30 de set. de 2009
Ame seu trabalho
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| paintings by loci |
Afinal, a maioria gasta mais da metade do dia no trabalho e nossas profissões influenciam profundamente cada aspecto de nossas vidas: o tempo que gastamos com a família e os amigos, a segurança material, a educação que proporcionamos para nossos filhos, as pessoas que conhecemos. De fato, levamos nosso trabalho tão a sério que nos identificamos com aquilo que fazemos.
Embora consideremos nossa carreira muito importante, vários estudos mostram que os brasileiros estão cada vez mais insatisfeitos com seus empregos. E a principal causa desse cenário é a falta de reconhecimento em relação ao desempenho exercido no ambiente de trabalho. Foi o que revelou estudo feito pelo instituto de pesquisa Market Analysis, em 2006, quando foram ouvidas 400 pessoas das cinco principais capitais do País — São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre.
Considerando a popularidade de livros como Valores humanos no trabalho, de Ken O’Donnel, e Zen no trabalho, de Les Kaye nossa cultura parece preocupada com a qualidade e o significado do trabalho nesses dias. Os trabalhadores confrontam uma combinação estressante de pressões e insegurança no emprego que mina a satisfação e os faz refletirem se deveriam procurar algo que traga mais realização. Não importam as circunstâncias, você pode achar que seu trabalho não corresponde às suas expectativas, muito menos aos seus sonhos. Talvez você não se comprometa com seus talentos criativos ou impulsos altruísticos, ou ache os colegas de trabalho agressivos ou hostis. Ou simplesmente não gosta do seu emprego, mas não sabe bem por quê. Se você pratica Yoga ou meditação, talvez queira aplicar os princípios que aprende no mat no seu ganha-pão. O desejo pode conduzi-lo aos mais difíceis questionamentos: como ganhar dinheiro e se comprometer em um trabalho que gosta sem sacrificar sua paz de espírito, saúde e valores espirituais? Como contribuir com seus talentos e dons para o progresso do planeta sem prejudicar o meio ambiente ou as outras pessoas?
Se já refletiu sobre essas questões, está explorando o que é conhecido como meio de vida correto. Embora o termo derive da tradição budista, o meio de vida correto refere-se mais largamente a qualquer trabalho significativo e satisfatório que dê uma contribuição positiva ao mundo e expresse a intenção compassiva ou sagrada. Para algumas pessoas, o meio de vida correto assume a forma de uma carreira devotada às mudanças sociais, negócios sobre ética e sustentabilidade ambiental. Para outras, é um trabalho criativo e inovador que expressa suas aspirações mais profundas, paixões e talentos. Para muitos de nós, pode simplesmente envolver fazer algo que adicione à loja coletiva do mundo um pouco de paz, amor, felicidade e bem-estar material. O emprego pode ser salvo? Simone Garcia, uma gerente de vendas de uma indústria farmacêutica, se confrontou com muitos questionamentos sobre o meio de vida correto. Ela adiou encontrar um companheiro e ter filhos até atingir o sucesso material que achou que merecia.
Agora, ela procurou ajuda em aconselhamento porque começou a se questionar sobre sua vida. Definitivamente ela gosta do que faz — o contato com os clientes, a relação com o chefe os colegas de trabalho, as viagens frequentes, mas quando começou a praticar Yoga e adotou um estilo de vida mais saudável e espiritual, ela refletiu sobre o que a empresa estava fazendo, se era mais prejudicial do que bom. Seu envolvimento com terapias alternativas a levou a questionar os benefícios dos medicamentos que ela defendia e questionou o marketing agressivo para vender remédios a pessoas que não precisavam. Simone estava com um dilema. Depois de quase uma década que levou para construir a carreira, ficou em dúvida sobre os princípios fundamentais e práticas da indústria onde trabalhava. Ela fez um balanço da sua vida e se deu conta de que ser uma gerente de vendas deu a ela uma oportunidade limitada de expressar o seu lado mais criativo e espiritual. “O que devo fazer agora?”, perguntava a si mesma.
“Preciso deixar meu emprego e encontrar um estilo completamente diferente de carreira? Ou fico onde estou e faço um trabalho interno necessário para trazer uma atitude diferente para o trabalho que já faço e expressar minha criatividade em outra coisa?” Se você acha o dilema de Simone familiar, não está sozinho. É claro, as respostas que encontrará depende das circunstâncias da sua vida. Nos últimos anos, três pontos de vista principais do que constitui um trabalho cheio de significado e sagrado ganhou popularidade. Primeiro, professores de budismo nos ensina a não fazer o mal e, se possível, ser bom para os outros. Segundo, autores de livros best-sellers sobre crescimento pessoal determinam seu caminho intelectual para a tradição cristã de “encontre sua vocação” ao encorajar “faça o que ama” e confie que o universo o apoiará nos seus esforços. E terceiro, há muitas tradições religiosas que ensinam que você pode transformar qualquer atividade em direção ao trabalho sagrado pelo poder da sua presença, devoção e intenção. Para finalizar, Simone resolveu o dilema tirando um pouco de cada uma dessas diferentes, mas compatíveis, abordagens.
Depois de reconhecer que não poderia continuar trabalhando para uma indústria farmacêutica, ainda que estivesse relutante em abrir mão dos confortos materiais, ele mudou de carreira como corretora de empréstimos para imóveis em um bairro nobre. Apesar de o novo trabalho não estar de acordo como alguns dos princípios espirituais de Simone, trouxe alívio para sua consciência e permitiu que fizesse uma contribuição significativa para a vida das pessoas. Bel César, psicóloga que trabalha sob a perspectiva do budismo tibetano e coordena o Espaço Vida de Clara Luz, em São Paulo, explica: “Se determinado trabalho estiver comprometendo meus valores e princípios, devo buscar outro. Mesmo que essa mudança seja gradual já sabemos que condições de grande pressão, estresse e ansiedade nos vulnerabilizam e nos tornam cada vez mais vazios internamente.
Não é difícil reconhecer os sinais de que nossa saúde física, mental, emocional e espiritual está ameaçada, mas um bom salário pode nos levar à autoilusão de que num futuro próximo iremos viver de forma mais coerente”.Como ensinaram Buda e seus seguidores, o conceito básico do meio de vida correto é simples: não faça mal. Praticante por muitos anos de meditação, Claude Whitmyer, consultor de organizações, complementa que o meio de vida correto deve também envolver outros sete aspectos do nobre caminho óctuplo: fala correta, ação correta, esforço correto, atenção correta, concentração correta, visão correta e intenção correta. Em outras palavras, o trabalho que pode verdadeiramente apoiar nosso desdobramento espiritual deve nos permitir seguir nossos princípios básicos éticos, como contar a verdade, não matar e não roubar. Além do mais, esse trabalho deve ser desempenhado atentamente, com compaixão e paz e admitir os ensinamentos fundamentais budistas de interdependência entre todos os seres.
É um desafio e tanto para a maioria de nós, que já nos esforçamos muito para pagar as contas. Ingrid Schrijnemaekers, consultora de Gestão de Mudança na Souza Queiroz Academy e praticante de meditação da Fundação Brahma Kumaris, em São Paulo, escreveu um livro chamado A energia do sucesso com cinco atitudes fundamentais para a vida profissional que fazem parte de um ciclo — o da energia do sucesso. Estas cinco atitudes são: acreditar, ser bom, ter respeito, adequar-se e mudar. “Cito alguns casos de clientes que atendi em minhas sessões de coaching. Percebi, ao longo desses últimos anos, que a maioria dos executivos que passa a não ter sucesso tem problema de arrogância, ou seja, falta respeito. Não respeitam os outros e não conseguem adequar-se à novas situações. Se todos refletissem sobre o seu nível de arrogância e trabalhassem essa atitude, teriam mais sucesso. O segredo está em parar para ouvir sua voz interna, refletir ou meditar e revisar suas ações diariamente e adequar-se”, explica.
Essas orientações fundamentais têm muito a oferecer aos ocidentais que buscam uma atitude mais consciente e espiritual em relação ao trabalho e à carreira. Em particular, os ensinamentos budistas sobre interdependência de todos os seres, que implica que toda ação que fazemos traz consequências. Isso quer dizer que o meio de vida correto deve usar os recursos que tiramos do planeta adequadamente e considerar o impacto que temos na vida das outras pessoas e no meio ambiente. O que Buda faria? Baseada no budismo tibetano, Bel César diz que “vivemos numa rede de fenômenos interligados que estão em constante movimentação. Podemos ter boas intenções, mas se não soubermos olhar o outro e as condições interdependentes, estaremos invariavelmente criando interferências em seus caminhos e no meio ambiente.
O budismo nos ensina a reconhecer essa rede de interdependência e a substituir nossa visão egocentrada por uma visão mais ampla, seja de abertura mental, seja de empatia por todos os seres e pelo meio ambiente”. Mas o meio de vida correto muitas vezes é mais fácil na teoria do que na prática. O casal budista Patrick Clark e Linsi Deyo achou que tinha encontrado a solução perfeita para o meio de vida correto quando abriu uma empresa que fazia almofadas para meditação. Mas o idealismo espiritual do casal e a aversão à competitividade do mercado inicialmente impediu que eles se comprometessem com os negócios para promover seus produtos com sucesso. “Éramos ingênuos e idealistas. Nossa sobrevivência dependia de ganhar novos clientes, mas não queríamos competir contra outras empresas”, explica Clark. Ao mesmo tempo, eles se depararam com escolhas difíceis que desafiaram o comprometimento com o meio ambiente.
“Algodão é uma das colheitas que mais prejudicam o meio ambiente e usa muitos herbicidas e pesticidas. Tivemos de mudar nossa atitude e aprender a viver com a realidade econômica.”, diz Clark. Como Clark e sua esposa rapidamente aprenderam, praticar o meio de vida correto no modo budista mais puro pode ser muito difícil, até impossível, devido à complexidade da política econômica. “O problema é que cada ocupação nos solicita a fazer coisas que comprometem nossos valores espirituais — por exemplo, usar recursos naturais não-renováveis ou não contar totalmente a verdade. Fazemos o melhor que podemos dentro das circunstâncias”, diz o consultor de empresas, autor do livro Mindffulness and meaningful work (sem tradução no Brasil) Claude Whitmyer.
