28 de fev. de 2010

O conforto de se viver na ignorância


Neste exato momento, muitos de nós desejaria não ter tido que saber sobre algum fato, seja lá o que for. 

Várias vezes, já me peguei pensando que tem coisas que é "melhor" a gente não saber. É que viver no território da ignorância não é nada mal. Pelo menos, até a gente descobrir que é ignorante. 

Aí, as coisas mudam de figura. Ou não. Veja que eu não estou me referindo somente ao aspecto educacional ou intelectual da ignorância, mas a tudo aquilo que, por mais comum e corriqueiro que possa parecer, nós ainda não sabemos. De fato, estou falando das pequenas ignorâncias do nosso dia-a-dia, daquelas ignoranciazinhas que, aparentemente, parecem não trazer nenhum problema ou consequência. Porque as grandes ignorâncias, aquelas que gritam na nossa cara, as supremas ignorâncias históricas, essas, a gente vai, mais cedo ou mais tarde, ter que reconhecer. 

Elas fazem parte de um grande e engenhoso processo de aprendizado e mudança. Mas a miudinhas, essas podem persistir absurdamente, durante anos, sem que a gente sequer se dê conta disso. Pode parecer que estou brincando ao citar este exemplo, mas é sério, e me serviu como exemplo, bem-humorado espero, durante uma aula ainda ontem, falando a um grupo de alunos. É sobre uma cena do sitcom The Big Bang Theory, onde o personagem Sheldon (magnificamente interpretado por Jim Parsons) está "tentando" jantar num restaurante chinês com dois dos seus três inseparáveis amigos. 

Por ser um gênio obsessivo-compulsivo, ao fazer o pedido dos quatro biscoitos da sorte de sempre, Sheldon diz que eles estão apenas em três e que isso vai ser um problema, pois não é assim que devia ser. O quarto amigo faz muita falta, porque vai sobrar um biscoitinho! Os outros dois sugerem outras opções do cardápio, mas, é lógico, nada dá certo. 

Até que o dono do restaurante, um "chinês" nascido em Sacramento, na Califórnia, que não aceita substituições e nem reduções nas quantidades (a porção de quatro biscoitos é de quatro biscoitos e ponto final), sugere que pode deixar cair um dos biscoitinhos sem querer, como se fosse um acidente, para que eles possam ficar apenas com três. Os outros dois, mortos de fome e querendo acabar logo com aquilo, acham a idéia ótima, mas Sheldon diz que não vai dar, que é tarde demais pra fazer isso. 

Todos perguntam por quê e ele responde: - Porque agora eu sei! Esses pequenos jeitinhos que arranjamos para fazermos de conta que não sabemos aquilo que sabemos é comum na vida de todos nós, porque parecem inofensivos e até inocentes. São quase uma polida maneira dissimulada de ser e de viver. Fazer vistas grossas é um ditado antigo, mas que me parece bem apropriado para definir situações em que a gente sabe, mas faz de conta que não sabe. A gente tem consciência da "coisa", mas finje que é ignorante. Afinal, muitas vezes, é mais confortável se viver na ignorância. Boas reflexões!
Rosana Biondillo 
Picture by Regina Y Schwingel

Os últimos primeiros

Na sociedade contemporânea é considerado o mais inteligente, equivocadamente o mais sábio, quem sabe enfrentar desafios de forma a vencê-los com o menor desgaste e a obter para si poder, dinheiro e honras. Não interessa se já está cheio disso. O homem é um insaciável sumidouro de vaidades que se alimenta de admiração, mais frequentemente da inveja, que consegue provocar. A satisfação para muitos está no fato de os outros saberem que ele conseguiu o que os demais gostariam de conseguir. Dessa forma, a conquista passa a ter valor não em si mesma, mas na reação que provoca em volta e se reflete em quem a emana. É comum ouvir a expressão carregada de (vã) satisfação: "Ficaram de boca aberta" ou "com água na boca". Afinal, a realização não foi perseguida dentro do autor na forma de paz, cessação de inquietude, elevação espiritual, iluminação, êxtase e outros estados identificáveis com a felicidade interior; concentrou-se mesmo no tamanho da reação de sentidos desmedidos, alheios, muitas vezes de emanações cavernosas do humor. Segundo um tibetano, "A qualidade da sabedoria sempre foi e ainda será durante muito tempo negada a quem busca a riqueza com o propósito de usá-la para satisfazer vaidades e ganhos materiais". Os adoradores do ouro não conseguem compreender esse teorema tibetano e qualificam como sonhos de loucos os esforços de elevação que se realizam em silêncio e perfumadamente como o desabrochar de uma flor. Ao jovem, o pai ensina e a sociedade impõe, como procedimento exemplar, agir para tirar vantagem visando acumular riqueza exterior - pouco interessa se transgredindo a consciência. O ser humano que ingenuamente manifesta de público o desejo de perseguir apenas um enriquecimento espiritual levanta desconfianças, é barrado nos ambientes "tradicionais", é menosprezado, com frequência expulso como mau exemplo pela própria família quando não é considerado clinicamente maluco. Na sociedade não encontra espaço nem tranquilidade. Precisa ficar quieto, por vez subir a montanha ou se refugiar num claustro para não acabar marginalizado como mau exemplo ou preso no meio de desajustados. Os vencedores da atualidade acabam sendo os mais fortes e astutos como no reino animal. São aqueles que fazem do semelhante um alimento ou lenha para ser queimada na fogueira de vaidades abjetas. Para esses mitos modernos, depredar a natureza, canibalizar o próprio semelhante, rasgar a ética são regras de um jogo para conquistar um patrimônio material do qual forçosamente terão que se separar. Os outros, considerados malucos, voltados para a riqueza interior e para a sabedoria, dotes que não se separarão de suas almas, devem se contentar, como revelou o Mestre, em ser considerados os últimos para merecer, em outro reino, ser os primeiros. Vittorio Medioli

Preconceito: Fonte de injustiças e máscara do egocentrismo


Neste início do século 21, a humanidade apresenta características culturais e sociais que são, em grande parte, o produto de uma longa acumulação histórica, mas que, em certos aspectos, são o reflexo de mudanças recentes, ocorridas no final do século 20, tanto no plano das relações entre os povos quanto no dos avanços tecnológicos muito significativos que passaram a influir consideravelmente sobre as relações humanas.

No plano dos fatores políticos, até a última década do século passado, dois sistemas políticos apareciam como opções únicas e inevitáveis – de um lado, o capitalismo individualista e economicista, constituindo um campo específico liderado pelos Estados Unidos; de outro lado, em frontal oposição, o socialismo soviético estatizante e dirigista, liderado pela União Soviética. Entretanto, esse dualismo foi completamente superado pelos acontecimentos, tendo ocorrido a eliminação das rigorosas barreiras que dividiam o mundo entre os dois sistemas. 

Desse modo, terminou a chamada “guerra fria”, que mantinha o mundo em tensão permanente, sem que tenha ocorrido a vitória de um dos dois líderes. Com essa distensão, verificou-se, imediatamente, intenso movimento migratório de trabalhadores rumo aos centros mais ricos e industrializados. Isso ocorreu, e continua ocorrendo, em várias partes do mundo. Da África e de algumas partes de Ásia teve início uma intensa migração para países europeus, sobretudo para os antigos colonizadores, como França e Inglaterra, mas também para outros que têm um parque industrial desenvolvido, como a Itália.

Na América Latina, isso vem ocorrendo com grande intensidade rumo ao Brasil, que vem sendo procurado por migrantes de países vizinhos e também oriundos de outras partes do mundo. Em grande número de casos, essas migrações ocorrem sem qualquer cuidado com a legalidade da movimentação e com a obtenção de condições legais para permanência e estabelecimento de relações de trabalho no país para o qual se deslocaram. A consequência disso foi a formação de enormes contingentes de migrantes e trabalhadores ilegais. Uma das peculiaridades das reações contra esses migrantes tem sido o desenvolvimento de fortes preconceitos. 

A par da competição pelos postos de trabalho existe também o temor de violências desencadeadas pela fome e pelo desespero. E, assim, tanto nas camadas sociais mais modestas dos países procurados pelos migrantes quanto nas camadas mais ricas vem sendo frequente a ocorrência de repressão violenta aos migrantes.

