrada na aliança, onde ficou estabelecido todo um sistema de casamento, de fixação e desenvolvimento de parentescos, de transmissão de nomes e bens. Coube a este dispositivo de aliança ordenar e manter a homeostase do corpo social. Ao mesmo tempo, se fixou a partir daí, o dispositivo da sexualidade, não mais referido à lei, mas ao próprio corpo, à qualidade dos prazeres, à própria sexualidade no seio familiar. Os pais tornam-se, na família, os principais agentes deste dispositivo, e o sistema de aliança passa então para a ordem da sexualidade. A função do dispositivo de sexualidade na forma de família permite, segundo Focault, compreender por que a família , além de manter a homeostase do corpo social, se tornou lugar obrigatório dos afetos, dos sentimentos, do amor, sendo também o principal ponto de eclosão da sexualidade. A partir do atendimento clínico a casais de primeiro casamento e a casais de casamentos subseqüentes, observei algumas diferenças na manifestação das dimensões de aliança e de sexualidade nestes dois tipos de casamento. Com objetivo de investigar, de forma mais sistemática, a manifestação de tais dimensões, realizei um estudo (Féres-Carneiro, 1987) com dois grupos não-clínicos, de casais da classe média carioca: 10 casais de primeiro casamento e 10 casais de casamentos subseqüentes, com idades variando de 25 a 45 anos, tempo de vida conjugal de 3 a 13 anos e número de filhos variando de 1 a 4. Este estudo evidencia algumas diferenças quanto à manifestação das dimensões de aliança e de sexualidade em casais de primeiro casamento e em casais recasados. Pudemos ressaltar, em relação a cada um dos aspectos investigados, as seguintes conclusões: escolha conjugal - no grupo de primeiro casamento a aliança assume um papel mais significativo do que a sexualidade, enquanto esta é mais relevante para os recasados; relacionamento com a família de origem - é freqüente, mais forte e mais valorizado no grupo de primeiro casamento; relacionamento com os diferentes grupos de amigos - o grupo de amigos comuns é mais presente e valorizado no primeiro casamento, enquanto os recasados possuem mais amigos individuais e valorizam que os membros do casal possam sair às vezes separadamente; renda familiar - as diferenças não são grandes entre os dois grupos, embora entre os recasados haja mais mulheres participando da renda familiar, algumas das quais em proporção maior que os homens; neste grupo os papéis de homem e de mulher aparecem de forma menos rígida, mesmo assim, a mulher que trabalha fora se sente mais exigida em ambos os grupos; relacionamento sexual - em ambos os grupos o relacionamento sexual é considerado muito importante para o casal, mas a sexualidade aparece de forma mais personalizada e criativa entre os recasados, para os quais são maiores as demandas e as expectativas em relação à atividade sexual. Casamento e individualismo: as tensões entre individualidade e conjugalidade A constituição e a manutenção do casamento contemporâneo são muito influenciadas pelos valores do individualismo.
Os ideais contemporâneos de relação conjugal enfatizam mais a autonomia e a satisfação de cada cônjuge do que os laços de dependência entre eles. Por outro lado, constituir um casal demanda a criação de uma zona comum de interação, de uma identidade conjugal.
