31 de dez. de 2009

Passagem do ano


O último dia do ano não é o último dia do tempo. 

Outros dias virão e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.

Beijarás bocas, rasgarás papéis, farás viagens e tantas celebrações de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral, que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor, os irreparáveis uivos do lobo, na solidão. 

O último dia do tempo não é o último dia de tudo. Fica sempre uma franja de vida onde se sentam dois homens. Um homem e seu contrário, uma mulher e seu pé, um corpo e sua memória, um olho e seu brilho, uma voz e seu eco, e quem sabe até se Deus... 

Recebe com simplicidade este presente do acaso. Mereceste viver mais um ano. Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos. 
Teu pai morreu, teu avô também. 

Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte, mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo, e de copo na mão esperas amanhecer. 

O recurso de se embriagar. O recurso da dança e do grito, o recurso da bola colorida, o recurso de Kant e da poesia, todos eles... e nenhum resolve. 

Surge a manhã de um novo ano. As coisas estão limpas, ordenadas. 

O corpo gasto renova-se em espuma. Todos os sentidos alerta funcionam. 
A boca está comendo vida. A boca está entupida de vida. A vida escorre da boca, lambuza as mãos, a calçada. 
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
Carlos Drummond de Andrade

Reflexões


Queridos Amigos, Aos que me conhecem de longa data, estes terão mais facilidade em entender a minha mensagem, os que não me conhecem ou não tiveram a oportunidade de fazê-lo, com certeza entenderão o que vai na minha alma nestas ultimas horas do ano que se finda. 


 Fico muito feliz quando abro a minha caixa de mensagens e encontro os meus amigos lá, ou pelo menos boa parte deles me desejando tudo de bom, votos de felicidade, paz, saúde, prosperidade, sucesso enfim: é tudo de bom. Me sinto realmente gratificada quando leio estas mensagens. 


Sinto que as amizades que eu cultivei durante a minha existência alimentam a minha alma e aquecem o meu coração. Quando estou meio “down” (fora do high society rsrsrs) são os emails dos meus amigos que me fazem ficar “up” de novo. Mas, amigos queridos por mais que nos esforcemos, fica muito difícil ficar “up” o tempo todo, o tempo está passando muito rápido, e as coisas estão acontecendo de forma vertiginosa, tanto que na maioria das vezes nossos sentidos não conseguem acompanhar com a mesma velocidade. 


 O que vou dizer agora, não é nenhuma novidade. Afinal, somos todos esclarecidos e sabemos e muito bem, como o mundo e em especial as pessoas vem se comportando em relação a tudo que nos cerca. Não quero e nem devo ser pretensiosa, mas devemos aproveitar o ano novo para fazer o nosso melhor, porque somente nós poderemos e teremos força para fazer mudanças imprescindíveis por um mundo mais justo. 


Vamos refletir mais sobre coisas latentes, sem nenhuma pretensão, mas vamos olhar mais sobre tudo o que acontece a nossa volta, vamos tentar aprender a não reclamar do sol forte, da chuva, do frio, do calor, do vento forte, do mar revolto, das folhas que caem sujando as nossas calçadas, da espera no consultório, da fila do supermercado, da fila do banco, a não jogar lixo nas ruas e nas praias, a não xingar o outro no trânsito. Eu sei que parece utópico, mas é possível. Quando fizermos os nossos brindes para comemorarmos o novo ano que se inicia, elevemos os nossos pensamentos aos céus e oremos pelos enfermos, pelas crianças abandonadas nas ruas e nos orfanatos , pelos idosos abandonados pelos familiares e pelas nossas instituições falidas, pelos nossos amigos e inimigos também, pelos viciados, pelos presidiários – que foram parar ali para de alguma forma nos ensinar o que não devemos nunca fazer, vamos pedir a Deus sabedoria, discernimento, sensatez, paciência. 


 Deixemos de lado as vaidades, a vida mundana. Vamos tentar ser felizes. Eu sei que as vezes é um pouco difícil diante das injustiças e da insensatez que acomete o ser humano. Mas vamos nos reeducar. Vamos aprender de novo em 2010 a dar bom dia até para quem não nos responde, a dizer muito obrigado por um favor recebido ou por uma gentileza, a acariciar uma criança, a dar atenção a um velhinho (a) seja ele conhecido ou não, a pedir desculpas. 


Ajude em 2010 a alguém com dificuldades para atravessar a rua e principalmente valorizemos a nossa família, porque ela sim é o nosso grande alicerce e é nela que encontramos toda a SABEDORIA que tanto precisamos.
Feliz 2010 Com muito carinho 
Nádia Catarina

O ano de pensar

Mudança de ano, que, com o Natal, para uns é celebração (estou desse lado), para outros, melancolia. O que nos atrapalha é que alguém inventou que temos de tomar decisões e fazer projetos para esse novo ano. São quase sempre irreais, quase sempre não cumpridos. Aí já nos frustramos neste mundo de tantas frustrações, em que a gente teria de ser bonito, saudável, competitivo e competente, bom de cama e ruim de mesa, e uma lista interminável de "ter de". Pois eu acho que 2010 pode ser o Ano de Pensar. Bom projeto, boa intenção. Uma só, e já é bastante. Pensar: coisa que tão pouco fazemos, embora seja o que nos distingue das outras feras. Publiquei recentemente mais um livro para crianças (mas os adultos se divertem), chamado Criança Pensa. Com ele respondi, décadas depois, ao duplo lema dos adultos de um outro tempo, de que criança não pensa, criança não tem querer. Hoje tem querer até demais, mas isso é assunto para outra crônica. E pensar, continua pensando, apesar de todos os jogos eletrônicos e programas de computador imagináveis. Se criança pensa – e pensa lindamente, segundo descobrimos e escrevemos, um de meus filhos, professor de filosofia, e eu –, adultos teriam de pensar ainda muito mais. Porém a gente vai se enquadrando. Família, escola, sociedade e cultura, seja o que isso for, tornam-nos menos pensantes e menos questionadores. Alguns escapam dessa mordaça e desabrocham. Podem ser os menos confortáveis, mas são os que movem o mundo. Pensar não é uma obrigação: é um direito, e deveria ser um prazer. Naquela horinha no ônibus ou no carro, andando, nadando, comendo, não fazendo nada – o que é um luxo, e nós, bobos, poucos saboreamos –, nada melhor do que deixar tudo de lado e refletir, ou deixar as ideias vagando numa atenção flutuante, como dizia Freud. Largar mão, por alguns instantes, dos compromissos, do cansaço, da falta de tempo, da dificuldade em ser feliz, da pouca harmonia consigo e com o mundo, das tragédias, das decepções universais ou pessoais – e dar-se o prêmio de pensar. Para algumas pessoas, parar para pensar não é desmontar. E ficariam dispensados os dez ou doze ou três propósitos, as intenções fajutas eternamente repetidas – como as de emagrecer, romper ou melhorar o relacionamento, sair de casa, voltar a estudar, vencer na vida, ter filhos, mudar de emprego ou de parceiro, deixar de beber, de fumar, de se drogar com outras substâncias. A essência seria esta: neste ano, eu vou pensar. Em mim, na vida, nos outros, no mundo, em mil coisas ou numa coisa só – que seja realmente importante. Pensar para ser uma pessoa mais decente; pensar para amar mais e melhor, começando por mim mesmo; pensar para votar com mais lucidez; pensar no que de verdade eu quero, se é que eu quero alguma coisa – ou sou do tipo que se deixa levar por desânimo, preguiça ou desencanto? Pensar simplesmente para criar meu mundo particular, não num ataque de loucura, mas de criatividade. Pois o real não existe, existe o que vemos dele. Dentro de certos limites, podemos, cada um de nós, inventar o nosso mundo: sendo mais céticos ou mais otimistas, com aquele grãozinho de loucura necessário para que haja beleza e claridade e não vivamos numa caverna de trevas. Basta ver como pensam as crianças, ainda livres das nossas inibições. "Fadas e anjos existem, não é?", pergunta-me uma delas. Respondo honestamente: "Para quem acredita, existem". Acredito que, apesar de Copenhague, o mundo não vai torrar (as opiniões dos cientistas divergem), que vamos ter motivo para nos orgulhar de nossos países, que não vai mais haver tanta miséria e cinismo, que os colégios vão ensinar melhor e exigir mais em lugar de facilitar tão absurdamente e despejar tanta gente despreparada no mundo. Sei que todos algum dia acordamos com a senhora desilusão sentada na beira da cama. Mas a gente vai à luta e inventa um novo sonho, uma esperança, mesmo recauchutada: vale tudo menos chorar tempo demais. Pois sempre há coisas boas para pensar. Algumas se realizam. Criança sabe disso. Feliz 2010. Lya Luft