Assim, por exemplo, na Itália foi posta em vigor uma lei obrigando os médicos a denunciarem às autoridades um doente sob seus cuidados que esteja ilegalmente no país, para início imediato do processo de expulsão, não importando as condições de saúde do paciente, considerando-se crime a omissão do médico em fazer essa denúncia. Na França, recentemente, um jovem negro foi preso por vigilantes de um supermercado, acusado de ter furtado uma lata de cerveja. O jovem não tinha documentos, pois estava ilegalmente no país, e valendo-se da impossibilidade de defesa do jovem, que não poderia, sequer, recorrer às autoridades por causa de sua situação ilegal, quatro vigilantes o espancaram com tal violência que ele acabou morrendo no próprio local em que tinha sido preso.
Tanto no caso da Itália quanto no da França ficou evidente a motivação preconceituosa, racista e discriminadora, que tem sido também evidenciada em fatos frequentes de natureza semelhante que vêm ocorrendo na Alemanha e na Inglaterra
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Paralelamente a isso, outro tipo de preconceito, também gerador de discriminações e outras formas de violência, tornou-se muito agudo ultimamente. No mesmo quadro de distensões que se estabeleceu com o fim da guerra fria, vem ocorrendo também uma liberação quanto a outros fatores tradicionais de discriminação, como as relações homossexuais, que evoluíram para o reconhecimento de relações homoafetivas. Também nesse caso existe agora uma situação nova, sendo bem significativo o fato de que em muitos países já se estabeleceu o reconhecimento legal de casamentos de pessoas do mesmo sexo, o que teve início na Dinamarca, que legalizou esse tipo de união em 1989. Acompanhando essa evolução e com o mesmo espírito de abertura, os meios de comunicação vêm dando ênfase a eventos centrados na particularidade do relacionamento homossexual, como congressos, desfiles e outras manifestações coletivas. ambém nesse caso existe agora uma situação nova, sendo bem significativo o fato de que em muitos países já se estabeleceu o reconhecimento legal de casamentos de pessoas do mesmo sexo, o que teve início na Dinamarca, que legalizou esse tipo de união em 1989. 

Acompanhando essa evolução e com o mesmo espírito de abertura, os meios de comunicação vêm dando ênfase a eventos centrados na particularidade do relacionamento homossexual, como congressos, desfiles e outras manifestações coletivas. Entretanto, o que se tem visto é que também nesse caso a liberação tem provocado uma contrapartida violenta, não das sociedades como um todo ou de entidades de grande prestígio social, mas de grupos absolutamente preconceituosos e intolerantes, que agem violentamente contra essa nova situação, chegando mesmo a matar homossexuais, tão só por essa condição. É o preconceito exacerbado, que não respeita o ser humano nem seus direitos fundamentais, inclusive o direito à desigualdade. Do ponto de vista de sua origem, de sua etimologia, a palavra preconceito significa pré-julgamento, ou seja, ter ideia firmada sobre alguma coisa que ainda não se conhece, ter uma conclusão antes de qualquer análise imparcial e cuidadosa. Na prática, a palavra preconceito foi consagrada como um pré-julgamento negativo a respeito de uma pessoa ou de alguma coisa. Ter preconceito ou ser preconceituoso significa ter uma opinião negativa antes de conhecer o suficiente ou de obter os elementos necessários para um julgamento imparcial.

Com base nesses elementos, pode-se estabelecer, para mais fácil e precisa compreensão da análise de aspectos particulares, o seguinte conceito: “Preconceito é a opinião, geralmente negativa, que se tem a respeito de uma pessoa, de uma etnia, de um grupo social, de uma cultura ou manifestação cultural, de uma ideia, de uma teoria ou de alguma coisa, antes de conhecer os elementos que seriam necessários para um julgamento imparcial”. Um ponto que merece especial atenção é a verificação dos mecanismos do preconceito. É muito raro que alguém reconheça que tem posição preconceituosa em relação a alguma coisa. Muitas vezes, o preconceituoso não percebe que age dessa forma, pois, como adverte, em várias passagens de sua obra, o notável mestre Goffredo Telles Júnior, o preconceito geralmente atua de forma sutil, sinuosa, levando uma pessoa a tomar como premissa, como ponto de partida, aquilo que deseja que seja a conclusão.

Mas existem casos em que o preconceito se afirma de modo direto e radical, não deixando qualquer dúvida quanto à sua presença, pois o preconceituoso expõe abertamente os seus preconceitos, às vezes até com orgulho e arrogância, como se estivesse afirmando uma superioridade que ninguém pode por em dúvida. Essa forma de atuação do preconceito, aberta e extremada, torna mais fácil a identificação da ação preconceituosa e, portanto, a resistência a ela.

Aparentemente o indivíduo preconceituoso dessa espécie é mais nocivo, mas na realidade o maior risco está na atuação disfarçada, sinuosa, que se esconde atrás de uma fachada de neutralidade, objetividade e respeito igual por todos os seres humanos. O preconceituoso disfarçado tenta enganar e procura justificar seus atos com argumentos respeitáveis. Desse modo, cria-se uma base, aparentemente racional e eticamente aceitável, para a intolerância e as discriminações, pois o preconceituoso simula a necessidade de defender-se, e de defender a sociedade, dos “maus e inferiores”, que não devem ter os mesmos direitos e as mesmas oportunidades assegurados aos “bons e superiores”, para que a “boa sociedade”, as “pessoas direitas” fiquem protegidas. Em conclusão, o preconceito, que frequentemente serve como pretexto para a prática de injustiças, não tem justificativa moral nem jurídica e é essencialmente mau e pernicioso. 

O preconceito estabelece a desigualdade entre as pessoas, sacrifica valores fundamentais, é usado para justificar agressões à dignidade humana e, por isso tudo, é expressão de uma perversão moral que deve ser, incansavelmente, denunciada e combatida. O preconceito agride valores e direitos essenciais das pessoas e por isso é necessário criar barreiras às suas investidas. Ele é expressão de desrespeito pela igualdade essencial de todos os seres humanos, igualdade que não se confunde com a exigência de padronização de comportamentos e não conflita com o reconhecimento e o respeito da diversidade que decorre das circunstâncias de cada um. Em defesa da dignidade humana, é necessário um esforço constante e determinado, que é responsabilidade de todos, para barrar a formação e as ações do preconceito e para que a tolerância seja a constante na convivência humana, em todas as circunstâncias. Em termos concretos e práticos, é necessário que a Constituição e as leis contenham normas que impeçam a presença e a interferência maléfica do preconceito e da intolerância. Mas, a par disso, é necessário ter consciência de que a existência de disposições legais, por si só, não é suficiente para que se atinja esse objetivo.

Não há dúvida de que é de grande valia colocar nas leis a proibição das ações preconceituosas e criar penalidades para quem agride a dignidade humana levado por preconceito, mas, acima de tudo, é preciso que no interior das consciências se estabeleça um firme compromisso com a defesa da dignidade humana e da igualdade essencial de todos os seres humanos.
Dalmo Dallari

27 de fev. de 2010

Há cura para os viciados em sexo?