Assim, o casal contemporâneo é confrontado, o tempo todo, por duas forças paradoxais a que chamei, no título deste artigo de "o difícil convívio da individualidade com a conjugalidade". Se por um lado, os ideais individualistas estimulam a autonomia dos cônjuges, enfatizando que o casal deve sustentar o crescimento e o desenvolvimento de cada um, por outro, surge a necessidade de vivenciar a conjugalidade, a realidade comum do casal, os desejos e projetos conjugais. Singly (1993), ao ressaltar as características individualistas da família e do casal contemporâneos, enfatiza a importância da qualidade das relações estabelecidas entre os seus membros. A relação conjugal vai se manter enquanto for prazeroza e "útil" para os cônjuges. Valorizar os espaços individuais significa, muitas vezes, fragilizar os espaços conjugais, assim como fortalecer a conjugalidade demanda, quase sempre, ceder diante das individualidades. Singly (1993) afirma que numa sociedade onde o valor de referência é derivado do "eu", a família é importante, na medida em que ajuda cada um a constituir-se como indivíduo autônomo. Essa função da família põe em evidência suas contradições internas: ao mesmo tempo em que os laços de dependência são necessários, eles são negados. No laço conjugal, assim como na família, a necessidade de interdependência e a negação desta necessidade criam tensões internas. É preciso ser "um" em sendo "dois". Giddens (1992), ao discutir a transformação da intimidade nas sociedades ocidentais, ressalta que os ideais do amor romântico, rela-cionados à liberdade individual e à auto-realização, desligam os indivíduos das relações sociais e familiares mais amplas, demarcando com mais clareza a esfera do relacionamento conjugal, que passa a ser assim mais valorizada e priorizada. Enfatiza que o amor romântico, desde sua origem, suscita a questão da intimidade e supõe uma comunicação psíquica, um encontro que tem um caráter reparador. O outro preenche um vazio que o indivíduo, muitas vezes, sequer reconhece, a relação amorosa se instala, e o indivíduo fragmentado sente-se inteiro. Para Giddens (1992), o amor romântico era um amor tipicamente feminino, pois cabia às mulheres suavizar a natureza rude e instável do amado, que se mantinha frio e distante até que seu coração fosse conquistado. Giddens mostra como os homens foram introduzidos, nas transformações que afetam o casamento e as relações pessoais, pelas mulheres. Na medida em que, para os homens, o apaixonar-se permaneceu vinculado à idéia de acesso à mulher, cuja virtude era protegida até o momento em que a união fosse santificada pelo casamento, o amor romântico era desvinculado da intimidade e entrava em conflito com as regras da sedução. Os homens ficaram, assim, especialistas nas técnicas de sedução e conquista e não nas questões de intimidade. No casamento contemporâneo, os ideais do amor romântico tendem a se fragmentar, sobretudo pela pressão da emancipação da mulher e da autonomia feminina. As categorias de "para sempre e único" do amor romântico, não prevalecem na conjugalidade contemporânea. Giddens denomina de "amor confluente" aquele que presume uma igualdade no dar e receber afeto e se desenvolve a partir da intimidade. Ele conceitua o laço conjugal como "relacionamento puro" tendo em vista que este só se mantém se for capaz de proporcionar satisfações a ambos os parceiros. Simmel (1971) vai apontar para as sérias conseqüências que o ideal contemporâneo de casamento, onde se deseja o outro por inteiro e pretende-se penetrar em sua intimidade por completo, pode trazer. Os indivíduos têm que funcionar como reservatórios inesgotáveis de conteúdos psicológicos latentes e a satisfação da entrega total pode produzir uma sensação de esvaziamento. Há um aumento das expectativas, uma extrema idealização do outro e uma superexigência consigo mesmo, provocando tensão e conflito na relação conjugal, podendo levar à separação. Separação conjugal: a dissolução da conjugalidade O número crescente de separações conjugais na sociedade contemporânea pode, à primeira vista, parecer um contra-argumento da tese desenvolvida por Berger e Kellner (1970) à qual me referi anteriormente, de que o casamento contemporâneo é para os cônjuges a principal área de auto-realização social e a base dos relacionamentos na esfera privada. Todavia, na sociedade contemporânea os indivíduos se divorciam não porque o casamento não é importante, mas porque sua importância é tão grande que os cônjuges não aceitam que ele não corresponda às suas expectativas. Assim, é justamente a dificuldade desta