29 de dez. de 2009

Strip tease

Pobreza pode ser pior do que obesidade e tabagismo para a saúde


Ter uma renda menor do que a média pode ser pior para a saúde do que ser fumante ou obeso, segundo estudo da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Publicada na edição de dezembro do American Journal of Public Health, a pesquisa indica que uma pessoa de baixa renda perde 8,2 anos de saúde perfeita, contra 6,6 anos de um fumante regular, 5,1 anos daquele com alta evasão escolar e 4,2 anos de um obeso. 

Baseados em dados de várias pesquisas nacionais que medem saúde e expectativa de vida dos americanos – assim como em análises de metas políticas, como a prevenção do tabagismo, aumento do acesso à assistência médica, redução da pobreza e educação na primeira infância –, os resultados mostram que, em média, a pobreza tem o maior impacto na saúde, seguida do tabagismo, da evasão escolar, do fato de ser afroamericano, da obesidade, beber em excesso e não ter plano de saúde. 

 De acordo com os autores, o controle do tabagismo e da obesidade são as mais importantes políticas de saúde pública atuais. Mas o novo estudo mostra que as taxas de evasão escolar e pobreza – que normalmente não são consideradas nesse sentido – seriam tão importantes quanto o tabagismo nos Estados Unidos e em outros países. “Enquanto as políticas públicas de saúde precisam continuar seu foco em comportamentos arriscados para a saúde e na obesidade, devem também redobrar seus esforços sobre fatores não-médicos, como alta escolaridade e programas de redução da pobreza”, ressaltou o pesquisador Peter Muennig. 

 Os especialistas destacam a importância do estudo, mas alertam que mais pesquisas são necessárias para revelar o perfil dos fatores médicos e não-médicos que afetam a saúde de uma população. “As políticas que identificamos não eliminarão os fatores de risco na população; nossas estimativas podem apenas servir como diretrizes para os formuladores de políticas públicas”, concluíram os autores. 
EurekAlert

26 de dez. de 2009

Ponha um tigre em sua cama


O que as pessoas não fazem para chamar atenção. 


Richard & Mayumi Heene inventaram que haviam perdido o filho num balão; 


Tareq & Michaele Salahi entraram de penetras na Casa Branca; 


Susana Vieira mandou espalhar que espera encontrar um bebê na porta de casa antes do Natal (sério, está na capa da revista Quem).

Ainda sou mais Heróstrato, que, em busca de fama, ateou fogo ao templo de Ártemis, uma das sete maravilhas do mundo antigo, e não só concretizou seu desejo como emprestou seu nome ao complexo de que padecem os acima citados. 


Mas não o abaixo citado: Massimo Tartaglia. É o italiano que agrediu Silvio Berlusconi com uma estatueta, no domingo passado. Ele é de outra enfermaria, a mesma, aliás, daquele jornalista iraquiano que quase acertou uma sapatada no Bush, em dezembro de 2008. Nenhum dos dois sofre do complexo de Heróstrato, mas, provavelmente, do complexo de Ravachol, este, sim um anarquista terrorista; e até porque não foram movidos por motivo fútil, merecem a nossa compaixão. 


iger Woods não queria chamar atenção, muito pelo contrário, quando caía na esbórnia com moças de vida airada, escondido dos fãs e da mulher. Seu complexo, na avaliação de um jornalista americano, é o de Messias (por achar que pode tudo, que tudo lhe é permitido), embora o primeiro parâmetro que a todos ocorreu tenha sido mesmo o de Casanova. Detrás daquele mauricinho, daquele Dudu Nobre do taco, escondia-se um sátiro, um tigre permanentemente no cio.

O caso, ou melhor, o escândalo envolvendo Tiger Woods, a mulher e um vasto harém de mariposas midiáticas me impressionou um bocado. Não me interesso por golfe (quando ouço a palavra taco, a primeira imagem que me vem à cabeça é a iguaria mexicana) e só vi o campeão em movimento naqueles comerciais da Gillette, ao lado de Kaká, Thierry Henry e Roger Federer. 


Mas Woods transcende o golfe, como Pelé transcende o futebol, e a muvuca em que se meteu tem implicações que vão muito além do trivial sexualizado do submundo das celebridades. Seu götterdamerung foi um choque de repercussão mundial, um reality show conjugal e libertino de espantosa audiência. Nem se todas as mães solteiras do Rio depositassem um indesejado bebê na porta de sua casa Susana Vieira atrairia igual atenção da mídia. 


 Expoente, como Obama, da afirmação negra (e pouco importa que ele se identifique como "calibasian", mistura de afrodescendente com branco, índio e asiático), Woods venceu num esporte que era tão exclusivamente branco quanto o polo e nele se revelou o mais aplicado, perseverante, competente e bem-sucedido dos atletas. Seu triunfo foi um exemplo cabal de que a meritocracia não é uma quimera. Primeiro esportista a bater, em faturamento publicitário, a barreira do U$ 1 bilhão, Woods é uma máquina de fazer dinheiro. 