É possível. Sendo sexo, nesse caso, não aquele que traz prazer físico e satisfação emocional, mas o que foge ao controle e provoca atitudes autodestrutivas Um acidente, uma mulher enfurecida e mais de dez amantes reveladas, tudo em menos tempo do que um torneio de golfe leva para começar e acabar, e o prodigioso campeão Tiger Woods, reputação jogada na lama, tomou o caminho mais natural nesses casos, pelo menos nos Estados Unidos: internou-se numa clínica de reabilitação de viciados em sexo. Saiu, reencontrou a mulher, a sueca Elin Nordegren, e protagonizou um patético pedido de desculpas ao mundo inteirinho. "É difícil admitir, mas preciso de ajuda.
Durante 45 dias, do fim de dezembro ao começo de fevereiro, fiquei internado e recebi orientação sobre meus problemas. Ainda tenho um longo caminho a percorrer", declarou, antes de voltar para a clínica. É mais fácil saber como ele dava suas muitas escapadas do que ter detalhes do tratamento. Mas, à medida que essas clínicas vão ampliando sua clientela – existem hoje uns dez estabelecimentos que oferecem programas de rehab para sexo compulsivo nos Estados Unidos –, mais se conhece sobre os métodos de tratamento. Como saber se sexo faz mal é uma resposta que só pode ser dada por quem está prejudicando a própria vida a ponto de procurar ajuda terapêutica. Os métodos, em geral, consistem em meditação, terapia individual, de grupo e familiar (Elin tem participado de algumas sessões) e adesão a programas passo a passo. O mea-culpa de Woods foi justamente um desses passos. É tudo muito parecido com o sistema popularizado pelos Alcoólicos Anônimos. Especialistas calculam que de 2% a 3% da população mundial sofra de algum tipo de comportamento compulsivo em relação ao sexo, sendo 90% homens. No Brasil, onde não existem clínicas como as dos Estados Unidos, o Projeto Sexualidade (ProSex) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo é dos poucos a tratar de transtornos da sexualidade, entre eles a compulsão sexual – diagnóstico de pouco mais de 1% dos pacientes.
"O período crítico do tratamento dura em média um ano, com atendimento por psiquiatra, acompanhamento psicoterápico e reeducação sexual", explica a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do projeto. Outro serviço, gratuito e de frequência voluntária, é o Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (Dasa), que atua desde 1993 como a versão brasileira de uma adaptação dos Alcoólicos Anônimos criada há mais de trinta anos nos Estados Unidos. "Rico", pseudônimo usado pelo presidente da Dasa no Brasil, explica que as sessões são em grupo, para fortalecer o espírito de ajuda mútua, com programa de doze passos e discussão de experiências entre os participantes. No prospecto distribuído pela Pine Grove Behavioral Health & Addiction Services, a clínica no Mississippi onde Woods se internou (com cerca esticada por painéis de plástico preto para aumentar a privacidade), o programa Gentle Path, ou Caminho Suave, é específico para "ajudar homens e mulheres a se livrar de relações e comportamentos sexuais compulsivos". Quem se interna acorda às 6h30, vai para o quarto às 22h30 e tem um colega mais experiente em regime de acompanhamento permanente. Celular e laptop são proibidos, telefonemas e visitas controlados.
Namoros entre pacientes estão fora de cogitação e os quartos podem passar por revista a qualquer momento. Exigem-se sapato o tempo todo (chinelo, só dentro do quarto), camisa com manga e pijama para dormir. Televisão, só no centro comunitário e em horários e canais preestabelecidos. O programa completo custa quase 40 000 dólares. Durante o tratamento, o paciente tem de remexer em traumas passados, admitir que se permite pornografia, masturbação e outros atos sexuais, todos excessivamente ("Podemos não mudar o comportamento, mas estragamos o prazer", garante o especialista americano Rob Weiss), e descobrir estratégias para evitar recaídas – ou, como dizem, permanecer sóbrio. "A questão não é praticar a abstinência pelo resto da vida, mas aprender a reencontrar a felicidade no sexo", explica Benoit Denizet-Lewis, ex-compulsivo e autor de um livro sobre viciados em sexo. Antes de Woods, outros famosos internaram-se pelo mesmo motivo. O ator Michael Douglas passou temporada numa clínica no Arizona em 1990, quando ainda era casado com Diandra, e até hoje jura que foi por excesso de bebida. O casamento com a atriz Catherine Zeta-Jones parece ter resolvido o problema, não pelos motivos que todo mundo está pensando, mas pelo acordo pré-nupcial prevendo, em caso de divórcio, multa de 3 milhões de dólares para cada infidelidade dele que ela documentar.
Em 2008, depois de negar durante anos que tivesse problemas nesse departamento, o ator David Duchovny, da extinta série Arquivo X e da atual Californication, internou-se para tratar de sua compulsão e assim salvar o casamento com a atriz Téa Leoni. Já o abusadíssimo comediante inglês Russell Brand, hoje caidinho pela cantora Katy Perry, transformou os vícios em piada: publicou um livro contando suas passagens por rehabs tanto de drogas quanto de sexo. "Muita gente acha que é uma desculpa inventada para ajudar estrelas de Hollywood a não assumir a responsabilidade por seus excessos priápicos. Mas eu acredito nelas", disse sobre as clínicas para viciados em sexo. "Certo dia, tive de fazer uma lista das minhas vítimas, com os nomes de todas as mulheres que havia prejudicado com meu vício sexual. Eu me senti como Saddam Hussein tendo de escolher vítimas entre os curdos."
Revista Veja

Ser Mulher, ser feia, ser excluída


O que significa, para uma mulher, ser feia nos tempos atuais? 


Qual o preço pago, os sacrifícios impostos e os sofrimentos vividos? 


A quais práticas se submetem para escapar do “intolerável da feiúra?” 


“A gordura acabou com a minha vida” estampava a manchete do Jornal da Família, suplemento dominical do jornal 
O GLOBO, de 19/01/2003. 


Sabemos que, historicamente, a imagem de mulher se justapõe com a de beleza e, como segundo corolário, à de saúde (fertilidade) e juventude. 


A contemporaneidade, contudo, parece ter levado ao paroxismo tais representações, como veremos no decorrer de nosso trabalho. As imagens refletem corpos super trabalhados, sexuados, respondendo sempre ao desejo do outro ou corpos medicalizados, lutando contra o cansaço, contra o envelhecimento ou mesmo contra a constipação.


Implícita está a dinâmica perfeição/imperfeição, buscando atender aos mais antigos desejos do ser humano, conforme narram os mitos, os elixires e fontes de eterna juventude. Beleza exterior e saúde, aparência desagradável e doença, cada vez mais se associam como sinônimos, no tocante às representações do corpo feminino. A questão tradicional, aceitar ou não o corpo recebido parece transformar-se em – como mudar o corpo e até que ponto?

O corpo nos dizia Levi Strauss, é a melhor ferramenta para aferir a vida social de um povo. Ao corpo cabe algo muito além de ocupar um espaço no tempo. Cabe a ele uma linguagem que se institui antes daquilo que denominamos “falar”, que se exprime, evoca e suscita uma gama de marcas e falas implícitas. O corpo fala e as marcas nele feitas também. A questão estética se impõe como forma e fôrma e o que é belo pode vir a ser feio. Da mesma maneira, o belo pode instituir um padrão de feiúra. No fundo, vivemos no fio de uma navalha, fio este que tenuamente separa feiúra e beleza. 


O presente trabalho tem como objetivo investigar qual a relação existente entre a mulher e a beleza na contemporaneidade e qual o preço pago para “ser bela”. A feiúra, conforme demonstraremos a seguir, é uma das mais penosas formas de exclusão social na atualidade. Mas quais são as insígnias da feiúra? Acreditamos que significa não ter o corpo e a estética aceitos socialmente, ou seja: ser jovem, ser magro e ser saudável.

Buscamos também apontar como a imagem da mulher e do feminino continua associada à da beleza, havendo cada vez menos tolerância para os desvios nos padrões estéticos socialmente estabelecidos. Neste sentido, tomamos a gordura como o paradigma da feiúra e apontamos para os processos de exclusão vividos por aqueles que nela se enquadram. As falas que ilustram o trabalho, e que utilizaremos como epígrafes, referem-se à uma pesquisa realizada em 2001, sobre a qual falaremos mais adiante.

ESTÉTICA E EXPECTATIVAS SOCIAIS : O DEVER MORAL DE SER BELA

“Acho que a cultura atual preconiza que estejamos bem para poder expor ao máximo o corpo. Hoje em dia vale muito mais um braço sarado do que roupas caríssimas, e olha que eu posso dizer, pois já fui estilista.” Courtine (1995) evidencia, através de alguns exemplos históricos, o fascínio e o estado de corpolatria característico da sociedade em que vivemos. Segundo o autor esse processo remete-nos ao fato de que, em outros momentos históricos, a apreciação estética do corpo, se dava de uma forma menos fragmentada, na qual não estavam em jogo pedaços/recortes da anatomia humana, sendo valorizado um todo harmônico.

“A atração que Charles Atlas exercia sobre o público dos anos 20 centrava-se na visão do conjunto de uma pujança corporal harmoniosa; o sucesso de Jhonny Weismuller, nas salas de cinema dos anos 40, decorria da elegância “natural” de sua musculatura(...) 


A fascinação que o corpo de Schwarzenegger provoca sobre o grande público da telinha é de outra natureza: congelado numa luz crua, quase cirúrgica, o body-builder faz sobressair os mínimos detalhes de sua massa corporal. Estrias das fibras musculares, ramificações da rede vascular, palpitações de um tórax estufado: a imagem ideal do corpo que o body-builder de hoje configura é aquela dos corpos destinados aos estudos anatômicos”. 

É também preciso ressaltar que o controle exercido através da fiscalização de um olhar minucioso sobre a aparência e com o aval da ciência, contribui para regulamentar diferenças e determinar padrões estéticos em termos daquilo que é próprio e impróprio, adequado ou inadequado, normal ou anormal. Como bem sugere Durif, “o corpo torna-se álibi de sua própria imagem.”. Esse controle da aparência traduz-se não somente na atribuição de características estéticas, como investem-nas de julgamentos morais e significados sociais.