exigência que o divórcio reflete e, quase sempre, os divorciados buscam o recasamento. Nos Estados Unidos, a literatura recente aponta que a estimativa de ocorrência de divórcio é de 50% para os que se casam pela primeira vez, e de 60% para os que se casam pela segunda vez (Gottman, 1974; Rasmussen e Ferraro, 1991). No Brasil, os últimos números divulgados pelo Anuário Estatístico Brasileiro editado pelo IBGE em 1996, cujos dados dizem respeito ao ano de 1994, indicam aproximadamente um divórcio para cada quatro casamentos. Na literatura internacional, assim como na literatura nacional, os estudos sobre separação abordam sobretudo as causas e as conseqüências do divórcio. Rasmussen e Ferraro (1991) enfatizam que as pesquisas que estudam o divórcio como um fenômeno independente, e não como um dano ao casamento, ainda são raras. Estes autores argumentam que o fato de alguns problemas, como sexo extra-conjugal, excesso de bebida e dificuldades financeiras, estarem, quase sempre, presentes nos processos de divórcio, não significa que sejam as causas deste. É importante considerar que o divórcio é um fenômeno complexo, pluridimensional, que ocorre entre os casais de forma individual. Jablonski (1991), em Até que a vida nos separe, livro que acaba de ser reeditado, aborda a questão do divórcio com originalidade e bom-humor. Formula o conceito de "fam-ilha", versão contemporânea da família tradicional, ou seja, uma ilha regida pela ideologia individualista, onde vigoram concomitantemente demandas paradoxais. A vida a dois é descrita por ele "quase como impossível", tendo em vista as contradições presentes no casamento contemporâneo: como conciliar monogamia e permissividade, permanência e apelo ao novo, vida familiar e realização pessoal ? Em relação à separação, os dados tanto do judiciário como da clínica, no Brasil (IBGE, 1996; Féres-Carneiro, 1994,1995), como no exterior (Rasmussen e Ferraro, 1991; Gottman,1994), indicam que a grande demanda de separação é feminina. O Anuário Estatístico Brasileiro de 1996 indica que, do total de separações judiciais não consensuais encerradas em primeira instância, 71% foram requeridas pelas mulheres. Na literatura internacional, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, encontramos índices semelhantes. Podemos discutir este dado a partir de uma multiplicidade de considerações. Gostaria, entretanto, de ressaltar pelo menos uma delas. Em pesquisa de dissertação de mestrado, Magalhães (1993) verificou, num grupo de 20 casais da classe média carioca, com idades variando de 25 a 55 anos, que todas as mulheres por ela entrevistadas, menos uma, definiram casamento como "relação amorosa", enquanto todos os homens do grupo, definiram casamento como "constituição de família". Estes resultados podem explicar, em parte, o fato de a demanda de separação conjugal apresentar-se como predominantemente feminina. Para as mulheres, quando a relação conjugal não vai bem, sobretudo na sua vertente amorosa - admiração, intimidade e relacionamento sexual - a separação conjugal parece inevitável, tendo em vista que, para elas o casamento é sobretudo "relação de amor". Para os homens, entretanto, que definem o casamento como "constituição de família", o fato de a relação amorosa não estar bem não é suficiente para justificar o fim do casamento. Estes dados são confirmados também em estudos realizados na clínica com casais (Féres-Carneiro, 1980, 1995). Caruso (1968), em A separação dos amantes afirma que estudar a separação amorosa significa estudar a presença da morte na vida. Referindo-se ao ditado francês partir c’est mourrir un peu ("partir é morrer um pouco"), ele afirma que na separação há uma sentença de morte recíproca: o outro morre em vida dentro de mim e eu também morro na consciência do outro. Ele diferencia a dor vivenciada pelos amantes que se separam subitamente, daquela que ocorre na separação lenta que se segue ao "distanciamento mútuo". Embora o divórcio possa ser, às vezes, a melhor solução para um casal cujos membros não se consideram capazes de continuar tentando ultrapassar suas dificuldades, ele é sempre vivenciado como uma situação extremamente dolorosa e estressante. A separação provoca nos cônjuges sentimentos de fracasso, impotência e perda, havendo um luto a ser elaborado. O tempo de elaboração do luto pela separação é quase sempre maior do que aquele do luto por morte. São os pais que chegam à decisão de se separarem e, em geral, os filhos reagem com raiva, medo, tristeza ou culpa. Estes sentimentos podem se alternar durante semanas ou meses após a separação. O