A professora budista e ativista social Joanna Macy, co-autora do livro Nossa vida como Gaia (Ed. Global), concorda: “O meio de vida correto é mais complexo agora do que no tempo de Buda, porque nos encontramos em um sistema econômico e ecológico que não é mais sustentável a longo prazo. À medida que participamos desses sistemas, inevitavelmente causamos algum mal por meio do nosso trabalho”, diz. Isso não significa que precisamos renunciar aos nossos esforços, mas às vezes necessitamos ajustar o idealismo e nossas próprias expectativas. “Num mundo imperfeito como este, o mais próximo que podemos fazer no meio de vida correto é cultivar a intenção correta e fazer o melhor que podemos.” Encontre sua vocação Embora palavras de efeito como interdependência e sustentabilidade solicitem nosso senso de responsabilidade ética e social, elas não são a motivação primária para cada pessoa que aspira ao meio de vida correto. A maioria de nós está mais preocupada em encontrar um trabalho que acenda nossas paixões, ilumine nossos corações e deixe nossa vida fluir no dia-a-dia.
Estamos procurando por uma carreira que dê expressão aos nossos interesses mais profundos, talentos e sonhos que forneçam à vida um propósito e significado. Embora concordemos com o princípio budista de não fazer mal, talvez estejamos mais afinados com mantras como este de Joseph Campbell — “siga a sua felicidade”, ou de Carlos Castañeda — “escolha um caminho que signifique algo para você” ou de Marsha Sinetar — “faça o que ama e o dinheiro virá”. “Dizem que a prosperidade é a consequência de uma vida com valores e de nossa espiritualidade. A questão é que nem todos entendem que quando vivemos nossos valores, o universo providencia o que precisamos, talvez não tanto quanto gostaríamos, mas com certeza o que precisamos”, explica Ingrid Schrijnemaekers. A abordagem “faça o que ama e o dinheiro virá” pode ser baseada na ignorância. “O trabalho que amamos e o dinheiro que ganhamos podem ter vir recursos abomináveis e consequências desastrosas. Você pode ser uma pessoa consciente a serviço de um sistema sem consciência.
A não ser que esteja sintonizado com os resultados do que faz, não está praticando o meio de vida correto, não importa o quanto ame seu trabalho”, diz Joanna Macy. Whitmyers concorda que o modelo de “siga a sua felicidade” requer cautela. “Faça o que ama e o dinheiro virá, se você estiver fazendo a coisa certa”, diz. “Mas o que precisa é explorar ‘amor’ e ‘certo’ em profundidade para entender completamente o significado disso. Precisamos cultivar um nível de consciência que nos permita ser menos reativos e estar com pessoas que se encontrem no mesmo nível de consciência”, afirma.
Stephan Bodian
29 de set. de 2009
A sombra da inveja
Ela está presente em todos nós e é encarada como algo ruim. Mas é possível tirar proveito desse sentimento para evoluir, e sem prejudicar ninguém
Conta uma antiga fábula que, depois de muito fugir de uma cruel serpente, o vaga-lume se rendeu, pedindo apenas para que ela lhe respondesse três perguntas, antes de devorá-lo.
Um pouco relutante, mas satisfeita por mostrar sua superioridade diante da presa, a serpente aceitou a proposta. Para começar, o inseto quis saber se fazia parte da cadeia alimentar de sua perseguidora.
Rapidamente, ela respondeu que não. Percebendo que não se tratava de uma questão alimentar, o vaga-lume tentou puxar pela memória algo pessoal. No entanto, não se recordou de nenhum conflito entre eles. Questionou, então, se já havia feito algum mal à cobra. Ela balançou a cabeça negativamente. Confuso e sem entender o que se passava, ele perguntou, por fim, o que fazia a serpente caçá-lo com tanta insistência e ódio. A resposta foi objetiva. "É que não suporto vê-lo brilhar", disse. Essa simples história retrata com clareza um sentimento conhecido por todos nós: a inveja. Afinal, quem é que nunca se sentiu incomodado com o sucesso alheio, desejou estar no lugar de outra pessoa ou possuir algo que não era seu? E mais que isso, qual de nós nunca notou (e temeu!) olhos invejosos diante de um momento feliz que estava vivenciando? "A inveja faz parte da natureza humana.
E, por mais que as pessoas a evitem e sintam vergonha de admiti-la, é preciso reconhecer sua ação em nossas vidas e, assim, encontrar uma forma de trabalhá-la", ressalta a terapeuta transpessoal Cida Medeiros, de São Paulo. Olhando para dentro Uma das principais questões acerca da inveja é a competitividade. Apesar de esse conceito ser um velho conhecido dos seres humanos - antes ligado a questões importantes, como a sobrevivência - atualmente, sua atuação é muito mais intensa e abrange as mais diversas áreas.
"A cultura moderna prega padrões profissionais, estéticos e até pessoais que levam as pessoas a competirem o tempo todo, sem nem sequer se dar conta disso. E competição leva à comparação. Esse é o ponto de partida para muitas situações em que a inveja figura", comenta Cida Medeiros. O raciocínio é lógico: quando comparamos duas ou mais pessoas, alguém termina em posição de desvantagem. E é aí que, ge- ralmente, pinta aquele incômodo per- sistente, quase que como uma voz que nos estimula a cobiçar o trunfo do outro. No início, a coisa é branda: a gente re- conhece as qualidades dele e até lamenta por não ser daquele jeito.
Existem casos, porém, em que a inveja toma proporções tão grandes que cria o desejo de destruir o ser invejado. Aí, aparecem aquelas situações tí- picas. Sabe aquele cara que vive caçando defeitos em você e espa- lha boatos maldosos por aí? Pois é, tudo pode ter começado em um mo- mento no qual você se destacou. Por isso, um dos principais antído- tos contra a inveja mora dentro de cada um de nós. É a autoestima. Afinal, quem se conhece bem consegue identi- ficar suas virtudes e habilidades e não perde de vista seu valor. Sobra então, pouco espaço para o sentimento de in- ferioridade, grande fomentador da dor de cotovelo. "É im- portante lembrar que cada pessoa é única e, portanto, deve ser observada e admirada de forma particular", afirma a psicóloga clínica Priscila Araújo, de São Paulo.
A inveja pode funcionar como ferramenta para o crescimento O incentivo que faltava Pare por alguns instantes e reflita: quais são as coisas que mais despertam inveja em você? Certamente, irá perceber que, no geral, a origem dessa emoção são as conquistas alheias: a sua amiga que foi promovida para um cargo bacana, o vizinho que comprou um carro novo, sua prima que arranjou um namorado incrível. Então, não dá para negar: a inveja vem tam- bém da admiração, que, em determinado ponto, acaba envenenada por sentimen- tos negativos. Muita gente acredita, no entanto, que acertando a dose e saben- do direcioná-la é possível livrar a inveja do estigma de vilã.
E mais do que isso, dá até para utilizá-la em favor próprio, sem prejudicar o outro. "A inveja pode funcionar como ferramenta para o crescimento. Isso ocorre quando as pessoas enxergam aquele que obteve sucesso como um exemplo e fazem disso um es- tímulo para buscar o que desejam ter ou ser", explica Priscila Araújo. É o que chamamos de inveja boa e os especialistas de inveja criativa. Acontece que, muitas vezes, presenciar a vitória de outra pessoa nos desperta a vontade de vencer também. Aí, começamos uma série de atitudes benéficas: pensamos no que nos falta para chegar lá, plane- jamos, mudamos aquilo que não estava bom... É como um empurrãozinho, a força que faltava para irmos atrás de nossos objetivos.
"Diante disso, fica claro que mesmo os sentimentos que rotulamos como negativos podem vir a serviço de algo, revelando-se, na verdade, transformadores. O segredo é acolher as emoções como parte de nós, refletir sobre elas e tudo o que sinalizam", finaliza Cida Medeiros.
Patrícia Affonso
Um pouco relutante, mas satisfeita por mostrar sua superioridade diante da presa, a serpente aceitou a proposta. Para começar, o inseto quis saber se fazia parte da cadeia alimentar de sua perseguidora.
Rapidamente, ela respondeu que não. Percebendo que não se tratava de uma questão alimentar, o vaga-lume tentou puxar pela memória algo pessoal. No entanto, não se recordou de nenhum conflito entre eles. Questionou, então, se já havia feito algum mal à cobra. Ela balançou a cabeça negativamente. Confuso e sem entender o que se passava, ele perguntou, por fim, o que fazia a serpente caçá-lo com tanta insistência e ódio. A resposta foi objetiva. "É que não suporto vê-lo brilhar", disse. Essa simples história retrata com clareza um sentimento conhecido por todos nós: a inveja. Afinal, quem é que nunca se sentiu incomodado com o sucesso alheio, desejou estar no lugar de outra pessoa ou possuir algo que não era seu? E mais que isso, qual de nós nunca notou (e temeu!) olhos invejosos diante de um momento feliz que estava vivenciando? "A inveja faz parte da natureza humana.
E, por mais que as pessoas a evitem e sintam vergonha de admiti-la, é preciso reconhecer sua ação em nossas vidas e, assim, encontrar uma forma de trabalhá-la", ressalta a terapeuta transpessoal Cida Medeiros, de São Paulo. Olhando para dentro Uma das principais questões acerca da inveja é a competitividade. Apesar de esse conceito ser um velho conhecido dos seres humanos - antes ligado a questões importantes, como a sobrevivência - atualmente, sua atuação é muito mais intensa e abrange as mais diversas áreas.
"A cultura moderna prega padrões profissionais, estéticos e até pessoais que levam as pessoas a competirem o tempo todo, sem nem sequer se dar conta disso. E competição leva à comparação. Esse é o ponto de partida para muitas situações em que a inveja figura", comenta Cida Medeiros. O raciocínio é lógico: quando comparamos duas ou mais pessoas, alguém termina em posição de desvantagem. E é aí que, ge- ralmente, pinta aquele incômodo per- sistente, quase que como uma voz que nos estimula a cobiçar o trunfo do outro. No início, a coisa é branda: a gente re- conhece as qualidades dele e até lamenta por não ser daquele jeito.
Existem casos, porém, em que a inveja toma proporções tão grandes que cria o desejo de destruir o ser invejado. Aí, aparecem aquelas situações tí- picas. Sabe aquele cara que vive caçando defeitos em você e espa- lha boatos maldosos por aí? Pois é, tudo pode ter começado em um mo- mento no qual você se destacou. Por isso, um dos principais antído- tos contra a inveja mora dentro de cada um de nós. É a autoestima. Afinal, quem se conhece bem consegue identi- ficar suas virtudes e habilidades e não perde de vista seu valor. Sobra então, pouco espaço para o sentimento de in- ferioridade, grande fomentador da dor de cotovelo. "É im- portante lembrar que cada pessoa é única e, portanto, deve ser observada e admirada de forma particular", afirma a psicóloga clínica Priscila Araújo, de São Paulo.