“Um professor disse que se eu emagrecesse me tratariam diferente. É claro que os caras não vão olhar para uma banhuda e sim para a saradona, mas as pessoas acham que se emagrecessem passariam a fumar Marlboro, andariam de BMW e os cabelos cresceriam louros.” (sic)

É interessante notar como os discursos que normatizam o corpo, sejam eles científico, tecnológico, publicitário, médico, estético, etc., vão, pouco à pouco, tomando conta da vida simbólica/subjetiva do sujeito. Nas palavras de Daniels, (1999): 


“As instâncias que normatizam o corpo invadem as dimensões expressivas e simbólicas da corporeidade, fornecendo imagens e informações que reconfiguram o próprio âmbito do vivido corporal. O leitor é sempre aquele que possui um conhecimento muito limitado e confuso de seu corpo”.

Com efeito, os cuidados físicos revelam-se, invariavelmente, como uma forma de estar preparado para enfrentar os julgamentos e expectativas sociais. Da mesma forma, todo o investimento destinado aos cuidados pessoais com a estética vincula-se à visibilidade social que o sujeito deseja atingir – evitar o olhar do outro ou à ele se expor está diretamente relacionado as qualidades estéticas do próprio corpo!

Segundo Malysse (1997), esforçamo-nos o ano todo com exercícios massacrantes para no verão termos a recompensa de poder ir à praia expor nosso corpo sem vergonha. Disciplinamos o corpo à freqüentar uma academia de ginástica a fim de que, as custas de muito suor e calorias perdidas, consigamos reconhecimento social e aprovação.

O prazer é, irreversivelmente, associado ao esforço, o sucesso à determinação, e a intensidade do esforço é claramente proporcional à angústia provocada pelo olhar do outro. Nada aqui é gratuito – tudo é obtido num sistema de regulação de trocas, seja ele dentro da lógica capitalista ou inserido no pensamento do sacrifício cristão.

Em um artigo intitulado “Os Stakhanovistas do Narcisismo”, Courtine (1995) discute o caráter hedonista, que muitos apontam na chamada cultura do corpo. Retraça a origem aos Estados Unidos, país onde as práticas sociais, sobretudo aquelas ligadas ao corpo, são mais evidentes e aponta para o caráter prescritivo das disciplinas corporais, herança do puritanismo e da cultura do “faça o melhor de si mesmo”. Para Courtine, “a pastoral do suor”, de inspiração puritana, foi uma as molas mestras do body building, com a crença de que a moralidade não é apenas uma questão só de piedade religiosa, mas também de forma e disciplina muscular.

De acordo com Durif, (1990) a imagem que as revistas oferecem para os leitores à respeito de seus próprios corpos, investe neste jogo de espelhos produzido entre o corpo e o olhar do outro, operando na construção da auto-estima e da auto-imagem, sendo: “tanto um eixo de construção como lugar de contradições inibidoras devido ao poder de coação social voltado para suas dimensões mentais, afetivas e sociais”.

Para Roland Barthes, (1982) a imagem corporal deve ser compreendida como uma resultante da influência que o ambiente exerce sobre o sujeito, num processo em que as representações corporais estão em constante transformação. Assim, nas palavras de Barthes: “meu corpo é para mim mesmo a imagem que eu creio que o outro tem deste corpo”.

Contudo, sua maior contribuição foi destacar que inúmeras táticas de sedução e intimidação são elaboradas como um reflexo da fragilidade e vulnerabilidade existentes na construção da própria imagem corporal. Tais estratégias são articuladas para darem conta da expectativa que supomos os outros terem sobre o nosso corpo. E é este aspecto tirânico das relações humanas com referência ao corpo, que justifica a constelação de atitudes negativas face à feiúra.

Aparentemente tratada como banal, a modelagem da boa aparência na verdade é investida de grande carga ideológica, fazendo com que a lógica do consumo permeie todos os investimentos estéticos.

Em recente pesquisa sobre as academias de ginástica da zona sul carioca observou-se, na fala das entrevistadas, o terror que a gordura provoca:

“Na cultura e na moda atual, infelizmente, conjugamos: roupas ínfimas com corpos secos, destituídos de qualquer gordura, para meu desespero, gordinhas não são apreciadas.” (sic)

“..conforme já disse, quando venho malhar e mantenho o meu peso ideal tá tudo azul, saio, me divirto, levo uma vida normal, quando não - é depressão na certa, não me relaciono nem com os meus filhos. Namorado então, nessas épocas, nem pensar!” (sic)
Como podemos observar, a ordem é cooptar tudo que desvie do padrão. E nada, na atualidade, é mais divergente do padrão do que a gordura – a exemplo do movimento negro, talvez fosse o caso de criarmos uma ação afirmativa para os gordos!

O DIFÍCIL PESO DA GORDURA:A DOR DA FEIÚRA 


“...se não saio para malhar, fico ociosa comendo em casa, conseqüentemente engordo e por fim deprimo. Nessas fases, nem acendo a luz porque não suporto a minha imagem horrorosa, caída, toda flácida no espelho.”

Em um interessante artigo que trata a obesidade como um fenômeno social com diversas representações, Fischler, tenta construir uma classificação dos estereótipos morais ligados aos obesos.

Uma das primeiras coisas assinaladas pelo autor é o caráter de ambigüidade que as representações sociais sobre a gordura assumem no imaginário atual. Damos aos obesos um tratamento contraditório e nele, reside um paradoxo importante a ser destacado: aos gordos, associamos estereótipos como simpatia e amabilidade, por outro lado, sua imagem inspira a lipofobia como um sintoma social. E é neste horror à gordura, que uma série de técnicas de emagrecimento são forjadas - avalizadas pelos discursos construídos nas malhas da cultura do fitness e do bodybuilding.
Na contemporaneidade, a obesidade assume a forma mais representativa de alijamento social. Com relação ao julgamento social sobre a gordura, chamamos a atenção para a mais interessante contribuição que o texto de Fischler (1995) nos oferece: a criação de dois tipos fundamentais de estereótipos morais referentes à obesidade.

Nesta classificação, o autor divide os obesos em dois grupos que variam de acordo com determinados padrões de comportamento e cujas denominações são as seguintes: obesos benignos e obesos malignos. No primeiro grupo, o autor enquadra o indivíduo de comportamento expansivo, extrovertido, brincalhão – o típico gordinho “boa praça”, que parece querer desculpar-se pela inadequação física compensando, tal fato, através da convivência agradável.

Já no segundo, figuram as pessoas que se negam a efetuar qualquer tipo de transação simbólica com vistas a serem socialmente aceitas. Frases do tipo: gordo tem obrigação de ser simpático, ilustram bem o que autor tenta demonstrar em seu argumento.

Ao que parece, as pessoas bonitas têm prerrogativas. Ao vermos uma pessoa muito bonita parecemos desculpar todo e qualquer tipo de defeito de caráter. Inversamente proporcionais aos comentários depreciativos em relação as pessoas gordas, são aqueles associados aos indivíduos de bela de aparência. Aos belos, tudo é desculpado e permitido, pois a beleza, em si, é a moeda de troca. Não havendo qualquer tipo de restituição simbólica que possa despertar a piedade alheia, os gordos pertencentes ao últipo grupo são mantidos excluídos, feito párias sociais, pois já não participam das regras do jogo social.

Não à toa, na sociedade contemporânea, os obesos são denominados “malignos” ou “malditos” – como no jocoso termo empregado por Fischler. Possuem também, um comportamento visto como depressivo e por isso, desprovido da obstinação necessária para a contenção de suas medidas corporais. Enfim, sua imagem demonstra um certo desânimo perante a vida e traduz fracasso no agenciamento do próprio corpo e dos seus limites.

Numa sociedade como a nossa, na qual o máximo da valoração social não reside na realização das ideologias/utopias, mas na realização dos projetos individuais – nada, então, mais antipático e que desperte menos solidariedade do que um indivíduo incapaz de empenhar-se no projeto pessoal da boa aparência.

Se, historicamente, as mulheres preocupavam-se com a sua beleza, hoje elas são responsáveis por ela. De dever social (se conseguir, melhor), a beleza tornou-se um dever moral (se quiser eu consigo). O fracasso, não se deve mais a uma impossibilidade mais ampla, mas a uma incapacidade individual.