Ou era até a madrugada de 27 de novembro, quando bateu com seu utilitário Cadillac num hidrante e numa árvore, perto de onde mora, nas cercanias de Orlando, na Flórida. Se tivesse contado toda a verdade à polícia e aos repórteres - que sua mulher, Ellin, num acesso de ciúmes, o agredira com um taco de golfe, forçando-o a fugir de casa às carreiras e às tontas, que o vidro do carro não fora por ela estilhaçado para tentar retirá-lo do carro acidentado e sim para acertar-lhe a cabeça - e se confessado arrependido das chifradas na mulher, os alcoviteiros da imprensa não teriam um monturo para ciscar. 


Woods fez tudo errado. Envolveu-se com autênticas chaves de cadeia, duas delas, pelo menos, atrizes de cinema pornô e eventualmente boquirrotas e chantagistas, mas, ao contrário do Ronaldo, nenhum travesti; revelou-se, ao longo da crise, pouco perspicaz, além de fraco, descontrolado, exibicionista e mentiroso; desiludiu a mulher, os fãs e, o pior de tudo, os seus patrocinadores. Porque cometeu algo bem mais grave do que fumar maconha, por exemplo, como fez Michael Phelps, seus contratos milionários com numerosos produtos começaram a ser revistos e cancelados. A Gillette saiu na frente, sábado passado. 


No domingo, foi a vez da multinacional de consultoria de gestão Accenture, a perda maior (só em 2008 ela investiu US$ 50 milhões em publicidade, 83% desse montante em anúncios com o golfista, seu garoto-propaganda havia seis anos). A Nike prometeu estudar a situação com mais vagar, mas até quando? Não agiram essas marcas com base em restrições de ordem moral, apenas por razões econômicas; puro business, como bem observou James Surowiecki, na New Yorker desta semana. O capital não sabe o que é santimônia. 


Todas as mensagens explícitas e subliminares veiculadas pelos anúncios estrelados por Woods dependiam da imagem pública do atleta, visto como um modelo de disciplina, autocontrole, obstinação, retitude e perceptividade, o homem alfa, o pai de família perfeito. Ao conflitar com essa imagem, o garoto-propaganda perdeu todas as suas bolas de gude, virou chacota de programas humorísticos, que se fartaram de gozar os slogans e bordões dos comerciais e outdoors protagonizados pelo golfista e fazer brincadeiras com o nome dele (coisas do tipo "pegaram o tigre pelo rabo") e os vocábulos golfísticos mais expostos ao double entendre, como taco, bola e buraco. 


O escândalo Woods, um vendaval no golfe, no universo corporativo, no mundo da propaganda e nas redes de televisão (caiu pela metade a audiência das transmissões dos torneios de que Woods não participou, no ano passado, porque convalescia de uma cirurgia no joelho), estendeu seus danos a outras celebridades esportivas, ameaçando-lhes o futuro como modelos publicitários. "Eles são imprevisíveis", queixou-se o consultor de uma agência com várias contas de material esportivo e refrigerantes, "e quase sempre irresponsáveis e incontroláveis." Ninguém ousa prever o futuro de Woods. Que até pode ser cor-de-rosa, com novos contratos publicitários. Ele daria um garoto-propaganda perfeito para o Viagra. Ponha um tigre em sua cama. 
Sérgio Augusto

22 de dez. de 2009

Missa do galo


Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. 


Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite. A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranquilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. 


A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito. 


Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar. Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. 


Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa. - Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição. - Leio, D. Inácia. Tinha comigo um romance, Os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D"Artagnan e fui-me às aventuras. 


Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição. - Ainda não foi? perguntou ela. - Não fui, parece que ainda não é meia-noite. - Que paciência! Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. 


Fechei o livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza: - Não! Qual! Acordei por acordar. Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma cousa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa. - Mas a hora já há de estar próxima, disse eu. - Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu. - Quando ouvi os passos estranhei: mas a senhora apareceu logo. - Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros. - Justamente: é muito bonito. - Gosta de romances? - Gosto. - Já leu a Moreninha? - Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba. - Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido? 


Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. 


Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos. "Talvez esteja aborrecida", pensei eu. 
E logo alto: - D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu... 
- Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio, são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia? 
- Já tenho feito isso. - Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha. 
- Que velha o que, D. Conceição? Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranquilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou concertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. 


Estreito era o círculo das suas ideias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la. - É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem. - Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. S. João não digo, nem Santo Antônio... Pouco a pouco, tinha-se reclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor. 


A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras cousas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. 
Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me: 
 - Mais baixo! mamãe pode acordar. E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido: cochichávamos os dous, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho: 
 - Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono. - Eu também sou assim. - O quê? perguntou ela inclinando o corpo, para ouvir melhor. Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti-lhe a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves. 
- Há ocasiões em que sou como mamãe; acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me e nada. 


 - Foi o que lhe aconteceu hoje. - Não, não, atalhou ela. Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria, e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me: - Mais baixo, mais baixo... Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. 


Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma cousa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede. - Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros. Chiquinho era o marido. 


Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios. - São bonitos, disse eu. - Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro. - De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro. - Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu penso muita cousa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório. 


A ideia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos. Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes. - Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se fala sse consigo. Concordei, para dizer alguma cousa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a ideia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo. 


Chegamos a ficar por algum tempo, - não posso dizer quanto, - inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: "Missa do galo! missa do galo!" - Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus. 
 - Já serão horas? perguntei. - Naturalmente. 
 - Missa do galo! - repetiram de fora, batendo. - Vá, vá, não se faça esperar. 


A culpa foi minha. Adeus, até amanhã. E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. 


Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.
Machado de Assis

20 de dez. de 2009

Fake, inimitável e indestrutível

Muitas vezes, amigos brasileiros me perguntam o que está acontecendo na Itália e "por que Berlusconi". Quase sempre procuro responder sorrindo (meio sem jeito), alegando que não é fácil explicar o fenômeno Berlusconi. Começarei, então, por Videodrome, um filme do diretor canadense Cronenberg, de 1984, que antevia alguns conflitos entre a TV e o incipiente computador. Na minha opinião, Berlusconi assiste semanalmente a Videodrome para aplicá-lo ao contexto italiano. "O poder passa pelos olhos" - o filme cita Lorenzo de Medici, o Magnífico, senhor de Florença e poeta. Os olhos tornaram-se uma membrana sutil que conecta o visus do "Cavaliere" (como o premiê é chamado na Itália) a um público transformado em "audiência". Visus é a maneira científica com a qual Berlusconi trata seu corpo concentrado no rosto e o torna imutável: um rosto-corpo que se alarga tomando toda a tela da TV. E se expande além dela, difundindo-se em cada interstício visual. Em seu visus-visual, tudo deve ser organizado nos mínimos detalhes. Inútil dizer que os cabelos são falsos, assim como os dentes, que o lifting facial ou a maquiagem são sabiamente excessivos. Berlusconi é fake no sentido de falso-verdadeiro. É tão visível e excessivamente falso que parece quase verdadeiro; ou, pelo menos, verossímil. Seu eleitorado é um público - "audiência" que tem na TV aberta seu principal veículo de comunicação (não a internet). E conseguiu transformar em arena política a comunicação visual difundida por sua videocarne. Berlusconi é o taylorismo-fordismo aplicado, não mais à produção de mercadorias padronizadas, mas à comunicação da TV aberta. Ou seja, ele incorpora a transição - totalmente política - de um sistema econômico baseado na produção de mercadorias para outro relacionado à onívora comunicação visual. Daí o colapso do conceito de sociedade que ele (e, antes dele, Margaret Thatcher) aposentou como relíquia dos séculos 19 e 20 defendida inutilmente pela esquerda: com o colapso da sociedade, esvaem-se no ar-de-pixel as divisões de classe, de idade e gênero (mas não de "etnicidade"). Berlusconi faz sucesso com um público interclassista, multigeracional, transgênero. Como a publicidade de Dolce&Gabbana. Paralelamente, ocorre a transfiguração do seu corpo em videocorpo. "Ele" aplica a si mesmo, como instrumento de poder de sedução, as tecnometamorfoses experimentadas por inúmeros artistas de vanguarda, expondo suas cirurgias estéticas nas arenas televisivas. Por isso, parece indestrutível, imodificável, inimitável. Sua identidade fixa ("fixada") realiza-se mediante contínuas modificações aclamadas pelos irredutíveis 34% do seu eleitorado projetivo no sentido estatístico e psicológico. Essa política do visus caminha lado a lado com a do camelô, mais antiga. De fato, Berlusconi costumava cantar nos navios de cruzeiro e entretinha o público com piadas de fundo sexual: adestramento que ele reproduz para as mais variadas plateias mostrando a dupla fileira de dentes branquíssimos. Na recente Assembleia do PPE, na Alemanha, ou seja do partido popular de matriz cristã, ele disse que "tem colhões" e não se deixa atemorizar pela magistratura italiana que o condenou por corrupção. Em seguida, abraçou Angela Merkel - que retribuiu o abraço. Berlusconi atua sobre as paixões elementares de tipo visceral e as enxerta nas tecnologias televisivas. Esse mix tecno-visceral é apresentado como uma espécie de paradigma amigo-inimigo aplicado não mais às forças sociais, mas ao próprio ego gigantesco versus todos os outros. Desse modo, o nó da discussão desloca-se da crise econômica para o pró ou contra o amor/ódio por "ele" mediante retóricas emotivas: inveja pelo sucesso, pelas mulheres, filhos, apesar da bondade que o distingue enquanto ungido pelo Senhor, predestinado para esse papel por "mamãe" (depois do atentado, disse que "recebeu um milagre"); no sexo ele afirma o pior machismo latino (quando foi acusado de andar com prostitutas disse "não sou nenhum santo"), enquanto ódio e rancor caracterizam toda a oposição. Finalmente, está em sintonia com Ratzinger (o papa), promulgador de uma teologia reduzida a interferir sobre a vida e a morte: essas duas paixões fundamentais casam perfeitamente com as outras paixões elementares do capo da Mediaset. A essa altura, é atingido pelo autor do atentado de Milão, Massimo Tartaglia, com uma estatueta que quebra dois dos seus dentes, o septo nasal e fere o lábio. Esse homem de 42 anos, definido como "perturbado mental", incorpora perfeitamente o tipo fraco, com um ego precário e doente que, recusando a mão estendida oferecida pelo "bem", "enlouquece", como todo opositor.
Evidentemente, trata-se de um atentado infeliz, quer porque o uso da violência em política é sempre detestável, quer porque reforçará o poder do rei-sacerdote, que, ferido, perdoará o homem que atentou contra ele. E a oposição só poderá balbuciar solidariedade, sem mergulhar na obscura esquizofrenia que se apoderou da maioria dos italianos.
Um dos povos que têm mais emigrados no mundo, por exemplo, no Brasil, tornou-se em apenas dez anos racista, desconfiado, vulgar. A universidade é abandonada pelos melhores cérebros. O próprio reitor da Luiss, uma das universidades particulares de maior prestígio, que não é absolutamente de esquerda, escreveu uma carta aberta ao filho sugerindo que vá estudar no exterior. É a perspectiva que transmiti a muitos dos meus alunos e eu mesmo decidi empreender. O meu não é propriamente um exílio, mas certamente minha decisão de abandonar a universidade italiana tem um sentido amargo de derrota, inclusive pessoal, e de vontade de não me render. O resto do problema será facilmente solucionado: Berlusconi irá para a Suíça, para uma clínica chamada precisamente Ars Medica, onde em pouco tempo e com muito dinheiro, criarão para ele um novo visus , cada vez mais indestrutível para um interminável Videodrome. Berlusconi perdoará quem o atacou, terá solidariedade e, vezeiro em plásticas, se reconstruirá na Suíça
Massimo Canevacci

As virtudes e os interesses


O que se vê hoje no cenário político nacional, constrangendo o cidadão brasileiro, é a troca de sinais no campo da convivência entre os homens. 


Entre os antigos, o que valia na política era o reino das virtudes; hoje, é o campo dos interesses. Não se trata de um descaminho, como se o trem da moralidade saísse dos trilhos. 


A política dos modernos não pior, é diferente. É preciso entender essa equação para dar conta do fato de políticos pegos em flagrante roubo e corrupção não serem presos imediatamente. Não é o caso de descumprimento da lei, mas a observância de outra forma de se compreender o Estado de Direito. Entre os antigos, o que valia era o bem comum. Não que os atores da cena pública não tivessem interesses ou motivações psicológicas condenáveis, mas elas precisavam se submeter à lógica de que o bem comum dirigia os negócios públicos. Com a política moderna, o interesse passa a ganhar sinal positivo. Para superar uma certa presunção dos antigos, o político moderno sabe que expor os interesses, numa sociedade de conflitos negociados, limpa a cena de hipocrisia e permite mais realismo. 


A política antiga era feita de necessidades; a moderna, de contingências. O senso de realidade da política moderna se traduz na afirmativa de que o crescimento de cada um contribui para o crescimento do conjunto. Em outras palavras, a economia assume o lugar central da política. O grande risco começa a se concretizar quando a contabilização do interesse pessoal não passa mais pelo crivo da ética pública. Crescer, tudo bem, mas não a qualquer custo e a qualquer preço. O senso de oportunidade da lógica do interesse material é tão poderoso que torna todos os outros elementos consequência natural do enriquecimento. 


O dinheiro deixa de ser um referente de troca e passa a ser valor em si. Quando um agente público é pego roubando, corrompendo, desviando, locupletando, no lugar da atitude direta de condenação e da execução da pena devida pelo ato criminoso se estabelece outro fórum de julgamento, tanto judicial como no imaginário social. No primeiro, por meio das instâncias de privilégios; no outro, pelo descrédito da política em si, e não dos maus políticos tomados em sua individualidade. Pode parecer exagero dizer que a sociedade desculpa ações tão hediondas. Mas, em outra medida, não seria o mesmo que ocorre quando um partido, para dar apoio a um governante, exige cargos em troca, não em função de participar do esforço de gestão, mas pela lógica cristalina de que algumas posições dão mais dinheiro e poder? E o jogo, considerado pragmático e realista, faz de diretorias de estatais e órgãos que usam recursos públicos os objetivos prioritários da barganha. Dinheiro na meia é pouco perto da tomada de funções responsáveis pelo desembolso de verbas para compras e operação de obras. Não há gradação. A situação só seria cabível se os responsáveis por esses cargos fossem recrutados em razão de sua competência, e não de seu jogo de posição. É só acompanhar a trajetória política desses servidores em regime de confiança para perceber que não entendem nada do que gerenciam. O realismo chama esse jogo de democracia de coalizão. No entanto, não se trata originalmente de democracia (mas de tecnocracia enviesada) e muito menos de coalizão. 