A inveja pode funcionar como ferramenta para o crescimento O incentivo que faltava Pare por alguns instantes e reflita: quais são as coisas que mais despertam inveja em você? Certamente, irá perceber que, no geral, a origem dessa emoção são as conquistas alheias: a sua amiga que foi promovida para um cargo bacana, o vizinho que comprou um carro novo, sua prima que arranjou um namorado incrível. Então, não dá para negar: a inveja vem tam- bém da admiração, que, em determinado ponto, acaba envenenada por sentimen- tos negativos. Muita gente acredita, no entanto, que acertando a dose e saben- do direcioná-la é possível livrar a inveja do estigma de vilã.
E mais do que isso, dá até para utilizá-la em favor próprio, sem prejudicar o outro. "A inveja pode funcionar como ferramenta para o crescimento. Isso ocorre quando as pessoas enxergam aquele que obteve sucesso como um exemplo e fazem disso um es- tímulo para buscar o que desejam ter ou ser", explica Priscila Araújo. É o que chamamos de inveja boa e os especialistas de inveja criativa. Acontece que, muitas vezes, presenciar a vitória de outra pessoa nos desperta a vontade de vencer também. Aí, começamos uma série de atitudes benéficas: pensamos no que nos falta para chegar lá, plane- jamos, mudamos aquilo que não estava bom... É como um empurrãozinho, a força que faltava para irmos atrás de nossos objetivos.
"Diante disso, fica claro que mesmo os sentimentos que rotulamos como negativos podem vir a serviço de algo, revelando-se, na verdade, transformadores. O segredo é acolher as emoções como parte de nós, refletir sobre elas e tudo o que sinalizam", finaliza Cida Medeiros.
Patrícia Affonso
Projeto para mudar a história literária
"No futuro teremos praticamente todos os textos literários online e as pessoas não saberão o que fazer com essa massa de informações, porque ter recursos disponíveis não significa nada", observa o italiano Franco Moretti, atualmente professor da Universidade de Stanford. "É preciso, mais que obter respostas interessantes, propor perguntas desafiadoras", diz. "É isso o que faz a crítica consequente", conclui o coordenador da coleção O Romance, que tem outros livros publicados no Brasil.
De fato, qualquer internauta pode encontrar na rede um porto - mesmo inseguro - que assegure ser o primeiro romance moderno O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha, de Cervantes, ou garanta a James Joyce os direitos de criação do monólogo interior e do fluxo da consciência por conta de Ulisses. No entanto, é preciso um filósofo como o italiano Sergio Givone para mostrar como se dá a construção da interioridade no romance moderno, de Cervantes a Joyce - o que o autor de Hybris e Melancolia faz com mestria no primeiro volume de O Romance. É um dos grandes ensaios do livro.
Nele, Givone se empenha em mostrar como o cavaleiro D. Quixote de Cervantes se assemelha ao marinheiro Robinson Crusoé de Defoe, cuja reclusão numa ilha ele compara à jornada do Wilhelm Meister de Goethe em busca do conhecimento do mundo. Não satisfeito, passa pela aventura espiritual da dupla Bouvard e Pécuchet de Flaubert para abordar a regressão à barbárie do Kurtz de Conrad e chegar às profundezas da consciência do Zeno criado por Svevo. Em todos eles, Givone, também um grande estudioso de Dostoievski, detecta uma atração pelo abismo, como se apenas um gigantesco desastre cósmico pudesse devolver a saúde ao planeta, livrando a Terra, como queria Zeno, "dos parasitas e das enfermidades".
Esse conflito entre destino e sujeito no romance moderno é destacado logo a seguir por Roberto Gilodi ao analisar o Anton Reiser de Karl Philipp Moritz. Como classificá-lo? Não é, evidentemente, um Bildungsroman, um romance de formação, mas, antes, um romance psicológico protofreudiano. O protagonista tem 7 anos quando começa a história (baseada em fatos reais) e chega aos 20, privado, portanto de "Bildung". Não amadureceu. É um romance tão bom como o Wilhelm Meister de Goethe, mas por que ficou esquecido ou lido, por equívoco, como um "documento secularizado de introspecção pietista"?
Justamente pelo motivo que levou Moretti a conceber a coleção: pela ideia de cânone, de hierarquia, defendida por Harold Bloom. "Não encontro originalidade em Bloom e gostaria de observar que a história da literatura obedece a ciclos regulares, sendo preciso analisar as formas narrativas como a biologia evolutiva estuda a formação dos seres", justifica Moretti, propondo acabar com essa lista dos dez mais, como se a literatura fosse concurso de miss. "Não entendo como alguém pode investir energia nisso."
Moretti está mais interessado em preservar a tradição do romance numa época de fundamentalismo religioso e intolerância política. Lembra, a propósito, do ensaio O Romance sob Acusação, de Walter Siti, crítico e curador da obra completa de Pasolini para a Mondadori. Nesse texto, publicado já no primeiro volume, Siti mostra como os romances e os livros sagrados correm perigo "toda vez que predomina uma ideologia de guerra", citando a Inquisição, que identificava no "livre pensar" seu demônio ideológico.
Não por outra razão, segundo Siti, o romance é o único "que tem necessidade de renegar-se a si mesmo" entre todos os gêneros literários, citando como exemplo o século 18 (quando o gênero se consolidou), "repleto de romances que negam sua natureza". Defoe, como Rousseau e Diderot, temendo que os leitores identificassem o romance como uma falsificação da realidade, chegaram a abjurar o gênero que os consagrou.
Desacreditado, ele atravessou séculos e sobreviveu a ataques de religiosos e autoridades civis (Vargas Llosa diz que as culturas religiosas produziram poesia e teatro, mas nunca grandes romances). E, se Moretti selecionou críticos de formação marxista para contribuir com sua coleção, o fez pensando justamente em oferecer uma visão histórica para a reabilitação do romance, que, hoje, corre o risco de declínio por excesso de autorreferência e falta de imaginação. "Não organizei a coleção por simpatia ideológica (Moretti é marxista e colabora com a New Left Review), mas por respeito a esses críticos."
E é com a crença de que, análogo ao procedimento de Darwin, o romance possa ser analisado como um processo de seleção natural - em que Flaubert, Proust e Jane Austen teriam o mesmo DNA -, que Moretti preparou os outros quatro volumes da coleção, que vão discutir as formas literárias (volume 2), a história e a geografia do romance (volume 3), os temas e heróis (volume 4) e as lições do gênero (volume 5). A principal delas, segundo Moretti: "Hoje, quando o videogame toma o lugar do romance, mais do que nunca, é preciso ter espírito crítico."
Antonio Gonçalves Filho
28 de set. de 2009
A dor da perda
O nascimento e a morte são fenômenos do que é humano.
A vida e tudo que lhe pertence é transitória. A lei fundamental é a transitoriedade.
Diariamente, temos demonstração disso, mesmo assim, nós e a sociedade fazemos um enorme esforço para negar esse fato, desenvolvendo grandes mecanismos de defesa contra a realidade.
Não gostamos de ver, de conversar, de constatar as perdas, as separações, a morte.
Com isso, a maioria vive em um mundo de ilusões: acreditamos no amor eterno, acreditamos na permanência das pessoas e dos sentimentos. Quando se fala em morte, é sempre a do outro e assim por diante. O que é verdadeiro, porém, sempre aparece mesmo contra a nossa vontade. A morte de alguém próximo e significativo como é o caso da leitora acima, nos dá uma tremenda bofetada e nos faz acordar das ilusões.
A morte existe mesmo e nós vamos morrer. Essa constatação nos fragiliza, quebra nossas armaduras mentais e entramos no mundo da estranheza. Alguns ainda tentam negar: "Parece que estou sonhando". "Não acredito que isso aconteceu". "Não aceito isso". Só que não adianta, o que é, é, e não tem mais jeito de não ser. Aí tentamos um segundo caminho, a persistência na dor da perda.
Quem sabe se permanecermos muito tempo na depressão, na angústia, no choro, Deus ficará com pena de nós e nos trará de volta o ente querido. Todos os sentimentos de dor após uma perda são naturais e necessários, mas como uma travessia. É o momento do luto, e é importante que todos esses sentimentos sejam expressos: raiva, tristeza, saudade, mágoa, culpa etc.
Mas, assim como a vida, esses sentimentos também passam e temos que contribuir para isso. Não há mérito nenhum em permanecer anos sofrendo por alguém que se foi, e não é prova de amor. A maior prova de amor a uma pessoa que morreu é atravessar a dor e ressuscitar adiante, na alegria e na felicidade. Abrir os olhos para essa realidade é abrir os olhos para Deus e para nosso destino como seres humanos. Não escolhemos nascer, nem morrer, mas podemos escolher como viver.
A vida e tudo que lhe pertence é transitória. A lei fundamental é a transitoriedade.
Diariamente, temos demonstração disso, mesmo assim, nós e a sociedade fazemos um enorme esforço para negar esse fato, desenvolvendo grandes mecanismos de defesa contra a realidade.
Não gostamos de ver, de conversar, de constatar as perdas, as separações, a morte.
Com isso, a maioria vive em um mundo de ilusões: acreditamos no amor eterno, acreditamos na permanência das pessoas e dos sentimentos. Quando se fala em morte, é sempre a do outro e assim por diante. O que é verdadeiro, porém, sempre aparece mesmo contra a nossa vontade. A morte de alguém próximo e significativo como é o caso da leitora acima, nos dá uma tremenda bofetada e nos faz acordar das ilusões.
A morte existe mesmo e nós vamos morrer. Essa constatação nos fragiliza, quebra nossas armaduras mentais e entramos no mundo da estranheza. Alguns ainda tentam negar: "Parece que estou sonhando". "Não acredito que isso aconteceu". "Não aceito isso". Só que não adianta, o que é, é, e não tem mais jeito de não ser. Aí tentamos um segundo caminho, a persistência na dor da perda.
Quem sabe se permanecermos muito tempo na depressão, na angústia, no choro, Deus ficará com pena de nós e nos trará de volta o ente querido. Todos os sentimentos de dor após uma perda são naturais e necessários, mas como uma travessia. É o momento do luto, e é importante que todos esses sentimentos sejam expressos: raiva, tristeza, saudade, mágoa, culpa etc.
Mas, assim como a vida, esses sentimentos também passam e temos que contribuir para isso. Não há mérito nenhum em permanecer anos sofrendo por alguém que se foi, e não é prova de amor. A maior prova de amor a uma pessoa que morreu é atravessar a dor e ressuscitar adiante, na alegria e na felicidade. Abrir os olhos para essa realidade é abrir os olhos para Deus e para nosso destino como seres humanos. Não escolhemos nascer, nem morrer, mas podemos escolher como viver.