Enquanto nos séculos passados podíamos culpar a natureza, na contemporaneidade, a negligência é a responsável e a culpa é individual. Segundo Baudrillard (1970) o que hoje podemos observar é a "moralização do corpo feminino", o que indica a passagem de uma estética para uma ética do corpo feminino.

Partindo, então, da premissa de que os imperativos estéticos são, simultaneamente, produzidos e reforçados por expectativas socialmente instituídas, é possível concluir-se que é a relação com a alteridade, ou seja, com o olhar do outro, que atribui uma avaliação demasiadamente depreciativa a respeito da imagem corporal que o sujeito constrói sobre si. Nota-se, contudo, que ao descrever a própria imagem, o indivíduo tende em querer desvencilhar-se dos adjetivos mais depreciativos, fazendo uso de eufemismos e diminutivos para mascarar sua real aparência.

É interessante notar a maneira peculiar e afetuosa, parecendo muitas vezes negar a realidade, como a maioria das mães de crianças obesas descrevem seus filhos – referem-se aos mesmos como gordinhos, cheinhos ou gulosos, enquanto na escola seus colegas utilizam-se de adjetivos agressivos e que denotam uma evidente depreciação moral: (balofo, hipopótamo, paquiderme, rolha de poço...) Usando este tipo de denominação, as mães parecem desculpar seus filhos perante a sociedade, que os encara como glutões e inadequados. É também através da adjetivação carregada de afeto que fornecem a valoração não encontrada socialmente.

Fischler (op.cit) sublinha, ainda, um outro tipo de julgamento moral que surge de forma recorrente no imaginário social. Nele, indagamo-nos se os gordos são vítimas do seu metabolismo e da sua carga genética ou, culpados por um comportamento transgressor com relação à comida. De acordo com a enquête feita pela autor, um número expressivo de pessoas atribuem aos obesos a responsabilidade por sua condição, ou seja, são considerados, simultaneamente, descontrolados e com uma voracidade desmedida. Embora, socialmente, compreendidos possuidores de uma espécie de compulsão, no caso da glutoneria, o sentimento moral de culpa e responsabilidade não lhes é aliviado.

Como bem aponta o autor, as categorias que representam a gordura, a magreza e a obesidade mantém-se, relativamente, estáveis ao longo dos séculos. Contudo, é preciso que estejamos atentos, pois são os critérios que determinam o limiar entre uma e outra, que sofrem grandes variações. Nas palavras do autor: ”era preciso sem dúvida, no passado, ser mais gordo do que hoje para ser julgado obeso e bem menos magro para ser considerado magro” (1995:79)

Em última análise, nota-se que na atualidade a tolerância para com a gordura diminuiu drasticamente, chegando, até mesmo, a ser enquadrada na forma de uma categoria de exclusão. Carregada de estereótipos depreciativos, a gordura dá lugar a magreza, que é, então, positivada e exaltada.

Assim, a mesma cultura que elege o corpo como lócus privilegiado dos investimentos individuais produz, simultaneamente, sujeitos lipofóbicos e o atual estado de corpolatria do qual somos todos testemunhas.

CONCLUSÃO

“Para mim é assim, acho que a gente não tem que conviver com aquilo que a gente não gosta, eu, por exemplo: não gostava do meu nariz - fiz plástica; achava que tinha uma bola nos quadris - lipoaspirei o culote; achava que tinha seios pequenos demais - virei Barbie, taquei silicone, não queria esperar o meu cabelo crescer - coloquei um Mega hair.”

Iniciamos nosso trabalho dizendo que o discurso do corpo fala das relações internas à sociedade. Palco privilegiado dos paradoxos e dos conflitos, o corpo como obra de arte é o corpo teatralizado, palco onde as palavras são encenadas. Tal qual nas cidades povoadas pelos murais e outdoors, uma nova forma de escritura se estabelece. O tamponamento do real, o horror da imperfeição e da finitude, nas palavras de Augras:

"A distância entre o modelo da revista e o reflexo no espelho também contribui para a dificuldade de integração. Não se trata apenas de conciliar senso de realidade e aspirações narcisistas. O que propõem as fotografias são corpos imaginários, abstratos e inatingíveis e, por assim dizer, eternos. Não são submetidos à dor, nem ao envelhecimento, ainda menos à morte..."

É numa sociedade globalizada, dividida entre ganhadores e perdedores e sem ideais, que os sujeitos entregam-se às compulsões. Nessa urgência, como aponta Mendlowicz (2000), qualquer espera equivale ao desespero, causado por uma enorme intolerância com aquilo que o atrapalhe em sua busca pela perfeição.

E nada mais distante da perfeição, na sociedade atual, do que a feiúra.
“O que não suporto é gente se lamuriando insatisfeito com o próprio corpo, mas que não faz nada a respeito. No meu caso, por exemplo, quando começar a sentir que tem algum excesso eu vou me cortar”. (sic)

As falas das entrevistadas, no estudo anteriormente mencionado, apontam claramente para os recursos, cada vez mais utilizados, em busca do corpo ideal. Se todas as culturas, de uma forma ou de outra, praticaram a modificação corporal, as práticas atuais, segundo Rodrigues, adquirem um caráter muito mais individualista e violento, no seu afã de questionar as relações natureza/cultura, homem/máquina.

Um bom exemplo, é o estatuto que a feiúra passou a ocupar na contemporaneidade, bem como suas novas representações. A feiúra, freqüentemente associada à gordura, sofre uma das maiores formas de discriminação nas sociedades que cultuam o corpo. Para eliminá-la, mitigá-la ou disfarçá-la, todos os esforços e sacrifícios serão dispendidos. Discriminação ostensiva, manifesta e sem culpa, ao contrário dos negros, pobres, gays ou qualquer outra minoria - discriminamos os feios e/ou gordos sem nenhum pudor ou vergonha.

Mas o que significa ser belo ou feio? Fosse este um trabalho sobre estética, certamente teríamos de nos alongar mais em nossas definições. Não é o caso. Longe de naturalizar a relação gordura/feiúra, buscamos, justamente, apontar como o desvio do padrão estético “da moda” remete o sujeito, sobretudo as mulheres, para o limbo da exclusão e para as exaustivas práticas do culto ao corpo.

Para finalizar gostaríamos de retornar à indagação que Freud faz em 1930 acerca da beleza. Em “O Mal Estar na Civilização”, o autor mostra-se intrigado acerca da valorização da beleza pela civilização, ainda que esta não lhe proporcione nenhuma utilidade. No mesmo texto, o autor caracteriza a fruição da beleza como uma estratégia para buscar a felicidade. 


A esta fruição, Freud dá o caráter de um “sentimento tenuamente intoxicante” referindo-se ao sexo feminino como o “Belo Sexo”.
Qual seria o significado desta coisa inútil sem a qual não podemos passar? Reza o ditado popular que uma imagem vale mais do que mil palavras! Em uma cultura, com cada vez mais telas e menos páginas, as imagens passam a constituir, por si só, a realidade ao invés de retratá-la, reproduzi-la e representá-la.

A imagem toma o lugar do sujeito e, sem perspectiva de si mesmo, haverá identidade possível? Para ilustrar recorreremos a Perrot (1984) e seu conceito de ortopedia mental. Interrogando-se a respeito do ideal feminino de emancipação, analisa, historicamente, as conquistas femininas e sugere, de forma irônica, mas categórica, que estamos vivendo uma ditadura bem mais severa do que todas até então vivenciadas pelas mulheres.

O autor considera os diversos procedimentos de produção e manutenção do bom aspecto do corpo feminino, entraves bem maiores na vida das mulheres do que os fardos que deflagraram a queima de soutiens em praça pública ou mesmo o discurso médico atestando o mal que os espartilhos causavam.

Segundo Perrot, (op.cit) com a maior exposição do corpo as atenções sobre a pele intensificam-se, assim como a rotina de cuidados com a aparência física. Para designar essa tentativa frenética de reformatação e adequação das formas, Perrot cunhou o termo ortopedia mental. O termo descreve com uma precisão jocosa, uma ordem ainda mais tirânica que as já conhecidas formas que levaram à subserviência feminina.

Nada mais cruel do que lutar com um inimigo implacável e inexorável. Contra a ação do tempo as mulheres lutam, tentando manter-se sempre jovens e belas. Frenéticas e enlouquecidas, consumindo compulsivamente toda sorte de produtos que prometam retardar o seu envelhecimento e manter sua beleza, essas mulheres lutam contra si, perdendo-se no espelho à procura de si mesmas. Se antes as roupas as aprisionava, agora se aprisionam no corpo - na justeza das próprias medidas.