O arranjo de cooptação, no entanto, não sofre o mesmo constrangimento público que as cenas patéticas de desvio de recursos por agentes privados. A consequência é, ao mesmo tempo que se instaura um clima de desmando, a criação de uma cultura de desprestígio da política. Alternativas Ficar só na acusação e no diagnóstico é algo que alimenta o sentimento de desânimo que fortalece ainda mais a alienação. Quem conhece os militantes apaixonados (eles ainda existem, e são muitos) sabe que o risco contrário é a perda da comunicação entre iguais, como se aos politizados coubesse a centelha da racionalidade. Geralmente, no entanto, pode ocorrer o inverso. A política, de tão marginal, se torna estilo de vida, forma de estar no mundo, assinatura existencial. 


São pessoas que se julgam alimentadas por uma missão, mesmo que os outros não o percebam. Geralmente, trombam com a realidade. A saída está, mais uma vez, numa forma de equilíbrio entre a virtude e o interesse. Não se vence a sociedade de consumo sem entender que a vontade de ter e de progredir materialmente é manifestação da natureza humana, valorizada por elementos contextuais. Esse caminho deu nas práticas de direito do consumidor, que passou de estratégia pré-política a exercício que se avizinha em alguns casos da cidadania. No entanto, gerou um comportamento odioso de competição no terreno onde deveriam ser norma as práticas de solidariedade e cooperação. 


 As alternativas existem – e no interior do próprio sistema político. Um exemplo vem sendo dado pelo movimento ecológico. Além de perceber o potencial universal, que extrapola a política interna dos países, descobriu que a defesa do meio ambiente só é possível com o ataque ao coração do modo de vida que gerou a situação que hoje combatem. Algumas bandeiras, como a diminuição da jornada de trabalho, por exemplo, passam a responder ao mesmo tempo pela lógica da melhoria das condições de vida, do reordenamento da produção e da abertura de novos postos de trabalho. Há uma corrente de ganhos em cascata que começa a ser considerada com seriedade. Uma sociedade com mais empregados distribui melhor a renda, com isso melhora a educação e saúde, diminui gastos com segurança e proteção social. 


Mesmo a perda relativa de ganho com a redução da jornada tende a ser compensada com nova relação com o consumo. No lugar de objetos suntuosos e desnecessários, as pessoas aumentariam, com a disponibilidade de tempo, os investimentos em cultura, informação e lazer. Assim, uma bandeira aparentemente anticapitalista se torna instrumento de dinamização da sociedade como um todo. Outro campo onde se percebe a possibilidade de nova cultura pública está na abertura de espaços para o exercício da política. Quem trabalha na área da cultura tem acompanhado um movimento poderoso de criação de centros culturais. Mais que necessários, muitas vezes, no entanto, eles descumprem sua função primordial de duas formas: com a ausência de política de ocupação do espaço social (concentrando-se nas regiões melhor equipadas) e com o desmantelemento de estruturas de poder político. 


Precisamos tanto de centros de cultura como de centros de cidadania. Esvaziar os espaços públicos em favor de uma lógica meramente administrativa (e, portanto, sem a marca do conflito) não engrandece a cultura nem favorece a boa política. São alguns exemplos alternativos que podem ganhar o coração da vida pública. Dos interesses para as virtudes. 
João Paulo

16 de dez. de 2009

Poesia de Natal


Ouvi dizer que o Natal perdeu seu significado. Que deu lugar ao consumismo, Árvores de Natal e Papai Noel .


Mas eu prefiro lembrar que neste Natal, Por conta dos empregos temporários, Muitas pessoas puderam resgatar um pouco de sua dignidade. 


E que por conta do dinheirinho extra que receberão Muitos pais e mães de família poderão Oferecer uma mesa mais farta aos seus filhos Prefiro lembrar que por conta das Campanhas de Solidariedade feitas nesta época algumas crianças ganharão, sim, algum brinquedo. 


E que você? Você poderá dar Aquele Abraço nas pessoas que você gosta Mas que “por falta de motivo” pra abraçar Ficou contido até agora. E, talvez, neste momento você perceba que, Bem ou mal, No Natal, o Amor está em toda parte! Mas, se ainda assim, você não quiser celebrar nesta data Não tem problema: Quero te convidar a viver com o Espírito do Natal Todos os teus dias! 
Augusto Branco

As verdadeiras necessidades

Nenhum conselho me parece mais útil para te dar do que este (e que nunca é demais repetir!): limita sempre tudo aos desejos naturais que tu podes satisfazer com pouca ou nenhuma despesa, evitando, contudo, confundir vícios com desejos.
Porventura te interessa saber em que tipo de mesa, em que baixela de prata te é servida a refeição, ou se os escravos te servem com bom ritmo e solicitude? A natureza só necessita de uma coisa: a comida.
A fome dispensa pretensões, apenas reclama ser saciada, sem cuidar grandemente com quê. O triste prazer da gula vive atormentado na ânsia de continuar com vontade de comer mesmo quando saciado, de buscar o modo como atulhar, e não apenas encher o estômago, de achar maneira de excitar a sede extinta logo à primeira golada! Tem, por isso toda a razão Horácio quando diz que a sede não se interessa pela espécie de copo ou pela elegância da mão que o serve. Se achas que têm para ti muita importância os cabelos encaracolados do escravo, ou a transparência do copo que te põe à frente, é porque não estás com sede. Entre outros benefícios que devemos à natureza conta-se este, e fundamental, de prover sem artifícios a quanto nos é indispensável.
Apenas no que é supérfluo nos podemos permitir a escolha, recusando isto ou aquilo como «pouco bonito», «pouco requintado» ou «desagradável à vista»!
A preocupação do criador do universo ao determinar as leis da nossa existência foi a nossa saúde, não os hábitos sofisticados; e enquanto o indispensável à saúde se encontra à nossa total disposição, os requintes do luxo só os podemos obter a troco de penas e angústias. Tiremos, portanto, partido deste inestimável benefício que devemos à natureza; pensemos que a nenhum outro título ela merece mais a nossa gratidão do que por nos facultar o uso sem repugnância de quanto podemos naturalmente desejar! Sêneca