Antônio Roberto
Perigo para o Brasil em Honduras
Se Manuel Zelaya combinou ou não com o governo brasileiro sua ida à embaixada do Brasil em Tegucigalpa é algo ainda a ser esclarecido.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva jura que seu governo de nada sabia e ofereceu sua palavra contra a dos "golpistas".
Mas isso é pouco relevante diante do pepino em que se encontra a diplomacia brasileira, agora atolada até o pescoço na crise política de Honduras.
Todos sabem que grande poder traz grande responsabilidade. Por isso parecia uma questão de tempo, considerando o aumento da influência do Brasil na política da América Latina, que o país se visse diretamente ligado a uma crise de grandes proporções, dada o ainda alto nível de instabilidade em partes da região. Entretanto, na crise de Honduras a responsabilidade parece ter se tornado maior que o poder acumulado pelo Brasil.
O país ainda não tem os recursos políticos, diplomáticos e militares que tinham, por exemplo, os Estados Unidos ao longo do século 20, tempo em que mandavam e desmandavam em quase todos os vizinhos das Américas. Por mais que a retórica de Lula pareça apoiada na razão e seja apreciada tanto por Barack Obama como por Hugo Chávez, as opções brasileiras nesta crise são limitadas.
Num passado não muito distante, mais precisamente em 1991, outro líder latino-americano passou por aperto semelhante ao de Zelaya. Jean-Bertrand Aristide mal completava um ano na Presidência do Haiti, que acabara de sair de uma longa e sangrenta ditadura familiar, quando bateu de frente com o Congresso do país, da mesma forma como aconteceria com o presidente de Honduras. Aristide perdeu o apoio político no Parlamento e acabou expulso do cargo e da meia-ilha que comandava.
O país ficou nas mãos dos militares, que com o tempo passaram a sofrer pressão internacional para aceitar o retorno de Aristide ao poder. Tratava-se dos Estados Unidos de Bill Clinton e não do Brasil de Lula, então os generais acabaram não resistindo. Em 1994, tropas americanas tomaram o Haiti para garantir o retorno do presidente deposto. Aristide governou então até 1996, voltou ao cargo em 2000, apenas para ser expulso mais uma vez. Mas essa é uma outra história, que o Brasil inclusive conhece muito bem.
O fato é que o Brasil de Lula não é a maior potência das Américas, não tem assento permanente no Conselho de Segurança da ONU nem tem condições ou histórico de invadir vizinhos para garantir um arranjo político, como era o caso dos Estados Unidos na crise haitiana dos anos 90. Sozinho, o Palácio do Planalto não pode fazer por Zelaya o que a Casa Branca fez Jean-Bertrand Aristide. O presidente deposto de Honduras não pode assumir residência fixa na embaixada brasileira de Tegucigalpa, e uma solução parece depender de um acordo com o governo interino. Se for obtido, o Brasil terá fortalecida ainda mais sua imagem internacional como potência emergente, confiável na mediação de crises internas ou regionais, e o presidente Lula terá reafirmadas suas credenciais como defensor da democracia no continente.
Mas, se Roberto Micheletti decidir não fazer concessão alguma, Honduras pode mergulhar num impasse político ainda mais grave, com um crescente perigo de mais violência nas ruas de um país claramente dividido. Nesse caso, o Brasil poderá lamentar ter atendido a campainha e oferecido o sofá da sala a Manuel Zelaya.
Rogério Simões
27 de set. de 2009
O último cheque
A filha faz 18 anos e o pai está todo feliz por emitir o último cheque da pensão que é paga à ex-mulher, há 17 anos e 11 meses.
Pede para a filha levar o cheque e retornar rapidinho, para contar-lhe como ficou a cara da mãe, ao dizer-lhe que este é o último cheque que ela verá da parte dele.
A filha entrega o cheque à mãe, ouve o que ela diz e volta para a casa do pai, para dar-lhe a tão esperada resposta.
- Diga-me, filha, qual foi a reação da sua mãe!
- Ela mandou dizer que você não é o meu pai!
O Brasil explicado em galinhas
Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e o levaram para a delegacia.
D- Delegado L - Ladrão
D - Que vida mansa, heim, vagabundo? Roubando galinha para ter o que comer sem precisar trabalhar. Vai para a cadeia!
L - Não era para mim não. Era para vender.
D - Pior, venda de artigo roubado. Concorrência desleal com o comércio
estabelecido.. Sem-vergonha!
L - Mas eu vendia mais caro.
D - Mais caro?
L - Espalhei o boato que as galinhas do galinheiro eram bichadas e as minhas galinhas não. E que as do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons.
D - Mas eram as mesmas galinhas, safado.
L - Os ovos das minhas eu pintava.
D - Que grande pilantra... (mas já havia um certo respeito no tom do delegado....)
D - Ainda bem que tu vai preso. Se o dono do galinheiro te pega...
L - Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Me comprometi a não espalhar mais boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros donos de galinheiros a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio Ou, no caso, um ovigopólio.
D - E o que você faz com o lucro do seu negócio?
L - Especulo com dólar. Invisto alguma coisa no tráfico de drogas. Comprei alguns deputados. Dois ou três ministros. Consegui exclusividade no suprimento de galinhas e ovos para programas de alimentação do governo e superfaturo os preços.
O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada.
Depois perguntou:
D - Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está milionário?
L - Trilionário. Sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior.
D - E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas?
L - Às vezes. Sabe como é.
D - Não sei não, excelência. Me explique.
L - É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa. O risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo uma coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão, e isso é excitante. Como agora fui preso, finalmente vou para a cadeia. É uma experiência nova.
D - O que é isso, excelência? O senhor não vai ser preso não.
L - Mas fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro!
D - Sim. Mas primário, e com esses antecedentes...
Luis Fernando Veríssimo
Enviado pela Fátima Marques
Gestos ajudam a desenvolver inteligência
Ao entrar em um café movimentado, você provavelmente verá pessoas conversando e gesticulando. Um homem no balcão indica o café que deseja ─ xícara média, ─ e suas mãos assumem um formato familiar, mostrando o tamanho da xícara.
Ao lado dele, duas irmãs riem. Enquanto uma delas conta uma história sobre sua viagem a Fernando de Noronha e todos os peixes que viu nos mergulhos que fez, suas mãos sacodem e se movem rapidamente no mar invisível à sua frente. O instinto de gesticular acompanhando a fala é fundamental para a natureza humana.
Se você já questionou o porquê dos gestos, provavelmente pensou que gesticulamos para auxiliar na compreensão do que estamos querendo dizer. Indicar o tamanho de uma xícara ou a dose de uma bebida pode ajudar o balconista a entender exatamente o que você deseja. Mostrar onde o peixe se escondeu ou a velocidade com que ele se movimentou pode ajudar a amiga a criar uma imagem mais exata da sua percepção dos recifes locais.
Mas, será que os gestos podem ter também outra finalidade? Muitos cientistas acreditam que os gestos podem ajudar o interlocutor e os movimentos das mãos ajudam a pensar. Cientistas se interessam cada vez mais pela relação corpo-pensamento, ou como nosso corpo dá forma a processos mentais abstratos. Os gestos estão no centro dessa questão. O debate se concentra no papel do movimento na aprendizagem, e nas pesquisas sobre como os alunos aprendem a resolver problemas de matemática na sala de aula.
A titulo de ilustração, considere o problema da soma: 3 + 2 + 8 = _ + 8. Um aluno pode criar uma forma de “v”, com o indicador e o dedo médio, entre os algarismos 2 e 3, enquanto tenta entender o conceito de “agrupamento”, somando os números adjacentes, técnica que pode ser usada para resolver o problema.
Pesquisas anteriores mostraram que quando foi solicitado aos alunos para gesticular enquanto conversassem sobre problemas, aprenderam a resolvê-los de forma mais eficiente. Isso foi verificado, independentemente de se dizer aos alunos quais gestos fazer ou se os gestos eram espontâneos.
Agora a questão é: como isso acontece? O novo estudo, conduzido por Susan Goldin-Meadow e Zachary Mitchell, da University of Chicago, e por Susan Wagner-Cook, da University of Iowa, teve como foco a resolução de problemas matemáticos por alunos de terceira e quarta séries do ensino básico. Os alunos treinados a utilizar a forma de “v”, ao resolver um problema como 3 + 2 + 8 = __ + 8, aprenderam a solucioná-lo com maior eficácia. Além disso, os alunos apresentaram melhor desempenho mesmo se treinados a empregar a forma de “v” em pares de números errados. Pelo simples ato de fazer o gesto o corpo sugere o conceito de “agrupamento”.
A questão então é: qual teria sido exatamente o procedimento que permitiu isso? Durante o estudo, todos os alunos memorizaram a frase “Quero deixar um lado igual ao outro”. Na ocasião, foi solicitado que os alunos dissessem a frase em voz alta quando fosse apresentado um problema a ser resolvido. Os autores sugerem que os alunos que gesticularam também tentaram criar uma correlação entre a fala e os gestos de forma a unir os dois significados. Esse procedimento poderia consolidar o novo conceito de “agrupamento” na mente dos alunos.
O mesmo processo poderia ocorrer em qualquer situação em que a pessoa que fala e gesticula tenta entender, seja relembrando detalhes de eventos passados ou imaginando como montar uma bicicleta recém retirada da embalagem.
O estudo tem implicações importantes para o campo da Psicologia Cognitiva.
Historicamente, esse campo entende conceitos (os elementos básicos do pensamento), como representações abstratas que não contam com a fisicalidade. Essa noção, conhecida como dualismo cartesiano, agora está sendo desafiada por outra linha de pensamento, chamada Cognição Corporal, que entende conceitos como representações corporais baseadas na percepção, ação e emoção. Embora muitas evidências sustentem a visão da Cognição Corporal, até agora nunca existiu um relato detalhado baseado em experimentos de como a incorporação dos gestos desempenha um papel na aprendizagem de novos conceitos.
O estudo também tem implicações práticas aos professores didáticas, que podem reformular sua didática para ensinar aos alunos novos conceitos utilizando gestos. Os resultados desse estudo podem não valer para os gestos feitos em bares e cafés que você costuma frequentar, no entanto, na próxima vez que conversar com uma amiga gesticuladora, pode ser interessante considerar como o movimento das mãos contribuem para dar forma aos pensamentos dela e aos seus.
Scientific American
Picture by Nikos Eggonopoulos
Emoções: mais inteligente é assumi-las
Durante uma negociação, as emoções – nossas e da outra parte – podem tanto nos prejudicar quanto nos trazer vantagens em qualquer negociação. Se o que queremos é chegar a bons acordos, é melhor que saibamos como usá-las a nosso favor. Quem diz isso é Daniel Shapiro, que se dedica à solução de conflitos há quase trinta anos.