Contudo, mais uma vez é necessário cautela. Não há como pensar que todas as mulheres vivem essas transformações de forma passiva e acrítica. Neste sentido, nunca é demais relembrar que o discurso do corpo fala das relações internas à sociedade e também nele vai se expressar a busca da felicidade plena.

Como todo culto, como toda moda, o impacto da moda do culto ao corpo sobre a sociedade, só pode ser detectado a partir da compreensão da maneira como seus ditames são interpretados pelos indivíduos que, no interior de diferentes grupos sociais, lhes emprestam significados próprios. Como aponta Strozemberg (1986) o receptor nunca recebe passivamente uma mensagem, mas sempre, necessariamente, a interpreta e reelabora, na medida em que toda a decodificação é uma leitura. A experiência do corpo é sempre modificada pela experiência da Cultura
Drª Joana de Vilhena Novaes
Picture Leonardo Da Vinci

26 de fev. de 2010

Liberdade

Escolher seus próprios caminhos, seus pensamentos, sentimentos e ações. A dependência, seja em quais relações forem, no casamento, na relação pais e filhos, nas amizades, se caracteriza em não ser permitido escolher. Você é obrigado a funcionar de uma maneira que não gostaria e, por isso, se sente frustrado, amarrado e ressentido. Fazer coisas por obrigação – incluindo aqui o medo de desagradar, o medo de sentir culpa –, coloca o relacionamento no campo da destrutividade. É claro que no encontro entre pessoas há um enorme espaço para a troca, a reciprocidade, a combinação e as oferendas. Tudo, porém, por escolha. Há uma enorme diferença entre “eu quero ir ao cinema com minha mulher e eu tenho que ir porque, do contrário, ela ficará chateada”. As relações não podem ser pretexto para que as pessoas percam sua individualidade. Um bom relacionamento entre marido e mulher, por exemplo, contemplará as seguintes situações: o marido deverá cuidar das suas necessidades e da sua individualidade; a mulher da mesma forma, e os dois cuidarão das necessidades da relação. O mesmo se aplica à relação com os filhos. A sociedade estimula nossa dependência psicológica de muitas pessoas, começando pelos pais. E a autonomia também começa exatamente dos pais. Por isso, tantos choques na adolescência dos filhos, seres dependentes, ensaiando os primeiros passos na escolha da própria vida e os pais insistindo em mantê-los crianças controladas e escravas dos desejos paternos. Nas famílias autoritárias, ao contrário, o valor da liberdade é substituído pela proteção, pelo apego (ciúme) e pela obediência. Os pais tomam como ofensa pessoal o filho desejar ir a uma festa com os colegas ao invés de ficar numa reunião familiar. “Vossos filhos não são vossos filhos. São a ânsia da vida por ela mesma. Eles veem de vós, mas não vos pertencem...” Antônio Roberto
Picture by James Lesesne Wells

Freud e a mulher


A concepção freudiana de ciência foi impregnada pelo positivismo da época e sua teoria sobre a feminilidade apoiou-se num pensamento conservador e dominante.


A area da sexualidade humana foi fortemente marcada pelas teorias de Freud. A sua psicanálise acabou tendo um papel marcante no ocidente dentro da teia de discursos da modernidade que tentaram definir e conceituar a figura feminina, seu corpo, sua "função" e sua sexualidade. 


Entre outras preocupações, Freud retomou a discussão da natureza do sexo feminino, abrindo para a então nova ciência do inconsciente, possibilidades ainda inexploradas. 


Tentou então desvendar a feminilidade, estudar a sua constituição a partir da estrutura edipiana, que constitui uma das matrizes da psicanálise. Através da estrutura edipiana, Freud distribui as posições do pai, mãe, do filho e da filha e detalha o longo périplo através do qual cada um aprende a assumir a sua realidade sexuada ou, a resignar-se a ela, quando se trata da menina. 


 Para ele a lei do pai, ao proibir a posse da mãe, primeiro objeto de desejo, que deverá transferir-se para outra mulher e, no caso da filha, para outro sexo, inaugura o acesso à maturidade e à capacidade do simbólico, através da prova da castração. A posição de cada sexo está ligada à sua configuração morfológica. A menina é diferente do rapaz, sendo inferior a este, privada como está desse pênis que lhe falta, de que tem "inveja" e de que não encontra senão um pálido sucedâneo no clitóris. O sexo feminino é definido negativamente em relação ao sexo masculino. Tornar-se mulher é aceitar não ser homem, através de um laborioso itinerário cujas peripécias não descreveremos aqui. 


Uma certa bissexualidade vem corrigir esta disposição. Mas o acesso aos benefícios fálicos, à sublimação, custará caro à menina, sempre mais ou menos levada a escolher entre o prazer e o trabalho, enquanto o rapaz pode harmonizá-los. Freud não ignora o papel desempenhado pela cultura na determinação do lugar das mulheres, mas isso não "derruba" a estrutura edipiana, considerada como transcultural. É com nostalgia que ele verifica a evolução que se arrisca a conduzir ao desaparecimento da coisa mais deliciosa que o mundo tem para nos oferecer: o nosso ideal da feminilidade. A este título, Freud critica o feminismo de J. S. Mill, que reclama igualdade. Em linhas gerais, o pensamento freudiano, sublinha o dimorfismo, ou mesmo a dissimetria, dos sexos, mas a partir de um monismo fálico: não há libido senão masculina. Entretanto, o que é revelado pelo inconsciente parece espantosamente próximo do que é produzido pelo social. Encontra-se mesmo aí uma normatividade genital e heterossexual em harmonia com a forma da família tradicional. 


 Perto do final da vida, após um longo silêncio sobre a questão e efetuando uma crítica sobre si próprio, Freud não hesita em afirmar que durante o seu percurso lhe escapou alguma coisa da feminilidade, "esse continente negro". E dirige a Maria Bonaparte a pergunta que se tornou célebre: "Que quer uma mulher?", a qual não será dada resposta. Ao mesmo tempo em que a psicanálise foi capaz de dar conta do desejo das mulheres, ela permaneceu, até então, impotente perante o seu querer, que não coincide com o seu desejo. O que foi compreendido continuou insuficiente para explicar a feminilidade. Para Freud, o que constitui a masculinidade e a feminilidade é um caráter desconhecido que a anatomia não pode captar... "é impossível dar qualquer conteúdo novo às noções de masculino e feminino". 


 O discurso psicanalítico também contribuiu muito para reforçar o papel da mãe como personagem central da família. Mesmo não afirmando ser a mãe a "única" responsável pelo inconsciente do filho, considerou-a a causa imediata e primeira do equilíbrio psíquico deste. Para que uma mulher possa ser considerada "boa mãe" pela psicanálise, é preferível que ela tenha experimentado, em sua infância, uma evolução sexual e psicológica satisfatória, junto de uma mãe também relativamente equilibrada. Se uma mulher foi educada por uma mãe perturbada, terá grande probabilidade de que sinta dificuldade em assumir sua feminilidade e sua maternidade. Quando for mãe reproduzirá atitudes inadequadas que foram as da sua própria mãe. A "mãe má" não é mais, pessoalmente responsável, no sentido moral da palavra, e sim uma mãe "inadequada", uma espécie de "doente". A importância atribuída à figura da mãe foi expandida pela psicanálise de tal maneira que a "mãe má" foi "medicalizada", sem que tenha sido anulada as posições moralizadoras do século anterior. 


Ainda hoje, os modelos criados pela psicanálise estão tão enraizados na cultura ocidental, que a "mãe má" ainda é percebida como uma mulher ao mesmo tempo malvada e doente. E conseqüentemente foram aumentados os sentimentos de angústia e culpa maternas no séc. 20. Ao longo da história, a teoria Freudiana sofreu alterações e ampliações de conceitos. Helène Deutsch, discípula fiel de Freud, publicou La psychologie des femmes, retomando a seu modo os conceitos de Freud no que se refere à psicologia da mulher e da mãe. Uma de suas preocupações deslocava-se para o entendimento da psiquê da "mulher normal" ou "feminina" que é definida por Deutsch, por uma tríade básica que comporia o psiquismo feminino: a passividade, o masoquismo e o narcisismo. 