14 de dez. de 2009

Confraternização de fim de ano

Patrícia Gomes - Diretora de Recursos Humanos COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS. Data: 01 de dezembro Assunto: Festa de Natal Tenho o prazer de informar que a festa de Natal da empresa será no dia 20 de dezembro, com início ao meio-dia, no salão de festas privativo da churrascaria Grill House.
O bar estará aberto com várias opções de bebidas. Teremos uma pequena banda tocando canções tradicionais de natal.
Sinta- se à vontade para se juntar ao grupo e cantar! A árvore de Natal terá suas luzes acesas às 13:00. A troca de presentes de amigo secreto pode ser feita a qualquer momento, entretanto, nenhum presente deverá exceder R$20,00, a fim de facilitar as escolhas e adequar os gastos a todos os bolsos. Boas festas para vocês e suas famílias, Patrícia Patrícia Gomes - Diretora de Recursos Humanos COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS. Data: 02 de dezembro Assunto: Festa de Natal De maneira alguma nosso memorando de 01 de dezembro pretendeu excluir nossos funcionários judeus! Reconhecemos que o Chanukah é um feriado importante e que costumam coincidir com o Natal, mas isso não aconteceu este ano. De qualquer forma, passaremos a chamá-la de 'Festa de Final de Ano'. A mesma política se aplica a todos os outros funcionários que não sejam cristãos e àqueles que ainda celebram o Dia da Reconciliação. Não haverá árvore de Natal. Nada de canções de Natal nem coral. Teremos outros tipos de música para seu entretenimento. Felizes agora? Boas festas para vocês e suas famílias, Patrícia
Patrícia Gomes - Diretora de Recursos Humanos COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS. Data: 03 de dezembro Assunto: Festa de Natal Com relação ao bilhete que recebi de um membro do Alcoólicos Anônimos solicitando uma mesa para pessoas que não bebem álcool... Você não assinou seu nome! Fico feliz em atender o pedido, mas se eu puser uma placa na mesa 'Exclusivo para AA', vocês não serão mais anônimos... Como faço então? Nenhuma troca de presentes será permitida, uma vez que os membros do sindicato acham que R$20,00 é muito dinheiro e os executivos acham que $20,00 é muito pouco para um presente. NENHUMA TROCA DE PRESENTES SERÁ PERMITIDA, certo? Patrícia
Patrícia Gomes - Diretora de Recursos Humanos COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS. Data: 07 de dezembro Assunto: Festa de Natal Eu não sabia que no dia 20 de dezembro começa o mês sagrado do Ramadan para os muçulmanos, que proíbe comer e beber durante as horas do dia. Talvez a Churrascaria Grill House possa segurar o serviço de bufê até o fim do dia - ou então, embalar tudo para que vocês levem para casa nas marmitas. O que vocês acham disso? Novidades: neste meio tempo, consegui que os membros do Vigilantes do Peso sentem o mais longe possível do bufê de sobremesas; as mulheres grávidas sentem-se o mais perto possível dos banheiros; teremos assentos mais altos para pessoas baixas e comida com baixa-caloria estará disponível para os que estão de dieta. Nós não podemos controlar a quantidade de sal utilizada na comida. Desta forma, sugerimos para estas pessoas com pressão alta provar o gosto primeiro. Haverá frutas frescas de sobremesa para os diabéticos. O restaurante não dispõe de sobremesas sem açúcar. Nossas profundas desculpas. Esqueci de alguma coisa? Patrícia
Patrícia Gomes - Diretora de Recursos Humanos COMUNICADO PARA TODOS FILHOS DA P..... QUE TRABALHAM NESTA EMPRESA. Data: 08 de dezembro Assunto: Festa de Natal DO C........
Vegetarianos! ?!?!??! Sim, vocês também tinham que dar sua opinião de m..... ou reclamar de alguma coisa!!! Nós manteremos o local da festa na Churrascaria Grill House; quem não gostar, foda-se! Então, como alternativa, seus p...., vocês podem sentar-se quietinhos na mesa mais distante possível da tal 'churrasqueira da morte' - como vocês se referiram de forma bastante depreciativa ao utensílio. E vocês terão também sua mesa de saladas de m....., incluindo tomates hidropônicos da casa do c....... & arrozinho grudento pra comer de pauzinho. Aqueles que, naturalmente, ainda não gostaram, podem enfiar tudo no ..... Ah, espero que vocês todos tenham uma bosta de festa de final de ano! E que dirijam muito, muito bêbados e morram todos, todinhos esturricados por aí. Escutaram? A Vaca, diretamente da p...........................
Dr. Vitor Pacheco - Diretor de Recursos Humanos INTERINO COMUNICADO PARA TODOS OS funcionários Data: 10 de dezembro Assunto: Patrícia Gomes e Festa de Final de Ano Tenho certeza que falo por todos desejando para a Patrícia um rápido restabelecimento para sua crise de stress. Por conta deste fato, a diretoria decidiu cancelar a Festa de Final de Ano e dar folga remunerada para todos na tarde do dia 23 de dezembro. Boas Festas, Victor

13 de dez. de 2009

Oração de quem descobre que está envelhecendo.


Ó Senhor, tu sabes melhor do que eu que estou envelhecendo a cada dia. 

Sendo assim, Senhor, livra-me da tolice de achar que devo dizer algo, em toda e qualquer ocasião.  
Livra-me, também, Senhor, deste desejo enorme que tenho de querer pôr em ordem a vida dos outros. 

Ensina-me a pensar nos outros e a ajudá-los, sem jamais me impor sobre eles, mesmo considerando com modéstia a sabedoria que acumulei e que penso ser uma lástima não passar adiante. 
 Tu sabes, Senhor, que desejo preservar alguns amigos e uma boa relação com os filhos, e que só se preserva os amigos e os filhos quando não há intromissão na vida deles. Livra-me, também, 

Senhor, da tolice de querer contar tudo com detalhes e minúcias e dá asas à minha imaginação para voar diretamente ao ponto que interessa. 

Não me permita falar mal de alguém. Ensina-me a fazer silêncio sobre minhas dores e doenças.. Elas estão aumentando e, com isso, a vontade de descrevê-las vai crescendo a cada ano que passa. Não ouso pedir o dom de ouvir com alegria a descrição das doenças alheias; seria pedir muito. 

Mas, ensina-me, Senhor, a suportar ouvi-las com paciência. 

 Ensina-me a maravilhosa sabedoria de saber que posso estar errada em algumas ocasiões.Já descobri que pessoas que acertam sempre são maçantes e desagradáveis. 

 Mas, sobretudo, Senhor, nesta prece de envelhecimento, peço: Mantenha-me o mais amável possível. Livrai-me de ser santo(a). 

É difícil conviver com santos ! Mas um(a) velho(a) rabugento(a), Senhor, é obra prima do diabo! 

Poupe-me, por misericórdia. 

E proteja-me contra os mal intencionados.... Assim seja!