Shapiro tem credenciais que nos estimulam a ouvi-lo: é psicólogo clínico, presidente do Conselho de Negociação e Resolução de Conflitos do Fórum Econômico Mundial e docente dos departamentos de direito e psiquiatria da universidade Harvard, onde dirige centros de pesquisa em negociação que são referência no mundo todo. Foi do Harvard Negotiation Project que emergiu o aclamado livro Como Chegar ao Sim, que William Ury e Roger Fisher lançaram em 1981.
O experiente Fisher estabeleceu parceria com o jovem Shapiro. Juntos, lançaram, em 2005, Beyond Reason: using emotions as you negotiate. E o que teria mudado dos anos 1980 para cá? É o próprio Fisher quem assume, em entrevista concedida à American Arbitration Association: “Como chegar ao sim traz os argumentos lógicos. Em Beyond Reason, postulamos que há mais do que lógica em uma resolução de conflitos bem-sucedida”. Sinal dos tempos.
O leitor é alertado sobre sua própria humanidade logo no início da obra: “Negociar é mais do que argumentação racional. Seres humanos não são computadores”. Assim, o negociador é convidado a assumir que “negociar envolve tanto sua cabeça quanto suas vísceras –tanto a razão quanto a emoção”. Se levada a sério, a mensagem pode ser uma alforria.
Invista nas emoções positivas
Vale, de início, esclarecer que há emoções que são denominadas “positivas” –esperança, alívio, orgulho– e há as emoções ditas “negativas” –raiva, frustração, medo. Embora as negativas não devam ser deixadas de lado, as positivas tendem a contribuir mais para uma solução satisfatória de um conflito. O motivo é simples: elas favorecem o estabelecimento de uma relação permeada por um sentimento de estar em sintonia, sob uma atmosfera de boa vontade e compreensão.
As emoções positivas nos ajudam a chegar aos interesses principais em jogo, uma vez que reduzem o medo de perder alguma vantagem e a suspeita sobre a outra parte, tornando as pessoas colegas, em vez de adversárias. Novas ideias, assim, podem ser testadas, as pessoas ouvem e aprendem mais e o processo flui mais facilmente. Como resultado, o acordo que se estabelece tende a ser estável ao longo do tempo.
Os autores, porém, não diminuem o valor da razão. Ela está lá na base da decisão: “Verifique as emoções com sua cabeça e suas vísceras antes de tomar uma decisão. Certifique-se que satisfaça seus interesses. Defina padrões de justiça. Conheça as alternativas de cada pessoa ao acordo negociado e use essas informações inteligentemente”. Dessa maneira, as técnicas apresentadas em Como Chegar ao Sim não são desprezadas. A elas, acrescenta-se a acolhida às emoções.
Segundo os autores, a atenção às emoções deve permear qualquer tipo de negociação. O site do livro (www.beyond-reason.net) contém alguns depoimentos de pessoas comuns, como uma professora, um médico e um advogado, que obtiveram sucesso aplicando o que aprenderam com Shapiro e Fisher.
Um dos depoimentos certificadores que o livro traz é o de Jamil Mahuad, ex-presidente do Equador, que negociou com Alberto Fujimori, ex-presidente do Peru, em uma disputa acerca a posse de um território, que já durava 50 anos. Um simples conselho de Fisher a Mahuad –que tirassem uma foto um ao lado do outro, em vez da típica foto apertando as mãos, mostrando cada um de um lado da negociação– abriu caminho para uma resolução amistosa e proveitosa. O clima de cooperação foi instaurado na foto inaugural, e tanto os presidentes quanto a opinião pública se programaram para o acordo, em vez de para a animosidade.
Outro conselho que o equatoriano levou a sério foi o de pedir a opinião do outro presidente em relação a como os dois deveriam proceder na negociação. Fujimori, assim, tornou-se mais receptivo. O que se aplicou foi o princípio de estabelecer uma relação entre colegas, em vez de entre adversários. E o acordo foi, finalmente, firmado.
Cinco pontos críticos para o clima positivo
Segundo Shapiro, existem cinco aspectos fundamentais que devem ser levados em conta na construção do tom emocional de uma negociação e dos pilares para o alcance do resultado desejado. Vejamos:
1. apreciação: qualquer um deseja sentir-se compreendido e valorizado. Quando a valorização é mútua, a cooperação aumenta. O caminho para isso é saber escutar a outra parte, perceber a resposta emocional do outro e passar sua mensagem de modo claro;
2. afiliação: as pessoas desejam sentir que há uma conexão pessoal com outras pessoas. Isso constrói pontes entre elas. Ao se identificar uma conexão, o outro é humanizado;
3. autonomia: na opinião de Shapiro, é um ponto muito poderoso e as partes devem estar em pé de igualdade na tomada de decisão. “A falta de autonomia é a principal fonte de fortes emoções negativas para muitas pessoas. Isso é algo que cada árbitro e cada mediador devem perceber”, diz o autor à American Arbitration Association;
4. status: as pessoas querem que seu status seja reconhecido e emoções negativas surgem, se houver competição por status. Assim, a recomendação é reconhecer o status da outra parte antes de falar do seu próprio;
5. papel: você deve escolher um papel na negociação que preencha suas necessidades e seus padrões de apreciação, afiliação, autonomia e status, isto é, que descreva quem você é. Um papel deve ter um propósito claro que oriente o comportamento, deve ser pessoalmente significativo e incorporar habilidades, interesses e valores ao desafio de negociar.
O que vem quando esses pontos cruciais não são levados em consideração? Emoções negativas, que levam ao comportamento competitivo. Definitivamente, essa não é a melhor opção.
O melhor conselho
Perguntado sobre qual seria o melhor conselho a um especialista em conflitos, Shapiro respondeu ao Engaging Conflits Today: “Siga seu coração. Você tem uma vida. O que quer fazer com ela? Não escolha a trilha fácil, porque é fácil. Não escolha a trilha difícil, porque é difícil. Explore. Tente coisas novas. E, na análise final, escute sua intuição”.
Alexandra Delfino de Sousa
25 de set. de 2009
Como salvar celular molhado
(1) Basta pegar o aparelho, secar, retirar a bateria e colocá-lo em um recipiente cheio de arroz cru.
(2) Não use secador de cabelo no celular. Assistências técnicas aconselham evitá-lo, já que o ar quente pode danificar os componentes do telefone.
(3) "O arroz tem essa propriedade de absorver água porque é rico em amido, que possui uma forte afinidade elétrica com as moléculas de água e acaba as atraindo", afirma Maria Cristina dos Santos, professora do Instituto de Física da USP.
Ah... o arroz você joga fora, viu !!!!
Enviado pela Lucilene
Ode a beleza
Tu não sabes que és bonita...
Nunca te disseram, nunca percebeste.
Não sabes o quanto és, nem quanto tens.
Tu não sabes que és bonita...
Escrevo porque não tenho a coragem de falar. Escrevo como se marcasse em ti e para ti o belo que és – a beleza que tens.
Não tenho coragem porque temo que me interpretes mal, que julgues que te vejo como os outros te vêem, que penses que sou como todos os restantes, que apenas dizem o que querem para conseguir o que desejam...
Quer-se o que se deseja.
Deseja-se o que se quer.
O querer é imediato e necessário, o desejo é apenas um desejo, um sonho que se quer.
Um querer muito o sonho que se tem.
Se eu te quero? Se eu te desejo?
Sim...
Gostava de poder olhar para ti sempre que me apetecesse, de poder descobrir as expressões únicas que me farias.
Gostava de passar a mão pela tua face branca ou pelos teus cabelos brilhantes, todos os dias...
E de te dizer que és bonita. Só para ficares a saber.
A tua beleza não é o que julgas não ter, a tua beleza é o que desejo em ti.
É um olhar sobressaltado, uma expressão gentil, um gesto meigo.
É uma mão na face, uma palavra sincera, um canto feito em frases banais.
É um movimento redondo, uma forma atrevida.
É um leve suspiro, um dócil chamamento de anjos impuros.
É um morder o lábio num tique estranho.
É uma brancura da tua pele macia, é um toque suave no teu corpo quente.
É um querer desejar, é um desejo que se quer.
É um sorriso glorioso, simples e honesto.
É um arrepio inesperado.
Um beijo. Um desejo.
Tu e o meu desejo.
Tu e o teu desejo.
Picture by René Magritte
45 lições
Escrito por Regina Brett, 90 anos
"Para celebrar o envelhecer, uma vez eu escrevi 45 lições que a vida me ensinou. É a coluna mais requisitada que eu já escrevi. Meu taximetro chegou aos 90 em Agosto, então aqui está a coluna mais uma vez:
1. A vida não é justa, mas ainda é boa.
2. Quando estiver em dúvida, apenas dê o próximo pequeno passo.
3 A vida é muito curta para perdermos tempo odiando alguém.
4. Seu trabalho não vai cuidar de você quando você adoecer. Seus amigos e seus pais vão. Mantenha contato.
5. Pague suas faturas de cartão de crédito todo mês
6. Você não tem que vencer todo argumento. Concorde para discordar.
7. Chore com alguém. É mais curador do que chorar sozinho.
8. Está tudo bem em ficar bravo com Deus. Ele aguenta.
9. Poupe para aposentadoria começando com seu primeiro salário.
10. Quando se trata de chocolate, resistência é em vão
11. Sele a paz com seu passado para que ele não estrague seu presente.
12. Está tudo bem em seus filhos te verem chorar.
13. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem ideia do que se trata a jornada deles.
14. Se um relacionamento tem que ser um segredo, você não deveria estar nele.
15 Tudo pode mudar num piscar de olhos; mas não se preocupe, Deus nunca pisca.
16. Respire bem fundo. Isso acalma a mente.
17. Se desfaça de tudo que não é útil, bonito e prazeiroso.
18. O que não te mata, realmente te torna mais forte.
19. Nunca é tarde demais para se ter uma infância feliz. Mas a segunda só depende de você e mais ninguém.
20. Quando se trata de ir atrás do que você ama na vida, não aceite não como resposta.
21. Acenda velas, coloque os lençóis bonitos, use a lingerie elegante. Não guarde para uma ocasião especial. Hoje é especial.
22. Se prepare bastante, depois deixe-se levar pela maré..
23. Seja excêntrico agora, não espere ficar velho para usar roxo.
24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.
25. Ninguém é responsável pela sua felicidade além de você.
26.. Encare cada "chamado desastre" com essas palavras: Em cinco anos, vai importar?