A maldição do pecado original pregada pelo cristianismo que pesou sobre as mulheres por longos séculos, parece ter recebido um tratamento "moderno" do século 18 em diante, destacando o discurso psicanalítico de Freud e seus discípulos, no final do século 19 e primeira metade do século 20. O que tinha uma conotação moral, passou a ser medicalizado e por último serviu de base para a formulação de conceitos sobre o psiquismo, o simbolismo e o imaginário femininos. A originalidade de Helène Deutsch consiste em mostrar, à sua concepção, que existe prazer na dor das mulheres. Muito do que se desenvolveu da teoria freudiana no que se refere às mulheres, contrariou o próprio Freud, e sua postura um tanto pessimista de que toda educação resultaria num fracasso, o que anularia muito do que foi aconselhado por Deutsch, Mélanie Klein, Winnicott, entre outros. 


Mas não impediu que o discurso psicanalítico de seus sucessores/discípulos se difundisse. Aqui podemos rever a postura comum atual, de que as mulheres sempre foram representadas por homens, nas diversas ciências. Na verdade, as mulheres também foram representadas por mulheres, como as psicanalistas discípulas de Freud, que pensaram como e a partir das representações masculinas. Muitas das que foram consagradas e saíram do anonimato foram justamente aquelas que souberam desenvolver as teorias dominantes da época sem romper com a sua base masculinizante, patriarcalista e repressiva. Na construção das teorias sobre a subjetividade da mulher-mãe a amamentação constitui um foco de destaque. 


O aleitamento, antes recomendado apenas pelos médicos, passou a representar pelos discípulos de Freud, a primeira prova de amor da mãe pelo filho, o despertar de sentimentos de prazer tanto físicos quanto espirituais. Winnicott foi mais longe no sentido de despertar na mãe o sentimento de sacrifício por seu filho quando aconselhou que:enquanto o bebê não encontra um ritmo regular, o método mais rápido para evitar-lhe o sofrimento é que a mãe o alimente quando ele quiser, durante um novo período, voltando a horas regulares que lhe convenham quando o bebê se torna capaz de suportar isso. Mélanie Klein também forneceu sua contribuição para a exaltação do aleitamento natural e o devotamento materno insistindo que: a experiência mostra que as crianças que foram amamentadas no seio se desenvolveram com freqüência muito bem (...) na psicanálise sempre se descobrirá, entre as pessoas que foram criadas assim, um desejo profundo do seio que nunca foi satisfeito. Para ela, de um modo ou de outro, o desenvolvimento de um ser humano teria sido diferente e melhor se tivesse sido beneficiado por um aleitamento bem sucedido. 


Posteriormente Klein concluiu que as crianças cujo desenvolvimento apresenta problemas embora tenham sido amamentadas no seio, estariam ainda pior sem isso. Winnicott responsabiliza exclusivamente as mães pela saúde dos filhos afirmando que: a saúde do adulto forma-se durante toda a infância, mas as funções dessa saúde, são as mães que as estabelecem durante as primeiras semanas e os primeiros meses da existência de seu filho. Desta naturalização das funções do corpo feminino, sobraram poucas alternativas às mulheres. Se o corpo fora feito para gerar filhos, não seria então natural que uma mulher não os tivesse, não os amamentasse, não fosse inteiramente devotada a eles. 


Logo, foram criados apenas dois modelos rígidos como opção para as mulheres, a que seguia a sua "natureza" e era naturalmente submissa, devotada, bondosa, comedida, discreta, boa mãe, boa filha, boa esposa, obediente, entre outros e a que não seguia a "natureza" e não era vista com bons olhos pela sociedade. Com toda a sua inegável contribuição ao campo da sexualidade, iniciada na segunda metade do século 19, a concepção de ciência de Freud estava impregnada pelo positivismo de sua época e suas teorias, construídas historicamente, estando sujeitas a reformulações. Sua teoria sobre a feminilidade apóia-se num tipo de pensamento conservador e dominante do seu tempo. Conservador e dominante porque 26 anos antes do nascimento de Freud, Charles Fourier já esboçava um certo progressismo quando escrevia em seus textos que o progresso e a felicidade de toda a humanidade se fazem em relação ao grau de liberdade das mulheres. 


Karl Marx já afirmava em A Ideologia Alemã, em 1842, que o trabalho assalariado representaria o primeiro passo para uma autonomia das mulheres, sendo então, a economia e não o direito, a base de uma emancipação das mulheres, bem como de uma nova estrutura familiar. E Stuart Mill, 13 anos após o nascimento de Freud, só para mencionar alguns, publicava diversos textos sobre a emancipação feminina onde afirmava que a biologia não poderia ser a verdade última da relação entre os sexos e que as mulheres atuais seriam produtos da educação, educação esta que poderia ser modificada. E Freud foi o jovem tradutor de alguns textos de Stuart Mill, não podendo, portanto, ser acusado de desconhecedor de novas formas de pensar a condição feminina. 
Vanessa Gandra Dutra Martins

25 de fev. de 2010

Avarentos e pródigos

Os avarentos entesouram como se devessem viver eternamente, e os pródigos dissipam como se estivessem à beira do túmulo.
Aristóteles
Picture by Sebastião Rodrigues

Receita de Paz


Ora com mais confiança em Deus. Trabalha um tanto mais. Serve com mais alegria. 


Age mais caridosamente. 


Desculpa as faltas alheias com mais compaixão pelos ofensores. 


Usa mais calma, particularmente nas horas difíceis. 


Tolera, com mais paciência, as situações desagradáveis. 


Coloca mais gentileza no trato pessoal. Emprega mais serenidade na travessia de qualquer provação. 


E, assim, com a benção de Deus, encontrarás mais segurança e paz, nas estradas do tempo, garantindo-te o êxito preciso nos deveres de cada dia, a caminho da vida maior.
Emmanuel

Passeio Socrático

Ao viajar pelo Oriente mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam.
Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelo produz felicidade?'
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...' 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação!'
Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos:
Como estava o defunto?. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi¬nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...
A palavra hoje é 'entretenimento?; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, calçar este tênis, ¬ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba¬ precisando de um analista. Ou de remédios.
Quem resiste, aumenta a neurose.
O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo.. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald...
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático. ' Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:
"Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz !"
Frei Betto
Picture by Juscelino Mendes

24 de fev. de 2010

Estudo vincula depressão a alimentos industrializados

Um estudo realizado por uma equipe de pesquisadores da University College London, na capital britânica, indica que dietas ricas em alimentos industrializados aumentam o risco de depressão. Em contrapartida, afirmam os pesquisadores, pessoas que comem legumes, verduras, frutas e peixe em abundância apresentam riscos menores de sofrer da condição. O estudo, descrito na revista científica British Journal of Psychiatry, analisou informações sobre a dieta de 3,5 mil funcionários públicos britânicos e, cinco anos mais tarde, monitorou a ocorrência de depressão no grupo. Segundo a equipe de pesquisadores, este é o primeiro estudo a vincular a dieta dos britânicos com a depressão. Os especialistas dizem, no entanto, que - embora não seja possível excluir a possibilidade de que pessoas com depressão talvez tenham dietas menos saudáveis - é pouco provável que a alimentação seja a razão por trás dos resultados porque não foi identificada uma relação entre dieta e diagnósticos prévios de depressão. Método Os pesquisadores dividiram os participantes em dois grupos de acordo com o tipo de dieta que seguiam. Em um grupo ficaram os que consumiam alimentos integrais, frutas, legumes e peixe. No outro, os que comiam principalmente alimentos industrializados, como sobremesas açucaradas, alimentos fritos, carne industrializada, cereais refinados e produtos laticínios ricos em gordura. Após levar em conta fatores como sexo, idade, educação, atividade física, doenças crônicas e o hábito de fumar, os especialistas identificaram uma diferença significativa em riscos futuros de ocorrência de depressão nos grupos. Os que comiam mais alimentos integrais apresentaram 26% menos riscos de desenvolver depressão do que os que consumiam menos alimentos integrais. Em contraste, os que comiam mais alimentos industrializados apresentaram 58% mais riscos de desenvolver depressão do que os que comiam poucos alimentos industrializados. Dieta mediterrânea A autora do estudo, Archana Singh-Manoux, diz que é possível que os resultados sejam explicados por um fator ligado ao estilo de vida dos participantes que não tenha sido levado em consideração pelos especialistas. "Houve um estudo mostrando que a dieta mediterrânea estava associada a riscos menores de depressão, mas o problema é que, se você vive na Grã-Bretanha, a probabilidade de você seguir uma dieta mediterrânea não é muito grande", afirma a pesquisadora. "Então, nós queríamos observar de forma diferente as associações entre dieta e saúde mental", acrescenta. Ainda não está claro por que alguns alimentos podem proteger contra ou aumentar os riscos de depressão, mas os cientistas avaliam que talvez haja um vínculo entre dieta, inflamações e condições como doenças cardíacas. "Esse estudo se soma a um conjunto já sólido de pesquisas que mostram associações fortes entre o que comemos e nossa saúde mental", diz o diretor da entidade britânica Mental Health Foundation, Andrew McCulloch. "Estudos como esse são cruciais porque são a chave para que tenhamos uma compreensão melhor da doença mental." McCulloch acrescenta que as dietas das pessoas estão se tornando cada vez menos saudáveis. "A população da Grã-Bretanha está consumindo menos produtos frescos e nutritivos e mais gorduras saturadas e açúcares", afirma. "Estamos particularmente preocupados com os que não podem ter acesso a alimentos frescos ou moram em áreas onde existe um número alto de restaurantes de fast food e comida para viagem." BBC