importante, no processo de divórcio, é deixar os filhos fora do conflito conjugal. Quem se separa é o par amoroso, o casal conjugal. O casal parental continuará para sempre com as funções de cuidar, de proteger e de prover as necessidades materiais e afetivas dos filhos. É muito importante que isto possa ficar claro para eles. Costumo afirmar que o pior conflito que os filhos podem vivenciar, na situação de separação dos pais, é o conflito de lealdade exclusiva quando exigida por um ou por ambos os pais. A capacidade da criança e do adolescente de lidar com a crise que a separação deflagra vai depender sobretudo da relação que se estabelece entre os pais e da capacidade destes de distinguir, com clareza, a função conjugal da função parental, podendo assim transmitir aos filhos a certeza de que as funções parentais de amor e de cuidado serão sempre mantidas. Apesar da dor da perda que toda separação provoca, é importante ressaltar que os filhos, quase sempre, são mais capazes de enfrentar a separação dos pais do que estes podem imaginar. Os pais tendem, em geral, a fragilizar a capacidade dos filhos para lidar com a separação, projetando neles um mundo que não é vivido por eles. Muitas vezes, entre os colegas de colégio e os amigos, com os quais aprenderam a respeito da separação dos pais, as crianças se identificam e encontram apoio e compreensão. A separação conjugal pode ter efeitos construtivos para os membros de uma família, sobretudo quando o preço para manter o casamento é a autodestruição e a destruição do outro. Quer os pais estejam casados ou separados, o mais importante para o desenvolvimento emocional dos filhos é a qualidade da relação que se estabelece entre os membros do casal e entre estes e os filhos. É sempre importante enfatizar a relevância da relação conjugal para o desenvolvimento emocional dos filhos. Costumo afirmar que, na grande maioria dos casos em que crianças apresentam problemas emocionais, é suficiente tratar os pais para que haja remissão dos sintomas infantis. Em Féres-Carneiro (1980), investiguei a relação entre problemas apresentados por crianças e dificuldades existentes nas relações estabelecidas por seus pais. Esta investigação relata a experiência clínica no tratamento de oito casais, durante um período de dois anos, cujo tempo de atendimento variou de três meses a um ano e oito meses. A análise dos dados clínicos mostrou que embora, em cinco dos oito casos, os pais tenham buscado atendimento para um filho que apresentava problemas, estes eram uma conseqüência das perturbações e dos conflitos existentes na relação do casal. Em apenas dois dos oito casos, os filhos precisaram ser vistos em sessões de avaliação familiar, e em apenas um caso, um filho precisou ser posteriormente encaminhado para psicoterapia. Destes oito casos estudados, cinco casais se mantiveram casados e três se separaram. A separação leva toda a família a reestruturar os padrões de relacionamento vigentes. Há um período de transição até que se atinja um novo patamar de organização. Alguns efeitos do divórcio aparecem rapidamente, outros aumentam durante o primeiro ano para depois irem desaparecendo, e outros ainda demoram até dois anos para emergir. Alguns estudos mostram que o desequilíbrio do sistema familiar na situação de divórcio tende a começar um ano antes da separação e, geralmente, depois de dois anos para a maioria, e até no máximo seis anos para todas, as famílias voltam a estabelecer um funcionamento satisfatório para seus membros. Mas, os divorciados, como dissemos anteriormente, em geral, caminham para o recasamento. Os homens mais rapidamente que as mulheres. Recasamento: a reconstrução da conjugalidade A tendência de considerar as famílias separadas ou as famílias recasadas como disfuncionais deve, sem dúvida, ser questionada. Muitas vezes a literatura enfatiza a dimensão disfuncional, na separação e no recasamento, e busca as patologias associadas a estas situações. É importante ressaltar que estes núcleos familiares são tão capazes de promover saúde quanto as famílias de primeiro casamento. Em Costa, Penso e Féres-Carneiro (1992) enfatizamos que a competência das famílias não depende do fato de serem casadas, separadas ou recasadas, mas da qualidade das relações estabelecidas entre seus membros. Bucher e Rodrigues (1990) discutem as características das famílias reconstituídas, enfatizando a possibilidade de interação funcional e ressaltando as questões de linguagem. A família recasada tem características próprias, e é importante não tomá-la como a família nuclear recriada. Na família