27. Sempre escolha a vida.
28. Perdoe tudo de todos.
29.. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.
30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo.
31. Indepedentemente se a situação é boa ou ruim, irá mudar.
32. Não se leve tão à sério. Ninguém mais leva...
33. Acredite em milagres
34. Deus te ama por causa de quem Deus é, não pelo o que vc fez ou deixou de fazer.
35. Não faça auditoria de sua vida. Apareça e faça o melhor dela agora..
36. Envelhecer é melhor do que a alternativa: morrer jovem
37. Seus filhos só têm uma infância
38. Tudo o que realmente importa no final é que você amou.
39. Vá para a rua todo dia. Milagres estão esperando em todos os lugares
40. Se todos jogassemos nossos problemas em uma pilha e víssemos os de todo mundo, pegaríamos os nossos de volta.
41. Inveja é perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.
42. O melhor está por vir.
43. Não importa como vc se sinta, levante, se vista e apareça.
44. Produza.
45. A vida não vem embrulhada em um laço, mas ainda é um presente!!!"
23 de set. de 2009
Amor exilado
Descrita pelo psiquiatra a Síndrome da Alienação Parental é um dos mais nocivos processos que uma criança pode sofrer Richard Gardner em 1985, a Síndrome da Alienação Parental é um dos mais nocivos processos que uma criança pode sofrer em seu desenvolvimento psíquico e afetivo
A partir de sua grande experiência clínica com crianças, a psicanalista Françoise Dolto produziu extenso trabalho que traduziu em palavras toda a angústia de um filho atingido pela experiência da separação e a falta de comunicação entre pais em litígio. Em seu famoso livro Quando os pais se separam, a francesa, uma das fundadoras da Escola Freudiana de Paris, explicita, de maneira clara e veemente, os dolorosos malefícios causados pela desqualificação promovida por um dos genitores em relação ao outro na formação psíquica e afetiva da criança.
Em 1985, o psiquiatra norte-americano Richard Gardner descreveu e batizou de Síndrome da Alienação Parental (SAP) o processo pelo qual esta desqualificação é levada aos extremos, buscando alienar totalmente um dos genitores da vida da criança. Segundo o psiquiatra, ao promover uma programação sistemática, o alienador teria como objetivo o afastamento e o desencadeamento de afetos negativos do filho para com o outro genitor.
Nos últimos anos, porém, vários debates que dizem respeito às situações descritas por Gardner vêm brotando, principalmente entre psicoterapeutas e no meio jurídico brasileiro, trazendo à tona os efeitos da SAP. Para muitos alienados, a discussão representa um alento, nesta que pode ser descrita como uma das mais dolorosas experiências afetivas que um ser humano pode experimentar: o impedimento (respaldado pela justiça) de qualquer contato com os filhos.
"Debates que dizem respeito à sap vêm brotando entre psicoterapeutas e no meio jurídico brasileiro"
Infelizmente, os expedientes colocados em prática por alienadores para conseguir seus intentos extrapolam qualquer limite do bom-senso e são lançados em detrimento das comprovadas consequências nocivas para as crianças, como atesta a jornalista Karla Mendes, vítima da alienação. "Meu pai e minha mãe se separaram quando eu tinha 2 anos de idade e cresci ouvindo-a falar coisas horrorosas a respeito dele: que havia nos abandonado e que, inclusive, tentava agredi-la fisicamente. Passei toda a infância e adolescência vivendo uma farsa".
A jornalista explica que só foi retomar o contato com o pai e tomar consciência do processo da alienação quando saiu da casa da mãe, aos 19 anos. "Descobri que todas as histórias que ela havia me contado sobre ele e sua família nunca existiram. É muito doloroso saber que você foi obrigada a odiar uma pessoa e se sentir a filha de um 'monstro'. Eu sofria muito, inclusive por acreditar que herdaria geneticamente coisas dele". Karla explica que durante anos foi torturada terrivelmente pelos seus próprios questionamentos sobre a ausência do pai. "Sentia muita raiva, queria saber o porquê de ter nascido filha de uma pessoa como aquela. Tentava entender o que eu havia feito para ele fazer isso comigo. Era um sentimento muito conflituoso, pois, ao mesmo tempo em que queria um afastamento total, sentia um vazio de não ter um pai de verdade."
Para sempre
Especialista na questão da SAP, a psicanalista e mediadora forense Tamara Dias Brockhausen explica que a síndrome deixa marcas por toda a vida afetiva do indivíduo. "Atendo casos de crianças em que os pais estão em litígio. Às vezes, elas parecem absolutamente normais, mas por dentro estão devastadas. O saudável na infância é que se conviva com os dois genitores, até para ter dois modelos e duas referências."
A psicóloga Denise Maria Perissini, que há muitos anos também estuda o assunto, aponta ainda outro aspecto prejudicial que observa constantemente no seu consultório. "Percebo que as pessoas que passaram por esse processo na infância não conseguem desenvolver vínculos afetivos duradouros. Isso porque, geralmente, possuem uma tendência a desenvolver uma grande intolerância às frustrações". Estudos indicam que indivíduos que sofreram da Síndrome da Alienação Parental podem ser mais propensos à depressão, suicídio, envolvimento com drogas e violência.
Atenção global
O site internacional PAS Kids (Síndrome da Alienação Parental Infantil, em tradução livre) traz artigos detalhados sobre os tipos de alienadores. O obsessivo, por exemplo, é considerado o mais perigoso, e pode chegar a fantasiar sérias situações, como abuso sexual, agressão física e moral, não se importando com a saúde mental da criança envolvida. Além disso, o site traz uma detalhada lista de comportamentos de risco de um alienador como, por exemplo, o abuso de álcool e atitudes violentas perto da criança. O site também alerta para os sinais vindos da criança, como atraso para voltar do encontro com o genitor, a recusa em querer se encontrar com algum dos pais, entre outros. Visite http://www.paskids.com. Todo conteúdo está em inglês.
Ainda que tenha retomado seu relacionamento com o pai, Karla Mendes revela: "sempre fica um buraco muito grande. Penso naquele sofrimento todo e como tudo poderia ter sido diferente. A sensação de ter sido rejeitada é muito dolorosa. Ainda mais sabendo que, na realidade, isto nunca aconteceu".
No Brasil, assim como na maioria dos países, no caso de uma separação, uma esmagadora maioria de decisões judiciais determina a genitora como a guardiã do filho, o que explica no caso da SAP, a quantidade de casos relatados, nos quais a mãe se transforma no agente alienador. Porém, não são raros os casos de pais, tios, tias, avós ou padrastos, assumindo consciente ou inconscientemente o papel de alienador. "Existe também a reação passiva da alienação.
Alguns familiares percebem as atitudes insensatas do alienador, mas têm medo de interferir, porque temem virar alvo de sua ira", acrescenta Denise Perissini. "A alienação parental é um recurso que o indivíduo utiliza para induzir a criança a mudar a percepção dela em relação ao seu genitor. Porém, podemos dizer que este recurso só atinge o objetivo quando a criança passa a contribuir para agravar a situação e aí sim, se caracteriza a síndrome, que vem acompanhada de um conjunto de sintomas, entre eles as mudanças de afetos e a capacidade de exprimir emoções falsas", ressalta.
As razões que levam alguém a se colocar como alienador são inúmeras, entre elas, inconformismo em relação à separação e/ou pelo sucesso do ex-cônjuge em reconstruir uma nova relação, não concordar com os termos de divisão de bens ou da guarda, ciúmes, vingança ou mesmo sofrer de psicopatologias.
O alienador
Muitos casos de alienação seguem um padrão recorrente, como observa Denise Perissini. "Na etapa inicial da SAP a criança ainda gosta do genitor alienado e sente vontade de conviver com ele e com sua família, mas já começa a absorver as mensagens pejorativas que o genitor alienante emite". O nível intermediário, de acordo com a observação da psicoterapeuta, seria aquele em que a criança ainda tem um laço afetivo com o genitor, porém ao absorver os sentimentos do outro, acaba desenvolvendo uma ambivalência em relação aos afetos. "Ela começa a evitar o contato com genitor alienado. A criança já não faz questão de ficar com ele e passa a arrumar compromissos para fugir dos encontros".
Na etapa mais avançada e grave, a criança acaba desenvolvendo aversão a ele. Este doloroso processo vem sendo vivenciado pelo professor O.M., que há 18 meses não tem contato com a filha. "Eu e minha mulher nos divorciamos depois de quase duas décadas de casamento. Na época, nossa menina tinha 8 anos de idade. Ao assinar os documentos da separação, fiquei preocupado com uma das cláusulas do acordo que indicava que eu teria direito às visitas somente a cada 15 dias".
De acordo com o relato do professor, sua ex-mulher o tranquilizou garantindo que aquilo era puramente pro forma e que, sabendo de sua ligação com a menina, nunca o impediria de ver a criança a hora que fosse. O.M. acredita, no entanto, que o fato de ter começado um novo relacionamento após a separação, do qual a ex-esposa tomou conhecimento, pode ter influído no que estava por acontecer. "Sempre buscava minha filha na escola e almoçava com ela. Um dia minha ex-mulher pediu que devolvesse as chaves da casa e começou a exigir que eu tocasse a campainha quando fosse lá".
Aos poucos começou a sentir uma mudança no comportamento da filha também. "Uma vez fui passear com ela e minha ex-esposa exigiu que ela estivesse acompanhada da avó materna. Tentei dar a mão para ela, que se agarrou em minha ex-sogra. Pouco tempo depois desse acontecimento minha filha não queria mais sair comigo. As visitas se restringiam ao portão da casa". O professor explica que todas as formas de comunicação com a filha foram ficando cada vez mais difíceis. "Primeiro ela começou a não responder mais minhas perguntas e, depois, eu não conseguia ter nem mais contato telefônico com ela. Um dia, convidei-a para irmos até uma lanchonete e ela disse que não podia.
A partir daí percebi que algo realmente sério estava acontecendo, pois ela não falava mais 'não quero', e sim 'não posso'". Após insistir no seu direito de ter contatos com a criança, O.M. foi surpreendido com uma grave acusação. "Um dia liguei e me avisaram que eu só poderia falar com minha filha ou minha ex-mulher por meio de advogados. Tentei fazer valer pelo menos o que estava escrito no papel da separação, que me dava direito de visitá-la a cada 15 dias. O advogado dela disse que era melhor eu não vê-la porque existia uma acusação de abuso sexual contra mim". Aturdido, O.M. soube que sua ex-mulher fez um boletim de ocorrência dizendo que ele abusava sexualmente da criança desde os 2 anos de idade. "Recebi um documento nãode destituição de poder familiar, visando a me eliminar legalmente como pai da minha filha. Além do boletim de ocorrência, havia uma acusação de abuso na Vara da Família. Fiquei completamente perplexo."