Parapsiquismo Sadio

O parapsiquismo, muito associado à mediunidade, é uma habilidade que pode ser desenvolvida. Para ser sadio, a pessoa precisa adquirir controle sobre o processo Temas relacionados ao parapsiquismo são cada vez mais comuns em livros, revistas, filmes, novelas e no dia-a-dia das pessoas. Nem sempre são abordados tecni- camente, fato que gera muita desinformação e mitos. Mas o que é parapsiquismo e como desenvolvê-lo de maneira sadia? De acordo com a Conscienciologia e a Projeciologia, parapsiquismo é a tendência evolu- tiva que a pessoa (ou a consciência) apresenta, de extrapolar as limitações do corpo físico - ou neuropsíquicas - para alcançar maior discernimento sobre a realidade da existência de outras dimensões. Isso se dá por meio do uso consciente das potencialidades dos quatro corpos de manifestação e do maior domínio das bioener- gias. Normalmente os termos médium, sensiti- vo e paranormal são utilizados para denominar a personalidade parapsíquica. No estudo do parapsiquismo, devemos con- siderar as seguintes variáveis: discernimento, autoconscientização multidimensional e inten- cionalidade. Discernimento é a capacidade de compreender situações, de separar o certo do errado. Autoconscientização multidimensional é a atribuição da consciência em sustentar a lucidez e o discernimento em múltiplas dimensões pelo domínio das suas energias, do parapsiquismo e da descoincidência dos veículos de manifestação. A intencionalidade caracteriza-se pelo que é feito de acordo com a vontade, deliberadamente. "Normalmente os termos médium, sensitivo e paranormal são utilizados para a personalidade parapsíquica" O parapsiquismo pode ser sadio. Neste caso, o indivíduo parapsíquico tem controle sobre o pro- cesso, podendo parar ou interrompê-lo quando quiser a partir de sua vontade, com nível de auto- conscientização multidimensional suficiente para saber quais são as consciências extrafísicas envol- vidas diretamente e com discernimento quanto a suas ações. Outro ponto importante diz respeito aos resultados de suas ações, que devem ser pró- -evolutivas. Ainda raro em nossa sociedade, este nível de parapsiquismo é manifestado pelas cons- ciências que não sofrem de assédio interconscien- cial, ou seja, não sofrem consequências negativas nas interações com outras consciências. Já o parapsiquismo instável ou lábil é o mais comum. Mesmo quando bem intencionado, nem sempre o indivíduo percebe as consequências negativas de seus atos. Outras vezes, não percebe com quais companhias extrafísicas se manifesta. Seu nível de autoconscientização multidimen- sional ainda é instável. Na condição patológica existe o parapsíquico sem controle sobre o que acontece com ele, ti- picamente caracterizado pela possessão doentia, quando quem manda é a consciência extrafísica sobre a consciência intrafísica de vontade débil. Nesses casos, as consciências extrafísicas envolvi- das são as chamadas assediadoras ou obsessoras. Desenvolvimento do parapsiquismo O desenvolvimento de qualquer habilidade da consciência requer muita dedicação e persistência. No entanto, existem pessoas que naturalmente têm facilidade ou manifestam seu parapsiquismo de maneira espontânea em função de terem de- senvolvido esse traço em outras vidas. É por isso que existe o dito popular: "nasceu com o dom". Mas talento, somente, não garante resul- tados positivos. Para que o parapsíquico se desenvolva durante uma vida, é necessário se- riedade. Caso contrário, toda a facilidade ini- cial pode ficar em subnível. Algumas pessoas acabam desenvolvendo-se empiricamente, por meio de suas próprias experiências de erros e acertos. Outras se associam a grupos, religiões ou linhas filosóficas que, em sua maioria, não apresentam metodologia para o desenvolvi- mento do parapsiquismo. No caso do Espiri- tismo, existe curso para formação de médium, o que já é um avanço. No Centro de Altos Estudos da Conscien- ciologia (CEAEC) - www.ceaec.org, existem diversas dinâmicas com o objetivo de desenvol- ver o parapsiquismo do ponto de vista técnico e sadio. No desenvolvimento do parapsiquismo sadio, é importante que a consciência se conhe- ça e saiba como reage de acordo com o nível de tranquilidade ou de pressão. Faz-se necessá- rio questionar a si mesma com o objetivo de autoconhecimento. Esse processo evita alguns "mata-burros" comuns aos médiuns e parap- síquicos, principalmente aqueles relacionados ao poder e ao estrelismo. É importante que a pessoa aprenda a avaliar por si hipóteses sobre os fenômenos pelos quais esteja passando e so- mente após uma série de experiências com o mesmo teor e conteúdo saiba, com mais preci- são, o que está acontecendo. Nessa condição, aos poucos vai desenvol- vendo sua sinalética energética-anímico-parap- síquica, que é um conjunto de sinais pessoais que permite a leitura dos fatos multidimensio- nais. Nesses moldes, o desenvolvimento técnico do parapsiquismo sadio ainda é raro. "No parapsiquismo sadio, o indivíduo tem controle sobre o processo, podendo parar ou interrompê-lo quando quiser" Pesquisas parapsíquicas No final do século XIX, o Espiritismo (1848), a Metapsíquica (1875) e a Parapsicologia (1889) iniciaram as primeiras pesquisas parapsíquicas com interesse científico. Charles Richet (1850- 1935), médico que recebeu o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia (1913), foi um dos pesqui- sadores da metapsíquica. Em outubro de 1892, participou em Milão de uma série de experiên cias comprovando a autenticidade da parapsí- quica Eusápia Paladino, médium de efeitos fí- sicos. Richet também pesquisou sobre telepatia, clarividência e premonição. A partir do Congresso de Utrecht, que ocor- reu na Holanda, em 1953, a metapsíquica dá espaço à Parapsicologia. No Brasil, numerosos pesquisadores, entre eles Hernani Guimarães Andrade, Henrique Rodrigues, Márcia Tabone e Walter Rosa Borges ajudaram, com suas investi- gações, o desenvolvimento dessa ciência. Em 1973, nos EUA, foram realizadas expe- riências com os sensitivos Ingo Swann e Harold Shermann, que exploraram pela clarividência viajora os planetas Júpiter e Mercúrio. Nessas experiências, Swann afirmou a presença dos anéis de Júpiter, fato confirmado somente em 1979, com a sonda Voyager. Há uma proposta de pesquisa sobre Expe- riência da Quase Morte (EQM), envolvendo pesquisadores em salas de emergência dos EUA e da Europa. Nessa pesquisa, a ideia é colocar alguns objetos em pontos sem ângulo de visão para quem estiver em pé ou deitado na cama de ressuscitação. Neste caso, se a pessoa passar por uma EQM e estiver acima de seu corpo, próxi- ma ao teto, como em vários relatos, espera-se que ela seja capaz de identificar esses objetos. Um dos editores da revista New Scientist realizou uma pesquisa visando provar que a comunidade científica rechaçava a existência dos fenômenos parapsicológicos, o que trouxe algumas surpresas. Cerca de 75% dos pesqui- sados opinaram que esses fenômenos estavam comprovados ou em vias de comprovação. O que mais surpreendeu foi o fato de 40% dos pesquisadores declararem que além de aceitar, já tinham experimentado pessoalmente algum tipo de fenômeno parapsíquico. Com o tempo e com novas pesquisas, o mais provável é que cresça nas pessoas o interesse em desenvolver seus potenciais parapsíquicos, dei- xando de depender de um intermediário, seja este qual for, e passando a ter experiências e vivências pessoais em prol do estudo científico do parapsiquismo. Alexander Steiner

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