recasada os limites dos subsistemas familiares são mais permeáveis, a autoridade paterna e materna é dividida com outros membros da família, assim como os encargos financeiros. Há uma complexidade maior na constituição familiar: às vezes oito avós, irmãos, meio-irmãos, filhos da mulher do pai, filhos do marido da mãe. É preciso muita flexibilidade e originalidade para lidar com tudo isso. E é importante não interpretar a complexidade das relações que se estabelecem nestas famílias como disfuncionalidade. Pesquisas brasileiras realizadas por diversos autores (Féres-Carneiro, 1987; Woods, 1987; Penso, 1989; Wagner, Falbe, & Meza, 1997) enfatizam a possibilidade de promover saúde das famílias recasadas, não evidenciando diferenças significativas entre famílias de primeiro casamento e famílias reconstituídas, em relação a diferentes variáveis relacionadas ao desenvolvimento emocional da criança e do adolescente e à dinâmica das relações familiares. Porque querem se separar, porque já estão se separando com um processo em andamento no judiciário, porque têm medo de se separar, porque não querem se separar de maneira nenhuma, os casais muitas vezes buscam terapia. Terapia de casal: ruptura ou manutenção do casamento ? O compromisso da terapia é com a promoção da saúde emocional dos membros do casal e não com a manutenção ou a ruptura do casamento. Em pesquisa realizada a partir do atendimento, ao longo de três anos, de 16 casais em terapia, procurei verificar as relações existentes entre a vivência da individualidade e da conjugalidade, os diferentes tipos de escolha amorosa e a ruptura ou não do casamento. (Féres-Carneiro, 1995) O estudo da escolha amorosa, nesta investigação, foi norteado pelo conceito de colusão, desenvolvido por Willi (1975), e descrito como um jogo conjunto, não confessado entre os parceiros, que se estabelece em função de um conflito similar não superado. Os cônjuges se unem por supostos comuns, quase sempre inconscientes, e com a expectativa de que o parceiro o liberte de seu conflito. A colusão seria uma matriz interacional, que organiza a vida amorosa do casal. No jogo colusivo, há uma troca de estratos, de características latentes ou manifestas da personalidade dos cônjuges. Estes estratos são facetas de uma mesma temática comum, que se arranja de forma complementar. Os tipos de colusão, propostos por Willi (1975), cujos temas estão relacionados à teoria psicanalítica do desenvolvimento são: colusão narcísica, oral, sádico-anal e fálico-edípica. Para Willi, estes quatro tipos de colusão são quatro princípios dinâmicos fundamentais e, como tais, não formam unidades de patologia. Todo casamento pode, portanto, ser afetado pelos quatro temas, ou seja, pelo tema do "amor como ser um mesmo" (colusão narcísica), "amor como preocupar-se um com o outro" (colusão oral), "amor como pertencer um ao outro" (colusão sádico-anal), e "amor como afirmação masculina" (colusão fálico-edípica). Mas embora os quatro temas possam afetar o casamento, o acento do conflito conjugal, quase sempre, se apresenta sob a forma de um destes tipos de colusão. As análises daquele estudo não evidenciaram uma relação significativa entre a separação conjugal e a presença maior ou menor da dimensão de individualidade na interação, nem tampouco entre separação e os tipos predominantes de colusão amorosa encontrados. Dos 16 casais estudados, dez se mantiveram casados e seis se separaram. Os resultados mostraram que a manutenção ou a ruptura do casamento, ao longo do processo terapêutico, estava significativamente relacionada com o modo como as dimensões de individualidade e conjugalidade puderam se transformar, levando o casal a efetuar mudanças no jogo interacional conjunto, em busca de maiores espaços de crescimento. Foi possível observar ainda uma maior possibilidade das mulheres de realizarem mudanças e também uma maior possibilidade destas de romperem o casamento, o que ocorreu na maioria dos casos em que houve separação conjugal. Os conflitos conjugais e suas conseqüências, quer para a dissolução do casal, quer para a manutenção de um equilíbrio insatisfatório, quer para a possível resolução dos problemas, são estudados por Dicks (1967) a partir de uma perspectiva psicanalítica. Para ele, há três grandes áreas em que os membros do casal se relacionam um com o outro. A primeira diz respeito às expectativas mútuas, conscientes, quanto àquilo que o relacionamento conjugal deve prover; a segunda refere-se à extensão em que tais expectativas permitem a integração do casal ao seu meio cultural; e a terceira está relacionada à ativação