Gritos no silêncio
Não é raro acontecerem em casos de Síndrome de Alienação Parental falsas acusações de agressão física ou mesmo abuso sexual do alienado para com as crianças. A gravidade de tais denúncias, se comprovadas suas falsidades, revelam a que estaria disposto um alienador mesmo sabendo do risco que envolve a saúde mental da criança.
A advogada Sandra Vilela explica que, no Brasil, não existem estatísticas oficiais de quantas acusações de abuso sexual contra crianças são falsas nos casos de litígio familiar, mas revela um fato preocupante: "recentemente o fórum de Santana, na zona norte de São Paulo, registrou tantas denúncias nesses moldes vinculadas a processos de separação que as autoridades pediram que o Tribunal de Justiça indicasse um psicólogo para dar uma palestra sobre a SAP".
A psicoterapeuta Andréia Calçada, apontada como uma das maiores autoridades do País no que se refere a avaliações de acusações de abuso sexual contra crianças, revela como deveria ser feito o laudo que vai orientar a justiça na ponderação de cada caso: "é preciso avaliar todos os aspectos que cercam o suposto abuso. É importante colhermos dados de como, quando e onde surgiu a acusação, se existe em torno dessa denúncia brigas por guarda, visitação, por bens. É necessário avaliar, também, o histórico do relacionamento do casal e da família, como a criança se inseria dentro deste contexto e como ficou o relacionamento do casal após a separação".
Um erro apontado pela psicóloga é justamente o de não colher estes dados e focar apenas no relato da criança. "Muitas vezes os profissionais que fazem esta avaliação utilizam abordagens muito direcionadas apenas às crianças. São perguntas muito fechadas, às quais a criança acaba respondendo aquilo a que foi induzida a responder". Autora de dois livros sobre o tema, Falsas Acusações de Abuso Sexual O Outro lado da História e Falsas Acusações de Abuso Sexual e a Implantação de Falsas Memórias, a psicóloga destaca um dado importante sobre o colhimento do depoimento de uma criança que está sendo vítima da SAP: "quando existe uma acusação de abuso, o relato da criança sobre o que aconteceu tende a ficar repetitivo. Ao repetir a história para delegado, psicólogo e outros profissionais, começa automaticamente a gerar falsas memórias e ela mesma passa a acreditar naquilo".
A advogada e psicóloga Alexandra Ulmann vem tendo atuação destacada em casos de litígios familiares que envolvem a SAP no Rio de Janeiro. Há algum tempo, conseguiu desacreditar uma avaliação de um psicólogo num suposto caso de abuso sexual de um pai contra seu filho.
O caso citado exemplifica como algumas variáveis - entre elas a sobrecarga que afeta o sistema judiciário brasileiro e o despreparo de alguns dos profissionais envolvidos nas avaliações - podem beneficiar uma das partes em litígio, em detrimento do bem-estar da criança. "Percebi que o laudo falava algo que não batia com a realidade dos sintomas apresentados e, ainda assim, concluía que havia indícios de abuso sexual. A juíza não percebeu a incoerência, pois não tendo tempo hábil para ler o laudo inteiro, só leu a conclusão". Após apontar as contradições do documento, a advogada conseguiu que a juíza reconsiderasse a sentença. "Posteriormente, a própria mãe confessou que chegou até a falsificar um desenho da criança. Já o psicólogo se justificou dizendo que acabou se enganando na hora de imprimir o documento, anexando a descrição de um caso à conclusão de outro."
"A aceitação da existência da SAP é algo que a sociedade brasileira está vivenciando com 20 anos de atraso"
Para a psicanalista Tamara Dias Brockhausen, alguns psicólogos concursados nem sempre reúnem condições técnicas para trabalhar em casos tão delicados: "muitos não têm a especialidade clínica que permite um diferencial, uma firmeza e mais acuidade na avaliação".
Em relação à conduta dos advogados, Alexandra Ulmann observa: "quando alguns alienadores percebem que vão perder a causa, chegam ao extremo de fazer estas acusações de abuso sexual e o instrumento para se fazer isso é o advogado. Portanto, temos de tomar cuidado para sermos um instrumento do bem e não do mal. Temos de ter consciência de que estamos ali não para ganhar a causa, mas para contribuir da melhor forma para solucionar um problema da criança".
De acordo com sua experiência, Andréia Calçada observa que, em muitos casos, nem o fato de muitos alienadores estarem cientes de como isso pode afetar a estrutura psíquica da criança altera sua determinação em sustentar a farsa. "Verdade que alguns não têm consciência das terríveis consequências, mas observo que em muitos casos o desejo de vingança pesa mais do que o bem-estar do filho".
A lei
A psicanalista Tamara Dias Brockhausen ressalta que a aceitação da existência da Síndrome da Alienação Parental é algo que a sociedade brasileira está vivenciando com 20 anos de atraso em relação a outros países, como os Estados Unidos. "Percebo que mesmo dentro do meio jurídico ainda há discussão se a síndrome existe ou não. Como mediadora, digo que praticamente todos os casos que avaliei tinham alienação. A alienação tem a ver com o litígio. A questão é que isso pode caminhar para algo muito patológico."
Raiz do termo
Alan Richard Gardner foi um professor de psiquiatria clínica na Divisão de Psiquiatria Infantil da Universidade da Columbia de 1963. Foi ele que cunhou o termo Síndrome de Alienação Parental (SAP), em 1985. Publicou mais de 40 livros e 250 artigos. Gardner testemunhou como perito em muitos casos de detenção nos EUA e foi defensor de pais na batalha prisional, especialmente os acusados de abuso infantil. Em um de seus livros, fala sobre as etapas da alienação - leve, moderada, grave - e sobre o impacto destrutivo sofrido por uma criança alienada. Descreve também os três tipos de alienadores: o ingênuo, o ativo e o obcecado.
A psicoterapeuta acredita que a aprovação da lei que regulamenta a guarda compartilhada, em maio de 2008, tende a chamar mais a atenção da sociedade para a SAP. Observa, ainda, que o fato de nas últimas décadas a relação do homem com os filhos ter se estreitado, também vai contribuir para um novo olhar sobre a questão. "Hoje existe muito mais envolvimento, a ponto de surgirem movimentos políticos de pais ativos, que lutam para terem contato com os filhos, para não serem impedidos de vê-los, para que as visitas sejam estendidas e para não serem relegados a simples pais provedores."
Se muitos advogados e psicólogos ainda têm um conhecimento superficial, ou nulo, sobre a SAP, pode-se dizer que o mesmo ocorre com o Poder Judiciário. Sobre isso, o desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, Caetano Lagrasta Neto afirma: "em muitos casos, o Judiciário tem servido como esteio do alienador. Lá, o alienador é amparado na sua doença, na perseguição ao outro e no estragar a vida da criança". Para o desembargador, bastaria uma maior acuidade na apreciação de cada caso para que muitas injustiças fossem evitadas: "o que os juízes precisam fazer é aplicar a Constituição. Existe uma diferença entre se aplicar o princípio constitucional e a lei. O juiz geralmente é extremamente formal e conservador e dificilmente temos decisões que ultrapassem aquilo que a lei determina".
Tamara Brockhausen complementa: "já vi alienações serem desinstaladas imediatamente pelo simples fato de o juiz perceber o jogo do alienador e mostrar que as punições acontecerão em caso de não haver mudanças de comportamento do guardião".
Para o desembargador Lagrasta, o desconhecimento da matéria é um complicador muito grande no trabalho de quem está julgando casos litigiosos que envolvem a guarda de crianças. "Infelizmente, ainda não há um estudo específico sobre o tema; o que existe é um esforço individual no que se refere às informações sobre a SAP. Nos julgamentos que faço, sempre levo em consideração sua existência. Seria muito importante existir uma especialização sobre o tópico."
"Existe uma diferença entre se aplicar o princípio constitucional e a lei. O juiz geralmente é extremamente formal"
O projeto de Lei 4053/2008, do deputado Regis de Oliveira e idealizado pelo Juiz do Trabalho Elizio Luiz Perez, que foi aprovado por unanimidade em Julho deste ano na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados, diz respeito especificamente à Síndrome de Alienação Parental e determina que, entre outras medidas referentes ao tema, todo psicólogo designado para avaliações precisa comprovar ser conhecedor da existência da Síndrome. Outro ponto do texto diz respeito especificamente a uma das maiores queixas dos genitores alienados: a impunidade de quem comete a alienação.
De acordo com o projeto, as punições passariam a ser imputadas de forma expressa para o caso da desobediência das ordens judiciais cometidas pelos alienadores. "No texto, tomamos muito cuidado para demonstrar que qualquer atitude que faça que a criança seja afastada de um dos genitores merece ser punida, independentemente se a chamamos de síndrome ou não", explica a advogada Sandra Vilela, uma das redatoras do projeto. "Para mim, esse artigo que declara espécies de punição ao alienador é o mais importante", observa o desembargador, que compartilha com a advogada Sandra Vilela da opinião que, com ou sem lei, a punição pode ser aplicada a qualquer momento pelo juiz, quando percebe uma conduta alienante.
Fernando Savaglia
Picture by Leonardo da Vinci
22 de set. de 2009
Uma em cada cinco mulheres não atinge orgasmo
Uma em cada cinco mulheres não chega ao orgasmo durante as relações sexuais. Esse é o resultado de um levantamento da Secretaria de Estado da Saúde no Centro de Referência e Especialização em Sexologia (Cresex), do Hospital Estadual Pérola Byington, em São Paulo. Segundo o estudo, a maioria dos distúrbios sexuais é tem origem psicológica, social ou cultural. Somente 13% das pacientes têm problemas orgânicos, como alterações hormonais ou transtornos provocados por patologias do corpo.
A pesquisa feita com base em 455 atendimentos realizados no hospital, entre 2007 e 2008, revelou que 48,5% das mulheres sofriam de distúrbio do desejo sexual hipoativo (falta de interesse sexual). Do total de pacientes, 18,2% recebeu diagnóstico de anorgasmia (falta de orgasmo) e outras 5,2%, de inibição sexual generalizada. Entre as principais queixas estão dor durante o coito (10%), sentimento de inadequação sexual (4,9%) e falta de excitação (2%).
Consciência corporal
É possível aumentar a consciência sobre o próprio corpo e, com base nisso, conseguir mais harmonia com ele?