Homens, Segundo Vinícius de Morais

Os Homens. Os homens bons, são feios. Os homens bonitos, não são bons. Os homens bonitos e bons, são gays. Os homens bonitos, bons e heterossexuais, estão casados. Os homens que não são bonitos, mas são bons, não têm dinheiro. Os homens que não são bonitos, mas que são bons e com dinheiro, pensam que só estamos atrás de seu dinheiro. Os homens bonitos, que não são bons e são heterossexuais, não acham que somos suficientemente bonitas. Os homens que nos acham bonitas, que são heterossexuais, bons e têm dinheiro, são covardes. Os homens que são bonitos, bons, têm dinheiro e graças a Deus são heterossexuais, são tímidos e Nunca dão o primeiro passo! Os homens que nunca dão o primeiro passo, automaticamente perdem o interesse em nós quando tomamos a iniciativa. Agora.... Quem nesse mundo enetende os homens? Moral da História: " Homens são como um bom vinho. Todos começam como uvas, e é dever da mulher pisoteá-los e mantê-los no escuro até que amadureçam e se tornem uma boa companhia pro jantar "
Enviado pela carinhosamente pela Dra. Helena, psicóloga clínica
Picture by Paul Gauguin

Esperança contra o câncer em óleos vegetais

Cientistas brasileiros confirmam eficácia da aplicação de um ácido graxo extraído de plantas na redução de tumores cerebrais em ratos. A descoberta pode originar um novo tratamento para esse tipo de câncer. Pode vir dos óleos vegetais um novo aliado no combate ao glioma, tumor do sistema nervoso central que afeta principalmente o cérebro. Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) confirmaram em testes com ratos a eficiência da aplicação de um ácido graxo extraído de plantas na redução desse tipo de câncer. O estudo pode dar origem no futuro a uma nova forma de combate à doença. O glioma não está entre os tipos mais comuns de câncer. Seu tratamento é difícil e atualmente inclui radioterapia e remoção cirúrgica do tumor. Os pesquisadores da USP testaram a eficácia do ácido gama linolênico (AGL), um ácido graxo essencial do tipo ômega-6 encontrado primariamente em óleos vegetais, contra o tipo de tumor cerebral mais comum e agressivo em humanos, o glioblastoma multiforme. O resultado foi animador: o tamanho dos tumores foi reduzido em 75% durante o tratamento. Segundo o especialista em biologia celular e tecidual Juliano Andreoli Miyake, um dos autores do estudo, as propriedades anticancerosas do ácido gama linolênico já eram conhecidas. O diferencial da pesquisa da equipe da USP foi a quantidade de AGL usada para tratar o tumor: foi instalada uma bomba na cabeça dos ratos que inseria em média 0,5 microlitro desse ácido graxo por hora. A duração total do tratamento foi de 14 dias. “Esse é um tempo bastante curto”, avalia Miyake em entrevista. “Há inclusive estudos em cultura com outros tipos de câncer nos quais se observa diferença na proliferação das células tumorais em apenas 24 horas”, acrescenta. “É difícil falar em cura, mas acho que o AGL se aproxima de um tratamento mais eficaz do que os existentes hoje em dia.” Para realizar os testes, foram cultivadas em laboratório células de glioblastoma multiforme com crescimento acelerado. Depois, elas foram injetadas nos ratos. Após um intervalo de duas semanas para que as células se multiplicassem nos animais, os pesquisadores iniciaram o tratamento com o AGL. Indução da morte celular Miyake explica que o tumor diminuiu porque o AGL induz a morte celular. Além disso, houve redução de 44% na angiogênese, ou seja, na criação de vasos sanguíneos, que está diretamente relacionada ao crescimento acelerado do tumor. O AGL também reduziu as proteínas associadas à proliferação das células do glioma, como a ERK1 e a ERK2. Por outro lado, a quantidade de P53, uma espécie de supressor tumoral, foi aumentada. “O AGL diminuiu ainda a atividade da enzima MMP2, que é muito importante porque abre espaço para a migração das células cancerosas e para a formação de novos capilares sanguíneos”, conta Miyake. A bioquímica Alison Colquhoun, outra autora do estudo, acredita que o ácido gama linolênico também pode mostrar eficácia contra outros tipos de câncer. “Já existe literatura científica que indica o potencial do uso do AGL em tumores localizados em outros lugares do corpo”, adianta. Segundo Miyake, ainda não há previsão de quando serão iniciados testes com humanos para o tratamento de tumores cerebrais com AGL. Ele conta que esse ácido graxo tem um efeito colateral sobre a quantidade de lipídios que favorecem um processo de inflamação no cérebro. “Pesquisas indicam que o ácido gama linolênico modula a resposta inflamatória e pode aumentar ou diminuir a concentração dos lipídios envolvidos no processo inflamatório”, esclarece. Por isso, os esforços da equipe estão concentrados agora em estudar substâncias com potencial anti-inflamatório, como as prostaglandinas. Quanto às possíveis diferenças entre a reação do organismo de ratos e de humanos a esse ácido graxo, Colquhoun esclarece: “É impossível falar agora. Há alguns estudos iniciais com humanos em que certos tumores reagiram bem, mas é preciso muita pesquisa clínica antes de se chegar a qualquer conclusão.” Raquel Oliveira

12 de dez. de 2009

Papagaio indiscreto

Uma senhora está farta de ficar sozinha a maioria do tempo e, procurando por companhia, resolve comprar um papagaio. Então ela entra em uma loja e pergunta o preço do animal, quando o dono da loja diz: - Olha, eu tenho esse papagaio aqui e lhe vendo por 20 reais! Ela fica feliz com o preço e resolve levar o bichinho, mas o dono da loja a adverte:
- Esse papagaio pertencia a um prostíbulo, antes de eu comprá-lo. Portanto, ele fala algumas grosserias de vez em quando, mas é muito esperto. Como a senhora estava muito determinada a comprar o papagaio, leva o bicho e o coloca em uma gaiola logo na entrada de sua casa. O bicho olha em volta, em seguida, olha para a senhora e diz: - Nova casa. Nova cafetina. A mulher fica um pouco espantada mas depois acha engraçado. As filhas da senhora chegam da escola e o papagaio diz: - Nova Casa. Nova Cafetina. Novas Putas. As meninas ficam espantadas, mas a mãe explica o caso e elas também acham engraçado. Então o marido chega em casa à noite e o papagaio olha para ele e diz: - Nova Casa. Nova Cafetina. Novas Putas. Oi, João, mudou de puteiro