inconsciente de relações patogênicas passadas, internalizadas por cada cônjuge, levando à complementariedade de papéis que se estabelece entre eles. Para Dicks, os casais estabelecem uma formação de compromisso entre suas relações objetais inconscientes, que na maior parte das vezes estão em conflito com seus desejos conscientes e suas expectativas mútuas. Ao discutir a organização inconsciente do casal, Eiguer (1984) fala de um mundo compartilhado onde os parceiros intercambiam objetos inconscientes, e define o vínculo como uma superposição de duas relações de objeto que têm como modelo de identificação a representação da interação do casal parental. Para Lemaire (1988), o casal se constitui em torno das zonas mal definidas do "eu" de cada cônjuge. Assim, na relação amorosa, os sujeitos misturam suas fronteiras e, muitas vezes, a terapia de casal é um meio privilegiado para o tratamento de sujeitos mal individualizados. Nicolló (1988), ao abordar o "jogo" recíproco que se estabelece entre os membros do casal, faz alusão aos fenômenos que Winnicott (1971) define como transicionais. O espaço interno do casal é semelhante ao espaço transicional, pois nasce do encontro entre os mundos externo e interno dos parceiros. Trata-se de um espaço misterioso, de oscilação contínua, em que cada cônjuge é uma "extensão do outro", mas ao mesmo tempo é "diferenciado do outro". Uma certa fusionalidade faz parte da vida "normal" e adulta, como observa Nicolló (1988). O próprio Freud , em "O mal estar na civilização" (1930), ressalta que no auge da paixão, os limites entre o ego e o objeto ficam ameaçados de dissolução, os apaixonados regridem ao narcisismo ilimitado e vivenciam o sentimento oceânico de serem um só. A vida psíquica deve permitir a presença concomitante da capacidade de viver a fusão e da capacidade de poder se diferenciar do outro. Enquanto o apaixonamento produz a ilusão da fusionalidade, Ruffiot (1981) refere-se ao desapaixonamento como uma repetição da loucura amorosa no sentido inverso, denominado por ele de "paixão do desamor" que demanda um intenso trabalho psíquico. Vilhena (1991) ressalta que a separação, mais do que uma ferida no narcisismo do sujeito, afeta dolorosamente toda sua objetalidade e coloca em risco sua própria identidade. Ao referir-se à elaboração do luto de uma separação conjugal, ela enfatiza a questão da "capacidade de ficar só" dos sujeitos, distinguindo diferentes formas de solidão. A solidão pode representar uma possibilidade de ficar consigo mesmo ou uma incapacidade de tolerar a indiferença do outro, manifestando-se tanto no isolamento voluntário como na busca compulsiva de companhia. Para concluir, gostaria de citar um poema de Dolores Duran encontrado, após sua morte, juntamente com um bilhete solicitando a Carlos Lyra que compusesse a música. Dolores, com seu talento e sobretudo com sua sensibilidade aguçada pela capacidade de amar e de sofrer, descreve com beleza e emoção, amores saudáveis, amores alcóolicos, amores neuróticos – sádicos, masoquistas, deprimidos – amores perversos. Todos amores. Terezinha Féres-Carneiro Amar é sofrer Tem gente que ama que vive brigando, E depois que briga acaba voltando. Tem gente que canta porque está amando, Quem não tem amor leva a vida esperando, Uns andam para a frente e nunca se esquecem, Mas são tão pouquinhos que nem aparecem. Tem uns que são fracos e dão pra beber, Outros fazem samba e adoram sofrer. Tem apaixonado que faz serenata, Tem amor de raça e amor vira-lata. Amor com champagne amor com cachaça, Amor nos iates nos bancos de praça. Tem homem que briga pela bem amada, Tem mulher maluca que adora pancada. Tem quem ama tanto que até enlouquece, Tem quem dê a vida por quem não merece. Amores à vista, amores a prazo, Amor ciumento que só cria caso. Tem gente que jura sabendo que não é capaz. Tem gente que escreve até poesia E rima saudade com hipocrisia. Tem assunto à beça para a gente falar, Mas não interessa o negócio é amar. Dolores Duran

26 de ago. de 2009

Ainda da Felicidade

A fantasia é a mãe da satisfação, do humor, da arte de viver. Apenas floresce alicerçada num íntimo entendimento entre o ser humano e aquilo que objetivamente o rodeia. Esse ambiente envolvente não tem de ser belo, singular ou sequer encantador. Basta que tenhamos tempo para a ele nos habituarmos, e é sobretudo isso que hoje em dia nos falta. Hermann Hesse
Picture by Emile Munier

Fazer muitas coisas ao mesmo tempo pode atrapalhar o cérebro

As pessoas que costumam fazer muitas coisas ao mesmo tempo são as piores em fazer muitas coisas ao mesmo tempo.