No tempo que passou em Milão, Leonardo da Vinci aproveitou para, além de produzir arte e artefatos de engenharia, estudar anatomia. Como era protegido pelo príncipe Sforza, espécie de dono da cidade, tinha alguns privilégios, entre eles o de dissecar cadáveres, para o desespero da Igreja medieval. Seus milhares de desenhos do corpo humano se transformaram no primeiro tratado de anatomia.
Leonardo tinha especial atração pelos músculos e sua relação com os ossos e órgãos dos sentidos. Uma de suas observações, genial para a época, é que o cérebro percebe o exterior através de órgãos especiais que permitem a visão, a audição, a olfação, a gustação e o tato, mas também é capaz de perceber o interior, o próprio corpo, através de uma espécie de “sentido para dentro”. O gênio da Renascença tinha razão. Hoje sabemos que os músculos, as articulações e os órgãos internos informam o cérebro sobre suas condições através de corpúsculos e nervos, como se houvesse um sentido especial, só que voltado para o interior do corpo.
Graças a isso, somos avisados de alguma dor ou desconforto. Claro, o corpo dá seus alertas, defende-se. E, da mesma forma, nos passa sensações de prazer, de bem-estar. Você nunca sentiu uma sensação de cansaço, como se seu corpo estivesse de mal com você? Claro que sim, mas, em compensação, também experimentou aquele estado de prazer proporcionado por um corpo harmônico e saudável. Coloque a revista no colo um instante, jogue seus braços para cima, agarre o pulso esquerdo com a outra mão e curve seu tronco ligeiramente para a direita. Segure- se nessa posição por apenas um instante e depois repita do outro lado. Pronto. Agora desça seus braços devagar, sentindo a sensação maravilhosa provocada pela circulação sanguínea, que se refaz após o alongamento.
A consciência corporal nos dá um controle maior sobre nossas possibilidades e, claro, nossos limites. O corpo humano é uma maravilhosa estrutura em que tudo tem sentido. O complexo sistema de feixes musculares que permitem os movimentos fez Leonardo da Vinci acreditar na perfeição. Ele era tão entusiasta das potencialidades da musculatura humana que chegou a imaginar uma máquina de voar que se compunha simplesmente de asas iguais às das aves, que ele também estudou a esmero, como tudo o que fazia. Ele acreditava que seria suficiente dotar um homem dos apêndices que lhe faltavam para poder decolar, pois os músculos fariam o resto do trabalho.
Estava enganado, é claro, e abandonou o projeto quando percebeu a especificidade muscular das aves. Elas evoluíram para poder voar, nós não, simples assim. Leonardo aceitou as limitações quando aumentou a consciência sobre o próprio corpo e disse, depois, que a consciência serve exatamente para isto: dar a conhecer os alcances e os limites.
Sem consciência corporal não sabemos nem o que podemos nem o que devemos fazer. Deixamos de aproveitar o potencial do movimento, o prazer do alongamento, a sensação do relaxamento, o poder da força.
Como aumentar a sensação agradável que a consciência do corpo pode dar?
Não podemos esquecer nossas origens. Somos o resultado de um longo e lento processo de evolução, e ela se baseia no princípio da seleção natural. O que isso significa? Que somos descendentes dos mais aptos, daqueles que, de alguma forma, sobreviveram aos duros tempos da pré-história. E isso, acredite, não se fez apenas com boa intenção, e sim com competência orgânica. Sobreviveram os mais ágeis, rápidos, fortes. Nossos ancestrais foram verdadeiros atletas da modalidade “sobrevivência”.
Então, quando negamos a atividade física e adotamos o sedentarismo como uma opção de vida, estamos contrariando nossa genética. O corpo em movimento é natural, assim como o repouso é importante. O coração agradece o exercício aeróbio, dos quais o simples caminhar é o melhor. As articulações precisam da mobilidade, senão começam a travar. Os músculos pedem para fazer força, pois para isso foram criados. Aliás, com relação a estes, há uma regra simples: o que está tenso, relaxe; o que está encurtado, alongue; o que está flácido, fortaleça.
Minha amiga Luca é especialista nesse assunto, pois ela é uma osteopata – especialista no estudo dos músculos, dos ossos e da relação entre eles. O que ela faz exatamente? Ora, ela coloca o paciente no prumo. Acerta as equações entre os músculos, os ossos e as articulações, põe uma vértebra em cima da outra, devolvendo à coluna vertebral sua verdadeira função, a de dar equilíbrio e harmonia ao corpo, e dota seu paciente de uma postura elegante e movimentos fáceis e equilibrados.
Seus dedos parecem ter pequenos tubos de raios X nas pontas e suas mãos são como pinças e alavancas que levantam, alongam, puxam, repuxam, acertam e harmonizam nosso aparelho locomotor. Ela toca os grandes e os pequenos músculos, mexe nos adutores, abdutores, pronadores, supinadores e tantos outros com nomes engraçados, que ela vai falando às vezes em português, às vezes em inglês e às vezes em latim. “Agora teu latissimus dorsis está descolado”, diz com naturalidade. Pode ser que você nem sempre entenda o que ela diz, mas sai de sua maca sentindo-se mais reto, mais alto e com uma amplitude de movimentos que não se lembrava que tinha.
Luca é uma entusiasta da consciência corporal. Sua consulta é cheia de conselhos. “Sinta o giro de sua cabeça”, diz ela. “Perceba como seus ombros se projetam para a frente”, continua. “Diga- me o que você sente ao tentar alcançar seu pé”, ordena. Em uma hora de sessão, você migra da gratidão pela sensação de ter um corpo vivo ao ódio pela dor quase insuportável provocada por suas manobras firmes.
Ela é uma profissional que acredita que seu trabalho é uma missão e faz mais do que devolver ao paciente equilíbrio e movimentos. Aumenta a consciência corporal, a autoestima e a alegria de viver. Sobre essa missão complementar, certa vez ela me disse: “Como pode alguém ignorar seu próprio corpo? Viver sem se sentir é comer sem saber o sabor da comida”.
A ideia de cuidar do corpo não pode se transformar em uma ditadura da perfeição?
Muito cuidado nessa hora para não confundir o compromisso com a saúde com a obsessão com o corpo perfeito. Os veículos de comunicação, como as revistas de moda e de esporte, são frequentemente acusados de criar estereótipos e modelos inalcançáveis, mas eles são, na visão da professora Maria Teresa Santoro, da Universidade São Judas Tadeu e conhecedora da relação entre mídia e corpo, uma extensão do ser humano, no sentido em que recolhem informações do mundo social e as remodelam para transformar em linguagem de comunicação.
Em outras palavras, se, por um lado, as revistas criam modelos, por outro são “tradutores sociais” responsáveis por fazer uma releitura de conceitos, emoções e aspirações que estão implícitos na sociedade. Assim, não é a mídia a responsável pelos padrões estéticos, mas o próprio público, que acata com agrado consumir esses conceitos que circulam em mão dupla.
Mais um motivo para se investir de consciência corporal. Para não ser uma presa fácil de modismos e estereótipos, mas usá-los como base no que deve e no que não deve ser feito. Mas, mesmo com a diversidade de estudos e estudiosos sobre o caso, a problemática do corpo está longe de acabar – essa é só a ponta do mindinho.
Também é importante lembrar que grande parte desse conflito se dá pelo próprio ambiente em que vivemos, portanto temos que cuidar dele. O lugar pode não ter estímulos para a livre vazão de energia criada pela tensão e, com base nisso, gerar uma série de reações adversas: músculos crispados, respiração acelerada e uma paciência prestes a “furar o saco”. Esses são sintomas comuns de nosso organismo querendo nos alertar.
Desenvolver a consciência corporal ajudaria então a desenvolver as relações humanas?
Sem dúvida. Essa é a área de trabalho escolhida pelo médico ucraniano Wilhelm Reich, conhecido como o grande pai das terapias corporais no Ocidente. Reich teve uma vida conturbadíssima e polêmica. Foi fazendeiro, estudou direito antes de se formar em medicina, era judeu, negava o judaísmo e, mesmo assim, foi perseguido pelo nazismo. Foi discípulo de Freud, mas se afastou dele. Mudou para os Estados Unidos, onde divulgou suas idéias e acabou morrendo na prisão.
Vida conturbada à parte, Reich teve o mérito de colocar o corpo nas discussões sobre a psicologia humana. Ele acreditava que o homem teria costurado para si uma “capa invisível” e inconsciente para se proteger dos males externos, tornando o corpo um refletor direto da mente. Os músculos tensos, a boca retraída, a postura inclinada, o queixo projetado e os movimentos rijos, todo esse conjunto de aparências presumia o que ele chamou de “couraça muscular” e serviria para proteger o indivíduo portador de uma personalidade fragilizada.
Reich supôs que o ser humano tinha uma série de camadas, como as da Terra, que serviam para proteger seu “núcleo” de possíveis ameaças. Segundo ele, o indivíduo sedimentava crostas de vivências que se sobrepunham umas às outras com o decorrer do tempo. Esse envoltório ia se enrijecendo à medida que era necessário experienciar sensações desagradáveis, servindo também para acobertar sentimentos prazerosos que poderiam torná-lo presa fácil dentro do mato urbano.
Ele ainda considerava que toda a energia circulante do corpo passava obrigatoriamente por certos segmentos chamados de “anéis”, concentrados em sete regiões: pelve, abdômen, diafragma, tórax, pescoço, boca e olhos. Aliás, essas bolinhas cristalinas são os maiores receptores e irradiadores de energia do organismo – e não é à toa que os olhos são vistos até hoje como o grande reflexo da alma.
É, sim, possível se livrar das couraças reichianas e um dos caminhos é, como vimos, a ampliação da “consciência corporal”. Pode levar algum tempo, mas é muito bom fazer as pazes com o corpo e usá-lo como um belo caminho para a alma. Enquanto isso, use como inspiração estas palavras do escritor uruguaio Eduardo Galeano: “A Igreja diz: o corpo é uma culpa. A Ciência diz: o corpo é uma máquina. A publicidade diz: o corpo é um negócio. E o corpo diz: eu sou uma festa”.
Eugenio Mussak
20 de set. de 2009
A Loira e a Dinamite
O sujeito conhece uma loira na noite e logo a leva para o motel.
Já instalados no apartamento, ele tira a camisa, deixa o seu bíceps à mostra e diz:
- Isso são 80 kg de dinamite!
Mostra o abdômen e diz:
- 100 kg de dinamite!
Depois tira a bermuda, mostra as coxas e diz:
- 120 kg de dinamite!
Enfim ele tira a cueca samba-canção e a mulher sai correndo pelos corredores do motel, gritando :
- Evacuem o motel!!!!
O meu quarto está lotado de explosivo e o pavio é curto !!!
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