Pulseirinhas

Feitas de plástico colorido, elas deram origem a uma brincadeira que leva as crianças a falar de sexo – para angústia de pais e professores Era para ser só uma brincadeira de criança – usar, trocar e emprestar as pulseirinhas de plástico coloridas exibidas aos montes nos pulsos de meninos e meninas. Mas a pulseiramania virou polêmica e foi proibida em algumas escolas da Inglaterra e dos Estados Unidos depois que se criou, a partir delas, uma espécie de jogo com conotação sexual. Chamado snap game (algo como jogo de arrancar, em português), ele consistiria no seguinte: o garoto que conseguisse arrebentar a pulseira de uma menina teria direito a uma versão apimentada do velho "beijo, abraço ou aperto de mão", de acordo com a cor do acessório. As ações iriam de um simples abraço (a pulseirinha amarela) ao sexo propriamente dito (a de cor preta) – daí por que elas passaram a ser conhecidas nesses países como sex bracelets, ou pulseiras do sexo. A proibição teria sido motivada pelos relatos de crianças a pais e professores sobre o real significado de cada uma das cores dos braceletes. Num diálogo publicado no jornal britânico The Times, uma garota de 9 anos explica à professora como funciona a brincadeira: "Se um garoto arrebentar a pulseira azul, você deve fazer sexo oral nele". Não há nenhuma evidência de que as crianças e os pré-adolescentes estivessem chegando às últimas consequências do jogo. Aliás, essa possibilidade é praticamente descartada pelos especialistas. O certo é apenas isto: as pulseiras levaram a garotada a falar sobre sexo. E pais e professores não se sentem preparados a tratar desse assunto com crianças tão novas – na sua maioria, entre 8 e 11 anos. A decisão das escolas americanas e inglesas de proibir o uso das pulseiras não põe fim à discussão. "Tirar a polêmica do radar das escolas não resolve o problema e instiga ainda mais a curiosidade das crianças", diz a psicóloga Ceres Alves de Araújo. Ao se tornar clandestina, a brincadeira da pulseira fica ainda mais interessante. As pulseirinhas de plástico, que já foram moda na década de 80 nos pulsos de Madonna, voltaram à cena neste ano inicialmente entre estudantes americanos e europeus. Aqui, elas se tornaram populares a partir da metade do ano e podem ser encontradas aos milhares em bancas de jornal e barracas de camelô a preços irrisórios. O pacote com doze pulseiras custa 1 real – elas não poderiam vir de outro lugar senão da China. Até recentemente, as pulseirinhas serviam exclusivamente para ser trocadas como figurinhas ou para pular corda (as meninas fazem uma longa corrente da junção de várias pulseiras). "Lá na escola ninguém tenta arrebentar a pulseira de ninguém", diz Antonio Carlos Fiorezzi, de 11 anos. No último mês, no entanto, as notícias sobre o snap game começaram a circular no país. Bem informadas, as crianças, se não pesquisaram na internet, souberam por outros coleguinhas o significado malicioso das cores das pulseiras. E aconteceu, aqui, exatamente o que aconteceu na Inglaterra e nos Estados Unidos: as pulseirinhas ganharam conotação sexual e passou-se a falar sobre sexo por causa delas. No Colégio Marista Arquidiocesano, em São Paulo, o assunto foi levantado pelos próprios alunos. Partiu deles a iniciativa de procurar a diretoria para saber se estavam autorizados a continuar usando os acessórios. Em vez de proibir, o colégio optou pelo diálogo. Enviou um e-mail aos pais com informações veiculadas sobre as pulseiras coloridas para estimular as conversas dentro de casa. O assunto também foi levado às salas de aula. "A proibição das pulseiras não faz sentido. O diálogo é o primeiro passo para evitar que a informação chegue distorcida a essas crianças", explica Chico Sedrez, diretor educacional do colégio. "Quanto mais bem informadas, menos vulneráveis elas ficam." Ainda que os pais não se sintam à vontade para falar sobre sexo com os filhos pequenos, é importante que o façam sempre que partir deles a conversa. Este é o mundo em que vivemos: as crianças são expostas cada vez mais cedo a temas ligados a sexo e passam a levar precocemente esse assunto para dentro de casa. Segundo os psicólogos, crianças de 8 a 11 anos não têm maturidade nem interesses sexuais. Nesse caso, as respostas devem ser proporcionais à curiosidade delas. Já na questão específica das pulseirinhas, a recomendação é outra: os pais devem se adiantar à dúvida dos filhos e alertar sobre a existência de um jogo diferente com as pulseiras. Não é preciso entrar em detalhes íntimos se não forem mencionados, evidentemente. Mas saber o que acontece é importante para que a criança possa se proteger de uma eventual participação no jogo. "Para puxar o assunto, basta dizer que soube de uma brincadeira com a pulseira envolvendo beijo e abraço, por exemplo", ensina Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan e educadora sexual do Colégio Bandeirantes, em São Paulo. Ninguém sabe exatamente onde surgiu o tal jogo do snap. É bem provável que tenha sido criação de meninos e meninas adolescentes, no auge de sua sexualidade. Criar códigos para expressar desejos é uma forma de estabelecer um mundo com regras próprias, que escapam à autoridade dos pais. "As pulseiras são símbolos efêmeros, mas que dizem muito sobre a atual geração", diz a psiquiatra Carmita Abdo. "Ela busca atender de imediato aos seus desejos, de forma direta, sem rodeios." Exceto por constituírem outro fator de exposição precoce dos pequenos ao sexo, as pulseirinhas coloridas tendem a ser mais um modismo sem grandes consequências, como tantos outros. Foi assim com os tamagotchis, criaturinhas virtuais que, surgidas nos anos 90, faziam as vezes de bicho de estimação: nasciam, cresciam e, na falta de amor e carinho, ficavam doentes e morriam. De cara eles foram reprovados: na época, o robozinho foi responsabilizado pelo aumento do número de casos de depressão infantil e pela diminuição do rendimento escolar dos pequenos. Do jeito que veio, ele se foi – e nada mudou na história das brincadeiras. Daniela Macedo

10 de dez. de 2009

Policial Militar bahiano

Aprenda a dar presentes


Três filhos saíram de casa, conseguiram bons empregos e prosperaram. 


Anos depois, eles se encontraram e estavam discutindo sobre os presentes que eles conseguiram comprar para a mãe, que já era bem idosa. 


O primeiro disse: - "Eu consegui comprar uma casa enorme para nossa mãe...". 


O segundo disse: - "Eu mandei para ela uma Mercedes zerinho com motorista.". 


O terceiro sorriu e disse: - "Certamente meu presente foi melhor. Vocês sabem como a mamãe gosta da Bíblia, mas ela está praticamente cega e não consegue mais ler. Então mandei pra ela um papagaio marrom raro que consegue recitar a Bíblia todinha. 


Foram 12 anos de treinamento num mosteiro, por 20 monges diferentes. Eu tive de doar US$ 100, 000.00 para o mosteiro,mas valeu a pena. Nossa mãe precisa apenas dizer o capítulo e versículo que o papagaio recita sem um único erro". 


Tempos depois, os filhos receberam da mãe uma carta de agradecimento pelos presentes: 


Primeiro: "Milton, a casa que você comprou é muito grande. Eu moro apenas em um quarto, mas tenho de limpar a casa todinha...". 


Segundo: "Maycon, eu estou muito velha pra sair de casa e viajar. Eu fico em casa o tempo todo e nunca uso o Mercedes que você me deu. E o motorista também é muito mal educado...". 


Terceiro: "Querido Marvin, você foi o único filho que teve bom senso pra saber que o que a sua mãe realmente gosta é de coisas simples. 


Aquele franguinho estava delicioso, muito obrigada."

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