Esta é a surpreendente conclusão de pesquisadores da Universidade Stanford, que determinaram que os chamados multitaskers - pessoas que habitualmente se dedicam a mais de uma tarefa ao mesmo tempo - distraem-se com grande facilidade e são menos hábeis em ignorar informações irrelevantes do que pessoas que só concentram tarefas ocasionalmente. "A grande descoberta é, quanto mais mídias as pessoas usam, piores elas são ao utilizar qualquer mídia. Ficamos totalmente chocados", disse Clifford Nass, professor do Departamento de Comunicação de Stanford. Os pesquisadores estudaram 262 estudantes universitários, dividindo-os em grupos de alta concentração de tarefas e baixa concentração, e comparando coisas como memória, capacidade de passar de uma tarefa para a outra e capacidade de focalizar na tarefa imediata. As descobertas são descritas no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences. Quando essas capacidades básicas foram mensuradas, as pessoas que mantinham uma grande concentração de tarefas, ou multitasking, não obtiveram uma pontuação tão boa quanto os demais, disse Nass. Continua sem resposta a questão de por que as pessoas que são menos capazes de realizar várias tarefas bem são, ao mesmo tempo, as que mais tentam fazê-lo. "É o multitasking que faz com que sejam péssimos multitaskers, ou é porque são péssimos multitaskers que tentam fazer tanto multitasking?", pergunta-se Nass. "É inato ou adquirido?" Numa sociedade que aprece encorajar cada vez mais o acúmulo de tarefas, a descoberta tem implicações importantes, disse Nass. O multitasking já leva a culpa por diversos acidentes automobilísticos e há leis, por exemplo, proibindo falar ao telefone e dirigir ao mesmo tempo. Advogados ou publicitários podem tentar usar informação irrelevante para distrair as pessoas e mudar o foco de suas decisões. Para testar a capacidade de ignorar dados irrelevantes, os pesquisadores mostraram aos estudantes um grupo de retângulos azuis e vermelhos, apagando-os e trazendo-os de volta, com a questão: será que algum dos retângulos vermelhos mudou de lugar? O teste exigia que se ignorassem os retângulos azuis. Os pesquisadores imaginaram que as pessoas que acumulam muitas tarefas se sairiam melhor nisso. "Mas não. Saíram-se pior. Muito pior", disse Nass. "Eles não eram capazes de ignorar coisas desimportantes. Eles adoram coisas desimportantes". Associated Press

25 de ago. de 2009

Big Slip

Nanopartículas magnéticas são capazes de frear o avanço do câncer

Uma equipe de pesquisadores japoneses descobriu um novo tipo de nanopartículas magnéticas capazes de inserir ácido nucleico no organismo e frear a progressão do câncer nos ratos. Como publicou hoje a revista britânica "The Lancet" esta nova formulação de nanopartículas magnéticas oferece melhores resultados que a usada até agora no tratamento genético contra o câncer. Se os resultados forem confirmados em humanos, se trataria de um grande passo para o tratamento não invasivo de diferentes tipos de tumores. Para chegar a esse resultado, uma equipe de cientistas de The Jikei University de Chiba (Japão) liderado por Yoshihisa Namiki injetou na corrente sanguínea dos roedores nanopartículas magnéticas compostas por uma sequência otimizada de pequeno RNA de interferência (siRNA, sigla em inglês). Uma vez feito isto, guiaram as nanopartículas até o tumor através de placas magnéticas grudadas ou implantadas sob a pele da região afetada. Assim, o ácido ribonucleico projetado especialmente para "silenciar" o gene causador do tumor pôde chegar a seu destino e, após oito injeções, foi capaz de parar o crescimento do mesmo. Além disso, a equipe assegura que este tratamento não apresentou em nenhum dos casos efeitos adversos. EFE

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